



A ltima Chance

Marcelo Cezar



Sinopse:

O romance A ltima chance, escrito por Marcelo Cezar e ditado
pelo esprito Marco Aurlio, traz uma emocionante histria que tem
como cenrio as transformaes comportamentais provocadas pela
ameaa da AIDS, no Brasil, a partir da dcada de 1980. Longe de
ser um drama que trata da doena como uma fatalidade, a leveza
da narrativa de Marcelo Cezar, o autor de best-sellers como Para
sempre comigo, O preo da paz e S Deus sabe, prope a quebra
dos tabus e dos preconceitos que envolvem os portadores do vrus
HIV.
H uma luta secular entre a natureza humana e as suas mrbidas
fantasias de perfeio. Quem de ns no se sente um peixe fora da
gua ou um estranho no ninho? A viso ideolgica do homem e a
sua natureza degladeiam-se incessantemente criando toda sorte

de

torturas

e

crimes;

preconceitos

geram

discriminao,

perfeccionismo,

complexos

de

inferioridade,

a

suposta

superioridade normal massacrando os considerados diferentes.
A injustia e a violncia encontram seus argumentos nas teorias e
ideologias construdas por mentes corrompidas pela iluso
sacrificando a natureza que no se cansa de rebelar em dolorosas
doenas.
Enquanto isso tentamos sobreviver com os recursos de nossa f
apreciando o drama humano que sempre acaba por nos trazer de

volta

para

a

realidade

de

nossa

natureza

eterna.

Esta histria nos fala da saga de homossexuais em busca de sua
identidade perdida.
Ou lutamos do lado de nossa verdade interior e natural ou
pereceremos ajoelhados diante da escravido que a ignorncia das

convenes

sociais

nos

tenta

impor.

Cada um deve entender que lutar por si  sentir que cada chance
pode ser A ltima chance.
Luiz Gasparetto




"O sangue que corre em minhas veias  rico, saudvel e cheio de
alegria. Assim como o sangue que corre em segurana em minhas

veias,

eu

tambm

caminho

em

segurana

pela

vida".

Louise L. Hay

Uma palavrinha...

Ou, como diria meu amigo espiritual Calunga, um dedinho de
prosa. Coisa rpida. Somente uma pequena introduo desta
histria que chega em suas mos.
Todos os meus romances so inspirados pelo meu querido amigo
espiritual Marco Aurlio. Para quem j freqentou uma Casa
Esprita ou teve algum contato com o espiritismo e afins, no fica
difcil entender o processo da psicografia. Por outro lado, inmeros
leitores, oriundos de outras correntes que professam a f,
perguntam-me como se forma esse processo mgico de troca de
informaes entre este nosso mundo e o famoso mundo do Alm.
Desde garoto pratico a psicografia. No fim da adolescncia, o
processo no era mais inconsciente, visto que os espritos
desejavam que eu tambm progredisse intelectualmente e
conduzisse o meu esprito para o caminho da lucidez e inteligncia.
Eu sempre escrevi historinhas. Minhas redaes eram elogiadas no
colgio e, na adolescncia, eu escrevia contos de mistrio,
influenciado por Agatha Christie, uma de minhas escritoras
prediletas. Se eu tinha certo dom, facilidade de escrever, por que
iria receber histrias do outro mundo de maneira inconsciente? De
que adiantava eu receber o livro pronto, sem ao menos participar
de sua elaborao? Durante uma das sesses medinicas no
Centro em que estudava e trabalhava para melhorar os potenciais
do meu esprito, tive uma grata conversa com o Calunga.
Foi nessa conversa que esse esprito amigo, de maneira clara,
profunda, porm no menos engraada, explicou-me melhor os
processos da psicografia e que os espritos tambm desejavam
que eu pesquisasse sobre os temas tratados, que, segundo ele,
no seriam nada convencionais.
Assim comecei meu primeiro romance, alguns anos atrs. Marco
Aurlio vinha, ditava algumas palavras, depois me dava uma idia
do prximo captulo. Em seguida, em seguida, mostrava-me



imagens da histria e sugeria temas de pesquisa. Curioso desde
sempre, eu me debruava em livros, revistas  e atualmente na
internet  para aprimorar nossas histrias e esclarecer melhor
nossos leitores.
Dentre os muitos livros que desenvolvi em parceria com Marco
Aurlio, este em particular foi-me difcil de escrever. Motivo? Bom,
na dcada de 1980 o mundo entrou em verdadeiro pnico e nunca
mais seria o mesmo. A AIDS era doena desconhecida, causada
por um vrus tambm desconhecido. Jovens homossexuais ao
redor do mundo padeciam da doena. Algum tempo depois,
heterossexuais comearam tambm a morrer do mesmo mal. A
AIDS deixava de se tornar o cncer gay e no tinha preconceito em
relao  cor, raa, classe social ou orientao sexual. Tornou-se
uma doena que atormentou a todos. As lembranas voltaram
vivas em minha mente, porquanto a minha gerao pegou a AIDS
de frente, e muitos foram os amigos queridos e conhecidos que
morreram na carona da doena.
Foi s mais no finzinho daquela dcada que se fabricou a primeira
droga para tentar controlar a doena que matava de imediato ou
condenava o portador do vrus  morte certa. O remdio combatia
o vrus; em contrapartida, os efeitos colaterais da medicao eram
terrveis. Muitos preferiram deixar-se morrer a tomar o remdio.
Durante os relatos de Marco Aurlio, no pude deixar de me
emocionar e lembrar-se de pessoas muito queridas que no mais
se encontram neste mundo, vitimadas pela AIDS. Vtimas? Bom,
creio que essas pessoas no pegaram a doena ao acaso e os
amigos espirituais do sua viso "espiritual" da doena, visto que
hoje, quase trinta anos depois, todos sabem o que  HIV, o que 
AIDS e como se pega o vrus.
Este livro  um romance que trata de AIDS e homossexualidade,
de preconceito e homofobia, fala de dor, rejeio e sofrimento.
Entretanto, trata, acima de tudo, de respeito a todos os seres deste
nosso mundo, independentemente de sua orientao sexual. E de
amor, pois o amor  capaz de verdadeiros milagres, inclusive cura
fsica e, em ltimo caso, cura do esprito. Afinal de contas, o amor
cura todas as feridas. O amor est acima de tudo.
No se trata, de forma alguma, de um livro baixo-astral, recheado
de dor e sofrimento. Muito pelo contrrio. Trata de superao de



desafios, de encarar a doena como um alerta da vida, mostrando
o quo afastado estamos de nossa alma, de nossa essncia divina.
A AIDS no  uma punio divina, tampouco uma maneira de
pagar por graves erros cometidos em encarnaes passadas.
Vivemos outros tempos e os conceitos morais devem ser revistos,
principalmente aqueles ligados  sexualidade humana. Vivemos
sculos e sculos deturpando e reprimindo o sexo e suas vrias
formas. Quanto se matou por causa do sexo? Quantos morreram
por causa do sexo? Quantas atrocidades foram cometidas por
conta do sexo?
Atualmente, sabemos que ao longo de centenas de anos o sexo
nada mais foi que uma poderosa ferramenta poltica e econmica.
Uma filha virgem garantia um casamento vantajoso. Por outro lado,
um filho homossexual era motivo de vergonha, pois, alm de ser
considerado um pervertido aos olhos de Deus, no procriaria e no
deixaria herdeiros. De uns tempos para c temos olhado o sexo
como algo belo e prazeroso, em vez de sujo e pecaminoso.
Mesmo vivendo num mundo cujo avano tecnolgico nos permite a
comunicao em tempo real com qualquer pessoa, em qualquer
parte do globo, alm do acesso a todo e qualquer tipo de
informaes que a internet nos proporciona, muitos de ns ainda
acreditamos que um homem velho e barbudo, sentado numa
grande nuvem, esteja vigiando e controlando o uso de nossas
genitlias!
Ainda muito jovem, viajei aos Estados Unidos com Luiz Gasparetto,
porquanto ele iria ministrar palestras em algumas cidades

americanas

e

tambm

apresentar

suas

famosas

pinturas

medinicas. Foi na Califrnia, no bero da nova Era que tive rpido
contato com Louise L. Hay, para mim, a maior orientadora espiritual
de todos os tempos. Participei de alguns seminrios e palestras e
me encantei. Gasparetto j havia me falado dela, pois estava
fascinado com um livrinho de Louise, lanado alguns anos antes,
que tratava das causas mentais das doenas fsicas e mostrava
uma maneira metafsica de super-las. Tratava-se de Cure seu
corpo, conhecido pelos leitores americanos como The little blue
book (O livrinho azul).
As idias espiritualistas de Gasparetto somadas s idias
metafsicas de Louise Hay descortinaram-me um novo universo.
Empolgado com a "descoberta" de que as doenas so frutos de



nossos pensamentos inadequados, Gasparetto voltou de viagem e
foi o primeiro a traduzir e publicar o livro no Brasil. Sucesso
absoluto.
Atualmente, Louise L. Hay  conhecida em todo o mundo e a
maioria de seus livros foi traduzida para o portugus. Em qualquer
livraria do pas encontramos com facilidade Voc pode curar sua
vida, A vida em perigo ou Cure seu corpo A-Z, atualmente
publicados pela editora Best Seller, que por sua vez detm outros
ttulos da escritora no nosso pas.
Os progressos da medicina em relao  AIDS foram enormes nos
ltimos anos. O paciente soropositivo, nos dias atuais, leva uma
vida normal. Mas, por que razo, quem se infectou h mais de vinte
anos est vivo e bem de sade? Por que alguns pacientes no
precisam de medicamentos? Por que outros no respondem ao
tratamento do coquetel e outros sofrem com terrveis efeitos
colaterais? Por que no incio da doena a esmagadora maioria de
infectados era composta por indivduos do sexo masculino e hoje a
proporo entre homens e mulheres infectados  de um para um?
Por que bebs nascem com o vrus HIV? E os que se infectaram
por transfuso de sangue? So muitas as perguntas e bem poucas
as respostas satisfatrias.
Por mais que a medicina continue lutando pela cura da AIDS, creio
que o ser humano seja capaz de se curar, porquanto padres
mentais inadequados acerca de ns mesmos criam as doenas.
Aprendi isso com Louise L. Hay; seus livros, amplamente aceitos e
respeitados, mostram-nos uma nova forma de encarar toda e
qualquer doena que se instale em nosso corpo.
A vida no pune ningum. O fato  que quanto mais afastados
estivermos de nossa verdade interior, quanto menos nos
aceitarmos como somos mais vulnerveis e mais desprotegidos
estaremos pela natureza.
Escolhemos esse tema delicado e ainda muito controverso para
mostrar a voc uma nova maneira de encarar determinadas peas
que a vida nos prega. Baseada em fatos reais,  uma histria

emocionante,

tocante,

alto-astral,

cujos

personagens

so

apaixonantes. E, mesmo que nunca tenha lido um livro meu,
prometo que vai deparar com uma leitura leve e agradvel.
Outro ponto a ser esclarecido: este romance aborda o mundo gay
desde meados da dcada de 1970 at os dias de hoje. O mentor



espiritual decidiu pela utilizao das palavras gay e soropositivo,
independentemente da poca abordada.
O termo gay s tomou fora e entrou de vez no nosso vocabulrio
em fins dos anos 80, pois at aquela poca, homossexual era
pejorativamente tratado por pederasta, sodomita e outros nomes
vulgares; e, do mesmo modo, soropositivo passou a designar
pessoa infectada pelo vrus HIV e, contudo, ainda no desenvolveu
a doena. Quando a epidemia surgiu, os infectados eram
conhecidos como aidticos. No usamos a palavra aidtica pela
dose de preconceito e discriminao contida na nomenclatura,
colocando o indivduo  margem da sociedade. No livro ela

aparece



poucas

vezes



na

boca

de

personagens

preconceituosos. Utilizamos doente de AIDS ou portador de AIDS
ou mesmo pessoa vivendo com AIDS/HIV.
Aproveito estas linhas para manifestar a minha gratido aos
amigos espirituais que muito me ajudaram para a realizao deste
belo trabalho. Alm dos espritos queridos, recebi preciosos
ensinamentos aqui neste nosso mundo. Por essa razo, alm de
agradecer a Luiz Gasparetto e Louise L. Hay pelos brilhantes
ensinamentos de vida, no poderia deixar de agradecer, em

especial,

ao

Dr.

Jos

Valdez

Ramalho

Madruga,

mdico

infectologista do Centro de Referncia e Treinamento (CRT)
DST/AIDS da Secretaria de Estado da Sade do Estado de So
Paulo, que muito me ajudou a entender todo o universo da AIDS.
Foram muitas s vezes em que ele deixou seus afazeres  que
no so poucos para sanar muitas de minhas dvidas.
Acima de tudo, em especial, este livro  dedicado a voc, que se
infectou ou convive com um portador do vrus HIV, e a voc que
perdeu um ente querido em conseqncia da AIDS.
Porque, de uma maneira ou de outra, a vida impe desafios a
todos ns, sem exceo.

Com carinho

Marcelo Cezar


A ltima Chance



Naquela cinzenta tarde de julho, o vento soprava gelado, resultado
de uma massa de ar frio que tinha invadido a cidade dias antes. As
pessoas, mesmo bem agasalhadas, vestindo pesados casacos,
cachecis, luvas e protetores para as orelhas, sentiam-se
incomodadas.
Alguns tentavam defender-se do inimigo invisvel cobrindo o rosto;
outros preferiam entrar num bar, numa padaria, num local fechado
e esperar a ventania diminuir para seguirem adiante.
Srgio estava completamente alheio a tudo, inclusive ao frio. Seus
pensamentos estavam to distantes, to embaraados, to
dspares, que ele mal sentia o vento frio e gelado tocar-lhe a face.
Ele havia esperado e era chegada  hora de saber. Chegou a crer
que sufocaria de ansiedade at o dia do resultado; por essa razo,
procurou, naqueles dias, manter a cabea distante. Aproveitou as
frias escolares de julho  ele era professor  e resolveu passar
alguns dias no Rio de Janeiro, porquanto a clnica lhe informara
que o resultado do exame no sairia em menos de dez dias.
Na cidade maravilhosa, ele contava com Cludio, cuja amizade
crescera e se solidificara havia alguns anos.
Eles eram amigos de longa data. Srgio vira em Cludio o irmo
que nunca teve. Era o nico que o compreendia. Cludio tinha se
mudado para o Rio alguns anos atrs e fizera novas e valiosas
amizades. Dentre os novos amigos, tinha carinho especial e
admirao por um deles, em particular. Seu nome era Romero
A amizade de ambos se solidificara ao longo do tempo,
principalmente na poca em que Romero fora injustamente
acusado e preso, digamos, por um crime que jamais cometera.
Dissipada a nuvem negra que pairava sobre a vida de Romero, ele
e seu companheiro Mozart pretendiam concretizar o sonho de
viverem juntos. Viajariam para a ustria.
Srgio teve forte curiosidade em conhecer Romero, porm ficaria
para outra oportunidade. Ele no achou de bom tom acompanhar
Cludio at o aeroporto para se despedir do casal. Sentiu-se
deslocado.
 Sabe que esses ltimos tempos no tm sido fceis para mim.
Eu no tenho estrutura emocional para acompanh-lo  disse
enquanto uma lgrima escorria no canto de seu olho.
 Compreendo.



 Depois que voc voltar do aeroporto vamos jantar. Ligue para o
apartamento antes de sair do estacionamento e nos encontramos
na entrada daquele restaurante em Botafogo  declarou ao amigo
Cludio.
Enquanto se banhava, Srgio lembrou-se das inmeras vezes em
que Cludio ligara para falar de quanto admirava pessoas fortes e
iluminadas como Romero e Mozart. De quanto transformara muitas
de suas crenas e atitudes e hoje se sentia um homem melhor,
mais lcido e totalmente desprovido de preconceitos. E, acima de

tudo,

de

quanto

aprendera

a

aceitar-se

e

amar-se

incondicionalmente.
Quando Srgio reclamava que a vida era uma droga, que nada
dava certo, Cludio lhe contava sobre determinadas passagens da
vida de Romero. s vezes ele achava aquilo meio fantasioso. Afinal
de contas, sua vida tambm nunca tinha sido um mar de rosas e
ele sentia dificuldade em superar as adversidades.
Cludio chegou ao restaurante e estava feliz. Falou da despedida
dos amigos, do clima harmonioso entre os parentes e amigos. Ele
sabia que Srgio tinha passado por fortes emoes e queria distrair
o amigo.
 Romero comeu o po que o diabo amassou. Voc no passou
nem um dcimo de sofrimento do que esse moo passou. No cr
que esteja se sentindo muito vtima do mundo?  indagou Cludio,
diante das lamrias do amigo.
Ao que Srgio respondeu:
 Ser homossexual no  tarefa fcil.
 Mas tambm no  difcil, tampouco impossvel. A bem da
verdade, nem se trata de tarefa fcil ou difcil, mas de aceitao
pura e simples de uma realidade.
 Realidade, sei...
 Negar a realidade e atirar-se no mar da iluso no vai mudar o
que somos nesta vida: homossexuais.
 Pelo menos na iluso eu me protejo dos olhos acusadores do
mundo.
 Tudo  uma questo de como enxergamos a situao. Veja
Romero, por exemplo, teve uma vida de co e, mesmo assim,
passou por cima de todas as adversidades. Est feliz e vai viver
com o amor de sua vida. Final feliz.
 Ns, veados, no temos direito a um final feliz.



 Viu como voc se autodeprecia?
At mesmo depois de lhe contar a saga do meu amigo, de
conversar anos a fio, tentando fazer voc entender que
homossexualidade no tem nada a ver com bandidagem ou
marginalidade, que  apenas uma caracterstica, uma tendncia do
ser humano, perfeitamente natural, que nada afeta nosso carter e
nada nos diminuem como seres humanos, voc ainda insiste em se
colocar para baixo?
Srgio no respondeu. Nem saberia o que responder. Sempre
vivera um grande conflito em relao  sua homossexualidade.
Tambm no estava com vontade de tocar mais no assunto.
Cludio iria tentar convenc-lo, pela ensima vez, sobre o lado
positivo de ser gay, como se ele prprio acreditasse que existisse
algum. Convivera com Vicente e sabia que todos os gays estavam
condenados. Ainda mais agora, que ele suspeitava de algo grave
que o afligia.
Srgio procurou disfarar e no demonstrar ao amigo o incmodo
que atingia seu peito. Havia aparecido aquela manchinha
avermelhada no pescoo, mas bem que podia ser uma espinha.
Ele s tinha suposies, no tinha nada de concreto e dessa forma
no queria preocupar Cludio com hipteses infundadas. Num
momento oportuno abriria seu corao a Cludio e lhe contaria o
que o incomodava.
Foi depois desse jantar gostoso, regado a boa conversa, que
Srgio voltou a pensar no seu exame e no que queria de sua vida,
dali por diante. As conversas com Cludio sempre o deixavam mais
otimista em relao  vida, mesmo que por pouco tempo.
 Mesmo com dificuldade de me aceitar como sou, gostaria de ter
paz no corao e ser feliz ao lado de algum. Viver uma histria de
amor como desses amigos do Cludio. Meus relacionamentos
nunca foram l grande coisa e esse ltimo com Vicente foi mais um
tormento que um namoro...
Srgio estancou os pensamentos. Havia ido ao Rio para esquecer
o seu conturbado relacionamento com Vicente.
Os dias seguintes no Rio foram bem prazerosos e, Srgio, na
companhia de Cludio, pde rever e visitar lugares que adorava, e,
evidentemente, tomar seu cafezinho na tradicional Confeitaria
Colombo, na Rua Gonalves Dias, ritual esse que ele cumpria toda
vez que passava pelo centro da cidade.



Cludio percebeu que algo no ia bem, que Srgio estava
impaciente com alguma coisa, entretanto, preferiu aguardar que ele
manifestasse seu incmodo. Eles se conheciam h tantos anos e
Cludio tinha certeza de que, se Srgio precisasse de ajuda, no
hesitaria em procur-lo.
 Estou pronto para qualquer resultado  disse para si tentando
convencer-se de que era forte enquanto sorria para a imagem do
Cristo Redentor.
De volta  capital paulista, Srgio repetiu a mesma frase ao entrar
no prdio do laboratrio, no muito longe de sua casa.
Ele entrou no prdio e uma simptica recepcionista o atendeu.
 Em que posso servi-lo?
 Vim pegar o resultado de meu exame.
A recepcionista esboou sorriso agradvel e baixou os olhos para
uma prancheta  sua frente.
 Seu documento de identidade, por favor.
Srgio sacou a carteira do bolso do casaco. Abriu-a de maneira
brusca e todo seu contedo esparramou-se pelo cho.
 Desculpe-me  tornou ele.  Estou nervoso.
A recepcionista meneou a cabea para cima e para baixo e nada
disse.
Ele recolheu os documentos e os colocou na carteira. Pegou a
identidade e a entregou  mocinha. Ela conferiu o documento e em
seguida lhe entregou um carto.
 O senhor pode se dirigir at o fim do corredor. Dobre a esquerda
e entregue esse carto a uma das atendentes. Logo em seguida
receber o envelope com o resultado. Ah, dependendo do
resultado, o senhor poder ser chamado para conversar com um
de nossos mdicos.
 Obrigado.
Srgio percebeu uma gota de suor escorrer-lhe pela testa, mas se
manteve firme. Afastou-se e caminhou em direo ao corredor.
Suas pernas falsearam por instantes. Ele respirou fundo, soltou o
ar e assegurou para si:
 Tudo est bem.  s o resultado de um exame, oras. Enchendo-
se de coragem, ele dobrou o corredor e entregou o carto a outra
recepcionista, que de simptica no tinha nada. Ela estava sentada
com as pernas cruzadas, lixando suas compridas unhas vermelhas
e nem se deu ao trabalho de levantar a cabea. Em vez de uma



palavra, ela bufou, como se Srgio estivesse atrapalhando o
polimento de suas unhas. De m vontade, pegou o carto, talvez
como sempre fazia durante o dia todo, por anos at, e virou-se de
costas para ele. Ela passou a vasculhar um monte de envelopes
numa grande caixa de madeira e de l tirou um envelopinho
branco. Voltou para o balco e o entregou a Srgio.
 Humpf!  ela resmungou qualquer coisa que Srgio nem fez
questo de entender.  Tem uma marca no envelope. Precisa
aguardar e passar com o Dr. Solano.
 Ele vai demorar?
Ela no respondeu. Sentou-se na cadeira e continuou a lixar as
unhas. Srgio tremeu um pouco. Nesse instante sua cabea
parecia estar oca. Ele no pensava em nada, nenhum pensamento
de conforto, tampouco de tristeza. Era como se estivesse num
vcuo, numa dimenso paralela. Pegou o envelope branco,
lacrado, e viu uma marca no canto superior.
 No vou passar com mdico algum. Dane-se!  disse para si.
Em seguida, dobrou o corredor.
A atendente nada simptica fez ar de mofa.
 Ele vai ter de voltar.
Srgio estugou o passo e logo ganhou a rua. O vento frio ainda
aoitava os pedestres. Ele mal se importou. Sentindo a boca seca,
parou num bar e pediu uma garrafinha de gua. Sorveu o lquido
com vontade e tremenda rapidez. Depois, pagou a conta e saiu.
Algumas quadras adiante, ele parou em uma linda pracinha,
rodeada de algumas rvores, poucas flores  por conta do frio 
e dois bancos de cimento. Sentou-se num deles. Mal se importou
com o gelado do banco.
 Preciso saber o resultado. No agento mais tamanha
expectativa.
Srgio disse isso e comeou a abrir o envelope. Ele suspeitava
que, talvez, pudesse estar infectado pelo vrus HIV, aquele vrus
danado que enfraquece o sistema imunolgico e abre caminho
para a pessoa dar de cara com um punhado de doenas.
Aquela mancha vermelha no pescoo era indcio claro de que se
tratava de algo preocupante. E a conflituosa histria afetiva que
vivera at pouco tempo apontava para o resultado positivo em seu
exame de sangue. Alm do quadro desolador, o clima de tenso
causado pela doena, naqueles anos, era o pior possvel. Os



pacientes lotavam os hospitais e muitos nem eram atendidos,
morrendo nos corredores. Eram centenas de mortes, todos os dias.
No havia tratamento adequado para combater o vrus. A cura ou
sua possibilidade eram coisas impossveis, algo surreal. Naqueles
terrveis anos 80, qualquer pessoa infectada com o vrus da AIDS
tinha uma nica certeza: a morte cruel e dolorosa.
Srgio abriu o envelope, respirou fundo mais uma vez. Seus olhos
foram diretos para o fim da pgina. Ele leu.
Reagente.
O teste anti-HIV dera positivo. Ele fora infectado pelo vrus da
morte.
Srgio apertou os olhos com fora, leu de novo, acreditando que,
talvez num passe de mgica, ele tivesse lido errado.
Reagente.
Ele fechou os olhos e moveu a cabea para os lados; tentou, mas
no conteve o pranto. Num gesto desesperado, levou as mos ao
rosto e chorou, chorou como havia muito tempo no chorava. As
lgrimas quentes inundavam suas faces e, entre soluos, ele pde
balbuciar uma nica pergunta, que parecia corroer-lhe a alma:
 Por que eu, meu Deus? Por qu?

Alguns Anos Antes
Captulo 1

Naquele distante julho, anos antes de Srgio descobrir ser
soropositivo, o inverno no se mostrava to rigoroso. Os dias
gelados eram intercalados com dias de calor, conhecidos como
veranicos, o que amenizava os efeitos da massa de ar frio que
vinha do Sul.
As pessoas no estavam interessadas nas oscilaes de
temperatura. Estavam animadas com as noites danantes,
embaladas por msicas alegres e que convidavam todos a correr
at uma discoteca, influncia causada pelo filme Os embalos de
sbado  noite, estrelado pelo ator John Travolta. Em qualquer
lugar do mundo, as pessoas faziam para assistir ao filme e, em
qualquer parte do globo, naquele ano, o programa noturno tornara-
se um s: danar numa discoteca, imitando os passos que o ator
fazia no filme, fosse em Tquio, Nova York, Paris, Rio, Salvador ou
So Paulo.



As discotecas cresciam num ritmo alucinante em todo o pas e a
nova novela das oito, Dancin's Days, ajudava a alimentar o desejo
de qualquer pessoa, fosse de qualquer classe social, de ir a uma
boate e danar at no poder mais, divertir-se a valer, tal qual os
inesquecveis personagens daquela novela que havia se tornado
um fenmeno de audincia em todo o pas.
Roberto no tinha idade para ir a uma discoteca, tinha dezessete
anos de idade e sua aparncia delicada e traos finos faziam-no
aparentar cerca de quinze anos. Na sua cidade natal, Jundia, a
quarenta minutos da capital paulista, havia uma casa noturna
desse tipo. O jovem at pensou em falsificar sua carteira de
estudante, mas sua carinha de anjo no o ajudava a entrar numa
boate.
Ele tambm tinha medo de sair sozinho. Imagine encontrar aqueles
brutamontes do colgio pelo caminho? Apanhar de novo? Ser

chamado de

bichinha

na

frente

de

desconhecidos?

No.

Definitivamente, Roberto iria esperar pela maioridade. Quem sabe
fizesse novas amizades e ento teria coragem para sair  noite.
Por enquanto, era melhor ficar em casa, ouvindo msica e
danando sozinho pelo quarto.
Roberto era o filho caula de Otvio e Helena. Eliana, sua irm, era
dez anos mais velha e estava casada. Morava em So Paulo com
o marido e uma filha pequena. Ricardo, onze anos mais velho do
que ele, havia se graduado recentemente em engenharia qumica e
passado num concurso. Conseguiu a sua to sonhada vaga para
trabalhar na maior indstria petroqumica do pas, no Estado do Rio
de Janeiro.
Roberto era filho temporo, viera de maneira inesperada,
literalmente fora de hora. Otvio at pensou na possibilidade de
aborto, mas Helena, religiosa convicta, embora fosse temente ao
marido, sempre concordando com tudo o que ele dizia, dessa vez
emitiu um de seus rarssimos "nos" na vida. Foi categrica:
 Vou ter esse filho.
 Como tem certeza disso? No acha que est muito velha para
parir?  perguntava-lhe o marido com desdm, conforme a barriga
da esposa crescia a olhos vistos.
Afinal, Otvio no era um homem de f. Era descrente. Tivera uma
vida dura e afirmava, constantemente, nunca ter visto o dedo de
Deus nos momentos mais difceis de sua jornada. Alguns anos



antes uma tragdia em sua vida o fizera perder completamente a
f. Otvio tinha sade, uma linda famlia, um timo emprego, mas
dizia que tudo isso acontecera por sorte, pura sorte. Mais nada.
Helena, com muito jeitinho  para no aborrec-lo  tentava
anim-lo.
 E se vier outro garoto?
 O que tem isso?
 Ora, Otvio, voc mal teve tempo para brincar com nossos filhos
porque tinha de dar duro na empresa, fazendo hora extra para
aumentar o salrio no fim do ms. Agora que estamos mais
tranqilos, voc poderia se dedicar mais, ser um pai mais
atencioso, mais amoroso...
 Pode ser.
Helena falava com sinceridade. Mesmo tendo medo do marido,
tinha certeza de que a chegada de mais um filho poderia melhorar
aquele casamento sem sal. At que, no quinto ms de gravidez,
Otvio aquiesceu.
 Imagine um menino parecido com Ricardo.
 Voc tem razo. Nunca pude levar o Ricardo para assistir a uma
partida de futebol. At que outro filho, nessa altura de minha vida,
no  l to m idia.
Assim, de maneira doce e cativante, transmitindo ao marido idias
positivas acerca do novo rebento, Helena foi serenando a mente do
marido turro, e Otvio passou, inclusive, a curtir o barrigo da
esposa. A gestao correu tranqila e o casamento pareceu
melhorar um pouco. Helena sentiu-se feliz. Era como se estivesse
vivendo uma fase boa de seu casamento como anos atrs, quando
tudo parecia perfeito, at que aquela tragdia...
 Helena empurrou os pensamentos com as mos.
 Isso faz parte do nosso passado. Quero esquecer o que
aconteceu  disse para si, num tom muito triste.  No quero que
meu filho sinta minha tristeza  pensou  enquanto acariciava
seu barrigo.
Meses depois, Roberto veio ao mundo. Logo a famlia e os amigos
o chamavam carinhosamente de Beto.
Roberto tinha sido um beb adorvel. Bonito, cabelos alourados e
levemente encaracolados, olhos verdes expressivos e vivos. Otvio
era fascinado pelo filho, o que causava certo cime em Ricardo,
naquela poca um garoto de pouco mais de onze anos de idade.



Entretanto, Ricardo sentia forte vnculo com o irmo, tinha
adorao sem igual pelo pequeno Beto. Eliana ajudava a me e
adorava cuidar do irmo e brincar com ele. Ela tambm sentia um
amor muito grande pelo irmozinho.
Por um tempo, a famlia pareceu feliz e sem atritos ou conflitos, era
como se fizessem parte daquelas propagandas de margarina que
estamos acostumados a ver na televiso, onde a famlia  feliz e
sorri o tempo todo, vinte e quatro horas por dia. Helena chegava
at a se emocionar quando via Otvio largado no cho, brincando
com o filhinho. Ela lembrou-se do incio de seu casamento, de uma
fase muito feliz de sua vida. Mas a vida era regada de surpresas e
um balde de gua fria cara sobre a cabea do casal. Passou-se
muito tempo at Otvio digerir o ocorrido. Agora, quem sabe, Deus
os estava recompensando por tanta dor e sofrimento. Era a hora de
voltarem a ser felizes.
Os problemas, se assim podemos apontar, comearam quando
Roberto completou dois anos de idade. O menino apegou-se em
demasia a uma das bonecas de Eliana e arrastava o brinquedo
para cima e para baixo. Otvio olhava o garoto de soslaio e
reclamava com Helena.
 No estou gostando nada disso. Meninos no brincam de
boneca.
 Ele  uma criana.
 E da?
 Beto no sabe distinguir o que  brinquedo de menino e o que 
de menina. Para ele tanto faz uma boneca, um carrinho ou um
peo. Tudo  brinquedo.
Otvio largou o jornal que estava lendo e aproximou-se do filho.
Pegou-o no colo e Roberto o abraou com carinho. Beijou-o na
face.
 Papai quelido!
Otvio emocionou-se. Adorava aquele garoto. Talvez at mais do
que os outros dois filhos. Mas isso ele jamais poderia admitir. Afinal
de contas, ele acreditava que um pai deve amar igualmente todos
os filhos. Nem mais nem menos. E, embora tentasse igualar seus
sentimentos, sentia por Roberto um amor especial, o mesmo
sentimento que sentira por Otaclio. Ao lembrar-se daquele nome,
Otvio sentiu um frio na espinha.
Desesperado, abraou o filho e sussurrou em seu ouvido:



 Papai tem um presente para voc.  Imediatamente ele
arrancou a boneca das mos de Roberto, atirou-a longe e
depositou em suas mozinhas uma bola de futebol.  Vamos jogar
com o papai.  Ele botou o menino no cho, encostou a bola nos
ps e gritou:  Chuta!
Os lbios de Roberto comearam a tremer e ele logo abriu o maior
berreiro. Apontava para a boneca cada no canto da sala.
 Minha boneca, quelo minha boneca...
Otvio empalideceu. Seu rosto transfigurou-se e ele perdeu as
estribeiras. Agarrou o garoto pelos ombros e os sacudiu com
violncia.
 Filho meu no brinca de boneca! Isso  coisa de maricas.
Falou naquele tom explosivo e jogou o menino sobre o sof.
Helena veio correndo da cozinha e abraou-se ao filho, que
chorava sem parar, tamanha a violncia e o choque com que o pai
o havia tratado.
 Chi! Meu pequeno. Mame est aqui para proteg-lo. Roberto
grudou-se no pescoo da me e chorou copiosamente. Helena era
uma boa pessoa, mas tinha muito medo de Otvio. Infelizmente,
mesmo com to pouca idade, em seu ntimo, Roberto sabia que a
me, mesmo o amando acima de tudo, no era  e jamais seria 
seu porto seguro.  No me deixe sozinho...
Conforme os anos foram passando, Otvio distanciava-se mais e
mais do filho. Roberto cresceu um menino lindo e saudvel.
Adorava brincar com os meninos e meninas da rua em que
morava. Por uma questo de afinidade e at sensibilidade, dava-se
melhor com as meninas. As brincadeiras s vezes brutas dos
meninos no o agradavam.
Ricardo vivia namorando e, pela diferena de idade, mal se
relacionava com o irmo caula, agora com sete anos de idade.
Ricardo queria saber de sair com as garotas, e, naturalmente, tinha
pouco contato com o irmo. Eliana, uma mocinha de quase dezoito
anos, procurava dar-lhe toda a ateno do mundo, entretanto veio
o preparatrio para o vestibular e ela, nesse perodo, no pde dar
tanta ateno ao irmo como vinha dando at ento. Roberto
comeou a se sentir s, muito s.
O primeiro xingamento de rua ningum esquece. Infelizmente a
taxa de ocorrncia  maior entre garotos delicados na postura e
que demonstram aparente fragilidade e certa delicadeza nos



gestos. A cabecinha de Roberto no conseguia entender a
distncia e o tratamento cada vez mais seco do pai. No imaginava
que a distncia de Eliana era porque sua irm adorada precisava
dedicar-se de corpo e alma aos estudos para ingressar numa
universidade pblica e alcanar sua independncia. Ou mesmo que
Ricardo estava numa idade onde os hormnios estavam em
ebulio e ele s queria saber de sair com as garotas, mais nada.
Na cabea de Roberto, as pessoas dentro de casa estavam se
afastando porque ele era diferente, meio esquisito. Isso! Ele sentia-
se diferente dos demais meninos da sua rua, at mesmo dos
coleguinhas da escola.
O menino foi crescendo e no tinha gosto em jogar bola, no
gostava de se meter em brigas. Era garoto estudioso, educado. Era
muito novo para entender sobre homossexualidade para Roberto
tudo era natural.
At o dia em que ele chegou em casa esbaforido e com o uniforme
da escola sujo de terra. Parte da camisa estava rasgada e seus
olhos estavam inchados de tanto chorar.
Helena aproximou-se e o abraou.
 O que foi meu pequeno?
 Bateram em mim na sada do colgio  respondeu ele, com a
voz embargada.
 Por que fariam uma coisa dessas com voc, meu filho?
 Chamaram-me de veadinho.
As lgrimas escorriam sem parar. Helena abraou o filho com
fora.
 Voc no  ve... Isso que falaram. No ligue para esses garotos.
Eles no sabem o que esto dizendo.
 Tem um grupo de meninos mais velhos e mais fortes que me
odeia me. O Dnis no larga do meu p. Est sempre pronto para
me intimidar e me xingar.
 Vou conversar com a diretora, amanh mesmo.
 No faa isso!  ele implorou.
 Como no?
 Por favor.
 Vai defender esses marginais?
 No  isso, me.
 Ento o que  que ? No o entendo...



 Se voc for reclamar, eles vo ficar sabendo e nunca mais vo
largar do meu p. A  que vo azucrinar a minha vida. Por favor,
mame, no reclame.
Helena no sabia o que fazer. Como me, notara desde o bero
que seu filho era diferente. Ela criara Ricardo e a diferena de
comportamento entre os dois filhos era brutal. Roberto era
sensvel, tinha gestos bem delicados, emocionava-se  toa,
gostava de ajud-la nos afazeres domsticos.
Sabia que seu filho precisava muito de seu apoio e de seu amor.
Mais nada.
Os anos se passaram, os xingamentos continuaram. Ricardo
graduou-se em engenharia qumica, passou num concurso e foi
trabalhar em outra cidade. Eliana formou-se advogada, mas nem
sequer prestou o exame da ordem. Durante o curso, interessou-se
por Alaor, colega de turma. Aps terminarem o curso, noivaram e
casaram.
Roberto sentiu bastante a falta da irm. Afinal, Eliana o
compreendia, e, percebendo suas tendncias homossexuais, logo
tratou de se informar a respeito. Consultou mdicos, psiclogos e
psiquiatras a fim de entender melhor o universo ntimo do menino.
Depois do casamento ela continuou o contato com Roberto, fosse
por telefone ou carta. Ele compartilhava com ela todos seus
segredos. Mas j no era a mesma coisa. Eliana estava casada e
tinha sua vida. Logo tinha uma filha para cuidar.
Com o passar dos anos, a distncia com o pai havia crescido de
maneira assustadora. Helena fazia, dentro do possvel, enorme
esforo para entender as diferenas de comportamento do filho,
mas tinha tanto medo da truculncia do marido, que nada fazia
para impedir que, ao menos dentro de casa, Roberto no fosse
agredido moral ou fisicamente.
Helena sempre fora uma mulher mais decidida, mais firme, mais
cheia de atitude. O incio de seu casamento fora uma das melhores
fases de sua vida. Otvio era mais amigo, mais parceiro. Tinha um
temperamento tranqilo e estava sempre com um sorriso nos
lbios.
Contudo, a morte de seu irmo mudou-o radicalmente. Otvio
transformou-se da noite para o dia. Logo aps a tragdia que
resultou na morte de Otaclio, ele surtou e teve uma crise. Chegou



a ser internado num hospital, ficou em repouso por um bom tempo
e, quando retornou para casa,nunca mais foi o mesmo.
Otvio passou a ser homem seco, monossilbico e agressivo.
Ameaava bater na esposa e, embora nunca tenha encostado um
dedo em Helena, sua atitude e seu comportamento truculento
fizeram-na se transformar numa mulher sem atrativos, passiva e
medrosa.
Ela acreditou que o nascimento de Roberto faria novamente o
marido voltar a ser o que fora no passado. Quando notou que o
filho apresentava as mesmas inclinaes sexuais que Otaclio, ela
foi tomada de surpresa. Uma desagradvel surpresa.

Captulo 2

Roberto contava agora com dezessete anos e nunca havia se
interessado por uma garota. Tinha algumas amigas, mas nada de
flerte, de namoro. Muito pelo contrrio. Ele sentia atrao por
homens mais velhos e nutria paixes secretas e platnicas por
mutos dos professores do colegial  atual ensino mdio.
Roberto tornara-se um rapazote atraente, muito bonito. Usava
roupas bonitas e chiques, sempre dadas por Eliana ou compradas
por Ricardo, em elegantes butiques de Ipanema. Seus tnis eram
Rainha ou Topper cano alto e suas calas eram das marcas Soft
Machine ou Gladson. Beto chamava ateno tanto pela beleza 
parecia um anjo  quanto pela delicadeza e pelas roupas
requintadas que usava.
Essa falta de meninas na vida do filho j havia dado chance para o
surgimento de comentrios maledicentes na vizinhana. Havia
sempre um ou outro vizinho que tripudiava sobre sua maneira
delicada, zombando de seu jeito de ser, fazendo brincadeiras de
mau gosto com ele. Roberto no se defendia, corria para casa e
trancava-se no quarto apavorado.
Ele vivia enclausurado em seu quarto, ouvindo msicas em sua
vitrolinha Philips, daqueles modelos que pareciam uma maleta. Ao
abrir, uma das partes tocava os discos e a outra sservia como caixa
de som. O menino passava horas entre os estudo e as msicas.
Seu dia-a-dia consistia em ir  escola na parte da manh. Ele
cursava o terceiro ano colegial e no tinha dvidas sobre qual



carreira seguiria. Desde a infncia tinha certeza de que iria cursar
medicina.
A me tentara demov-lo da idia de prestar medicina, porquanto a

concorrncia,

ainda

mais

numa

universidade

pblica,

era

acirradssima. Helena acreditava que o melhor seria o filho ter feito
um curso tcnico, assim teria chances de arrumar emprego,
comear a ganhar seu prprio dinheiro e, naturalmente, sair de
casa. Em seu ntimo sabia que mais dia, menos dia, Roberto teria
de partir. A relao entre ele e Otvio estava ficando cada vez pior.
No tocante  carreira, Roberto mexia os ombros e afirmava que,
com dedicao e bastante preparo, ele conseguiria passar no
vestibular, nem que tivesse de fazer cursinho.
 No temos dinheiro para pagar cursinho. O dinheiro da
aposentadoria de seu pai d somente para as despesas da casa.
 Eu arrumo um jeito. Vou trabalhar meio perodo, peo bolsa de
estudos, fao qualquer negcio. Mas jamais vou deixar de me
esforar para passar no vestibular e me tornar um mdico.
Ao chegar do colgio, ele ajudava a me nos afazeres domsticos
 eles no tinham empregada. Depois, subia para o quarto e ouvia
suas msicas, estudava para as provas e descia uma hora antes
da novela das oito, religiosamente de segunda a sbado, a fim de
ajudar a me no preparo do jantar.
As frias escolares no meio do ano chegavam ao fim e Roberto
aproveitava para gravar suas msicas prediletas em fitas-cassete e
ouvir programas de rdio que teciam comentrios acerca da
novela. Roberto era f incondicional e no perdia um captulo
sequer.
A confuso se estabeleceu de vez naquela casa justamente
durante num dos intervalos do captulo de Dancin's Days. Roberto
era apaixonado pela novela e estava feliz, porquanto ela comeara
justamente durante as frias escolares, e ele poderia dormir at
tarde e passar o dia escutando as msicas do folhetim que as
rdios tocavam  exausto.
As trilhas sonoras da novela ainda no tinham sido lanadas, e
Eiana mandara da capital a trilha sonora do filme Os embalos de

sbado



noite,

que

Roberto

tocava

na

sua

vitrola

ininterruptamente. Todo santo dia. Sem falar nas cantoras de
discoteca que ele tanto adorava e idolatrava.



Otvio mal dirigia a palavra ao filho. Contudo, aps se aposentar,
passara a beber acima da mdia. Ao notar os gestos delicados do
filpode ter um futuro feliz. Nasceram condenados ao fracasso e a
tragdia.

Como

esse

tipo

de

pensamento

martelava-lhe

a

mente

constantemente, Otvio preferiu a companhia da bebida para
anestesiar a mente e ter um pouco de paz.
Foi durante o intervalo da novela que aconteceu o imprevisvel. Ou
melhor, o previsvel.
 Roberto, v buscar mais uma garrafa de cerveja no bar.
Ele nem sequer desgrudou os olhos da telinha.
 Agora no, pai. Assim que acabar a novela eu dou uma corrida
at o bar da esquina.  O bar vai fechar.
O rapaz, sem desviar os olhos da tela, respondeu de maneira
delicada, mas sem afetao.
 No vai, no. Tem gente que assiste  novela no bar. O bar s
fecha depois que aparecem as cenas do prximo captulo.
Otvio estava alterado pela bebida. Levantou-se da poltrona,
aproximou-se do aparelho de televiso e desligou o boto. Roberto
deu um grito de espanto.
 O que  isso? Bem na hora em que a Jlia vai se encontrar com
o Cac? Voc  louco?
O tapa veio forte. Roberto sentiu as faces arderem. Este no fora o
primeiro tapa na cara nem seria o ltimo. Otvio batia no menino
desde sempre. Quando percebeu que Roberto era diferente do que
ele considerava normal, passou a surr-lo sem d nem piedade.
Roberto mordiscou os lbios, apreensivo. Sentiu o cheiro de surra
no ar. Imediatamente, esqueceu-se da novela, dos personagens,
daquele mundo de sonhos que o amorteciam e o anestesiavam da
dura realidade que ele julgava ser sua vida.
 No responda para mim, seu fedelho  vociferou Otvio.  V
agora mesmo ao bar pegar mais uma garrafa de cerveja.
As lgrimas comearam a descer e Roberto fez tremendo esforo
para no esmorecer na frente do pai.
 Sim, senhor.
Helena apareceu da cozinha. Esfregava as mos no avental,
tamanho nervosismo.
 Eu vou at o bar. Deixe o menino assistir  novela. Ele adora.
 No. Ele vai buscar a cerveja para mim. Agora!



Roberto encarou a me com olhos de splica, mas Helena nada
fez. Ela tinha medo de discutir com o marido e tambm de levar
uma sova. E, desde que Otvio comeou a beber, os seus temores
aumentaram. Em sua mente, se o marido era grosso, estpido e
agressivo quando estava sbrio, imagine de porre! Helena
timidamente baixou os olhos, mordiscou os lbios e voltou para a
cozinha.
Roberto abaixou a cabea e, triste por no ter, mais uma vez, o
apoio da me, saiu. Vinte minutos depois retornou. Chorando e
sem a garrafa de cerveja. Otvio mal notou o estado de
desequilbrio emocional do filho e foi logo perguntando pela bebida.
 Cad minha cerveja?
O filho no respondeu.
  surdo? Quero saber. Onde est minha cerveja, fresquinho?
Roberto subiu as escadas como um rojo. Entrou no quarto e
jogou-se na cama. Agarrou-se ao travesseiro e chorou feito uma
criana. Helena apavorou-se e, embora sentindo medo do marido,
subiu as escadas de mansinho atrs do filho. Otvio meneou a
cabea para os lados.
 Fresco. Devem ter feito uma piadinha em cima dele. Bem feito.
Rodou nos calcanhares e foi at o bar. Enquanto isso, Helena
tentava acalmar o filho.  O que foi?
Roberto desvencilhou-se dela com fora.
 No me toque. Eu sou sujo.
 Como?
 Isso mesmo, me. Eu sou sujo.
 Pare com isso, Beto.
 Eu sou pecador.
 Como assim?
 Mas no fiz de propsito. O Dnis estava no bar  sua voz era
entrecortada pelos soluos  ele me obrigou...
 Obrigou a qu, meu filho?
 Ele me deu uma rasteira, jogou-me no cho. A apareceu outro
homem, bem mais velho e bem grando. Ele era forte e me
agarrou. Fui arrastado at o banheiro do bar e...
Roberto no conseguiu mais falar. Sentia vergonha, repulsa de si
mesmo por no ter conseguido se livrar daqueles brutamontes.
Helena fechou os olhos e, em seguida, abraou o filho, tentando
acalm-lo.



 No precisa falar mais nada, meu querido.
Helena, entre lgrimas, beijou-lhe os cabelos anelados.
 Voc no  sujo.
Otvio entrou no quarto furioso, j carregando o cinto na mo.
 Sua bichinha ordinria! Quer me matar de vergonha?
 Como?
 Quer acabar de vez com minha reputao no bairro? J no
chega o que passei com Otaclio?
 Como? Do que est falando, pai?
 Voc merece levar uma sova!
 O que foi que fiz?
 Ainda pergunta, com essa voz esganiada?
 Mas...
 Engrosse a voz para falar comigo!
Helena, assustada e com medo, timidamente interveio.
 No implique com o garoto. No fale de Otaclio. No v que
ele...
Otvio aproximou-se e lhe deu um tapa no rosto que a fez rodar e
cair sobre si.
 Otaclio era meu irmo e eu posso falar seu nome. Voc, no!
Esse menino  a encarnao do demnio. No chega o sofrimento
pelo qual passei por conta de meu irmo? Agora vem voc querer
sujar minha reputao e fazer de minha vida um tormento?
Roberto no sabia o que dizer. Nunca ouvira falar no nome
Otaclio. Sua mente no conseguia concatenar os pensamentos.
Ele correu a acudir a me, que estava sentada no cho, chorando
e passando a mo sobre a regio do tapa que levara. Otvio
continuava fora de si.
 Voc criou uma menina, isso sim. Uma menina!
 No sou menina  gritou Roberto.  Pare de me chamar
assim.
 Eu fui motivo de chacota l no bar  tornou Otvio.
 Motivo de chacota? Eles abusaram de mim, pai. Eu fiquei preso
no banheiro e o Dnis mais aquele brutamontes me foraram a...
a... tocar neles. No tive culpa.
 No teve culpa? Como no teve culpa?  Otvio vociferava.
Uma espuma branca escorria pelo canto de seus lbios, amanha a
fria.



 Oua seu filho  implorava Helena tentando se levantar e se
recompor do tapa.
 Eu no tenho nada para ouvir.
 Por favor...  a voz de Helena era melflua.
Otvio estava se tornando uma pessoa intratvel. A bebida estava
acabando com ele, com ela e com o casa-mento. Outra espuma
branca de dio formou-se no canto de sua boca.
 Voc  um anormal.
 No sou  choramingou Roberto.
 Anormal!  gritou.
 No fale assim comigo, pai.
 Se soubesse que tinha nascido torto, mandava mat-lo. Bem
que eu tinha sugerido o aborto. Mas Helena no me ouviu. Se
tivesse me ouvido, estaramos livres dessa aberrao e eu no
teria de passar outra vergonha na vida. Quanta desgraa por conta
de um irmo e de um filho anormais.
Helena chorava copiosamente no canto do quarto. Mesmo uvindo
tantas sandices, no tinha coragem de enfrentar o marido, ainda
por cima nervoso daquele jeito. O seu instinto maternal deu o
alerta. Mas ela no tinha foras para enfrent-lo.
Otvio estava fora de si, precisava descer a lenha em cima do filho.
Ele mal continha a raiva que sentia de Roberto ou mesmo de
Otaclio. Em sua mente vinham cenas da tragdia que modificara
sua vida.
 Por favor, no bata no nosso filho  pediu Helena, de maneira
tmida e levantando os braos para no levar outro tapa.
 Nosso filho?  vociferou ele.  Seu filho, isso sim. Roberto no
 meu filho. Eu o odeio. Odeio, entendeu?
As lgrimas escorriam insopitveis pelo rosto de Roberto. O
rapazinho no sabia o que fazer. Sentiu uma vontade grande de
orar, mais nada. Enquanto ele fechava os olhos, Otvio continuava
com seus improprios.
 Como chamar de filho esse ser que s me causa desgosto?
Esse ser que nem sei ao certo se  homem ou mulher? Esse
pervertido que pratica obscenidades na esquina de casa, bem
embaixo do meu nariz?
 Eu no fiz nada. Eles me obrigaram, pai. Eu juro.
Helena interveio:
 No escute seu pai. Ele no est falando coisa com coisa.



Otvio nem quis saber. Empurrou violentamente Helena para o
lado, levantou a fivela e desceu o cinto sobre o corpo frgil e
acuado de Roberto. Sem d nem piedade. Outra surra, que doa
por fora, porm machucava muito mais o menino por dentro.

Captulo 3

O telefone tocava insistentemente. Srgio foi acordando aos
poucos. Havia chegado da discoteca quando os primeiros raios de
sol esparramavam-se sobre a cidade. Ele revirou-se na cama de
um lado para o outro. Colocou o travesseiro sobre a cabea para
diminuir o impacto irritante do som da campainha em seus
tmpanos. Mas o telefone no parava de tocar.
Ele foi se arrastando at a beirada da cama e sentiu algo slido,
porm macio e peludo deitado ao seu lado. Ele passou o brao por
cima do rapaz que dormia ao seu lado, esboou um sorriso e
alcanou o telefone.
 Al.
 Dormindo at agora?
 Cheguei em casa s seis da manh.
 Cludio censurou o amigo.
 Passa das trs da tarde. Voc ficou de me levar at a feirinha de
antiguidades. Se quiser, pode levar o seu filho  disse em tom de
brincadeira.
 Que filho? Est louco, Cludio?
 E o menino que voc levou para casa? Pensa que no o vi
saindo da boate com um fedelho a tiracolo?
Srgio passou a mo pela cabea e reparou melhor no corpo nu
deitado ao seu lado. O rapaz no devia ter mais de dezenove anos.
 Vou tomar um banho e comer alguma coisa. Eu te pego s
cinco.
 Tudo isso? A feirinha acaba justamente s cinco da tarde.
 Melhor irmos ao cinema e depois jantamos.
 No Sujinho, como de costume.
 Sim. Que tal algum filme novo em cartaz e...
Cludio exultou do outro lado da linha.
 Oba! Vamos assistir Os embalos de sbado  noite.



 De maneira alguma, Cludio. Voc j assistiu ao filme umas dez
vezes e me levou umas cinco. Chega. Isso est se transformando
num vcio maldito.
 Ver John Travolta nas telas no  um vcio,  um colrio 
retrucou, rindo.
 Ento arrume outro parceiro. Eu no vou.
 Vai sim. E prepare-se porque daqui a pouco tempo vamos
assistir Grease  Nos tempos da brilhantina, com o mesmo John
Travolta e aquela gracinha da Olivia Newton-John.
 De novo? S existe esse ator em Hollywood?
 Assim bonito e sensual... s!  respondeu Cludio entre risos,
do outro lado da linha.
 Convide outro amigo.
 Eu juro, eu prometo que vai ser a ltima vez. Voc vem?
 s cinco horas eu passo na sua casa.
 Pode trazer o garoto tambm.
 Nem sei o nome dele. De novo a histria se repete. Eu conheo
algum que julgo ser interessante, trago para casa, dormimos
juntos e, no dia seguinte, adeus. Nem trocamos telefone e, pior,
quando eu encontro o fulano na boate, ele faz questo de fingir que
no me conhece ou nem olha na minha cara.
Ambos riram.
 Voc est com vinte e sete anos de idade nas costas. No cr
que agora esteja no momento de arrumar um companheiro e parar
de ciscar?
 Olha quem fala  sorriu Srgio.
 Mas eu sou diferente de voc. No quero saber de compromisso

por

ora.

Voc

est

sempre

querendo

namorar,

manter

relacionamento srio e acaba metendo os ps pelas mos.
 E l no fundo no  o que todo mundo quer? No  o que voc
quer?
 Meu verdadeiro amor no  deste mundo.
 L vem voc de novo com esse papo maluco.
Cludio riu.
 Eu no sou religioso, mas acredito piamente que a vida no
acabe com a morte do corpo fsico. E, de mais a mais, sempre tive
uma forte impresso de que meu amor no
pertence a este mundo.
 Os deuses, no Olimpo, no podem se casar.



 Engraadinho.
 O Vicente anda atrs de voc.
Cludio resmungou do outro lado da linha.
 Por favor, essa no.
 Por qu? Est interessado nele e no quer admitir?
 Tenho os dois ps atrs com o Vicente.
 Por que diz isso?
 Cautela! Meu sexto sentido apurado e afiado me diz que ele no
 confivel. Adora manipular e pisar sobre os sentimentos dos
outros.
 Ele at que  interessante.  jovem, lindo do jeito que gosto, e
parece ter uma cabea tima.
 Srgio! Tem muitos outros caras interessantes para voc se
relacionar.
 Est com cimes?
 Ele no serve nem para mim, tampouco para voc.
 Ele no  mau sujeito.
 Mudemos de assunto.
 Quero voltar a dormir mais um pouco. s cinco continuamos o
nosso papo. Um beijo.
 Outro.
Srgio pousou o fone no gancho e virou-se de lado. Fixou os olhos
no corpo do rapaz. Ele o cutucou de leve.
 Hum...
 Est na hora de se levantar.
O rapaz se espreguiou e abriu os olhos.
 Quem  voc?
Srgio sorriu.
 Sou o rapaz que voc convidou para passar a noite.
 Eu?!
 . Na boate, ontem  noite. Quer dizer, nesta madrugada.
 Boate?
 Encontramo-nos na Medieval, esqueceu-se?
 Eu bebi muito, no me lembro de nada.
 Melhor tomar um banho para refrescar. Se quiser, depois,
poderemos almoar e...
O rapaz fez sinal com as mos, endireitou o corpo na cama. Deu
de ombros e, enquanto caminhava em direo ao banheiro,
redarguiu:



 Nada de almoo ou de sadas diurnas. No quero saber de
compromisso.
 Tudo bem, mas no gostaria de me conhecer melhor? Afinal,
passamos a noite juntos, tivemos intimidades e...
O rapaz o cortou seco.
 Pode parar com esse discurso. Na verdade, eu s estava de
olho em voc.
 Menos mal.
 Fiz uma aposta com os meus amigos de que iria seduzi-lo e
lev-lo para a cama.
Aquilo pegou Srgio de surpresa. Acreditava que ultimamente as
pessoas andavam bem superficiais. Mas esse garoto havia
extrapolado. Srgio sentiu-se uma mercadoria ganha num leilo.
Nem sabia o que dizer.
 Est feliz?  balbuciou.
O rapaz respondeu com ar de mofa.
 Mais um para eu adicionar ao meu caderninho de conquistas.
Srgio meneou a cabea para os lados. Estava cansado desse tipo
de envolvimento to superficial. Havia prometido para Cludio e
para si mesmo que no mais sairia acompanhado da boate.
Entretanto, a promessa durava somente alguns dias. Chegava
sexta-feira e, j na badalada Medieval, Srgio acabava cedendo
aos encantos de algum jovem e, movido pelo desejo, arrastava-o
para sua casa.
No. Nem de longe era o que sonhara para si alguns anos antes.
Srgio havia passado dos vinte e cinco anos e no era mais um

garoto.

E

percebia

que

as

pessoas

no

queriam

comprometimento, somente pura diverso. Noites regadas a
discoteca, bebida e sexo, muito sexo.
Tambm pudera. Naquela poca, as pessoas no se preocupavam
nem um pouco com quem se deitavam nem se importavam em
fazer sexo seguro.
Alis, o termo "sexo seguro" s surgiria aps a descoberta da
AIDS. Neste ponto em que nos encontramos na histria  fim dos
anos 1970  o risco corriqueiro de contrair alguma doena era
muito pequeno. E, as doenas sexualmente transmissveis,
geralmente gonorria e at a temvel sfilis, tinham cura.

Srgio

era

um

homem

experiente,

havia

assumido

sua

homosexualidade aos dezessete anos, de uma forma triste e



dolorida, como ocorre ainda com a maioria dos gays. Ele havia sido
um garoto como outro qualquer, muito embora sua preferncia por
rapazes fosse percebida desde a mais tenra idade. Seus pais
trabalhavam como caseiros num stio em Maring, no Paran, e
mesmo criado neste ambiente humilde, ele gostava muito de
filmes. Com o dinheiro que ganhava do proprietrio para realizar
pequenos servios, ele comprava ingresso para a matin de
domingo  geralmente mais barata  e ia sozinho assistir aos
clssicos do cinema americano. Nem se importava com a distncia
entre o stio e a cidade. Ia a p e feliz para assistir a mais um filme
e se entregar aos seus sonhos e desejos inconfessveis, no
escurinho do cinema.
Numa dessas sesses, Srgio comeou a sentir algo diferente. Ele
venerava as grandes atrizes, mas algo dentro de si, um sentimento
desconhecido, mas delicioso, o atraa para os gals. Rock Hudson,
John Gavin e Marlon Brando, todos os astros dos filmes
despertavam-lhe um friozinho no estmago, um frisson, ento
desconhecido. At mesmo os astros do cinema nacional, como
Anselmo Duarte, Hlio Souto e Orlando Villar  com seu trax
definido e de causar inveja  tiravam-lhe o sono.
Srgio saa do cinema sempre alegre, com vontade de ser o
protagonista junto aos gals. Ele no se via como a atriz do filme,
no sentia desejos de ser a herona, no se identificava com isso.
Ele se via no filme contracenando com o ator, sendo abraado,
acariciado...
Sentia-se confuso, mas esse sentimento era novo, gostoso e, ao
mesmo tempo, assustador. Foi a primeira vez que se perguntou o
porqu de sentir isso. Por que sentir atrao pelos astros, e no
pelas estrelas dos filmes? Por que no sentir atrao pelas
meninas na lavoura, e sim, sentir-se atrado pelos filhos homens?
Quem poderia lhe ajudar nessas indagaes de adolescente?
Como discutir isso com sua me? O melhor mesmo era deixar de
lado, sentir escondido, sozinho em sua cama, na hora de dormir.
At que um dia um dos filhos do dono do stio  por quem Srgio
tinha uma queda especial  emprestou-lhe um livro muito popular
entre os garotos de sua faixa etria. Tratava-se do popular O que
todo rapaz deve saber sobre sexo. O livro, carregado de padres

ainda

muito

rgidos

no

tocante



moral,

considerava

a



masturbao, por exemplo, um vcio pernicioso, capaz at mesmo
de conduzir  cegueira e  loucura.
Tais ensinamentos deixaram Srgio confuso e temeroso. Mesmo
assim, ele continuou a se masturbar e os anos lhe mostraram que
o livro estava errado, porque ele continuava enxergando e no se
considerava louco.
Depois de completar dezessete anos, com a libido  flor da pele,
ele percebeu que um vizinho do stio tambm o olhava de maneira
diferente. Entre o flerte e o ato sexual foi um pulo. Encontravam-se
numa choupana escondida no meio da mata e amavam-se 
exausto.
Infelizmente, a brincadeira durou pouco. Srgio foi flagrado pelo
pai. A surra e a expulso de casa foi o preo pago por ter transado
com algum do mesmo sexo. Sua me, penalizada com a situao
do menino, e que sempre desconfiara das tendncias sexuais do
filho, dera-lhe pequena soma em dinheiro  o suficiente para uma
passagem de trem e uma refeio  e o endereo de uma prima
de segundo grau que tinha se mudado havia alguns anos para So
Paulo.
Envergonhado e humilhado pelos familiares, s lhe restou passar
em casa, pegar algumas roupas e ir direto para a estao de trem.
O vizinho, um rapaz solteiro e mais velho que Srgio, fugiu para
uma cidadezinha prxima. Reapareceu tempos depois, casado e
com um filho nos braos.
Em So Paulo, Srgio foi acolhido por D. Carolina, uma senhora
solteira, sem parentes, que muito o ajudou. Pagou-lhe a faculdade
de matemtica e, com muita garra, ele se formou e decidiu dar
aulas em escolas. Seu mtodo de ensino era to bom, que logo um
dos maiores e melhores colgios particulares da cidade no
hesitou em contrat-lo, a peso de ouro. Sua dedicao era
extrema, e grande era o carinho e admirao que recebia de seus
alunos e demais professores.
Tempos atrs, D. Carolina faleceu, deixando seu apartamento no
centro da cidade e mais uma gorda poupana de herana para
Srgio. Isso lhe assegurava uma vida tranqila, juntando o
excelente salrio ganho no colgio. Havia terminado um namoro de
trs anos, no fim do ano anterior. O seu companheiro, na onda da
liberao sexual que corria solta, foi embora do pas com um rico



casal que morava em So Francisco, nos Estados Unidos,
considerada a capital gay do mundo ocidental.
Desiludido, Srgio passou a freqentar alguns bares e boates da
cidade, onde acabou por se envolver com alguns rapazes 
sempre mais novos que ele , mas nada de grande importncia.
No havia muito interesse em relaes duradouras naquela poca,
porquanto o negcio era a discoteca, diverso e muito sexo, de
preferncia, com parceiros diferentes.
Srgio no se ligava muito nisso, no que fosse um puritano, pois
quando a "coisa" apertava, ele ia direto a uma casa de banho 
sauna  num bairro tranqilo e residencial, perto do centro. Limpa,
decorada com bom gosto e agradvel, com muita gente bonita, a
tal casa de banho era o local ideal para relaxar e realizar seus
desejos mais ntimos.
Com alguns dias de frias, Srgio passou a ter mais tempo para
esticar nas noitadas. Era sexta-feira e a noite de dezembro, quente
e agradvel, convidava a todos para um passeio, uma dana...
Sempre depois da novela das oito,  bvio, pois Dancin Days
estava quase no fim, e Snia Braga nos fascinava com sua Jlia
Matos, uma mulher sofrida e marginalizada, que deu a volta por
cima tornando-se rica e badalada, tentando desesperadamente
ganhar o amor de sua nica filha, interpretada, na poca, pela
adolescente  e j talentosa  Glria Pires.
Depois da novela, Srgio se aprontou para uma sada. Iria 
tradicional Homo Sapiens, ou HS, conhecida boate gay do centro
da cidade. Era perto de casa e ele poderia ir a p. Mas a

insistncia

de

Cludio

para

irem

at

a

Medieval,

boate

badaladssima e transada na regio dos Jardins, fez com que ele
mudasse de planos.
E foi na tal boate badalada que Srgio deparou com o rapaz que
acabara de deixar sua casa. No trocaram telefone, talvez nem
mais se olhassem na cara, caso voltassem a se esbarrar, numa
noite qualquer. Afinal, esse era um tipo de cdigo entre muitos
gays que no queriam saber de compromisso. Conheciam-se, iam
para a cama e, num eventual encontro adiante, fingiam no se
conhecer.
Srgio suspirou, terminou de se vestir. Desceu e, assim que
ganhou a rua, dirigiu-se a um estacionamento a duas quadras de
onde morava. Seu prdio no tinha garagem  como a maioria



dos edifcios no centro da cidade  e ele alugava uma vaga num
galpo ali perto.
 Boa tarde, seu Jos.
 Oi, filho.  Jos chamava todos os seus clientes de filho.  Os
olhos ainda esto inchados. A farra deve ter sido boa.
Srgio sorriu.
 Mais ou menos.
Srgio era um tipo que chamava a ateno. Tinha o corpo bem
feito, os cabelos pretos jogados para trs, um bigodo preto
espesso e cheio, sem falhas. Os olhos amendoados e o queixo
quadrado lhe conferiam um ar extremamente viril. Possua a voz
grave, tinha jeito e posturas bem masculinas. Ningum diria que ele
era homossexual. Os gays menos antenados se surpreendiam ao
constatar que Srgio fizesse parte do time.
Por essa razo, ao dar partida no carro e avanar para sair do
estacionamento, Jos foi claro:
 Voc precisa se casar, menino. Est na hora de ter uma vida
regrada e uma esposa amorosa.
Srgio sorriu e balanou a cabea para cima e para baixo.
 Pode deixar, Z. Um dia eu me caso.
Despediram-se e logo o carro de Srgio ganhou a rua. Alguns
minutos depois ele estacionava na porta da casa de Cludio, um
simptico casaro antigo, encravado na Vila Mariana. Ele deu duas
buzinadas  como de costume  e logo Cludio apareceu. Srgio
avistou o amigo e sorriu. Sentia-se grato por ter conhecido uma
pessoa to boa.
Cludio era mesmo uma boa pessoa, alm de muito bonito. Fazia
belo par ao lado de Srgio. Era louro, tinha cabelos lisos, olhos de
um azul profundo. Possua estatura mediana, porte atltico e um
sorriso cativante. Era seletivo em suas amizades e fora
apresentado a Srgio numa festa, alguns anos atrs. Nunca houve
entre eles qualquer tipo de atrao ou envolvimento. Foi amizade 
primeira vista, se assim podemos afirmar.
Cludio era tambm um rapaz de jeito e postura bem masculinas.
s vezes dava uma escorregada e sua voz ficava um pouco mais
fina, ou a mo sacudia mais do que o habitual. Contudo, era um
rapaz bem discreto, da mesma idade que Srgio e apaixonado por
filmes antigos e cinema em geral.



Srgio devia todo seu conhecimento de atores, atrizes, filmes e
outras peculiaridades do cinema ao amigo Cludio. Ele era uma
enciclopdia viva, um rapaz que conhecia e sabia de muita coisa.
Cludio tinha mesmo bastante cultura. Crescera amando as artes
em geral.
Contudo, no era rapaz religioso, embora tivesse tido uma
formao catlica. Pela sua condio homossexual, Cludio
perguntava-se desde cedo o porqu de ser  ou sentir-se 
daquela maneira. Afinal, se vivemos somente uma vida, por que
diabos no viemos ao mundo de maneira semelhante? Por que
temos de nascer brancos, negros, orientais? Por que nascemos e
vivemos em classes sociais distintas? Por que alguns tm tudo e
outros no tm acesso a nada, nem mesmo s condies bsicas
de vida? Por que alguns morrem muito cedo e outros morrem numa
idade bastante avanada? Por que alguns nascem heterossexuais
e outros homossexuais?
Essas perguntas martelavam sua cabea desde cedo e Cludio
tornou-se uma espcie de espiritualista independente e autodidata.
Comprava livros, estudava, procurava conversar com pessoas
ligadas s vrias religies que aceitavam a reencarnao. E se
considerava um espiritualista porque de uma coisa tinha certeza:
para ele, a vida continuava aps a morte.
Por essa razo, ele procurava levar uma vida em que dava ateno
aos seus pensamentos, e mais ateno ainda ao que sentia. Dessa
forma, questionava com profundidade e mudava sua postura diante
da vida. Procurava ser uma pessoa justa e acreditava viver essa
condio homossexual a fim de rever sua posio em relao ao
preconceito.
Cludio no aceitava  como algumas correntes religiosas e at
doutrinrias apontavam  que viera ao mundo nessa condio
pelo fato de ter sido muito mau ou que estivesse pagando pelos
seus pecados aqui na Terra. De forma alguma. Acreditava que
havia nascido assim porque precisava experimentar uma nova
maneira de se relacionar, e, acima de tudo, aprender a nunca mais
ser preconceituoso, com nada e ningum.
Ele sorriu e abriu a porta do carro do amigo. Entrou e logo o seu
perfume Lacoste invadiu o interior do veculo.
 Esse perfume  a sua cara, Cludio.
 Eu sei.



 Por que no experimenta outros?
 No tenho vontade. Creio que nunca vou deixar de usar esse
perfume.
 Voc e suas manias...
 Combina com meu jeito de ser e a qumica com minha pele
deixa esse cheiro agradvel no ar.
 Sedutor de araque  brincou Srgio.
 Nem tanto  devolveu, sorridente como de hbito.
 Bem-disposto como sempre.
 Claro, tenho uma vida to boa. Por que deixaria de sorrir e estar
bem-disposto?
 Porque tambm temos muitos espinhos no caminho.
Cludio fez ar de mofa.
 Est triste de novo?
 Sim.
 E j at sei o que aconteceu. Nem preciso pegar a minha bola
de cristal  ele sorriu.  O rapaz de ontem acordou, banhou-se e
ainda riu com desdm quando voc pediu-lhe o telefone.
 Isso mesmo. Outra frustrao.
 Voc leva tudo muito a srio, Srgio. Precisa mudar sua
postura, algumas atitudes. Voc sai com o primeiro que lhe d um
sorriso. Precisa ser mais seletivo, ir com mais calma.
 No  fcil.
 Mas tambm no  difcil. E  por essa razo, e s por essa,
que vou deixar de ver o John Travolta para conversarmos.  Ele
consultou o relgio.  Vamos beber, comer e conversar.
Srgio sorriu e agradeceu.
 Voc  mais que um amigo.  meu irmo.
 Ligue esse carro e vamos logo.
 Tem certeza de que nada de cinema?
Cludio esboou leve sorriso.
 No, senhor. Direto para o Sujinho. Vamos sentar na nossa
mesa de costume, pedir a nossa bisteca e muita cerveja. S para
comear, porque voc deve estar morrendo de fome e temos de
conversar.
 S voc me entende.
 Sempre serei seu amigo, voc sabe disso  os olhos de ambos
brilharam emocionados.  Jamais o recriminarei.



Srgio concordou com a cabea. Mesmo que fosse um dos locais
preferidos de Cludio, tambm gostava muito desse simptico
restaurante. Estava h quase um dia sem comida. Srgio deu
partida no carro e ligou o rdio; logo seu veculo sumiu na primeira
curva enquanto os dois cantarolavam alegremente uma msica de
Donna Summer.

Captulo 4

O natal se aproximava e aquele episdio do bar j havia cado no
esquecimento, pelo menos para Otvio. Nos momentos em que se
lembrava do ocorrido, ele se atirava na bebida e esquecia rapidinho
da vergonha que sentiu pelas obscenidades cometidas por aquele
filho torto, que nunca deveria ter nascido.
Roberto, certa vez ao passar pelo corredor que ligava a sala a
cozinha ouviu uma discusso acalorada entre os pais.
Foi  nica vez, antes da ltima surra, que ouvira o nome de
Otaclio no meio da discusso. Helena falava entre soluos:
 Seu irmo era um bom homem. Voc o adorava.
 Por que  que eu tenho de me lembrar de Otaclio?
 Porque voc o amava. Eram muito ligados. No acha que
devemos ajudar nosso filho?
 Otaclio era diferente. Matou-se.
 Voc bem sabe...
Depois, Roberto no ouviu mais nada. A porta entreabriu-se e ele
correu at a cozinha.
 Quem ter sido Otaclio? Por que se matou?  perguntou
intimamente para si.
O jovem no se esqueceu e talvez nunca mais iria se esquecer
daquele triste episdio em sua vida. Aps aquela surra, ele passou
a ser mais introspectivo e s no cometeu uma loucura porque
Eliana lhe escrevia palavras de consolo, carinho e encorajamento.
E havia acontecido tambm algo inusitado naquela noite.
Depois de apanhar, cansado e com o corpo cheio de hematomas,
Roberto logo adormeceu. Sonhou que estava num lugar que lhe
era bastante familiar. Sorriu ao ver uma mulher de braos
estendidos para ele.
 Beto, quanta saudade!



Ele estugou o passo e correu em direo quele esprito de
aparncia cndida. Abraou-a com afeto.
 Gina! Quanto tempo.
Ela o abraou com carinho e em instantes sentaram-se num banco,
encravado numa pracinha cheia de flores das mais variadas cores
e numa profuso de aromas que inebriava a alma.
 Tenho comido o po que o diabo amassou.
 Voc escolheu ser filho de Otvio e Helena. Eles pediram para
receb-lo como filho e voc aceitou. Tudo foi previamente
acertado. Consideramos que Eliana e Ricardo formam uma dupla
que muito o ama e vai ajud-lo a ter condies de sair de casa e
fechar esse ciclo.
 Mas eles esto longe, cada um cuidando de sua vida. Eu estou

sozinho

naquela

casa,

levando

porrada,

surra,

sendo

desrespeitado pelo meu prprio pai. Minha me no abre a boca
com medo de apanhar. Creio que dessa forma eu no vou resistir.
 Vai conseguir. Seu esprito precisa tornar-se forte. Voc
escolheu Otvio e Helena como pais a fim de resolver pendncias
do passado. Prometeu respeit-los e aceit-los como so. Voc
tem feito tudo para ser um timo filho.
 Eles no esto fazendo o mesmo.
 Problema deles.
 De que adianta eu fazer a minha parte se eles no fazem a
deles? Por que ao menos no me respeitam?  s disso que
preciso: respeito.
 De certa forma, talvez agora eles no enxerguem o tesouro que
 t-lo como filho. Com o tempo  e estamos falando de
eternidade  eles vo mudar suas crenas e atitudes. No fundo
eles o amam, mas no se esquea de que seus pais fazem o
melhor que podem. Se pudessem agir diferente, com certeza
teriam outra maneira de lidar com a situao. Seu pai ainda sofre
bastante pela perda do irmo.
 O que eu tenho a ver com essa histria?
 Por enquanto nada. Quem sabe o prprio Otaclio no venha
visit-lo?
 Quando ele morreu eu nem havia nascido.
Gina pendeu a cabea para cima e para baixo.
 Sua memria est presa nesta vida. Voc ajudou Otaclio
quando de seu regresso  ptria espiritual. Um dia vai se lembrar.



 Sei que esse nome no me  estranho.
 No  mesmo  Gina pousou delicadamente a mo sobre a
cabea de Roberto. Transmitiu-lhe energias que pudessem serenar
sua mente.  Quero que sossegue e fique em paz.
 No  fcil ser gay.
 Dependendo do ponto de vista, viver na Terra no  fcil.
Quando estamos do lado de c, no mundo espiritual, traamos
planos, desenvolvemos metas, etc. Dentro do corpo fsico
esquecemo-nos do passado e vamos aprender a desenvolver
nosso potencial e fortalecer os pontos fracos.
 Poderia ser mais fcil.
Gina passou os dedos delicados sobre a fronte do rapaz.
 A sabedoria da vida trama em silncio nosso reencontro com
nossa verdade interior.  assim que ficamos mais fortes, que nosso
esprito fica mais lcido e se liberta das iluses a que permaneceu
preso ao longo de muitas vidas. Voc quis retornar como
homossexual, portanto, essa experincia no lhe  estranha.
 Aqui, ao seu lado, sei disso. Mas por que o mundo no me
aceita? Pensei que, com uma sociedade to evoluda, fssemos
ser mais bem compreendidos e aceitos.
 Voc sofreu a dor do preconceito em ltima existncia. Teve
medo de assumir seus verdadeiros desejos e pagou alto preo.
Quer pagar alto preo novamente?
 No. S de pensar nisso me d arrepios.
 Antigamente, ser gay era passaporte para o escrnio e a
punio. Atualmente, os mdicos da Terra nem mais consideram a
homossexualidade uma doena. Isso j  um avano. E, conforme
nos for permitido novos encontros, eu vou lhe esclarecendo outros
pontos no tocante  homossexualidade e no trabalho que voc se
prontificou a abraar nesta encarnao.
 A medicina!  exclamou Roberto, de maneira esfuziante.
 Isso mesmo.
Ele sorriu e logo seu semblante empalideceu.
 Eu sinto falta dele.
 Primeiro a medicina. Depois, se tudo correr bem, vocs vo se
reencontrar.
 Ah, Gina, como eu gostaria de ficar aqui mais tempo. Quando
estou ao seu lado, sinto-me mais forte, mais lcido, mais poderoso.



 No h diferena de postura entre o mundo astral e o mundo
fsico. Voc pode ser assim na Terra. Foi por esse motivo que eu o
chamei.
 O que quer dizer?
 Que est na hora de voc mudar seu jeito de ser. Seu esprito
tem potencial para crescer e no se deixar abater, no se deixar
diminuir pelos outros. Se seus pais, que o amam, tratam-no dessa
maneira, imagine como as pessoas no mundo vo trat-lo?
 Eu fico inseguro, no sei como agir.
 Seja forte. Se aceite como . No  sujo ser gay. No  pecado
ter desejo por pessoas do mesmo sexo. A moral humana  cheia
de rancores e preconceitos. A moral divina no rotula os seres
humanos. Aqui no astral no somos divididos em heterossexuais,
homossexuais ou quaisquer outras denominaes que nos
aprisionam a determinadas caractersticas sexuais. Voc sabe
disso e precisa reagir.
 Reagir.
 Sim, reagir. Deixe que as pessoas o condenem. Tudo o que
fazemos volta para ns, feito um bumerangue, que sempre retorna
para as mos do lanador. Aqueles que o acusarem tero de arcar
com a acusao de alguma forma. Os que o ofenderem ser
ofendido. Portanto, fortalea seu campo urico, encha-se de bons
pensamentos, reavalie suas crenas e posturas e aceite que voc
vive num mundo em que as pessoas necessariamente no
partilham das mesmas crenas e opinies que voc. Da que
aprender a transitar pela diferena de opinies fortalece nosso
esprito para lidar com as nossas prprias diferenas. No se
esquea de que voc e amado e protegido por Deus. Mesmo cheio
de marcas roxas pelo corpo, na manh seguinte Roberto acordou
sorridente e bem-disposto. Mal se lembrava do encontro com Gina,
mas uma frase no saa de sua mente:
Voc  amado e protegido por Deus".

***

Depois desse encontro, Roberto continuou se portando de maneira
quieta, mas havia uma fora dentro de si que nunca havia sentido
antes. Antes, o jovem trancava-se no quarto para no ouvir
piadinhas e agresses verbais do pai. Daquela surra e daquele



sonho em diante, ele tornar-se-ia uma pessoa cada vez mais bem
resolvida com relao  sua orientao sexual. Nem ligava mais
para os comentrios maledicentes do pai.
No tocante  homossexualidade, o assunto j havia batido na porta
da famlia, alguns anos atrs. Houve a histria envolvendo o irmo
de Otvio, cujo desfecho terminara numa tragdia.
Roberto pensou em dar cabo da prpria vida, mas uma fora maior
o segurou e o sustentou. E, no fim das contas, ele no queria
terminar sua vida como esse tio, que tambm fora gay.
Eliana estava sabendo das bebedeiras do pai e conversara com
Alaor, seu marido, sobre a possibilidade de o irmo ir morar em
definitivo com eles. Ela tinha certeza de que Roberto no passaria
no vestibular. A escola em que ele ia se graduar no era l to boa
assim. E, de mais a mais, era muito jovem e um ano mais de
cursinho no iria lhe atrapalhar em nada os planos de se tornar
mdico.
Alaor aparentava, ou melhor, fingia ser timo marido. Esforava-se
para entender a preocupao da esposa e concordara meio a
contragosto, em abrir sua casa para o cunhado. Ele no gostava de
Roberto, achava-o uma aberrao da natureza, mas no podia
contrariar a esposa. Ele queria manter as aparncias. Esforava-se
para manter tom natural na voz quando disse:
 Todavia, temos de fazer algumas reformas na casa. Podemos
transformar a edcula dos fundos numa sute e assim seu irmo
ter total privacidade  ponderou.
 Obrigada  suspirou Eliana, feliz.
 No usamos aquele espao mesmo.
 Se eu no tirar meu irmo daquela casa, creio que meu pai
possa cometer maiores desatinos. Ou at mesmo meu irmo.
Temo que Roberto faa alguma besteira.
 Ns iremos ajudar seu irmo no que for preciso. Por que no
conversa com seu pai?
 Impossvel manter conversa com papai. Ele mudou muito nos
ltimos anos. Fora um pai amoroso, porm sempre um tanto
distante. Parecia-me sempre que tinha medo de extravasar seu
amor por ns.
 Seu pai tem seu jeito prprio de ser.



 Sim. Cada um  nico, mas o seu comportamento com Roberto
me assusta. No tolero violncia. Imagine se um dia eu levantaria a
mo para a Rafaela! Nunca.
 Fazemos parte de outra gerao. Somos mais esclarecidos e
mais maleveis na educao de nossa filha. Seu pai no teve
muitas escolhas. Faz parte de uma poca em que um filho era
criado na base do tapa para entrar nos eixos.
 Papai nunca bateu em mim nem em Ricardo.
 Os filhos so diferentes. E, c entre ns, Roberto s vezes at
que merece.
Eliana no continha o estupor.
 Como se atreve?
 Seu irmo  diferente, s isso.
 Por caso ser homossexual  crime?
 No foi isso que quis dizer.
 Foi sim.
Alaor precisava contornar a situao. Ele sabia que Eliana no
admitia que falassem mal do irmozinho afrescalhado. Ele tinha de
manter a boca mais fechada. O casamento estava se arrastando e
ele no queria criar mais tenso na sua relao com a esposa.
Procurou mudar o rumo da conversa.
 Desculpe meu tom.  que eu entendo seu pai. S isso.  E
antes que ela pudesse responder, Alaor sacou nova pergunta, para
desviar a mente da esposa:  Seu Otvio anda bebendo muito?
 Entregou-se  bebida. Mal se mantm em p.
 Converse com sua me.
Eliana esboou um sorriso amarelo.
Minha me no tem opinio. Creio que ns teremos de conversar
com Roberto e lhe propor que venha para c. Ricardo poder
ajudar no pagamento das mensalidades do cursinho e ns lhe
daremos casa e comida. E muito carinho  finalizou, emocionada.
Alaor assentiu com a cabea e estreitou a cabea dela em seu
peito.
 No acha que seu irmo pode se dar muito mal aqui na cidade?
 Por que pergunta isso?
 Ele tem esse jeito diferente, bem, sabemos que ele no gosta de
meninas. E esta cidade est cheia de antros e guetos infestados
desse tipo de gente. O veado faz parte de uma raa vingativa e
hostil. So pessoas marginalizadas e cheias de dio no corao.



Eliana desvencilhou-se dos braos do marido. No podia acreditar
no que estava ouvindo.
 Como pode dizer uma coisa dessas?
 Teremos de manter vigilncia cerrada em cima do Beto, s isso.
 Cr que meu irmo, somente pelo fato de ser homossexual, seja
um marginal? Por que essa mania de achar que todo gay  ruim?
 No...
Eliana no cabia em si tamanha a ira. Falar mal de Roberto feria-
lhe a alma.
 Voc est sendo preconceituoso.
Alaor precisava desconversar, pois no estava gostando nem um
pouco do rumo que a conversa estava tomando. No suportaria
outra discusso.
 Voc no entende o que falo. Defende seu irmo com unhas e
dentes. S no quero que ele se perca na vida. Ele  garoto, 
novo, sabe que pode cair em tentao e seguir facilmente para o
mau caminho.
 Meu irmo  ntegro, tem bom corao. No creio que se
enverede por um caminho torto.
Alaor riu com desdm.
 Para que caminho torto se Roberto j  torto?
Eliana no se conteve e, quando percebeu, sua mo j havia
descido sobre uma das faces do marido. Alaor passou a mo sobre
a face avermelhada. E era isso que ele queria, de maneira
inconsciente.
 Nunca mais encoste o dedo em mim, pois da prxima vez voc
vai se ver comigo.
 Desculpe.
 E ainda defende a no-violncia?
 No foi por mal. Voc desrespeitou meu irmo.
 Se continuar defendendo seu irmo e batendo no marido, vai me
perder.
 Estamos vivendo uma rotina sem igual. Ambos andamos
estressados. Vamos dar uma volta, tomar um sorvete, comer uma
pizza.
 Eu vou, mas sem voc.
Alaor falou, rodou nos calcanhares, passou pelo hall. Pegou as
chaves do carro e, quando saiu, bateu a porta de casa com fora.



Rafaela comeou a chorar no quarto. Eliana ainda estava aturdida
com toda a desarmonia que ali se instalou.
Dalva, uma empregada morena, de estatura baixa e encorpada, de
corao bonssimo, aproximou-se.
 Eu escutei tudo, querida. Fique aqui na sala, recomponha-se. Eu
subo e fao Rafaela dormir de novo. A pequenina deve ter se
assustado com o barulho da porta batendo.   Obrigada, Dalva
 respondeu Eliana, envergonhada.
A empregada subiu e logo o silncio se fez. Alguns minutos depois
Dalva desceu.
 Rafaela voltou a dormir. Parece um anjinho.
Eliana sorriu.
 Que bom. Espero que ela no tenha escutado. Embora
pequena, fico com medo de que ela se impressione negativamente
por conta dessas discusses.
 Ela no percebeu nada. Sabe que  muito amada.
Eliana abaixou a cabea e as lgrimas comearam a correr.
 No sei o que fazer Dalva. Alaor est ficando cada vez mais
estpido. Nosso casamento no vai bem h muito tempo.
 Eu percebi. Estou nesta casa desde que Rafaela nasceu. 
gritante a mudana de comportamento e de tratamento de seu
marido.
 Eu me casei porque gostava dele. Alaor era divertido,
brincalho, inteligente, boa companhia.
 Pareceu-lhe o marido ideal.
 Sim.
 Desculpe me intrometer, mas voc o ama?
Eliana mordiscou os lbios.
 Confesso que no.
 Nem quando o conheceu?
 Preciso ser sincera com voc e, acima de tudo, comigo mesma.
Eu nunca amei Alaor de fato. Eu simpatizei com ele, tnhamos
afinidades. Talvez isso seja amor, no sei ao certo. Eu cresci lendo
romances e idealizando uma fantasia de amor, acreditando que um
dia o prncipe encantado apareceria e me levaria montada em seu
cavalo branco, para seu castelo.
Dalva sorriu.



 Todas ns sonhamos com prncipes, cavalos brancos e
castelos. Mas o amor existe, mesmo sem todo esse cenrio
romntico que idealizamos.
 Acredita no amor?
 Sim. E voc ainda vai sentir esse sentimento.
 Do jeito que anda nosso casamento, no creio que esse seja o
sentimento que vou ser capaz de nutrir por Alaor.
 A gente nunca sabe quem poder aparecer no nosso caminho.
 Por que diz isso?
Dalva levantou-se e, enquanto caminhava para a cozinha, tornou:
 Vou lhe fazer um ch de cidreira para tomar antes de se deitar.
Pelo jeito, seu Alaor no vai chegar to cedo.
 Dalva, o que voc disse sobre meu caminho?  perguntou
intrigada.
 A vida nos arma muitas ciladas. A gente nunca sabe quem vai
aparecer e bater na porta de nossa casa amanh.
 Novamente eu cairia no sonho de amor. Preciso melhorar meu
jeito de ser. Eu provoquei a briga. No deveria ter dado um tapa na
cara dele.
 Quem foi que lhe disse que o seu futuro  mesmo ao lado de
Alaor?
Dalva entrou na cozinha e Eliana continuou sentada no sof.
Achava que sua vida estava acabada, que ela havia se casado e
que agora deveria carregar esse casamento at o fim, mesmo sem
amor. Depois de ouvir as palavras de Dalva, era como se um sopro
de nimo e de dias melhores acalentasse seu corao.
Eliana abraou-se a uma almofada e esboou lindo sorriso.

Captulo 5

Roberto estava ansioso e contando os dias para terminar o ano
letivo. Havia fechado todas as matrias, mas tinha de ir  escola

para

no

estourar

nas

faltas.

Ultimamente

pensava

na

possibilidade de ir para So Paulo, porquanto Eliana lhe contara
que havia conversado com Ricardo e ambos iriam ajud-lo a sair
de casa. Ela lhe oferecia casa e comida. Ricardo pagaria as
mensalidades do cursinho.
 Deus queira que essa possibilidade se concretize!
Roberto falou e o telefone tocou.



 Eliana. Que bom ouvir sua voz!
 Estava com saudades.
 Eu tambm.
 Tenho novidades para voc.
 No me diga que...
Eliana assentiu com a cabea do outro lado da linha e completou:
 Seu sonho de morar comigo vai se tornar realidade.
 Mesmo?
 Alaor concordou em fazer reformas na edcula. At o incio do
ano tudo estar pronto.  No quero atrapalhar sua vida de
casada.
 Jamais vai me atrapalhar. A sua vinda para c vai me fazer um
bem danado. Na verdade  ela baixou o tom de voz  eu e Alaor
no estamos passando por uma boa fase no casamento.
 Ha algo que eu possa fazer?
 Aprontar as malas, empacotar seus discos e contar os dias!
Roberto sentiu alegria indescritvel.
 Se no fosse voc e Ricardo, no sei o que seria de minha vida.
 Sorte sua ter irmos como ns, que o amam e o aceitam como
.
 Quer saber? No vejo mesmo a hora de sair daqui. Por mais
que tente, papai no me dirige a palavra. Mame, bem, voc sabe,
sempre permanece quieta, sem voz, sem se posicionar.
 Sinto que voc precisa mesmo sair da.
 Obrigado, minha irm. Sei que seu casamento no vai muito
bem, mas desejo do fundo de meu corao que tudo se resolva.
Quero que seja muito feliz!
Ambos desligaram o telefone, emocionados. Eliana e Roberto
tinham profundo carinho um pelo outro. E ele percebia o esforo da
irm e do irmo em tir-lo daquela casa. Efetivamente no dava
mais para viver no mesmo teto com seu pai.
Roberto afastou os pensamentos desagradveis e lembrou-se de
quando fora uma nica vez a So Paulo. Alaor conseguira trabalho
numa instituio financeira estrangeira com sede na capital. Ele e
Eliana iriam se casar em Jundia, mas em seguida mudariam para
uma casa que os pais de Alaor deram de presente ao casal, num
bonito e tranqilo bairro habitado pela alta classe mdia paulistana.
Eliana, dotada de extremo bom gosto, mobiliara lindamente a casa
e levara Roberto para ajud-la a desembrulhar os presentes do



casamento. O rapaz tinha ficado maravilhado com o sobrado
espaoso e ajardinado. Encantara-se com o bairro, com a
vizinhana, com as ruas arborizadas e floridas. A cidade era
grande, parecia ter muitas coisas interessantes para fazer e, o
melhor de tudo, tinha vrias discotecas e cinemas para freqentar.
O rapaz, depois que desligou o telefone, correu para contar a
novidade para Helena. Ela j havia sido informada por Ricardo e
Eliana de que queriam o irmo caula estudando na capital e no
se opusera. Muito pelo contrrio, sentiria certo alvio ao perceber
que o garoto no viveria mai sob seus cuidados. Ela acreditava ter
falhado como me. E via essa mudana como algo positivo.
 Vou sentir sua falta. Voc  meu brao direito.
 Preciso pensar no meu futuro, me.
Helena foi at uma das estantes da cozinha e pegou um pote. Dele
tirou umas notas de dinheiro.
 Tome.
 Para qu?
 Hoje  um dia muito especial para voc. V tomar um sorvete,
dar uma volta ou mesmo comprar um disco.
Roberto beijou-a na testa.
 Obrigado.
Ele mal falou e saiu em disparada para a rua. Pensou em ir a uma
loja no distante de sua casa e comprar o disco do filme Grease 
Nos tempos da brilhantina. Nem tirou os chinelos de dedo. Estava
de shorts e camiseta.
 Vou assim. Um pulinho at a loja e volto para ouvir meu disco.
O rapaz ganhou a rua, dobrou a primeira esquina e sumiu. Ao
dobrar a terceira quadra depois de sua casa, aconteceu o
inesperado. Roberto arregalou os olhos e encostou o corpo no
muro logo atrs, para no cair, tamanho o susto.
 Oi, veadinho.
Ele no respondeu.
 Alm de bicha tambm  surda?
 Ah?
 Vou repetir. Oi veadinho.
 O... Oi.
 Vai aonde?
 No interessa.



 Hum, a bichinha est bocuda, falando num tom que no estou
gostando.
 Por favor, deixe-me em paz. Denis sorriu de maneira perversa.
 No sem antes fazer algo que quero  ele falou e meteu a mo
por dentro da cala.  J sabe o que quero.
Roberto fez um esgar de incredulidade.
 No!  gritou.
 Calma.
 No vou fazer nada. Voc no pode me obrigar.
 Como no? Voc tem uma mo muito macia.
 Por favor, eu suplico, deixe-me em paz.
Antes que ele terminasse de falar, Denis levou os dedos  boca e
assoviou. Logo dois rapazes bem fortes e mais velhos apareceram.
 Ele disse que no quer nada  desdenhou Denis.  Vocs no
esto com vontade de se divertir com a Mariquinha?
 Estamos  disseram os dois brutamontes.
 Ento vamos fazer a festa. Aqui est o brinquedo  apontou
para Roberto.
O menino no teve tempo de correr nem de se defender. Os
rapazes o puxaram com fora e o meteram dentro de um fusca,
estacionado ali na calada. Denis sorriu maliciosamente. Estendeu
a mo a um dos rapazes e lhe deu algumas notas.
 Aqui est o dinheiro que lhe prometi.
 Valeu cara. Pode deixar que a gente vai cuidar direitinho do
menino.
Denis acenou para Roberto, rodou nos calcanhares e logo
desapareceu na curva.
Um dos rapazes pegou no volante, deu partida e saiu com o carro
cantando pneu. S restava a Roberto orar. Pediu com tanta fora,
orou com tanta vontade, que foi atendido. Gina, do plano espiritual,
escutou seu pedido e imediatamente lhe enviou vibraes de luz do
local onde ela estava. Roberto foi tomado por uma fora estranha e
sentiu o medo se dissipar. Afirmou para si, com convico:
 Sou amado e protegido por Deus!
Num dos cruzamentos, o sinal vermelho obrigou o carro a diminuir
a marcha. O rapaz no volante passava a lngua pela boca,
antegozando o momento em que iria botar as mos naquele
menino delicado na aparncia, porm com um corpo bem



interessante. O outro rapaz se comprazia com os movimentos que
obrigara Roberto a lhe fazer nas genitlias.
Roberto estava de olhos fechados. Sentia nusea por estar sendo
forado a uma situao to humilhante. Foi nesse momento que
ele vestiu-se de coragem. Assim que o carro parou, ele no pensou
duas vezes. Amparado pelas foras espiritual superiores, Roberto
estufou o peito, abriu os olhos injetados de fria. Apertou o membro
do rapaz ao lado com tanta fora que ele uivou e chorou de dor.
Enquanto o motorista tentava concatenar os pensamentos, Roberto
empurrou o banco para frente e desferiu um tapa na cara do outro
moleque. Em seguida, girou a maaneta e saiu em disparada.
Um policial aproximou-se do veculo e os rapazes, assim que o
sinal ficou verde, decidiram abortar o plano e ir embora.
Roberto correu o mais que pde. Quando sentiu dor no lado direito
do ventre, resolveu parar. Estava cansado, arfante, mas, por outro
lado, sentia-se um vencedor. Havia driblado a situao, havia se
safado dos brutamontes. Ele respirou fundo e tentou acalmar-se.
Pelo menos no sofrera nenhum tipo de abuso. No suportaria ser
molestado por aqueles dois brutamontes.
Intimamente ele agradeceu a Deus e sentiu uma leve brisa tocar-
lhe o rosto. Depois, entrou num bar. Pediu um refrigerante. O
atendente do bar abriu a garrafa e colocou-a na sua frente.
 Quer copo ou canudinho?
 Um copo, por favor.
Roberto pegou a garrafa e, com as mos trmulas, tentava acertar
o lquido dentro do copo. Depois, com dificuldade conseguiu levar o
copo  boca.
No outro lado do balco, uma simptica mulher, perto dos
quarenta, muito bem vestida, encarou-o de soslaio. Em seu ntimo
ela percebeu que Roberto estava agitado. Notou suas mos
trmulas e o rosto plido. Aproximou-se e, com delicadeza na voz,
perguntou:
 Est perdido?
Ele no respondeu.
 Aconteceu alguma coisa?
 Estou bem.
 No parece.
 Passei por um aperto agora pouco, mas estou bem.



O jeito de ele falar a encantou. A firmeza na voz do menino no
condizia com sua aparncia delicada.
 Voc me parece um rapaz de opinio.
 Digamos que sim.
Ela estendeu a mo.
 Prazer, meu nome  Leila.
Ele a cumprimentou e sorriu.
 Prazer, o meu  Roberto, mas tambm me chamam de Beto.
 Posso ficar sentada ao seu lado aqui no balco?
 Sinta-se  vontade. Quer beber o qu?
 Um guaran.
Beto pediu ao rapaz atrs do balco. Estava mais calmo, o susto
havia passado. E a firmeza tambm. Imediatamente ele se lembrou
dos brutamontes, do sorriso sarcstico de Dnis e seus olhos
marejaram.
 Por que tem de ser assim, meu Deus?  perguntou para si.
Leila percebeu que o semblante dele havia mudado. Roberto
estava com um ar diferente, mais pesado, sisudo.
 O que foi? Voc est com uma cara...
Ele no teve tempo de responder. Virou-se abruptamente e
abraou-se a ela, com tanta fora e tanto desespero, que ela
tambm o abraou. O menino caiu num pranto sincero.  Chi! No
fique assim. Estou aqui para ajud-lo.
Ele continuava chorando.
 O que aconteceu?
 Eles quiseram me pegar.
 Mas no pegaram.
 Hoje. E amanh?
 Ningum vai peg-lo.
 Eles me do medo. Ser que terei sempre de fugir?
 Estou aqui e ningum vai machucar voc. Confie em mim.
Roberto fez sinal afirmativo com a cabea e continuou abraado a
ela, sentindo o calor de seu corpo, segurana e proteo. Nunca
havia visto aquela mulher em sua vida, contudo, ela lhe transmitia
uma paz, uma calma, uma bondade que nem mesmo sua prpria
me tinha sido capaz de lhe transmitir. Alis, esse era o tipo de
abrao e carinho que esperava sentir de sua me e nunca sentira.
Ficou por alguns instantes sentindo o calor que emanava do corpo
de Leila.



Ele afastou-se, esfregou o nariz.
 Nossa, ao abraar voc senti um calor to gostoso!
 Eu tambm  disse ela, emocionada.  Aquele abrao fez
Leila lembrar-se do passado. No momento precisava espantar
esses pensamentos. Simpatizara com o garoto to logo seus olhos
se cruzaram.
 Quantos anos voc tem, criana?
 Dezessete. Vou completar a maioridade logo, logo.
 Aparenta bem menos. Pensei que tivesse uns quinze, no
mximo.
 , eu aparento menos idade. Quero que os dezoito cheguem
logo.
 Por qu?
 No consigo nem driblar o lanterninha no cinema. No com essa
cara.
Ela sorriu. Seus dentes perfeitos e alvos a tornavam mais bonita e
simptica.
 Melhor assim. Daqui a alguns anos, voc vai agradecer por
aparentar menos idade.
 E voc, quantos anos tm, Leila?
 O suficiente para entender que voc quase se meteu em
encrenca e precisa de uma amiga como eu.
 Eu no queria e eles me foraram.
 Foraram a qu?
O rosto de Roberto ficou vermelho num instante. Leila era uma
mulher experiente, aprendeu a ser forte com a vida dura que tivera
e, de cara, entendeu o que havia acontecido. A fragilidade e
delicadeza do rapaz eram facilmente notadas e ela perguntou com
carinho:
 Tentaram molest-lo?
Roberto fez sim com a cabea.
 Conseguiram?
 No.
Ela fez o sinal da cruz.
 Graas a Deus!
 Nem sei explicar como consegui me livrar. Fui tomado por uma
fora descomunal. De repente, numa questo de segundos, eu
consegui me livrar dos dois.



Roberto contou como havia conseguido se livrar dos brutamontes e
Leila riu satisfeita.
 No poderia ter sido mais ousado. Voc foi brilhante, criana.
 E assim vim parar aqui neste bar.
 timo. Foi  maneira que a vida encontrou para que tivssemos
a chance de nos conhecer.
 Acha mesmo?
 Sim.
 Por que diz isso?
 Porque a vida nunca une as pessoas ao acaso, est sempre nos
trazendo uma lio, um aprendizado.
O garoto pensou por instantes e bebericou um pouco de
refrigerante. Suas mos no estavam mais trmulas. A cor do rosto
voltara ao normal. Sentiu at vontade de pedir uma coxinha de
frango, no balcozinho de vidro a sua frente. Pediu e deliciou-se
com o salgadinho. Enquanto comia com prazer, replicou:
 No sei o que quis me mostrar com esses brutamontes.
Brincadeira de mau gosto da vida, isso sim.
Leila sorriu e passou a mo pelos cabelos anelados do rapaz.
 Tem senso de humor, isso  bom. A presena do humor torna a
nossa vida menos dramtica. Mas, voltando aos sinais que a vida
nos d, ao aprendizado que ela quer nos trazer, penso que no seu
caso, em particular, o sinal  bem claro.
 Qual?
 Voc precisa aprender a se defender.
 Mas eles so mais velhos, mais fortes.
 O mundo  dos fortes.
 Eu no sou forte.
 No adianta querer que tudo seja diferente, ou mesmo do jeito
que voc imagina ser.  Quer dizer que sempre vou apanhar do
mais forte, vou sempre sofrer porque h algum mais forte que eu?
 Sim  rebateu Leila, com docilidade na voz.  Bem vindo ao
mundo.
 No acho justo.
 No  uma questo de justia, minha criana, mas de realidade.
O mundo  dos fortes. Os fracos no sobrevivem.
At o mundo animal  assim, somente os fortes  que se mantm.
 No me considero um fraco. Entretanto, tambm no me sinto
forte para combater esses brutamontes.



 No interessa. Voc no veio assim ao mundo  toa.
 Assim como?
 Ora  tornou Leila  voc tem dezessete anos. Sabe do que
estou falando.  um menino diferente, sente-se esquisito, no deve
ter muitos amigos homens. E, para finalizar  ela baixou o tom e a
voz  no gosta de meninas.
Roberto arregalou os olhos.
 Est to na cara assim?
 Est.
Eles riram.
 Nasci assim.
 Isso no  vergonhoso.
 Meu pai diz que . Chama-me de anormal, de bichinha.
 Seu pai est enganado. Diz isso porque no sabe lidar com as
diferenas.
 Ele sempre joga na minha cara que sou um erro da natureza.
 No   toa que a vida lhe deu um filho diferente do padro, um
filho que a sociedade julga ser anormal.
 Mas no conheo outro como eu. Sinto-me o nico no mundo.
Leila riu com gosto.
 Existem muitos outros que sentem o mesmo que voc. Um
monte  juntou os dedos.
 Um monte? Igual a mim?
 Por certo.
 Eu no vejo isso na televiso, no escuto no rdio, no leio nos
jornais. Pelo contrrio, s vejo desgraa quando o assunto 
homem com... Homem.
 Est enxergando de maneira equivocada.
A sociedade afirma que o certo  menino com menina, homem com
mulher. Minha irm Eliana muito tem me ajudado. Ela conversou
com mdicos l na capital e tem me encorajado a me aceitar como
sou. Mas fica difcil, porque eu no vejo os outros como eu. No
tenho referncias.
 Sua irm est certa. Voc no pode dar ouvidos ao mundo.
Precisa sim, dar ouvidos aos anseios de sua alma.
  difcil. Sempre ouo que a sociedade no tolera a
homossexualidade.
 Isso  o que a sociedade diz ser errado. Entretanto, como acatar
certo tipo de tendncia como normal, se a dentro  ela apontou e



encostou a mo delicadamente no peito dele  voc sente
diferente dos demais?
 Como mudar?
 No h o que mudar.
 No quero mais ser xingado na rua, no quero mais ser
apontado como uma bichinha.
 Voc no vai mudar aquilo que sente. Sua essncia  essa, ou
seja, voc gosta de pessoas do mesmo sexo que o seu. No
adianta, de maneira alguma, mudar sua natureza. Todavia, voc
pode mudar atitudes e posturas.
 Como?
 Voc precisa aprender a ser forte. Precisa aprender a dar valor
a si mesmo, embora a maioria das pessoas diga que voc esteja
agindo ou comportando-se de maneira errada. Voc deve estar em
sintonia total com seu corao. Precisa parar de pensar no que os
outros dizem e sentir o que realmente tem vontade de fazer.
 Essa suas palavras me estimulam a continuar lutando.
 Deixemos de lado esse tom melodramtico. Voc no precisa
lutar contra nada. Basta aceitar-se como . Aceite que voc gosta
de rapazes e procure jamais corromper sua verdade interior. No
queira forar sua natureza por conta das convenes sociais.
Uma lgrima sentida escorreu pelo canto do olho de Roberto. Ele
abraou-se a Leila.
 Esperava ouvir isso de minha me. Mas ela tem medo de meu
pai. Nunca quis conversar comigo sobre esse meu sentimento.
 No pode esperar que os outros faam o que voc tem de fazer.
Sua me tem limites e no enxerga a vida como voc.
 Ouvi uma histria atrs da porta, certa vez. Meu pai tinha um
irmo assim como eu, creio. Ele se matou porque no suportou o
peso de ser homossexual, eu acho...
 Infelizmente, muitos gays cometem suicdio porque se sentem
injustiados pela vida.
 E no so?
 Cada um  responsvel por si.
 Acredita que isso seja gentico?
 No. Acredito que a gente venha ao mundo para ser feliz. Mais
nada.
 Nunca tive o apoio de ningum. Quer dizer, minha irm, Eliana,
sempre me entendeu. Meu irmo, Ricardo, embora vivendo longe



de casa, tambm me trata com carinho e respeito. Ambos me
aceitam como sou.
 A vida o amparou com irmos que o respeitam e o admiram e
que o aceitam como voc . Nem todas as famlias so assim. E
agora voc tambm tem uma amiga para ajud-lo.
 Obrigado, Leila.
Roberto demorou a terminar seu refrigerante. Queria ficar mais
tempo ao lado de Leila. Ela percebeu a ansiedade do menino e
indagou, num tom natural.
 O que pretendia fazer quando foi abordado na rua?
 Ia comprar um disco.
 Eu tenho uma grande coleo de discos na minha casa. De

filmes,

de

novelas,

de

cantores

e

cantoras

nacionais

e

internacionais.
Os olhos de Roberto brilharam de felicidade.
  mesmo? Voc tem tudo isso?
 Sim.
 Um dia voc me mostra?
 Gostaria de ir at minha casa? Tem tambm bolo de chocolate e
guaran. Podemos conversar mais um pouco e nos conhecer
melhor.
 Eu adoraria.
Leila sacou o dinheiro da carteira e pagou a conta. Saram do bar e
dobraram a esquina, em direo a casa dela, no muito distante
dali.
Ela sentiu forte vontade de se aproximar mais de Roberto. O seu
desejo materno voltou com fora e ela viu no menino a
possibilidade de extravasar todo o amor que repreendera por anos.
Leila espantou os pensamentos com as mos. Iria pensar nesse
assunto depois. Agora queria conhecer melhor esse menino, que,
se fosse um pouquinho mais velho, teria a idade de... Leila sacudiu
a cabea. E disse para si, em pensamento:
 Agora no  hora. No quero pensar nesse assunto.
Ela abraou-se a Roberto e foram conversando animadamente at
chegarem a casa dela. Era um sobrado bem jeitoso. Tratava-se
de uma construo antiga, de dois pavimentos. Na frente da casa
havia um bem cuidado jardim. Mesmo no inverno, em virtude das
ondas de calor, o jardim mantinha-se florido. Um cachorrinho,
Cocker spaniel, de pelugem caramelo, correu saltitante at ela.



 Meu beb. Sentiu saudades da mame?
O cachorrinho latia de felicidade e lhe lambia o rosto. Em seguida
atirou-se sobre Roberto e fez o mesmo.
 Ele gostou de voc  afirmou Leila.
  o que parece.
 Sinal de que voc  uma boa pessoa.
 Adoro cachorros.
 E por que no tem um? Os bichos nos ensinam a sermos mais
dceis e mais amorosos com ns mesmos e com os outros ao
nosso redor.
 Meu pai diz que  coisa de gente fresca. E que cachorro d
muito trabalho.
Leila suspirou.
 Vamos entrar. Rex est feliz com nossa presena.
 Nome comum demais para cachorro.
 Eu sempre quis ter um cachorro com esse nome. A maioria dos
cachorros nas fitas americanas tem o nome Rex.
 Tem razo.
 Voc tem preferncia por algum estilo musical?
 Adoro msica. Mas tambm adoro filmes. Procuro ser rpido
depois do almoo. Ajudo minha me na cozinha e corro para
assistir aos filmes antigos na televiso.
 Pena que muitos clssicos no passam mais.
 Mesmo assim me contento com os filmes da Sesso da Tarde.
 Voc fala algum outro idioma?
 Estudei ingls no colgio. Entretanto, aprendi bastante com as
msicas americanas. Posso garantir que sei me virar muito bem.
Por que a pergunta?
 Porque eu tenho algumas fitas antigas, quer dizer, alguns
clssicos aqui em casa e poderamos assistir. Mas os filmes so
importados, portanto no tm legenda.
 Adoro assistir aos filmes de rolo. Na escola eles passavam e...
Leila o interrompeu.
 No. Aqui  tudo moderno. J ouviu falar em videocassete?
 J. Vi uma matria num programa de televiso. Os aparelhos
vo chegar em breve aqui no pas.
 Eu j tenho um.
 Verdade?



 Hum, hum. Uma conhecida trouxe um aparelho dos Estados
Unidos. Se quiser, podemos assistir a um filme.
Roberto sorriu satisfeito. Horas atrs pensou que sua vida fosse se
transformar em novo inferno. Entretanto, conseguira se livrar
daqueles brutamontes e conhecera uma pessoa que,  primeira
vista e de maneira natural, entendia-o e aceitava-o do jeito que era.
O rapaz esboou novo sorriso e agradeceu por estar e por se sentir
amparado na casa de Leila.
A alguns metros de distncia, Dnis, que os tinha observado sair
do bar at entrarem na casa de Leila, estava fulo da vida. Havia
combinado com os dois amigos de darem um susto em Roberto e,
na hora em que ele estivesse pronto para ser devorado por aqueles
abutres, ele sentiria o gosto da vingana. Mas de que vingana?
Dnis no conseguia explicar, mas desde que conhecera Roberto
na escola e percebera seu jeito, digamos, delicado, passou a
azucrinar a vida do menino. Afinal de contas, tudo no passava de
uma grande defesa. Dnis sentia tambm gosto por meninos e
demoraria em aceitar essa verdade. Roberto era como se fosse
sua imagem refletida num espelho. E Dnis no suportava olhar
para esse espelho.

Captulo 6

Cludio  por extenso Cludio Ramos Beneducci  era filho de
imigrantes italianos que chegaram ao Brasil durante a Segunda
Guerra Mundial. Seus pais j eram casados na Itlia e tinham dois
filhos quando a guerra eclodiu. Deixaram tudo para trs e vieram
para c com uma mo na frente e outra atrs. Arregaaram as
mangas e trabalharam dia aps dia numa fazenda de caf na
regio do Vale do Paraba. Passados alguns anos, seu pai
transformou-se em comerciante, comeou a ganhar dinheiro e a
famlia veio para a capital. Logo depois nasceu Cludio. Um
menino muito bonito e inteligente.
Desde cedo Cludio questionava os valores da igreja, os dogmas
religiosos. Era uma criana que estava sempre com um por que na
ponta da lngua, pronto para ser disparado. Estava sempre  cata
de explicaes acerca de tudo, principalmente acerca da vida e das
foras que regem o universo.



Cludio graduou-se em economia e trabalha na diretoria de um
banco estrangeiro, com sede no centro da cidade. O rapaz nunca
se enamorara por ningum, nunca se apaixonara de verdade. Saa
de vez em quando, mais para satisfazer seu instinto do que buscar
um grande amor.
A afinidade entre ele e Srgio crescera a ponto de algumas
pessoas sentirem inveja dessa amizade to bonita e to sincera.
Cludio dava de ombros e no acredita que a fora do mal pudesse
atrapalhar sua vida, ou mesmo sua amizade com Srgio.
Seus pais sabiam de sua orientao, mas preferiam no tocar no
assunto. Cludio era maior de idade e independente.
Faziam vistas grossas quando ele levava algum amigo para passar
uns dias no apartamento de praia da famlia.
Na semana entre o Natal e o Ano-Novo, Cludio convidou Srgio
para passarem o rveillon juntos, no Guaruj, onde seus pais
tinham uma linda cobertura com vista indevassvel para o mar.
 Meus pais vo ficar em casa e meus irmos no querem ir 
praia. Vou fazer uma reunio para poucos amigos.
 Sabe que no gosto muito de praia cheia, lotada. O que posso
fazer  ir no dia 31 e voltar no dia seguinte.
 No tem graa  protestou Cludio.  Voc  como um irmo
para mim. Aproveite que est de frias e fique comigo uma
semana. Prometo que a gente volta rpido e eu dirijo.
 Dessa forma o convite se torna irrecusvel  ponderou Srgio.
 Aceito.
 Voc vai comigo no dia 30. Eu j falei com papai e ele mandou
que limpassem o apartamento. Uma das empregadas de casa vai
para l e assim ficaremos na maior mordomia.
 Quem voc vai chamar?
 Pessoas amigas. Gente legal. Talvez umas trs ou quatro. Um
casal que trabalha no banco, mais uma amiga de infncia. Talvez
algum outro amigo.
 Podia chamar o Vicente e...
Cludio meneou a cabea para os lados, negativamente.
 No quero.
 At agora no entendo por que tanta implicncia com o Vicente.
Ele at que beija bem.
 Pare com isso, Srgio. H certas coisas na vida que a gente no
tem como explicar. No se trata de repulsa e eu no vou julgar



ningum. No estou afirmando que Vicente seja boa ou m
pessoa. Eu no simpatizo com ele.
 Fala com tanta propriedade!
 Carlos e ele j foram namorados.
 Ele namorou o Carlos?
 Sim. E Carlos me disse que Vicente  muito galinha, pula de
galho em galho. Para que se envolver com algum assim, ainda
mais voc que chama tanto a ateno e  paquerado a torto e a
direito?
 Ele me parece ser um rapaz frgil, carente de afeto e de
ateno.
 E voc vai ser o homem que vai ench-lo de carinho e afeto e
vai ganhar o diploma de namorado do ano? Ou melhor, namorado
do sculo?
 No sei,  que...
 Nem quero que continue. Voc  homem bonito, bem situado na
vida. Poderia estar namorando algum que pelo menos fosse fiel.
Fica sempre atraindo essas pessoas complicadas na sua vida. Por
qu? Ainda quer se punir por ser gay?
 No  isso.
 Pois para mim parece que  sim  rebateu Cludio.  Parece
que voc no se aceita, no engole o fato de ter nascido gay.
 Confesso que se eu tivesse gosto por mulheres tudo seria
diferente, seria menos pesado. No  fcil ser homossexual. Ter de
mentir, inventar namoradas, chamar uma amiga para ir  festa de
fim de ano do colgio a fim de no levantar suspeitas...
 Voc se incomoda demais com o que os outros pensam.
 Sou professor. Tenho minha reputao a zelar.
 Para incio de conversa, no gosto nem mesmo dessa palavra.
Reputao, j tem palavro no meio.
Os dois riram.
 Voc tem de se dar o respeito, Srgio. No digo que precise
levantar bandeira e sair gritando aos quatro cantos do mundo que 
gay e que o mundo tem de engoli-lo assim e assado. Nada disso.
 Mas...
 Nada de, mas... Precisa respeitar a si mesmo. Respeitar a si e
aos outros. Todavia, precisa se bancar, no pode deixar se
corromper pelos valores contaminados da sociedade.



 No sei ao certo.  muito duro para mim. Eu sou homem, gosto
de me sentir homem. Visto-me como tal.
 E o fato de sentir atrao por outro semelhante o atormenta
tanto assim?
 As pessoas tm uma idia equivocada do que seja ser
homossexual. Acreditam que usamos batom, que nos travestimos e
que falamos como se tivssemos um saco de gatos na boca. E que
somos todos, sem exceo, um bando de pervertidos.
 A sociedade tem uma maneira equivocada de nos ver. Isso faz
parte do nosso aprendizado.
 Ora, que aprendizado?
Cludio fez sinal para o garom, e pediu mais duas tulipas de
chope. Srgio acendeu um cigarro e ofereceu outro para o amigo.
 Obrigado.
 Explique-me melhor tudo isso...
  algo que sinto aqui  apontou Cludio para o prprio peito. 
Creio que viemos ao mundo para experimentar, trabalhar com
nosso orgulho, com nossas emoes.
 No sou orgulhoso.
 A partir do momento que voc d mais valor aos outros do que a
si mesmo, isso para mim  sinal de orgulho, num grau bastante
elevado.
 Voc se sente bem sendo assim?
 Quer saber se me aceito do jeito que sou?
 Isso mesmo.
 Sim. Estou em paz comigo. Desde cedo eu me questionei a
respeito de minha homossexualidade. Por que vim assim ao
mundo?
 E chegou a alguma concluso?
Cludio deu uma tragada no cigarro e fitou o nada. Em instantes
soltou a fumaa pelas narinas e respondeu.
 H vrias consideraes a serem feitas. Primeiro vem o
preconceito. Quem sofre assim na prpria pele  capaz der
entender todo tipo de preconceito. Eu e voc ainda conseguimos
manter as aparncias, se quisermos. E aqueles que por natureza
demonstram certa fragilidade, so mais sensveis e tm posturas
mais delicadas?
 Sofrem mais.



 Sofrem porque acreditam que nasceram com defeito de fbrica.
Em vez de darem valor a si prprio, preferem acreditar naquilo que
os outros dizem. Por tudo isso, estou sempre ao meu lado, no
importa o que acontea.
 Mesmo que voc erre?
 Sim. Eu me perdo por errar. E encaro os erros como
experincias para que eu melhore cada vez mais, como pessoa,
cuidando melhor de mim e respeitando mais os outros a minha
volta. O mundo pode estar contra mim, pode virar-me as costas,
mas eu nunca posso me abandonar. Consegue compreender que 
algo mais forte que a minha prpria vida?
 Entendo. Todavia, no consigo pensar como voc, amigo. No
me aceito assim.
Cludio pegou sua tulipa e bebericou seu chope. Em seguida
estalou a lngua no cu da boca, como de costume.
 Voc escolheu vir assim ao mundo.
 Duvido. Nunca pediria para nascer com esses sentimentos.
 Claro que escolheu. Eu tenho certeza de que somos
responsvel por tudo o que atramos na vida. Ns escolhemos
nosso corpo, nossa famlia, o pas em que nascemos, tudo por
afinidade energtica, se  que me entende.
 Acha que eu escolheria nascer veado e no Brasil?
 Sim.
 Muito fantasioso para o meu gosto. No creio que tenhamos
esse poder.
 Pois temos. Ns somos fortes. E somente os fortes  que
sobrevivem. No   toa que ainda vivemos entre guerras. Os mais
fortes derrubam e aniquilam os mais fracos.
 Dessa forma parece que voc est defendendo a guerra, a
violncia  protestou Srgio.
 Eu no estou defendendo nada. Eu no inventei a guerra, ela j
existia quando eu nasci. Faz parte do mundo. E, se faz parte, 
porque temos de aprender a ser fortes e a nos defender do inimigo.
Esse mundo em que vivemos nos fortalece nesse sentido.
 No consigo pensar como voc.
 Srgio, meu amigo, voc precisa lidar com seus fantasmas
interiores. Estamos h sculos sendo obrigados a alimentar uma
culpa imposta pela igreja. Faz quase dois mil anos que somos



tratados como preas da sociedade por sermos gays. Isso precisa
mudar, mesmo que seja pela dor.
  duro. Sinto-me abandonado, rfo no mundo.
 Existem milhares, milhes assim no mundo como voc, que
sentem como voc, que desejam o mesmo que voc.
 Talvez tudo o que voc tenha dito seja verdade.
 Em vez de trocar de parceiro como troca de cuecas e freqentar
saunas e outros lugares de sexo fcil,  melhor ir a um consultrio
e procurar um especialista teraputico. Isso sim poder ser uma
boa sada para voc.
 No sou um doente para ter de ir a um psiquiatra.
 Desculpe inform-lo  Cludio bateu levemente no ombro de
Srgio , mas seu campo emocional no est nada bem. Sua
alma est comeando a ficar doente.
Srgio nada disse. Ficou a fitar o nada por alguns instantes. De
repente, em sua mente vieram vrias cenas. Era como se flashes,
sem ordem cronolgica, passassem a torto e a direito. Veio o
primeiro xingamento de rua, as brincadeiras de mau gosto na
escola, os olhares acusadores e maledicentes dos vizinhos, a
sada traumtica de Maring, a culpa cada vez que saa com outro
homem...
Cludio o chamou para si.
 Comea a refletir sobre o passado?
 De que adianta trazer o passado  tona? Para eu me machucar
ainda mais?
 De forma alguma. Relembrar o passado talvez o torne mais
forte. Voc pode, com uma cabea melhor e emocionalmente
estvel, olhar com outros olhos para o passado e, acima de tudo
perdoar-se; afinal, voc no fez nada de errado.
 No?
Cludio sorriu.
 Enquanto voc tiver dvidas, no vai se livrar dessa culpa. Bom,

melhor

comear

a

se

escutar

e

aprender

a

se

aceitar

incondicionalmente, seja pela estrada da inteligncia ou da dor. Eu
prefiro escolher o caminho da inteligncia. No quero sofrer para
perceber o bvio.
 Qual?



 De que no importa o que digam, o que pensem ou mesmo at
que nos reprovem no comportamento. Temos de nos respeitar e ter
orgulho de ns mesmos.
A conversa flua agradvel, porm, algum tempo depois, Vicente
aproximou-se da mesa.
 Surpresa agradvel. Esto matando o tempo? No trabalham
mais?
 As pessoas geralmente trabalham at as seis da tarde. So oito
e meia da noite  rebateu Cludio, num tom rspido.
 Voc nunca se mostra simptico, no  mesmo?  indagou
Vicente a Cludio enquanto puxava uma cadeira e se sentava ao
lado de Srgio.
 S me mostro simptico queles que gosto. Eu no gosto de
voc, Vicente.
Srgio interveio.
 No precisa ser grosso.
 Eu no estou sendo grosso. Meu tom de voz continua natural.
Eu simplesmente estou sendo sincero. No suporto fingimento.
 No tem problema  aquiesceu Vicente.  Eu tambm no
simpatizo com voc, Cludio. Estamos empatados.
 E o que faz aqui? No tem outro grupinho para encher o saco?
 Eu estou tentando me aproximar do Srgio, mas voc parece
um guarda-costas. Fica colado nele. No pode desgrudar um
pouco?
Srgio procurou contemporizar. Cludio terminou seu chope e
levantou-se da mesa.
 Eu no sou obrigado a ficar sentado com quem no simpatizo.
Pode ficar com o Srgio, faa o que quiser.
 Espere a, viemos e vamos embora juntos  replicou Srgio.
 No. Fique  vontade. No adianta falar ou rogar para voc ser
assim ou assado. Voc vai ter de experimentar para tirar suas
prprias concluses em relao s pessoas que o cercam. Eu no
vou ficar aqui de anjo da guarda dizendo quem  bom e quem no
 para voc. Essa lio de casa  sua, Srgio, e no minha.
Antes de Srgio falar, um conhecido se aproximou e Cludio sorriu.
 Oi, Edu, tudo bem? Por que a pressa?
 Quero pegar a prxima sesso de cinema. A fita comea em
instantes.
 Aceita companhia?



 Claro Cludio. Vamos.
Cludio deu um tapinha no ombro de Srgio.
 Amanh a gente se fala. Tchau.
Ele despediu-se e, sem alterar seu humor, foi caminhando com
Edu at o cinema, ali perto. Vicente deu de ombros. Pensou para
si:
 Ainda bem que essa bicha chata se mandou daqui. Cludio 
pssima companhia para Srgio.
Na verdade, em seu ntimo, Vicente desejava esganar Cludio.
Tinha raiva dele, achava-o metido e arrogante. Estava tentando se
aproximar de Srgio h um bom tempo, mas nunca conseguira.
Agora era a hora.
 Eu no queria que voc se indispusesse com ele. Afinal de
contas, Cludio  seu melhor amigo.
 Eu sei  ponderou Srgio.  No  culpa sua. Cludio fala o
que sente. Ele nunca foi com a sua cara.
 E isso acaba por me manter afastado de voc.
 Tambm no  assim. Cludio no manda na minha vida.
 No  o que dizem por a.
Srgio remexeu-se nervosamente na cadeira.
 O que dizem de mim?
Vicente ria por dentro. Notara que Srgio dava muita trela para que
os outros falavam dele. Era por a que iria comear a tentar afastar
os dois amigos. Procurou manter um tom pessoal na voz.
 Dizem por a que voc s sai com rapazes que sejam aprovados
pelo Cludio. Que ele manda na sua vida, que voc  o robozinho
dele.
 Isso  mentira!
 Mas as pessoas dizem, comentam, oras. Fica chato para a sua
reputao. Em vez de passar por homem, passa uma imagem de
bichinha dependente. E, c entre ns, voc no tem mais idade
para...
 Srgio irritou-se sobremaneira.
 Sou dono de mim!
 Dono de si? Desde quando?
 Oras...
 O Cludio lhe deu carta de alforria?
 No admito que fale assim de mim. Voc est me humilhando.



Vicente repousou suas mos sobre as de Srgio. Fingiu um longo
suspiro.
 De maneira alguma eu iria humilh-lo. Longe de mim.
  o que parece.
 Ento prove.
 Como assim, Vicente?
 Prove que  dono de si. Estou a tanto tempo querendo conhec-
lo melhor...
 E?
 Agora chegou o momento. Eu moro ali no Copan  Vicente
apontou para o prdio na esquina.  Podemos ir at em casa,
ouvir boa msica, relaxar e conversar.
Vicente tinha um rosto e corpo bem interessantes. Era alto como
Srgio e pouco mais de vinte anos de idade. Somente aqueles com
sensibilidade apurada certificavam-se de que por trs daquele
sorriso maroto e cativante escondia-se um lobo em pele de
cordeiro.
Infelizmente, Srgio no tinha ainda essa percepo. Acreditava
que Cludio at sentisse um pouco de cimes de Vicente. No
entendia por que seu amigo implicava tanto com um rapaz que
aparentava ser boa pessoa.
 Quer que eu conhea seu apartamento?
 Adoraria.
Srgio sacou a carteira do bolso, pagou pelos chopes e levantou-
se da mesa. Vicente riu por dentro e tornou para si:
 Agora ele no me escapa. Farei de tudo para ele se afastar
desse pulha do Cludio. Srgio vai ser meu. At eu me enjoar e o
dispensar, como fiz com os outros.

Captulo 7

As festas de fim de ano correram cleres. Na semana seguinte as
festas, Srgio aproveitou seus ltimos dias na praia, ficando a
matroca. Ele estava sentado em uma espreguiadeira, de sunga e
cerveja em uma das mos. A outra mo brincava com a gua da
beirada da piscina. Cludio aproximou-se.
 Essa vista  linda de doer, no?



 Por certo. Olhar o mar daqui de cima  bem diferente. No gosto
daquela multido l embaixo se acotovelando e disputando a tapa
um punhado de areia para poder se bronzear.
 As pessoas querem se divertir, relaxar, descansar.
 Eu prefiro ficar aqui em cima na sua cobertura  brincou Srgio.
 Vamos mesmo voltar hoje?
 Hum, hum. Prometi ao... Ele parou de falar.
 Continue  Estimulou Cludio.  Eu no vou ficar chateado.
 Voc no gosta do Vicente. E, desde aquela tarde temos sado
e estamos nos entendendo. No quero que isso estrague nossa
amizade.
 No vai estragar. Eu sei separar as coisas. Voc  meu amigo.
Eu o adoro. Contudo, no vou ficar pajeando voc.  maior de
idade e sabe se cuidar. Se eu gosto ou no do Vicente,  problema
meu.
 Ser que com o tempo voc no vai mudar de idia?
 No.  uma questo de sentir. Toda vez que o vejo, toda vez
que ele se aproxima, sinto meu corao apertar.
 Talvez...
 No h talvez  interrompeu Cludio.  Um dia voc vai
enxergar alm e descobrir que no estou sendo intransigente. Eu
esperava que voc pudesse se relacionar com um rapaz que
realmente merecesse seu amor. Mas voc no agenta ficar
sozinho precisa sempre de algum na sua cola, por perto.
 Vou provar a voc que Vicente  boa pessoa.
 Voc no tem de me provar nada. Tem de provar a si mesmo de
que  capaz de perceber quais so as reais intenes das
pessoas. Ningum  feito de bobo. As pessoas se deixam enganar
porque no escutam aquela voz interior amiga, que orienta e alerta.
 Assim voc me ofende.
 No  minha inteno. Mas faz poucos dias que voc est
saindo com o Vicente e est mudado. Percebo que anda mais
arredio, mais introspectivo, no est mais sendo o Srgio de
sempre.
 Vicente acha que devo me portar melhor. Que no devo rir alto,
que preciso controlar minhas emoes.
 Ah, sei. O Vicente lhe pediu.
 Pediu. E, de fato, creio que esteja melhor. As pessoas mudam.
Eu talvez esteja ficando mais velho e mais maduro.



No adiantava discutir com Srgio. Cludio no iria mudar o amigo.
Isso no era seu trabalho. Continuaria gostando dele do mesmo
jeito. Somente com o tempo ele iria enxergar e, talvez, mudar sua
postura. Cludio deu uma batidinha no ombro do amigo.
 Daqui a pouco est na hora de partirmos.  melhor voc se
levantar e ir tomar uma ducha.
Srgio terminou sua cerveja. Cerrou os olhos. O relacionamento
com Vicente parecia ir bem. Comeava o ano acreditando que

agora

teria

namoro

firme,

um

relacionamento

consistente,

duradouro. S no contava com a desaprovao por parte de
Cludio. Ele levava muito em considerao as palavras do amigo,
mas acreditava ser absurda essa ressalva em relao a Vicente.
Ele levantou-se, deu mais uma olhada para o mar. Em seguida,
tomou sua ducha, arrumou sua mala e no fim da tarde subiram a
serra. Vicente o estava esperando e ambos haviam planejado
passar uns dias no interior, numa chcara de amigos.
Vicente, com pouco mais de vinte anos de idade, parecia um Deus
do Olimpo. Tinha porte atltico e rosto redondo, que lhe conferia
um ar juvenil. Nascido no Sul do pas, aos dezoito anos ingressou
numa companhia area e conseguiu o cargo que tanto almejara o
de comissrio de bordo.
Educado em uma famlia classe alta de Porto Alegre, Vicente
falava dois idiomas, alm do portugus. Dessa forma pde

concorrer pela

vaga que surgiu para trabalhar

em vos

internacionais. O rapaz conseguiu a vaga, e sua base  o lugar
onde deveria estar disponvel para a companhia  foi transferida
para So Paulo.
Ele estava havia dois anos na capital. Era bem conhecido no
mundo gay, visto que, entre um vo e outro, trazia produtos
importados e vendia para conhecidos ou mesmo trazia produtos
aos amigos, sempre por um preo acima do mercado. Freqentava
os lugares da moda e vestia-se com apuro. Era muito desejado e
escolhia a dedo com quem queria se relacionar.
Vicente tinha uma boa vida, fez bastante dinheiro e, junto com uma
boa quantia que seu pai lhe dera  dinheiro esse para que Vicente
sumisse de casa e nunca mais voltasse  o jovem conseguiu
comprar um apartamento de trs quartos no Copan, um marco da
revitalizao habitacional no centro de So Paulo. Trata-se, at os
dias atuais, de um edifcio localizado no centro da capital paulista,



desenhado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e famoso no pas inteiro
pela sua geometria sinuosa, que lembra uma onda.
Ele adorava dizer a todos que morava no edifcio "mais ecltico e
charmoso" de So Paulo. Fazia questo de ressaltar que morava
no bloco D  segundo ele, o mais chique
 porquanto, o edifcio era dividido em blocos, e a maioria dos
apartamentos era tipo quitinete. O Copan era  e ainda   um
prdio residencial de trinta e dois andares com mais de mil
apartamentos divididos em seis blocos, e rea comercial no trreo
com mais de setenta lojas.
De certa maneira, ele no estava errado. Entre annimos e gente
de baixa renda, tambm habitavam o prdio figuras ilustres da
sociedade, como o cantor Cauby Peixoto e o pintor Di Cavalcanti.
O apartamento de Vicente tinha uma vista linda. De l do alto dava
para ver toda a cidade.  noite, era mais lindo ainda. Podia-se
vislumbrar as vrias luzinhas que os olhos perdiam de vista.
Entre uma viagem e outra ao exterior, Vicente trazia peas e outros
objetos de decorao. Seu apartamento era decorado com muito
bom gosto e choviam pretendentes nos ps do rapaz. Todavia,
Vicente no gostava de ter uma pessoa s para si. Era assediado e
paquerado, fosse s ruas de So Paulo ou nas de Nova York. Saa
com quem queria e no acreditava no amor. Era namorador, mas
jamais fora fiel  seus parceiros.
Criado para ser o macho e sucessor do pai nos negcios
agropecurios da famlia  a me havia dado  luz cinco meninas
antes  Vicente desde cedo apresentara, segundo palavras do
prprio pai, fortes tendncias de desvio de comportamento. O
rapaz no namorava garotas, no queria seguir os negcios da
famlia. Envolveu-se sexualmente com um dos funcionrios do pai.
O empregado, depois de ter praticado sexo com ele, passou a
chantage-lo. Vicente no era de levar desaforo para casa e no
admitia subservincia de espcie alguma.
O jovem chamou a famlia e, na frente do empregado  que era
casado e tinha mulher  contou tudo, detalhe por detalhe, desde o
flerte at passar pelo coito e pela chantagem, para horror e
vergonha de sua famlia.
O ato de coragem e a sinceridade custaram-lhe seu afastamento
dos entes queridos. Seus pais e irms voltaram-se contra ele,
acusando-o de ter sido o causador de toda aquela desgraa.



Vicente conseguiu ser promovido e veio para So Paulo. Embora
fosse bonito, inteligente e bem-sucedido, em seu ntimo carregava
a mgoa do abandono e da incompreenso por parte de sua
famlia.
O rapaz afastou os pensamentos com as costas das mos. Deu um
longo suspiro e colocou sua mo sobre a perna de Srgio.
 Estava pensando em qu?  interrogou Srgio.
 Na minha vida. Em como tanta coisa triste aconteceu comigo.
Ser expulso de casa s porque no correspondi s expectativas
deles no  justo. Ainda tenho muita raiva do que meu pai me
disse.
 O que ele lhe disse que o feriu to profundamente?
Vicente no respondeu. Uma lgrima sentida escorreu pelo canto
de seu olho.
 No quero tocar nesse assunto. Foi e ainda  muito duro para
mim.
 Mas...
Vicente o interrompeu.
 Por favor, Srgio, no insista.
Srgio emocionou-se. Entendia perfeitamente o que Vicente estava
lhe dizendo. Afinal, passara por situao semelhante alguns anos
atrs. Num gesto de carinho, ele passou seu brao pelas costas de
Vicente e apoiou a mo sobre o ombro do namorado enquanto a
outra permanecia firme no volante.
 Quem sabe juntos no vamos afogar nossas mgoas e nos
tornar um casal feliz?
Vicente no respondeu. No sabia o que responder. Gostava de
Srgio, mas no queria abrir mo de sua vida, de suas noitadas, de
suas transas fortuitas quando viajava a servio e passava alguns
dias em Nova York. Estava indeciso e ainda no sabia direito o que
fazer. Sentia muita inveja da amizade entre Srgio e Cludio. A
tentativa de afast-los e ter todo carinho de Srgio s para si o
excitavam. No existia amor nessa histria, somente uma tentativa
de ele ocupar o lugar de Cludio. Depois disso, talvez ele fosse se
afastar de Srgio.
Vicente no era m pessoa. At podia parecer, pelas atitudes e
posturas fingidas, mas tudo no passava de fruto de sua defesa.
Afinal, um homossexual se defende do mundo da maneira que



pode. E a maneira fingida e dissimulada era a que Vicente
encontrara para continuar a viver.
Ele no estava certo, tampouco errado.

***

Leila estava sentada na poltrona, remoendo seu passado.
Conhecer Roberto despertou-lhe novamente o instinto maternal.
Por mais que tentasse, era difcil para ela esquecer-se do passado.
Sua filha. Onde estaria sua menina?
Roberto a chamou para a realidade. O rapaz estava animadssimo.
Contava os dias para partir, muito embora sentisse um aperto no
peito porque no mais veria Leila com freqncia. Havia tambm
Rex. Roberto nunca tivera um cachorro e apegara-se ao bichinho.
 Leila, voc no tem idia do quanto estou feliz, Meus irmos
esto me enchendo de esperanas de uma vida melhor.
 Seus irmos so pessoas boas. E, se eles no cumprirem o
prometido, o que eu duvido, posso me comprometer a pagar seus
estudos.
 Fala srio?
 Sim. Eu tenho uma boa vida. Poderei lhe pagar o cursinho caso
Ricardo, por algum motivo, no possa se comprometer.
Roberto a beijou na testa.
 Voc faria mesmo isso por mim?
 Sem dvida. Alm do mais, voc  muito jovem e estudioso.
Tem certeza de que  medicina mesmo a carreira que quer
abraar?
 Sim.
 No tem dvidas?
 Claro que no  tornou ele, num tom altivo e engraado.
 Isso facilita muito as coisas.
 Eu j decidi minha carreira. Vou ser mdico. Algo dentro de mim
me empurra para a profisso. No sei explicar.  mais forte que eu.
Chego at a sonhar com isso.
 Isso se chama vocao. Voc nasceu para cuidar dos outros.
 Tenho certeza.
 Espero que seja um bom mdico.
 Eu serei. Pode acreditar.
 Eu tenho uma boa notcia para voc.



 Outra? O que ?
 Bom, como voc est de malas prontas para partir, eu tambm
penso na possibilidade de me mudar para l.
Roberto no cabia em si tamanho era seu contentamento.
 Est pensando em se mudar para So Paulo?
 Sim, muito embora j tenha me acostumado com essa vida
pacata. No sei se me acostumaria  vida agitada de cidade
grande.
 So Paulo  confusa, agitada, mas  acolhedora e encantadora.
 Estive l uma nica vez, h alguns anos.  uma cidade que me
encantou.
 Eu adoraria t-la por perto.
 De mais a mais, no tenho parentes aqui em Jundia. Eu me
apeguei demais a voc e no suportaria viver longe. Nada mais me
prende a este lugar.
 Voc  sozinha?
 Sou.
 No tem parentes em So Paulo?
 No.
Leila fez tremenda fora para engolir o pranto. Ela no queria
estragar a animao de Roberto. O menino estava traando os
planos para o futuro e no era justo que ela se derramasse em
lgrimas por conta do passado.
No. Seu passado era uma pgina que, mesmo com dificuldade,
ela tinha de virar. Fora obrigada a fugir de sua cidade na calada da
noite e, por conta do medo de ser encontrada, resolveu esconder-
se no meio do Estado de So Paulo, mais precisamente em
Jundia. Acreditava que, depois de vinte anos, ela agora pudesse
retomar sua vida, sem ter de se manter escondida. O homem que
amara um dia agora estava morto e a famlia dele tinha parado de
amedront-la.
Intimamente, uma ponta de arrependimento apoderou-se dela.
Ser que sua filha estaria viva? Se estivesse, estaria bem? A
famlia que supostamente a adotara a estava tratando com amor e
carinho?
Roberto a chamou novamente para a realidade.
 Onde estava com a cabea? Voc hoje parece to distante...
Leila procurou disfarar.
 Estava dando uma volta ao passado, meu querido.



 O que a prende ao passado?
Leila deu um longo suspiro. No via por que no relatar parte da
histria de seu passado para Roberto. Confiava no garoto.
 Muitos anos atrs eu tive uma filha.
Roberto fez um esgar de incredulidade.
 Uma filha?!
 Sim.
 Eu fui me solteira e, por conta das convenes sociais, a
criana foi-me tirada dos braos assim que nasceu.
 Nunca mais viu sua filha?
Uma lgrima escorreu pelo canto do olho.
 No. Hoje ela deve ter pouco mais de vinte anos de idade. Deve
ser uma moa linda.  No quis procur-la?
 Por anos fiquei com medo da famlia do meu ex-noivo. Depois
que ele morreu e a famlia parou de me importunar, tomei coragem
para tentar localiz-la.
 Voc vai encontr-la. Se quiser eu a ajudo.
Leila emocionou-se.
 Obrigada, minha criana. Sei que sempre poderei contar com
seu apoio e carinho. Vamos continuar falando dos seus planos? 
inquiriu ela, de maneira a afastar os pensamentos.
 Poderamos ir juntos para l.
 Eu adoraria, mas, por enquanto, no posso.
 Por que no? Afinal, se nada mais a prende aqui, vamos
embora.
 Eu ainda no tenho condies para me mudar. Preciso colocar a
casa  venda. No d para eu me desfazer de tudo e ir embora de
um dia para o outro. Mas, como voc afirmou, eu no tenho mais
nada que me prenda aqui  ela apontou e sorriu delicadamente
para ele  estou fortalecendo a idia de me mudar em breve.
 Meu pai no me quer por perto. Minha me no tem atitude, s
vezes tem seus arroubos, enfrenta papai, entretanto dura muito
pouco. Ela logo se fecha em seu mundo. Meus irmos tm a vida
deles. Eu vou ficar muito s.  Podemos ficar juntos.
Ambos abraaram-se emocionados. Uma luz colorida formou-se ao
redor daquele abrao. Leila e Roberto eram almas afins que se
reencontravam mais uma vez, unidos por muitas vidas, cujos laos
de amor e gratido perdiam-se no tempo.



Captulo 8

Dnis, no era m pessoa, muito embora, tenha tirado muitas
noites de sono de Roberto. S de lembrar-se dele, Roberto sentia
um medo sem igual. Nem sempre a amizade deles tinha sido
assim. Conheciam-se desde pequenos, contudo, quando estavam
despedindo-se da infncia, Dnis percebeu os gestos delicados do
amiguinho.
No demorou para que viessem as brincadeiras de mau gosto, os
xingamentos e, conforme Roberto respondia com insegurana, com
os olhos tingidos de medo, Dnis e outros amigos aproveitavam e
azucrinavam cada vez mais a vida do pobre coitado.
Como todo adolescente, Dnis acreditava que os afeminados
deveriam ser castigados porque ele prprio fora criado num
ambiente machista. Seu pai sempre lhe dizia que os gays eram a
escria da sociedade, eram seres desprezveis, um mal que
deveria ser dissipado da humanidade. Dnis cresceu acreditando
nessa histria, sem nunca ter questionado por que as pessoas
eram diferentes. Ele at nutria bom sentimento por Roberto. O
problema era que ele sabia, l no fundo, que era igualzinho ao
amigo, no tocante a orientao sexual. Mas Dnis nunca poderia
admitir isso. Preferia morrer. O pai sempre dizia que um
homossexual era um ser repugnante. E ele no se considerava um
ser repugnante, por esse motivo vivia em conflito. Para diminuir
essa confuso, que se estabelecera em sua mente, descontava em
Roberto.
O ano letivo havia terminado e ele agora teria de dar duro. No
tencionava continuar os estudos. Seus pais no tinham condies
de pagar-lhe uma faculdade particular e Dnis no estudara o
suficiente para conseguir tentar ao menos uma vaga numa
universidade pblica. No meio do ano ele arrumou trabalho de meio
perodo numa fbrica de plsticos nos arredores da cidade.
Foi no vestirio da empresa que ele teve sua primeira experincia
sexual. Um colega de turno j estava se insinuando para ele. Dnis
lutou, mas seu desejo era bem maior que os pensamentos
contraditrios. Ele deu trela e acabaram se amando entre os
armrios do vestirio. A experincia se repetia com freqncia, e
Dnis no teve mais dvidas: ele gostava de homens e precisaria,
em breve, partir para a cidade grande. Na capital, com uma



populao bem maior, ele poderia facilmente aceitar o que vinha
negando desde adolescente. Dnis era gay.
No tinha mais visto Roberto e todas as noites quando ia para a
cama pedia perdo a Deus e proteo ao amigo que tanto
azucrinara. Roberto era bom e, quem sabe um dia, entenderia que
ele o atacara porque no aceitava sua condio sexual. Agora,
mais esclarecido, torcia para que Roberto se desse bem na vida.
Com o fim da escola, Dnis iria trabalhar o dia todo e ganhar mais.
Ansiava por sua liberdade. Foi na sada da fbrica que aconteceu a
quase tragdia. Dnis despedia-se dos amigos quando uma carreta
desgovernada atravessou a pista expressa e foi pegando tudo o
que tinha pela frente.
Dnis no teve tempo de fugir e foi atropelado pela carreta. Perdeu
muito sangue e ficou inconsciente por horas. Levado s pressas
para o hospital, os mdicos constataram as fraturas e uma
transfuso de sangue era necessria a fim de que seu quadro
clnico no piorasse.
A notcia se espalhou rapidamente pela cidade, visto que outros
funcionrios da mesma fbrica haviam se acidentado. Roberto
estava escutando um programa de msica de discoteca na rdio e
o locutor interrompeu a programao para falar do acontecimento.
Sem saber quem havia se acidentado e mais por um sentimento
nobre de ajuda, Roberto se arrumou e passou na casa de Leila.
Ambos se dirigiram ao hospital para doar o prprio sangue para
quem precisasse, pois as reservas do hospital estavam muito
baixas.
Dnis comeou a entrar em convulso e por pouco o sangue de
Roberto no salvou sua vida.
Alguns dias depois, engessado nas pernas e aparentando melhora
sensvel Dnis foi transferido para a enfermaria. A ala era dividida
em biombos e no total cabiam quatro pacientes. Era dia de visita e
Roberto quis dar uma palavrinha.
 Como est?
Dnis falava com um pouco de dificuldade. Sentia o corpo todo
modo e sorriu ao v-lo.  Estou melhor. Quer dizer, estou vivo.
Graas a voc.
 Fiz o que meu corao mandou. Nem sabia que voc estava
entre os acidentados.
 Se soubesse no iria doar seu sangue.



 No diga uma coisa dessas!
 Por que no? Voc salvou minha vida, Roberto. Salvou a vida
de um cara que sempre o azucrinou, que sempre pegou no seu p
e que nunca o aceitou de fato.
 No posso exigir que o mundo me aceite. Nem mesmo meus
pais me aceitam. Como poderia querer isso de voc? Fomos
educados para no aceitar as diferenas.
 Agi errado.
 Nem certo nem errado. Agiu porque o educaram assim.
 Meu pai encheu-me a cabea de preconceitos. Sempre me
disse que os gays so o mal do mundo. To logo notei que voc
era homossexual, passei a desprez-lo.
 Posso imaginar.
 No pode. No imagina o sentimento de desprezo que sinto por
mim mesmo. O seu sangue salvou minha vida. Somos feitos do
mesmo material. Nem mesmo os nossos pensamentos so
diferentes! Eu o maltratava porque no queria aceitar o fato de que
somos iguais.  Dnis abaixou o tom de voz e disse:  Eu
tambm sou gay.
Roberto foi tomado de surpresa.
 Voc?!
 Sim. Eu descontava em voc a raiva de ser diferente. Mas no
tenho como negar. Eu fiz sexo com outro homem e gostei. Muito.
No posso mentir para mim mesmo. Quero e vou respeit-lo a
partir de hoje.
 Agradeo.
 No fundo sempre gostei de voc. Como amigo, quero dizer 
Dnis enrubesceu e Roberto riu.
 Mesmo que gostasse de mim de outra forma eu no iria lhe dar
bola. Voc nunca fez o meu tipo.
Dnis sorriu e levantou timidamente a mo.
 Voc poderia tentar se esquecer de todas as barbaridades que
cometi contra voc?
 Esqueo. Vamos passar uma borracha por cima de tudo e
recomear.
Uma lgrima sentida escorreu pelo canto do olho de Dnis.
 Tenho orgulho em dizer que sou seu amigo. Que Deus o
abenoe.



Roberto saiu do hospital sentindo bem-estar. Nunca odiou Dnis,
muito embora tivessem sido muitas as vezes que ele fora
submetido a tratamentos de escrnio, e, se no fosse  presena
de esprito algum tempo atrs, ele teria sido currado pelos amigos
de Dnis.
No obstante, isso fazia parte do passado. Roberto no podia
culpar as pessoas. Elas eram criadas para odiar os homossexuais.
Nunca vira uma aula na escola que tratasse sobre as diferentes
orientaes sexuais das pessoas. Os parcos livros que caam em
suas mos ou nas dos colegas tratavam o tema com desprezo e
preconceito.
 Fico feliz que Dnis tenha mudado e se aceitado. Pelo seu
prprio bem  disse para si. Ele decidiu passar na casa de Leila e
contar-lhe as novidades. Passaram uma tarde
Agradvel ao som de conversa, msica e filmes.
Na semana seguinte, Roberto procurou seu nome na lista dos
aprovados para o vestibular. Nada. Ele no conseguira como
suspeitara. Acreditava mesmo que seria difcil, visto que a
concorrncia para uma vaga no curso de medicina era muito
acirrada. Mas para ele at tinha sido melhor assim. Iria para So
Paulo, estudaria dia e noite, aproveitaria as aulas do cursinho e,
sem sombra de dvidas, no ano seguinte ingressaria no curso
desejado.
Ricardo enviou a quantia de dinheiro para a irm a fim de que ela
fizesse a matrcula de Roberto no cursinho, bem como comprasse
material e tudo o mais que fosse
Relacionado aos estudos do irmo. Ricardo tinha certeza de que
num futuro no muito distante Roberto iria se graduar com louvor e
tornar-se-ia um mdico de respeito, independentemente de sua
orientao sexual.
Eliana terminou as obras nos fundos da casa, uma edcula que ela
reformara e transformara num bonito e espaoso ambiente. Assim,
seu irmozinho teria privacidade e poderia estudar em paz. Afinal,
Rafaela era uma menina que ocupava todos os cantos da casa
com suas bonecas e brinquedos. E Roberto tambm no teria o
desprazer de encontrar-se com Alaor, cada vez mais insuportvel
na maneira de tratar as pessoas.
A princpio, Alaor no gostou da idia de receber Roberto em sua
casa. No via com bons olhos o comportamento "anormal" do



cunhadinho, mas no queria de maneira alguma arrumar mais
confuso com a esposa. Estavam vivendo uma crise no
casamento. Alaor achava que a esposa lhe cobrava ateno
demais. A vinda do irmozinho chegava  boa hora, pois desviaria
um pouco a ateno de Eliana e assim ele poderia dar suas
esticadas e chegar em casa bem tarde da noite, sem cobranas ou
pegadas no seu p.
Pensando na sua prpria liberdade, Alaor tratou de contratar uma
arquiteta e fazer as mudanas necessrias para transformar a
edcula num mini-apartamento, dividindo o espao em quarto, com
banheiro, sala de estudos e uma pequena cozinha.
Todos estavam animados com essa mudana na vida de Roberto.
Inclusive sua me. Helena julgava-se impotente para desafiar as
ordens do marido. Depois daquela briga com Otvio e impotente
em proteger o filho da surra, vivia amedrontada pelos cantos da
casa e mal conversava com o marido e com o filho.
Helena, aps perceber que seu casamento no seria mais o
mesmo depois da morte de Otaclio, fazia os deveres de uma dona
de casa, da maneira como observara sua me fazer. Preparava as
refeies, limpava a casa, tudo no mais absoluto silncio.
Intimamente agradecia a Deus por ter tido Ricardo e Eliana, filhos
amados que estavam ajudando o caula a ter condies de se
endireitar na vida. Ela culpava-se por Roberto ser daquele jeito.
Acreditava piamente que errara na educao do menino.
No conseguia nem queria entender que havia recebido esse filho
a fim de reformular suas crenas. Helena havia sido muito religiosa
e preconceituosa por vidas a fio e agora era brindada com a
oportunidade nica de receber um filho homossexual, reavaliar
seus pensamentos moralmente rgidos e dar-lhe todo apoio,
carinho e ateno.
A vida j havia lhe preparado e colocado Otaclio em seu caminho
tempos antes.
Helena aprendera a am-lo e respeit-lo. Viviam juntos a maior
parte do tempo. Eram cmplices e amigos, muito amigos. Mas
depois de toda a confuso e a tragdia... Bem, Helena acreditou
que aquele tipo de comportamento s atraa maus pressgios. No
havia um dia sequer que ela no pensasse no cunhado e temia,
intimamente, que seu filho caula padecesse do mesmo mal.



Infelizmente, seu medo era maior que sua capacidade em mudar
seus conceitos. Quem sabe um dia ela ainda iria olhar Roberto
como filho amado e querido e no como um erro, fruto de uma
educao desorientada ou mesmo de que ele fosse terminar sua
vida como o tio.
Otvio parou de implicar com o garoto depois que passou a ouvir
comentrios, no bar que freqentava, de que seu filho estava
andando sempre na companhia de uma dona bonita, vistosa e mais
velha. Ele preferiu comear a acreditar que o filho tivesse mudado
o gosto asqueroso por rapazes e que de agora em diante seria um
homem ntegro e reto, como se orientao sexual tivesse alguma
coisa a ver ou estivesse estritamente ligada ao carter e 
dignidade da pessoa.
Roberto estava radiante. Finalmente ia se ver livre dos olhos
acusadores do pai. Cada vez que seus olhos e os de Otvio se
encontravam, Roberto sentia na alma a dor da rejeio. Os olhos
do pai faziam-no se sentir a pior das criaturas terrenas.
Entretanto, um dia antes de ir morar com a irm, Roberto correu at
a casa de Leila para contar-lhe as novidades.
 Arrumei as malas. Coloquei meus discos numa caixa e embalei
a vitrola para que no sofra arranhes.
 Nem precisou de minha ajuda.
Roberto estava muito feliz.

 Finalmente vou

me mudar para a capital. Graas 

generosidade de Ricardo e ao carinho e amor de Eliana eu terei
condies de comear uma nova etapa.
 Eu fico to feliz com essa sua atitude  respondeu emocionada.
Leila levantou-se da poltrona e o abraou como se estivesse
abraando a um filho. Beijou-lhe a testa.  Voc  um menino de
ouro. Tenho certeza de que tudo na sua vida vai dar certo. Muito
certo.
Rex correu ao seu encontro e atirou-se em seu colo. Roberto
encheu o bichinho de afagos.
 Tambm vou sentir sua falta. Espero que logo voc se mude
para ficarmos novamente prximos.
Roberto brincou com o cachorrinho e, pouco tempo depois,
afastou-se e tirou do bolso um pacotinho.
 O que  isso?
 Um presente.



Roberto entregou o pacote a Leila. Ela o abriu e havia uma
correntinha dourada; um pingente com a frase: Sou amada e
protegida por Deus.
 Essa frase h muito tempo no sai da minha cabea. Ela tem
uma fora incrvel e acredito que seja por esse motivo que hoje me
sinto mais forte, mais confiante e dono de mim. Quero que voc
compartilhe dessa mesma sensao. Desejo que esteja forte e
protegida para quando reencontrar sua filha.
Leila no sabia o que dizer. Ela no conseguiu segurar as lgrimas.
Abraou-se demoradamente a Roberto.
  uma boa pessoa, criana. Est ligado ao bem.
 Obrigado.
 S coisas boas podero lhe acontecer no futuro.
 Mesmo me sentindo mais forte, sinto um pouco de receio.
Leila limpou as lgrimas com as costas da mo e tornou sorridente:
 Ora,  natural ter medo. Voc sempre viveu aqui nesta cidade,
muito menor e mais pacata. Vai viver numa metrpole e sabe l
Deus se no vai morar fora do pas.
Roberto meneou a cabea para os lados.
 No  disso que falo. Quanto a ir para So Paulo, fico contente.
Nunca me esqueo do dia em que l estive para conhecer a casa
de Eliana. Fiquei fascinado com o agito da cidade, com aquela
multido de gente e um monte de carros, com as possibilidades
inmeras que a cidade oferece de estudo, trabalho, cultura e lazer.
 Se pensa assim, no entendo seu receio. Tem a ver com sua
me?
 No. Ela no est nem a para o que eu decidir. Se quer saber,
sinto que ela est aliviada de eu me mudar. Minha me  muito
medrosa, vive atormentada com a possibilidade de sofrer
reprimendas do meu pai. E, como lhe disse uma vez, sinto que
voc  mais me do que ela, que me pariu.
As palavras comoveram Leila. Ela realmente sentia um amor muito
grande por Roberto. Alm da forte afinidade de muitas vidas, via
nele a filha que tivera de abandonar anos atrs. As lgrimas vieram
novamente de supeto e ela no conteve o pranto. Abraou-se
novamente ao garoto e assim ambos permaneceram por alguns
minutos.
At que ela afastou-se, secou as lgrimas. Esboou um sorriso.
 Bom, diga-me ento qual o seu receio, criana?



 Embora v viver numa cidade grande, e mesmo me sentindo
mais forte, ainda tenho certa dificuldade em lidar com esse meu
gosto diferente.
 Pensei que j tivesse superado isso depois de tantas conversas.
O que o assusta?
Roberto passou nervosamente a mo nos cabelos. Deu um longo
suspiro.
 Ter a sua compreenso  uma ddiva para mim. Suas palavras
gentis e encorajadoras tm me ajudado a me tornar uma pessoa
melhor. Eu tenho pensado muito a respeito de tudo o que voc tem
me falado. Mas as pessoas  apontou para a janela da sala  no
mundo l fora no pensam como voc ou como eu. A sociedade
no aceita o homossexual.
 Voc tem de se aceitar primeiro. No se esquea de que veio ao
mundo nessa condio por necessidade, e no por acaso do
destino.
 E no vim?
 Claro que no  afirmou Leila, abrindo largo sorriso e
mostrando os dentes alvos e perfeitos.
 J conversamos a respeito, porm para mim  difcil acreditar
que no esteja vivendo em pecado. No se esquea de que fui
criado num ambiente catlico.
 Infelizmente, a religio afastou-se de sua funo, que era a de
ligar o homem s foras superiores da vida. Ela acabou por se
tornar poderosa e controlar a vida dos fiis.
 Mas por que isso?
 Imagine o homem livre, no sentido de pensar livremente e poder
fazer suas escolhas, seguir o caminho que quiser e viver de acordo
com o que sente? Essa postura independente assusta aos
poderosos, porque o homem livre no se deixa aprisionar por

convenes

externas,

tampouco



escravo

de

dogmas

preestabelecidos. A partir do momento em que voc descobre que
Deus no est em templos, mas sim dentro de si prprio tudo se
torna diferente. E ns nos tornamos pessoas mais fortes e donas
de nosso prprio destino.
 Eu acredito em Deus e sempre olho para o cu na tentativa de
que Ele esteja me escutando.
Leila riu.



 No cu s tem nuvens, mais nada. A igreja humanizou Deus,
transformou as foras invisveis que regem o Universo em formas
humanas, confundindo nossa cabea, como se tivssemos um pai
de verdade, que determina o que devemos fazer e como devemos
agir e, pior, com quem devemos nos relacionar.
 Eu sempre ouvi dizer que  errado ser assim como sou.
 Errado  acreditar que todos devemos pensar da mesma forma,
amar do mesmo jeito.
 Eliana j me falou sobre isso. E voc tambm. Contudo,  difcil
aceitar com naturalidade. Minha cabea anda muito confusa em
relao  sexualidade.
 Infelizmente, voc no ter em quem se espelhar. Para um
homem que nasceu na condio heterossexual, tudo fica mais fcil.
Ele olha ao redor, v que h muitos como ele e vai procurar seguir
os passos daqueles que deram certo na vida, que tiveram um
caminho brilhante, cheio de vitrias.
Os gays no tm referncia alguma. Precisam ter referncia em si
prprios, acreditar que no so mais nem menos que ningum.
Entretanto, jamais devem abaixar a cabea e perder sua dignidade.
Se voc veio assim ao mundo, trate de lutar para seu
aprimoramento moral.
 Como?
 Fortalecendo sua auto-estima. Deixando de julgar a si mesmo e
ao prximo. Voc nasceu numa condio em que  imprescindvel
estar alm de todo e qualquer preconceito, seja de raa, de cor, de
religio. Como homossexual voc tem condies de rever posturas,
atitudes, entender que as pessoas so como so porque faz parte
da natureza delas. Creio que deva ser uma experincia
inesquecvel.
 Sim. Todavia quando aparece um afeminado na televiso, ele
sempre  mostrado de maneira estereotipada, caricata. Ou ento 
visto como um pervertido, que s pensa em sexo vinte e quatro
horas por dia.
 Quem lhe disso isso?
 Eu li numa revista tempos atrs. A imagem que a sociedade tem
dos gays  terrvel. Acham que somos pervertidos, arrogantes,
drogados e errados em ser assim. Numa pesquisa recente, nessa
mesma revista, mais de noventa por cento das pessoas admitiram
que no suportariam ter um filho gay.



 No d ouvidos  maldade do mundo.
 E outro dia, antes de terminar meus estudos, eu fiquei
estarrecido ao ler na parede do banheiro da escola "Faa o mundo
melhor. Mate uma bicha por dia".
Leila o abraou com carinho.
 No ligue para o que os outros pensam minha criana. Sei que 
difcil, mas tem muita gente que no condena a homossexualidade.
Voc tem a mim, tem seus irmos. Muitos na sua condio, a
maioria, para dizer a verdade, no tm apoio dentro de casa. So
rejeitados e tratados como aberraes. As famlias, em vez de
procurar entender e ajudar, procuram logo alternativas que as
livrem do que acreditam ser um grande e grave problema. Os que
tm dinheiro mandam os filhos estudarem no exterior ou viverem
longe de casa. Outros foram seus filhos a casarem-se e fingirem
ser "normais", dentro dos padres estabelecidos pela sociedade.
Muitos viram as costas aos filhos. Afastam-se e corta o convvio, o
contato. Por tudo isso, muitos de vocs so tristes, sentem-se
abandonados, culpados por serem como so.
  uma experincia que eu no desejo a ningum...
 Voc  especial, criana. Tem maturidade e j pensa como
adulto. Olhe para frente. Deixe o passado para trs. Voc enfrentou
uma das fases mais difceis que um garoto  submetido na vida, 
adolescncia. Passou pelos xingamentos, pelas gracinhas, pelas
brincadeiras de mau gosto, pela desaprovao de seus pais. E est
aqui comigo, pensando no seu futuro, na sua vida profissional, em
se tornar uma pessoa boa e til para si e para o mundo.  isso o
que conta. O resto  histria.
 Tem certeza?
 Sim. Agora vamos tomar nosso lanche. Quero aproveitar sua
presena aqui o mximo que puder. Vou sentir tanta falta de sua
companhia.
 Por que voc no vai logo para So Paulo? Se quiser, eu a
ajudo a vender a casa. Fao propaganda, vou at a rdio, converso
com o locutor.
Os olhos de Leila brilharam emocionados. Ela mordeu levemente
os lbios e, de costas para Roberto, desconversou.
 Eu fiz bolo de chocolate. Do jeito que voc gosta.



Roberto acompanhou-a e, ao chegar  cozinha, sentou-se na
cadeira e apoiou os cotovelos na mesa, encarando a travessa com
o bolo.
 Eu sei que vou me dar bem em So Paulo. Minha irm  um
amor de pessoa, eu a adoro, mas no tenho intimidade com meu
cunhado. Alis, nunca me senti bem perto dele.
 Voc tem cimes dele,  natural, afinal, Alaor tirou e o privou do
convvio dirio com uma pessoa com a qual voc contava bastante,
que lhe dava apoio e suporte.
 No  isso. O Alaor me olha de maneira esquisita. Creio que ele
tambm no goste desse meu jeito de ser.
 Isso voc saber quando estiver morando com sua irm.
 Por que no acerta suas pendncias aqui na cidade e se muda
logo? Voc  jovem ainda, tem dinheiro. Pode fazer o que quiser.
Ela abaixou os olhos, desconversou; pegou uma fatia de bolo e
mordeu um pedao.
 Hum, delicioso mesmo
 Voc cozinha melhor que minha me.
 No a deixe saber disso!
Os dois riram.
 Leila, quem era aquele homem de, sobretudo, cara amarrada,
que saiu daqui ontem?
Ela estremeceu. Ento Roberto havia visto o sujeito? Ela procurou
dar um tom natural na resposta.
 Um Velho conhecido. Um grande amigo que est me ajudando
na resoluo das pendncias.
 Ele lembrou aquele detetive, como  o nome? Ah, o Columbo.
 Est assistindo muita televiso.
 Mas ele usava uma capa igualzinha a do detetive Columbo.
Alis, ele parecia mesmo um detetive.
Leila procurou dar novo rumo  conversa.
 Garoto perspicaz  ela falou e afagou os cabelos sedosos do
menino.  Venha comigo at a saleta de leitura. Tenho alguns
livros reservados para voc. Est na hora de comear a aumentar
sua bagagem cultural.
 Oba!  exclamou Roberto feliz.
O rapazote terminou de comer seu bolo, tomou um gole de
guaran e a acompanhou at a saleta. Enquanto Roberto se
entretinha com os livros, Leila agradecia a Deus por ele ter



esquecido a conversa. Ainda no era o momento de falar sobre
Nelson. Ela no se sentia confortvel em compartilhar essa
experincia com ningum, nem mesmo com Roberto.
 Da prxima vez devo tomar mais cuidado. Nelson precisa ser
mais cauteloso. Hoje foi Roberto quem o viu. E se outra pessoa o
vir tambm? No posso deixar isso acontecer.
Leila afastou os pensamentos que perturbavam sua mente e
procurou se entreter com Roberto e os livros.

Captulo 9

A despedida de Roberto no chegou a ser emocionante. Para
melhor relatar, no houve mesmo um pingo de emoo, pois o
menino no via o momento de sair de casa e libertar-se da rejeio
do pai e da falta de apoio da me. A sua presena em casa era
como uma espcie de culpa em forma de gente, o que causava
total constrangimento aos pais.
Otvio nem ao menos quis abraar o filho. Inventou uma desculpa
qualquer e correu at o boteco mais prximo de casa. Preferiu
encher a cara, embriagar-se de iluso e esquecer a realidade.
Helena no estava nem triste nem contente, uma ponta de alvio.
Sentia na verdade, uma ponta de alvio. Ver o filho no dia-a-dia lhe
causava tremenda sensao de culpa e de que Roberto tivesse
sido fruto de uma pssima educao. Helena julgava-se inbil e
sentia tremendo peso na conscincia por achar que havia errado
na educao dele.  Eu o mimei demais. Por esse motivo ficou
desse jeito  dizia repetida e mecanicamente para si.  Talvez
com Eliana as coisas sejam diferentes e ele mude, seja um rapaz
normal como outro qualquer.
Ela no conseguia enxergar que Roberto era um rapaz normal e
adorvel. Que ele era bonito, saudvel, inteligente, prestativo,
generoso e, acima de tudo, dotado de extrema sensibilidade.
Esses ltimos tempos foram eficazes para que o menino
fortalecesse sua auto-estima e tivesse ferramentas emocionais
suficientes para lidar melhor com sua condio homossexual. Claro
que ele sofria de vez em quando com os dedos acusadores da
sociedade sobre seu nariz, mas Roberto sentia no seu ntimo que
sua orientao sexual era um detalhe em sua vida. Mais nada. Era



como se o seu esprito j estivesse preparado para viver dessa
maneira.
Helena nem sequer cogitava pensar nisso. Ela acreditava que o
filho seria mais bem cuidado por Eliana e essa fase passaria. Logo
Roberto estaria casado, feliz e enchendo sua casa de netos. Pelo
menos tentava incutir essas idias na prpria cabea para no
pensar na terrvel possibilidade de o filho ter o mesmo fim que
Otaclio.
Ela beijou o filho na testa e, assim que ele se afastou para entrar
no carro, Helena abraou a filha.
 Eliana, por favor, cuide bem do nosso menino.
 Nem precisa pedir me. Roberto  como se fosse um filho para
mim. Tenho certeza de que ele vai ficar muito bem.
 Alaor no se importa?
 No. Disse-me que Roberto  bem-vindo e que pode ficar
quanto tempo quiser em nossa casa. Tambm  ela considerou 
Beto no vai ficar na minha casa para sempre. O que so um
punhado de anos? Nada. Depois ele vai seguir sua vida. E vai ser
feliz. Tenho certeza.
 Confio em voc. Obrigada.
 E o pai?
O semblante de Helena transformou-se. A dor era notvel.
 No quis ficar. Pretextou compromisso. Acho que foi dar umas
voltas.
 Ele est bebendo muito?
 Quer dizer, ele... Ele...
 Me, no me enrole!  protestou Eliana.  O pai foi beber, no
?
 Seu pai bebe de vez em quando.  a ocupao que encontrou
depois que se aposentou.
 Existe um mundo de atividades e de ocupaes para o papai.
Ele no precisa se afundar nesse vcio.
 Seu pai no  viciado.
 Por que voc se recusa a enxergar a realidade a sua volta?
Acredita que vai desmoronar caso deixe de viver na iluso?
 Melhor viver assim. A dor  menor. De que adianta mudar minha
maneira de ver ou pensar a vida? Seu pai vai continuar a beber e
seu irmo... Bem...
 O que tem o Beto?



 Ainda  difcil para mim acreditar que meu filho no seja aquilo
que sonhei.
 No percebe que est sendo mesquinha?
 No precisa ser agressiva comigo. Sou sua me.
Eliana meneou a cabea para os lados.
 Voc no entende me. Roberto  o que . Nasceu de maneira
nica. Em vez de se prender na aparncia, por que no olha seu
filho com olhos de puro e verdadeiro amor? Roberto  educado,
gentil, inteligente, tem um corao de ouro. Tenho plena certeza de
que ele ser uma pessoa da qual ainda muito iremos nos orgulhar.
As lgrimas rolavam e Helena no mais fazia fora para no deixar
que cassem.
 No consigo enxergar seu irmo por esse lado. Minha mente
volta ao passado e tenho medo de que ele...
 De que ele o qu, me?
 Nada. No quero reviver o passado.
Eliana no entendeu direito o que a me lhe falava. Ela e Ricardo
nunca tinham ouvido falar em Otaclio ou mesmo sabiam que esse
tio havia morrido anos atrs. Era um assunto que Otvio e Helena
jamais se permitiram compartilhar com os filhos. Roberto sabia de
algo porque ouvira sem querer atrs das portas. Ela deu de ombros
e julgou que a me estivesse fragilizada emocionalmente.
Eliana nem percebeu o que disse.



Talvez

o

dia

em

que

aprender

a

amar

seu

filho

incondicionalmente, voc veja o Beto com outros olhos. Espero que
no venha a se arrepender.
Helena sentiu as pernas falsearem por instantes. Lembrou-se do
cunhado, de que como o amara incondicionalmente. Em seguida
ela pigarreou, desconversou e abraou-se  filha para que Eliana
nada percebesse.
 Fique no p do papai. Ele precisa ter outras atividades para
esquecer a bebida. Ou mesmo procurar ajuda mdica. Eu e
Ricardo estamos dispostos a contribuir com o pagamento de
consultas ou at mesmo com uma possvel internao para ele se
desligar da bebida.
Helena ia se lamentar mais uma vez, entretanto, Eliana a cortou.
 No est mais aqui quem falou. Pacincia. Se voc no quer
enxergar, problema seu. O marido, alis,  seu.



Enquanto Eliana despedia-se da me, Roberto ajeitava duas malas
e uma caixa cheia de discos no porta-malas do carro. No se
esqueceu de levar tambm sua vitrola. Deu meia-volta, abriu a
porta do passageiro, empurrou o banco e sentou-se atrs. Ao seu
lado a pequena Rafaela dormia, agarrada a uma boneca. Alaor
estava sentado no banco do motorista. Pelo retrovisor encarava
Roberto de maneira nada agradvel.
O rapaz percebeu e, por instantes, sustentou o olhar. A expresso
facial de Alaor no era das mais agradveis.
 Algum problema, Alaor?  perguntou, de maneira polida e num
tom de voz mais baixo para no acordar a sobrinha.
 No.
 Sei que vou morar na sua casa, estou invadindo a rea  ele
deu uma risadinha  mas prometo que vou me fazer praticamente
invisvel. A rotina da casa no ser alterada.
 Desde que voc se comporte, est tudo bem.
 Mas eu sou um rapaz comportado.
Alaor nada disse. Meneou a cabea para cima e para baixo,
expresso sisuda. Roberto sentiu o clima estranho e abaixou a
cabea, pensativo. Eliana entrou logo em seguida. Olhou para trs.
 Rafaela est dormindo to gostoso que me deu pena de acord-
la para se despedir da av.
 No viemos aqui para temporada. Viemos para buscar seu
irmo.
 Por que est agressivo?  inquiriu Eliana.
 No estou agressivo  Alaor procurou ocultar a contrariedade
na voz   que estou atrasado para a reunio do banco. E se
pegarmos trnsito na Marginal?
 Corte caminho  interveio Roberto, de maneira espontnea.
Pelo retrovisor, Alaor o fuzilou com os olhos. Eliana no percebeu.
Ele respondeu procurando manter tom natural na voz.
 Isso mesmo, cortaremos caminho.
Assim que o carro dobrou a esquina e sumiu no meio da poeira,
Otvio saiu por trs de uma rvore e foi para casa. Estava meio
cambaleante. Havia bebido alm da conta. Ele aproximou-se do
portozinho.
 J foram?  perguntou, numa voz trmula.
 Sim  respondeu Helena, chorosa.  Agora voc no com o
que se preocupar.



 Creio que a cidade grande far bem ao nosso filho.
 Quanto mais longe Beto estiver, melhor, certo?
 No  isso,  que...
Helena o repreendeu severamente. Aproveitou que o marido
estava meio de porre, portanto, mais fraco e bradou num tom
explosivo, carregado de emoo:
 Chega! Ns falhamos Otvio, entendeu? Falhamos na educao
de nosso filho. No fomos pais suficientemente bons para ele.
Poderamos tentar entend-lo e, em vez disso, preferimos nos livrar
do estorvo, mandando-o para longe de casa, longe de nossas
vistas.
Otvio tentava-se equilibrar sobre as prprias pernas. Ele baixou o
tom de voz.
 Olhe aqui, sua...
 Vamos, diga! Xingue-me, bata-me. Faa o que quiser, mas
jamais poder livrar-se da culpa de ter falhado na educao de
nosso filho. Roberto sempre o amou e voc nunca se fez de
rogado. Muito pelo contrrio, sempre o amou, muito mais do que
amou Ricardo ou mesmo Eliana. Foi s perceber que seu filho era
diferente e pronto, voc tentou ocultar o sentimento. Mas de que
adianta?  ela gargalhou nervosa.
 No quero que...
 No quer o qu? Que outra tragdia se abata sobre nossas
cabeas,  isso?
Os olhos de Otvio marejaram.
 No quero que meu filho termine como meu irmo. Viu o que
aconteceu com Otaclio? Tudo porque ele tambm era diferente.
No percebe que ajo assim por puro medo?
Helena entendia o marido. At mesmo ela sentia-se assim de vez
em quando. Temia que o filho sofresse e tivesse um final to
desolador como seu cunhado. Entretanto, seu caula tinha ido
embora. O que faria da vida dali em diante? Ela colocou as mos
na cintura.
 De que adianta tentar ocultar o que sente? Voc est muito mais
irritado porque o ama e no consegue deixar de amar seu filho,
assim como at hoje no consegue deixar de amar seu irmo. Se
conseguisse, sua mente estaria serena e o corao em paz.
As palavras de Helena estavam carregadas de sentimento
verdadeiro. Ela falava, afinal, com a alma.



Otvio ficou sem saber o que fazer. Por mais que tentasse odiar o
filho, no conseguia. Amava Roberto acima de tudo, muito mais do
que os outros filhos ou at mesmo a esposa. Entretanto, seu filho
amado nascera torto, com defeito, do mesmo modo que seu
prprio irmo, como ele acreditava. No era justo amar algum
assim. Otvio no podia amar uma criatura que fosse diferente do
padro socialmente aceito. Para qu? Para sofrer mais ainda
depois que seu filho se metesse numa enrascada? No.
Otvio tentava expulsar esse sentimento pelo filho, contudo seu
amor por Roberto era mais forte do que ele. Mais forte que tudo.
Inebriado pela bebida, ele esmoreceu um pouco. Coou a cabea,
deixou uma lgrima escapar pelo canto do olho.
 Vamos entrar. No quero que os vizinhos escutem essa
discusso.
Helena assentiu e entraram em casa. Ambos se sentaram cada um
numa poltrona. O silncio na sala era assustador. Otvio foi at a
pia e meteu a cabea sob a torneira. Um pouco de gua fria talvez
o livrasse daquele torpor que a bebida ocasionava. Voltou  sala.
Enquanto secava os cabelos com uma toalha, jogou o corpo
cansado e alquebrado sobre uma poltrona.
 Eu no errei em nada. Criei nosso filho como criei os outros.
 Beto precisava de nosso amor. Ns poderamos ser mais
compreensivos.
 Compreender o qu? Como aceitar um filho invertido?
 Somos instrudos, poderamos fazer como Eliana nos disse,
consultar um especialista, conversar, tentar entender.
 No sei, no.
 Eliana me falou algumas coisas e eu estou pensativa. Claro que
em So Paulo nosso filho ter melhores condies de estudo e
poder ter a chance de seguir uma carreira brilhante. Entretanto,
eu e voc poderamos lhe dar o que todo pai e me devem dar aos
filhos e que no custa nada. Amor, entendimento, apoio...
Otvio remexeu-se na cadeira de maneira nervosa.
 E entender vai mudar alguma coisa? Entender meu filho vai
fazer com que ele mude aquele jeito estranho de ser?
 Deus no o mandou para o nosso lar  deriva. Creio que se ele
nasceu nosso filho,  porque tambm devemos aprender alguma
coisa com a situao. Se no aprendemos com Otaclio...



Otvio levantou-se de maneira abrupta. Elevou as mos tentando
tapar os ouvidos.
 Chega!  bradou.  No fale mais o nome de meu irmo
dentro desta casa. Nunca mais! Esse nome s me traz pssimas
recordaes!
Ele rodou nos calcanhares, ganhou a rua e voltou na direo ao
bar.
Helena suspirou triste.
 De nada vai adiantar afogar-se na bebida. Isso s vai piorar a
situao.
Ela meneou a cabea para os lados e foi para a cozinha, cuidar do
jantar. Olhou ao redor e o silncio no sobrado era aterrador.
Mesmo com as esquisitices do filho, acostumara-se com seu jeito
meigo, com a msica alta que enchia a casa de alegria. De agora
em diante no teria mais vitrola, mais msica, mais filho, mais
nada. Helena foi at o quarto, abriu o guarda-roupa e l do fundo
tirou uma caixa antiga de sapatos. Dentro havia algumas fotos. Ela
pegou uma foto onde ela estava sorridente e era abraada por dois
homens. Otvio e Otaclio. Uma saudade imensa apoderou-se
dela. Helena pegou a foto com delicadeza, beijou-a, sentou-se na
cama, abraou-se a uma almofada e se ps a chorar.

Captulo 10

Eliana tentou de todas as formas alegrar o irmo, mas em vo. Ela
percebera o clima esquisito, a animosidade perturbadora que se
estabelecera entre o marido e Roberto. De soslaio ela olhava Alaor
e percebia que seu rosto estava contrado, expresso fechada.
Talvez fosse a pressa em chegar a cidade para no perder a
reunio. Alaor era muito metdico e no queria chegar atrasado.
Estava namorando uma promoo e a tal reunio seria de suma
importncia para efetivai esse namoro num verdadeiro casamento
profissional.
Por sorte, no meio do trajeto, Rafaela acordou e Roberto brincou
com a menina e distraiu-se. Assim, logo estavam em casa. Alaor
ajudou a descarregar os pertences de seu cunhado, beijou a
esposa e a filha e saiu em disparada para o centro da cidade.
Felizmente, ele no perdeu a reunio, mas perdeu a promoo, o
que o tornou uma pessoa mais irascvel.



Dalva apareceu sorridente e pegou Rafaela no colo. Eliana ajudou
o irmo com os pertences. E o apresentou a Dalva.
 Prazer.
Roberto sorriu de maneira cativante e, em vez de somente
cumpriment-la com um aceno, espontaneamente abraou-a e
beijou-lhe uma das faces.
 O prazer  todo meu. Voc parece ser muito boa pessoa.
Dalva adorou receber esse tipo de carinho. Eliana a tratava bem,
Rafaela era muito apegada a ela tambm. O nico inconveniente
na casa era Alaor. Sempre nervoso, agitado, precisava descontar
seu nervosismo, seu estresse em algum. E sempre sobrava para
a pobre Dalva. Ele tinha a capacidade de passar o dedo sobre
mveis para detectar algum vestgio de poeira. Estava sempre
chamando a ateno da empregada. Sorte que ela trabalhava de
segunda a sexta-feira e s dormia no servio quando ele e Eliana
saam para algum evento  cada vez mais raro  a fim de tomar
conta da pequena e adorvel Rafaela.
Dalva sorriu feliz e seus olhos marejaram. Sentiu que Roberto
havia sido verdadeiro e espontneo e nutriu imediatamente por ele
uma simpatia sem igual. A fim de ocultar o sentimento, perguntou:
 O que o menino gosta de comer?
 Tudo.
 Tem algum prato especial?
Ele colocou o dedo no queixo e em seguida respondeu:
 Bife  milanesa com batatas fritas. Adoro.
 Pode ficar sossegado que vou lhe preparar o melhor bife com
batatas que voc j provou.
Roberto sorriu feliz e passou o brao pela cintura da irm. Foram
em direo  edcula.
 O seu pequeno apartamento ficou muito bonito. Espero que
voc goste do seu cantinho. Fiz o melhor que pude.
Roberto acompanhou a irm carregando suas malas, Assim que
avistou a edcula, ele se encantou. Ficava ao lado da lavanderia ou
rea de servio. Assemelhava-se a uma sobreloja. Havia uma
escada de cimento e corrimo de ferro fundido em forma de caracol
que levava at o andar de cima. O espao era bem dividido: havia
uma pequena saleta para estudos, mobiliada com uma TV e um
mvel para os discos. Eliana comprara uma escrivaninha, um
livreiro e um sof. Ao lado da saleta ficava o quarto, pintado num



tom azul-claro e com mveis brancos. Uma cama de solteiro, um
criado-mudo, um guarda-roupa e uma cmoda. Para completar a
decorao, um espelho prximo  porta e um pster bem grande
do filme Grease  Nos tempos da brilhantina.
 Fiquei em dvida quanto ao pster. Talvez voc preferisse Os
embalos de sbado  noite.
Beto no cabia em si de contentamento.
 Voc fez tudo isso para mim?
 Sim.
 Eu sou mais o Grease. A Olivia est linda nesse pster, sem
contar que as msicas so deliciosas. Vou furar o disco de tanto
que escuto.
Ele correu e passou delicadamente as mos sobre o pster
colorido do filme.
 Esse pster  lindo!
 Uma amiga minha trabalha num cinema e, quando saiu o cartaz,
ela guardou e mandou para voc.
 Todo esse espao  meu?
Eliana sorria feliz.
 Ainda no terminamos. Voc no viu o banheiro e a cozinha,
quer dizer, uma pequena rea ligada  saleta para voc poder
fazer refeies leves e cobrir seu estmago nas madrugadas em
que estiver estudando. Eu pensei em tudo.
Roberto a abraou emocionado.
 Voc  a melhor irm do mundo. Na verdade, voc  como uma
me para mim. Eu sempre lhe serei muito grato.
 Eu tambm o amo muito, meu irmo querido. Eu o tenho como a
um filho. Sempre prezei pela sua educao e confesso ter ficado
triste quando me casei e vim para So Paulo. Mas veja como a
vida d suas voltas e agora estamos juntos de novo.
 Prometo que no vou atrapalhar a sua vida, a rotina que vocs
tm diariamente. E prometo ajudar no que precisar.
 Temos a Dalva que cuida desta casa com carinho e esmero.
Quero que voc se concentre nos seus estudos. Agora precisa se
dedicar ao cursinho. Amanh vamos fazer uma vistoria na escola,
conhecer as dependncias, retirar o material que voc vai utilizar.
So muitas apostilas, alguns livros, e os cadernos que eu mesma
encapei como fazia com seu material de colgio.
Roberto a abraou novamente, enchendo-a de beijos.



 Voc gosta mesmo de mim. Voc e o Ricardo.
 Por que diz isso?
 Porque vocs me amam de verdade. Aceitam-me como eu sou.
Respeitam-me e no me condenam.
 Jamais ns o condenaramos. Por qu? Voc  diferente, nico,
nasceu dessa maneira. Creio que devemos respeitar as diferenas.
Eu e Ricardo compreendemos isso.
 Mas o papai e a mame...
Eliana pegou o irmo pelo brao. Sentaram-se no sof.



Escute

Beto,

sei

que

voc

passou

maus

bocados,

principalmente ao lado de papai. Mame sempre foi alheia a tudo,
sempre preferiu viver no seu mundo cheio de iluses e nunca quis
lidar com a realidade. Papai sempre o amou muito.
 No  verdade. As surras que levei no podem vir de algum
que me ama.
 Mas ele o ama. Papai infelizmente no aceita voc como . Ele
luta diariamente com esse sentimento ambguo. Por dentro ele o
ama, o quer bem, o admira. Entretanto, sua postura, seu jeito de
ser no so exatamente como ele sonhou. Devemos perceber que
ele e mame fazem parte de uma gerao em que foram obrigados
a seguir regras sem poder contest-las. Eles foram criados para

obedecer,

foram

moldados

por

padres

muito

rgidos

de

comportamento.
 Eu sei. Mas a rejeio doeu muito.
Eliana apertou a mo do irmo como prova de sua compreenso.
 Imagino que doa muito. Voc parou para pensar que papai e
mame nunca tiveram opinio formada sob nada?
 Como assim?
 Eles foram criados para ser uma mquina que vive em funo
de padres sociais preestabelecidos. Eles no tiveram juventude.
Saram da infncia para logo enfrentarem casamento e famlia.
Ningum lhes perguntou se queriam estudar isso ou aquilo, se
queriam se casar com fulano ou beltrano. Hoje h moda para o
jovem, divertimento, programas televisivos. Parece que o mundo
descobriu no jovem um mercado potencial. Mas papai e mame,
quando jovens no tiveram muita escolha. Ou melhor, no tiveram
nenhuma escolha. Percebe o conflito de geraes?
 Isso no os exime da responsabilidade de procurar me
entender. Poderiam ser mais compreensivos. Por que mame no



teve essa mesma conversa comigo? Sempre ficou fechada em seu
mundo e nunca fez muito para tentar enxergar que ia aqui, no meu
corao.
Eliana o abraou.
 Eu sei meu querido. No deve ter sido fcil. E creio que no
ser fcil por muito tempo, ou mesmo por toda sua vida. Lidar com
o preconceito, com o diferente, no  tarefa das mais fceis.  uma
tarefa nobre, porquanto voc necessita se dar muito respeito,
encher-se de coragem e precisa, acima de tudo, jamais deixar-se
de lado.  um exerccio contnuo de auto-estima.
 Voc fala to bonito!
 Sabe que desde que voc comeou a mostrar suas tendncias,
fiquei preocupada e, em vez de conden-lo, fui atrs de
profissionais que pudessem me esclarecer. Alm disso, se voc se
interessar, eu posso falar com o Ricardo e podemos lhe pagar
sesses de terapia. Consultar um bom terapeuta talvez o ajude a
lidar melhor com sua homossexualidade.
 Eu agradeo bastante. Voc e Ricardo tm feito muito por mim.
Esto me dando casa e pagando cursinho. Eu no quero abusar.
 No se trata de abuso. Talvez voc precise de respostas que s
mesmo os terapeutas so capazes de dar.
 Sei disso. Entretanto, tenho conversado muito com Leila. Ela
tem se mostrado muito amiga e tem me explicado muita coisa
sobre esse meu jeito de ser.
Eliana levantou o sobrolho.
 Quem  Leila?
Roberto sorriu.
 No fique com cimes. Ela  somente uma amiga.
 No estou com cimes  ela sorriu.  Voc nunca mencionou
esse nome antes.
 Faz algum tempo que nos conhecemos. Ela tem perto de
quarenta anos de idade.  muito bonita.
 E onde a conheceu?
 Na rua, num dia...  ele hesitou. No queria que a irm
soubesse que ele quase fora molestado pela turma de Dnis.
Procurou dissimular e mentir:  Eu a conheci num parque, em
Jundia. Ficamos amigos. Toro para que ela venha morar aqui na
capital. Poderia ser nossa vizinha. Este bairro  muito bonito, bem
arborizado, cheio de casas lindas.



 Ela pretende se mudar para c?
 Sim. Est resolvendo alguns assuntos e assim que vender a
casa vir para c. Voc vai gostar muito da Leila. Tenho certeza.
 Ela sabe que voc  gay?
 Hum, hum. Ela me apia e tem me ajudado muito com palavras
amorosas. Tambm conversa muito comigo, como se fosse uma
terapeuta.
 Vou gostar de conhecer a Leila. Se ela gosta e o aceita como ,
deve ser uma pessoa de bem.
 Voc vai ver Eliana. Ela  muito especial.
Ela sorriu.
 No se esquea de que voc est a cada dia se tornando uma
pessoa melhor.  isso que conta.
 Eu amo muito voc. Espero que possamos sempre ser amigos.
 Claro que sempre seremos!
Roberto mordiscou os lbios.
 Mas o comportamento de Alaor me preocupa um pouco.
 Ele tem tentado entender. No convvio dirio, tenho certeza de
que Alaor vai gostar de voc. Acredite.
 Espero.
 Ah!  ela sorriu e levantou-se.  Tenho uma surpresa.
 Qual ?
 Ricardo vem passar um fim de semana qualquer aqui em casa.
Vai trazer uma namorada nova. Parece que  srio.
 Ricardo com compromisso srio? Duvido.
Eles riram.
 Vamos aguardar e saber quem  essa misteriosa mulher que
enfeitiou nosso irmo.
Continuaram a conversa enquanto arrumavam o quarto com os
pertences que Roberto havia trazido nas bagagens. Em pouco
mais de uma hora o apartamento, se assim podemos dizer, estava
arrumado, com as roupas nos armrios, os artigos de toalete
displicentemente colocados no armrio do banheiro, tudo em
ordem. Roberto apanhou sua vitrolinha e a ps no mvel ao lado
do aparelho de TV. Apanhou o disco da trilha sonora do filme e
logo o ambiente foi contagiado de msica agradvel aos ouvidos.
Roberto pegou a irm pelo brao e ambos ficaram rodopiando na
saleta, imitando os passos que os astros John Travolta e Olivia
Newton-John faziam no filme Grease. Divertiram-se a valer.



No resto da tarde, Roberto escutou mais alguns discos e depois
brincou com a sobrinha. Rafaela era uma garotinha adorvel,
estava sempre de bom humor e com um sorriso nos lbios. O jantar
foi servido e, em seguida, Roberto retirou-se para seus aposentos.
Estava cansado e queria dormir cedo. No outro dia iria com Eliana
 escola e no via o momento de botar as mos nas apostilas e
comear a estudar, mesmo antes do incio das aulas.
 Eu vou entrar na faculdade de medicina. Vou conseguir. Deus
vai me ajudar.
No demorou muito para ele conciliar o sono. Assim que
adormeceu, seu esprito desprendeu-se do corpo fsico. Roberto
sentou-se na beirada da cama. Meio sonolento avistou uma figura
feminina, cujo sorriso era cativante.
 Gina!  exclamou.
 Como vai, Beto?
A voz do esprito era de uma docilidade incrvel.
 Estou bem. Sinto certa apreenso, mas  natural. Minha vida
est num processo de grandes mudanas. Sei que j passei pelo
pior.
 Tem razo. Sua adolescncia est chegando ao fim. Voc
conseguiu superar o relacionamento conflituoso com seu pai e sua
me, alm de superar as adversidades naturais pela escolha de
sua sexualidade.
Roberto esfregou os olhos e, mais lcido, levantou-se.
 Gina, sinto que poderia ter tido um relacionamento mais
harmonioso com meus pais.
 Voc fez o seu melhor. Nunca os desrespeitou, sempre
procurou ser um filho amvel, responsvel. Se eles no
aprenderam a lio, talvez aprendam numa prxima oportunidade.
 Mesmo tendo sofrido nas mos do meu pai, no tenho raiva
dele, mas senti grande alvio ao sair de casa, porque seus olhos
inquisidores muito me incomodavam.
 Otvio o ama muito. Vocs tm uma profunda ligao que se
perde nos fios do tempo. Antes de reencarnarem, ele se prontificou
receb-lo como filho e na condio de homossexual. Mas como
voc bem sabe, ao reencarnar esquecemos muitas coisas. S
mesmo na matria, vivendo aprisionados no corpo fsico  que
vamos ter a certeza se nosso esprito est ou no pronto para lidar
com os propsitos anteriormente combinados.



 Ele sente culpa pela morte de Otaclio, no  mesmo?
 Sim. Mas seu pai no foi culpado de nada. Era uma situao
que o esprito de Otaclio precisava vivenciar.
 E como ele est?
 Bem. Em breve voc vai se encontrar com ele. Otaclio faz parte
do grupo de espritos que esto trabalhando na nova colnia.
 Papai e mame acham que ele se matou.
 No foi assim que aconteceu. No fundo sua me sabe da
verdade. Ela no quer reviver o passado e, portanto o distorce, pois
ele lhe traz dor e sofrimento.
 Eu vou torcer para que papai e mame fiquem bem tambm.
 Eles vo ficar. Agora, vamos dar uma volta? Quero lev-lo para
um passeio em nossa colnia.
 Estou com saudades.
 Feche os olhos e me d s mos.
Roberto assentiu com a cabea. Em segundos estavam numa linda
colnia prxima ao orbe terrestre, lindamente arborizada. A
profuso de tipos de rvores e flores, a colorao das folhas e
ptalas, tudo enchia os olhos de profunda beleza e convidava para
a contemplao.
Aproximaram-se e sentaram-se num banco.
 Estava com saudades deste banco  disse Roberto.
 Voc fez questo que ele ficasse aqui bem no meio da praa, a
fim de servir como local de refazimento queles que se deixa
atormentar por pensamentos negativos.
 Vou comear a estudar dentro de algumas semanas. Tenho a
certeza de que vou conseguir.
Gina sorriu.
 Sei que vai. Sua alma anseia por isso. Voc estudou com
mdicos do astral e o seu trabalho na Terra ser de suma
importncia para aqueles que vo padecer da nova doena.
 Ainda no soube de nada a respeito.
 O vrus j saiu do mundo astral e penetrou no mundo fsico.
Constatamos um ou outro caso isolado no planeta. Logo haver
uma concentrao maior de casos, principalmente nos Estados
Unidos. Quando o vrus chegar ao Brasil, voc estar quase
formado.
 Eu poderia ter reencarnado um pouco antes. Desta forma
estaria formado antes de o vrus se alastrar pela Terra.



 Est olhando sua encarnao do ponto de vista individual. E os
outros que reencarnaram e interagem com voc nesta vida? No
se esquea de que muitas vidas esto entrelaadas e que tudo foi
planejado para acontecer dessa forma. A vida planeja tudo da
melhor maneira possvel, de maneira que todos os envolvidos
tenham chances de melhorar e crescer.
 Eu me esqueci dos outros. Por falar em outros  Roberto
suspirou , onde ele est?
Gina deu-lhe um tapinha nos ombros.
 Ainda no  hora de vocs se encontrarem. Voc precisa
estudar e dedicar-se de corpo e alma  carreira que vai abraar. H
mdicos aqui no astral esperando voc se formar para poderem
trabalhar ao seu lado, ou seja, inspirar-lhe bons pensamentos,
soprar-lhe dicas de estudo e de tratamento dessa nova doena.
 Sinto tanto a falta dele!
 Quando voltar ao corpo fsico voc vai esquecer. Prometo que
vocs vo se ver muito em breve, mas s vo se ver. Se tudo
correr conforme o combinado, alguns anos l na frente vocs vo
se reencontrar de fato. E, no se esquea e vo se encontrar num
momento muito conturbado de suas vidas. Estarei ao seu lado para
ajud-lo a enfrentar vir pela frente.
 Sei que poderei sempre contar com sua ajuda, Gina. Voc 
mesmo um anjo. No sei se reencarnaria caso voc no tivesse
deste lado de c me ajudando a superar as adversidades da vida
terrena.
 No subestime sua capacidade de lidar com as adversidades.
Voc  forte, Roberto. Escolheu nascer gay, enfrentar preconceitos
dentro e fora de casa. Preferiu encarar uma vida cheia de rejeies
e condenaes a fim de subir mais rpido em sua escala evolutiva.
No so muitos os que pensam como voc e aceitam essa rdua
tarefa.
 Sei disso. E voc muito tem me ajudado.
 Tambm tenho aprendido muito com voc.
A conversa fluiu agradvel e, antes do sol nascer, Gina conduziu
Roberto at seu corpo. Em seguida, retornou  colnia espiritual. O
esprito de Roberto encaixou-se no corpo fsico e ele continuou
dormindo, de maneira serena e tranqila.

Captulo 11




O tempo correu clere. As aulas comearam e Roberto dedicava-
se com afinco aos estudos. Acordava cedo, tomava um banho e
em seguida sentava-se na copa para o caf, que Dalva fazia
questo de lhe servir. Depois, ele se arrumava, saa carregado de
apostilas numa mochila e ia a p ao cursinho. O prdio no ficava
muito distante de sua casa.
Roberto havia mudado muito seu jeito, sua maneira de falar, at o
seu andar era mais firme. Dificilmente algum diria que ele fosse
gay. s vezes ele tinha um ou outro jeito mais delicado na fala, no
entanto isso em nada atrapalhava o convvio com os outros
adolescentes.
O garoto ficara mais confiante, mais dono de si. E, de tempos em
tempos, lembrava-se daquela frase que ecoava em sua mente.
No cansava de repetir para si:
 Eu sou amado e protegido por Deus.
Nas cartas que trocava semanalmente com Leila, o rapaz era
encorajado a se aceitar incondicionalmente e valorizar-se, pois ele
era nico, alm de ter sido feito imagem e semelhana de Deus.
Alm das frases positivas e de estmulo, Leila lhe mandava livros

de

auto-ajuda,

como

tambm

livros

que

tratava

da

homossexualidade de maneira natural e sem as tintas do
preconceito. Como Roberto era bom em ingls, ela lhe enviava
livros que um conhecido lhe comprava no exterior. Principalmente

nos

Estados

Unidos,

onde

o

movimento

pelos

direitos

homossexuais estava em franca expanso e pipocavam livros
editados por mdicos e psiclogos que davam suporte e apoio,
alm de ajudar os homossexuais a se sentirem pessoas normais,
contrariando determinados setores da sociedade moralista e rgida,
avessa s mudanas naturais que a vida nos impe.
Roberto sorvia cada palavra do clice do conhecimento. Quando
no entendia o texto, pegava um dicionrio e, com a traduo da
palavra para o portugus, toda a frase lhe fazia sentido. No
obstante, cabe ressaltar que ele havia tido contato com a lngua
inglesa em vrias outras vidas, o que lhe facilitava bastante a
leitura nesse idioma.
Ele fez amizades com meninos e meninas no cursinho. Era bem-
quisto pelos colegas, porquanto era um rapaz muito simptico, que



sempre ajudava os colegas em dificuldade com os massacrantes
exerccios das mais variadas matrias.
Nesse mesmo dia, um pouco mais tarde, como havia tempos no
acontecia, Alaor e Eliana tomavam o caf da manh.
 Ontem voc chegou tarde de novo. No pode dizer ao seu chefe
que tem uma filha pequena que o espera para receber um beijo de
boa noite?
 O trabalho me consome. Depois que o idiota do Rubens pegou
meu lugar...
 Na hora certa voc ser promovido.
 Qual nada! E pare de me cobrar.
 No o estou cobrando, somente o chamando para as suas
responsabilidades de pai. E ademais eu senti hoje cedo um cheiro
forte de cigarro em sua camisa.
 Anda cheirando minhas roupas? Tornou-se um sabujo, um co
farejador?
 Voc no fuma. Onde tem se metido?
Alaor no quis responder. A fim de desconversar sobre as
escapulidas noturnas, questionou a esposa, de maneira a provoc-
la:
 Onde est meu cunhadinho delicado?
Eliana sentiu o tom maledicente na voz do marido. No estava com
vontade de brigar logo cedo.
 As aulas comeam bem cedo. Enquanto voc est a sentado
tomando seu caf e lendo seu jornal, meu irmo j est num banco
de sala de aula.
Alaor deu de ombros. De fato, reconhecia que Roberto era
esforado. Ele mal via o garoto. Quando acordava, ele j havia
sado para o cursinho. Quando retornava do trabalho ou dos bares
que freqentava, geralmente tarde da noite, Roberto estava
estudando ou dormindo. Moravam na mesma casa e mal se viam.
Entretanto, havia algo em Roberto que incomodava Alaor.
Profundamente. E ele sempre arrumava uma maneira de provocar
o menino.
 No vai estragar esse menino mais do que j foi estragado.
 Ele no foi e no est estragado. Que jeito  esse de falar.
 Nada.



Alaor pegou o bule de caf e despejou um pouco do lquido em sua
xcara. Depois, pegou uma fatia de bolo. Enquanto comia e sorvia o
lquido quente, continuou no ataque.
 Esse menino pode influenciar minha filha. No o quero muito
perto de Rafaela.
 Por qu? Acha que a presena dele ao lado de nossa filha vai
fazer com que ela vire alguma coisa?
Alaor desconversou.
 No  nada disso. Seu irmo veio para c para estudar e no
para ficar brincando dentro de casa ou ficar escutando msica dia e
noite.
 Isso  mentira. Voc sabe o quanto meu irmo tem se dedicado
aos estudos. Beto chega do cursinho, almoa, d uma descansada
e depois se debrua nos livros. A msica de que voc fala  nos
fins de semana. Creio que seja justo ele descansar um pouco no
fim de semana e ouvir msica. Que mal h nisso?
 Mal nenhum. Espero que ele entre logo na faculdade, forme-se
logo e suma da minha casa.
Eliana no estranhou o tom. H muito tempo Alaor mudara sua
postura, seu comportamento. Dentro de casa ele era mal-
humorado, insuportvel. Destratava Dalva por qualquer bobeira ou
deslize. Brincava muito pouco com a filha. Ele andava muito
esquisito, para falar a verdade, principalmente depois de perder a
to sonhada promoo.
 Voc no  mais o mesmo. O que est acontecendo?
 No est acontecendo nada.
Eliana no se deu por vencida.
 Voc concordou em receber o meu irmo aqui em casa.
Participou da reforma da edcula. Foi um dos que achou que seria
bom o Beto ficar longe da presena dos meus pais. Agora que ele
mora conosco h meses, voc o trata com frieza e desdm. Por
qu?
 No  isso. S no quero que nossa rotina seja alterada 
disse.
 Nossa rotina continua a mesma. Alis, enfadonha como sempre.
 Vai reclamar de novo?
 Alaor, h quanto tempo no samos para jantar?
 Ora, por que sair para jantar? A Dalva cozinha to bem!



 E o romantismo? Cad o nosso namoro, as nossas idas ao
cinema, as noites danantes... Voc adorava sair para danar
comigo.
Alaor levantou-se rapidamente. Sorveu o resto de caf na xcara.
 No somos mais namorados. Casamos.  Ele levantou a mo e
fez um gesto apontando para a aliana dourada no dedo anular da
mo esquerda.
 E qual a diferena?
 A diferena  que agora eu no sou mais um namorado porra-
louca. Tenho obrigaes. Agora sou casado, tenho uma casa para
cuidar, contas para pagar, uma filha para sustentar, empregada,
um cunhado...
 Eu sei de tudo isso, mas podemos manter a chama da nossa
paixo com certo encantamento. Um jantarzinho de vez em
quando, uma esticada numa boate...
 Voc  romntica e sonhadora, Eliana. No percebe que no
tenho mais idade para essas futilidades?
Alaor falou, beijou-lhe a testa e saiu apressado, como de costume.
Apanhou a pasta, o palet e em poucos minutos o ronco de seu
carro sumiu na curva da esquina. Eliana sentou-se na cadeira e
serviu-se de caf. Enquanto tentava se alimentar as lgrimas corria
insopitvel.
Na hora do almoo, Roberto chegou do cursinho. Estava animado
como sempre e tambm faminto como de costume. Beijou Dalva e
Rafaela na cozinha e entrou na copa. Encontrou a irm cabisbaixa.
Sabia que Eliana no estava bem. Aproximou-se e sentou-se ao
seu lado.
 Bom dia. Ou boa tarde.
Ela o encarou de maneira surpresa.
 J chegou? Nem vi a manh passar.  Os olhos dela estavam
inchados de tanto chorar.  Voc est com tima aparncia, meu
querido.
 Dormi muito bem. No sonhei, mas fazia tempo que no
acordava assim to disposto e feliz. E o dia de aula foi muito
proveitoso. Tirei muitas dvidas com os professores. Estou cada
vez mais confiante de que vou passar no vestibular.
 Vai ver  a sua casinha  ela apontou para o lado da edcula.
 Reformei e decorei com muito amor.  Eliana falou, mas no
conseguiu conter o pranto. Estava desiludida, cansada de esconder



sua tristeza. Queria poupar o irmo para que ele se dedicasse to
somente aos estudos. Contudo, a conversa com o marido logo
cedo a deixara devastada emocionalmente.  Oh, Beto, desculpe-
me. No queria que voc me visse nesse estado to lastimvel.
Roberto a abraou e, enquanto alisava os cabelos da irm, disse
baixinho:
 Chi! Eu estou aqui para ajud-la. Tenho percebido a distncia
entre voc e Alaor, mas o assunto no  de meu interesse. Voc
sabe o quanto sou discreto.
 Voc tem percebido nossas diferenas?
 Sim. Agora moro aqui e, mesmo que fique trancado na edcula e
me dedique aos estudos, eu sinto que o relacionamento de vocs
no vai bem.
 Alaor mudou muito desde que nos casamos. Ele foi um
namorado excepcional, atencioso, amoroso, brincalho. Depois
que nos casamos as coisas foram mudando aos poucos. Hoje,
olhando para trs, percebo que as mudanas ocorreram depois da
lua-de-mel.
 Alaor deixou de ser ele mesmo para se transformar no esposo.
Perdeu o vio, a espontaneidade e cr que o papel de marido seja
mais importante do que ser si mesmo.
 Ele no brinca mais, leva tudo muito a srio. Quando Rafaela
nasceu, tudo ficou bem pior. At a nossa intimidade...  ela
ruborizou.  Desculpe. Voc  meu irmo querido,  to novinho.
 Sou maior de idade e fui inclusive dispensado do servio militar.
No sou mais o seu irmozinho. Quer dizer, serei sempre o caula,
mas me sinto mais adulto e responsvel. Eu nunca namorei, no
posso ainda avaliar o significado do amor para mim, no entanto,
pelo que tenho notado, Alaor vestiu a roupa de marido e vai ser
muito difcil tir-la. E como aquele moletom pudo que a gente
gosta de usar quando est em casa. No o jogamos fora por nada
deste mundo.
Ela sorriu.
 Tem razo. Alaor no me valoriza mais. Outro dia reclamou que
as contas para pagar estavam crescendo, que aps o nascimento
de nossa filha tudo aumentou. Eu lhe disse que poderia voltar a
trabalhar, fazer alguns cursos de atualizao e voltar a advogar.
Tive at medo. Ele quase avanou sobre mim.
 No posso acreditar! Alaor ia lhe bater?



O sangue subiu nas faces de Roberto.
 No  bem isso. Foi mais o nervoso da hora. Alaor pode ser o
que for, mas nunca levantou a mo para mim ou mesmo me
desrespeitou. Ele simplesmente mudou o jeito de ser. Agora fica
dizendo que  esposo e pai. Tem obrigaes demais.
 Eu diria que so as responsabilidades da vida a dois. Ele no
quis casar e ter um filho, constituir famlia? Pois tudo tem seu
preo, oras.
 Ele no me procura mais, Beto.
 Desde quando?
Eliana se recomps. Passou as costas da mo pelo nariz. Sorveu
um gole de caf preto.
 Alaor comeou a se distanciar quando fiquei grvida. Tinha
medo de que nossas relaes ntimas prejudicassem a gravidez.
Depois que Rafaela nasceu ele no me procurava porque dizia que
eu precisava me recompor do parto. Atualmente pretexta trabalho e
cansao.
 Vai ver ele est com muito trabalho. Voc mesma disse que
depois de perder a promoo ele tem trabalhado mais. No ?
Eliana assentiu com a cabea.
 Sim. Ele est para ser promovido.
 Aguarde e mantenha a mente tranqila. Voc tem a Dalva, uma
empregada maravilhosa. Tem a Rafaela, uma filha adorvel. E tem
a mim.
Eles se abraaram emocionados.
 De onde tirou essa?
Ele sorriu satisfeito.
 Para no morrer de tanto estudar, leio alguns livros que a Leila
me manda. So livros de auto-ajuda, e l aprendi muita coisa para
me fortalecer como pessoa. Tem um livro que trata do
relacionamento a dois. Fiz algumas anotaes e da percebi que
seu casamento est balanado.
 Sei que sua presena nesta casa me d mais foras para levar a
vida adiante.
 Talvez essa fase de trabalho passe e Alaor volte a ser como
antes.
 Voc acha?
 Nem tudo est perdido.



Roberto fez tremenda fora para no desapontar a irm. Amava
Eliana e no queria v-la sofrer. No entanto, em seu ntimo,
percebia que o casamento ia de mal a pior. Ele podia ser jovem,
mas sua intuio era bem afiada. Roberto tinha certeza de que
Alaor estava traindo a esposa.
 Esse casamento no vai ter um final feliz  disse para si
enquanto alisava, novamente, os cabelos sedosos de sua irm.

***
A campainha tocou e Leila correu para atender. H muito queria
notcias do paradeiro de sua filha. Por onde andaria?
Leila fizera parte de uma humilde famlia de camponeses numa
cidadezinha encravada nos confins do Rio Grande do Sul. Ela era
uma garota linda. Olhos verdes, sobrancelhas perfeitamente
desenhadas, clios longos. Seu rosto era o de uma princesa de
contos de fada. A pele rosada contrastava com os lbios carnudos
e vermelhos. Os dentes eram alvos e os cabelos compridos e
dourados.
Aos dezesseis anos ela apaixonou-se pelo filho do prefeito da
cidade, um rapaz muito bonito, e que na poca tinha vinte anos de
idade. A paixo entre os dois foi algo incontrolvel beirando as
raias da insensatez. Encontravam-se s escondidas e amavam-se
a torto e a direito. O resultado desses encontros foi uma barriga
proeminente e a constatao: Leila ficou grvida.
Aturdida, ela procurou o noivo e decidiram casar-se, mesmo
fazendo parte de classes sociais bem distintas. A famlia do noivo
foi totalmente contra, porquanto sonhavam com um futuro poltico
promissor para o jovem. Um casamento, naquela altura do
campeonato, com uma garota pobre, ia contra os interesses da
famlia.
Depois de muitas brigas e desentendimentos, Leila foi levada a um
convento e por l ficou trancafiada at o nascimento da menina.
Ela mal teve tempo de ver sua pequena. Devastada pela dor do
parto, ela desmaiou to logo deu  luz. A criana foi levada e
entregue para adoo.
Leila no foi mais bem-vinda em sua prpria casa. Seus pais
viraram-lhe as costas. Uma filha deflorada, na dcada de 1950, era
motivo de muita vergonha para qualquer famlia. A jovem, com o
corao partido e sem saber do paradeiro da filha, aceitou o



dinheiro da famlia do ex-noivo e correu at a pequena estao de
trem. Ela nunca havia sado de sua cidadezinha e quando viu o
condutor gritar o nome da cidade de destino  So Paulo 
decidiu ir para a cidade grande. Na capital, ao desembarcar na
estao da Luz, ouviu ao longe algum gritar Jundia e no
titubeou. Resolveu ir at essa tal cidade. Escolheu morar em
Jundia. Com o dinheiro recebido para sumir da vida do jovem
poltico, Leila comprou uma casa modesta e trabalhava como
vendedora numa loja de calados femininos.
Aquele tal do ex-noivo, cujo nome de batismo era Herculano  que
depois de ser afastado de Leila nunca se casou  tornara-se
poltico conhecido e chegara a ocupar o cargo de embaixador num
pas da sia. Anos depois, Herculano morreu num desastre areo,
nas imediaes do aeroporto de Orly, na Frana, acidente esse
que ficou gravado na cabea dos brasileiros pelas perdas de
personalidades como o senador Filinto Mller, o cantor Agostinho
dos Santos e a socialite Regina Leclery.
Leila quase no acreditou quando os advogados da famlia de
Herculano conseguiram localiz-la e lhe entregaram um cheque
cheio de zeros  direita. No testamento, talvez por remorso, o seu
outrora noivo lhe deixava generosa soma em dinheiro. Ela deixou a
loja de calados, aplicou o dinheiro e passou a viver de renda.
Agora, depois de tanto tempo, queria morar em So Paulo. Sentia
saudades de Roberto. Apegara-se a ele como se fosse a um filho.
Enquanto ela no encontrasse sua criana, daria todo seu amor a
Roberto.
Ela abriu a porta e foi logo perguntando:
 Voc demorou a dar notcias. O que aconteceu? Por que sumiu
dessa maneira? Faz tempo que no tenho notcias suas.
O homem entrou na casa, tirou o chapu e o casaco. Como
Roberto havia dito tempos atrs, o homem parecia mesmo o
detetive Columbo. Leila pegou o chapu e o casaco e os colocou
sobre o cabideiro.
 Sente-se.
 Obrigado.
 Descobriu mais alguma coisa?
 Sim.
Leila sentiu o corao ir  boca.
 O que foi?



Nelson passou os dedos sobre a barba, de maneira que denotava
um gesto caracterstico seu. Era alto, forte, moreno, cabelos
negros, as tmporas grisalhas. Tinha perto de cinqenta anos de
idade. Sempre gostara de romances policiais e sua profisso no
podia ser outra. Era conceituado detetive e amigo de delegados e
policiais. Trabalhava com dedicao e afinco, alm de ser de
extrema confiana e ter uma carteira selecionada de clientes. Era
muito discreto e seus servios eram conhecidos pelo boca-a-boca.
Ele jamais faria publicidade de sua atividade. Era uma boa pessoa.
 No existem registros sobre o nascimento de sua filha.
 No  possvel. Eu lhe dei a data. Pelo menos a data em que ela
nasceu eu jamais vou esquecer.
 Depois que o convento foi fechado, as freiras se dispersaram.
 Sumiram todas?
 Encontrei uma em So Borja, mas estava bem velhinha e bem
doente. No tive como coletar dados.
 Uma pena.
 Entretanto, passando pela cidade de Santo ngelo, encontrei
outra freira. Ela no quis falar muito, mas me afirmou que talvez
sua filha no tenha sido registrada, porque as crianas nasciam e
eram entregues logo para adoo, geralmente para famlias que
no morassem nas redondezas.
 Como faremos?
 Essa freira em Santo ngelo sabe de mais coisas. Ela deixou
escapar que outra freira, conhecida como irm Agnes, sabe de
alguma coisa porque era a responsvel por entregar as crianas
para os futuros pais.
 Conseguiu localiz-la?
 No momento sei que ela est numa misso na frica. Deve
retornar em alguns meses ou at um ano.
 Eu pago o que precisar para voc ir atrs dela. Nem que seja
nos confins do mundo.  No se trata disso. Ela vai voltar. Pelo
menos temos pistas quentes, depois de tanto tempo.
 Por que diz isso?
 Meu faro de detetive  ele riu.  Quando disse seu nome para
a freira, percebi um brilho estranho no olhar dela. Tenho a certeza
de que ela sabia de quem eu estava falando. Algo me diz que a
irm Agnes sabe do paradeiro de sua filha.
Leila desesperou-se.



 Ento precisamos de sua confisso. Temos de ir at l. Eu vou
providenciar as passagens e...
Nelson a cortou com docilidade na voz.
 Nem pensar.
 Por qu?
 Temos de ir com calma. Voc espera h mais de vinte anos e
no sero alguns meses que vo estragar o meu trabalho.
 Ela pode desaparecer nessa misso. Pode morrer.
 Est sendo dramtica demais. Ningum vai morrer. Eu preciso
esperar a chegada da freira. Vamos devagar. Assim teremos
nomes e datas concretos. Vim aqui para acalm-la. E tambm para
saber dessa sua sbita vontade de vender tudo e ir embora.
 Decidi mudar.
 Por qu?
 Desejo viver na capital. No quero mais morar aqui.
 O que quer de mim?
 Um advogado de confiana que trate dos papis. Quero vender
esta casa o mais rpido possvel e transferir minhas aplicaes
financeiras. Quero comprar uma boa casa em So Paulo.
 Isso ser fcil. Conheo um excelente advogado na capital.
 Quero resolver tudo o mais rpido possvel.
 Algum novo amor?
Leila esboou o primeiro sorriso da tarde.
 No. Depois da desiluso pela qual passei, quero ficar longe do
amor. Ele s machuca.
 Voc ainda no sabe o que  amor. Viveu uma paixo intensa, o
que  bem diferente do amor.
 Talvez. Mas os anos passaram e me dei muito bem sozinha. Por
que precisaria de algum nessa altura de vida?
 Uma companhia sempre  agradvel. O ser humano nasceu
para ter companhia.
 Eu no preciso disso.
Um brilho triste correu os olhos de Nelson. Ele nunca havia se
interessado por mulher alguma na vida. Sempre colocou a carreira
em primeiro lugar. Via os amigos de profisso se envolver com as
clientes e meterem os ps pelas mos. Depois que conhecera
Leila, descobriu porque alguns metiam os ps pelas mos, no

conseguiam

controlar

suas

emoes

e

se

envolviam

emocionalmente com clientes. Leila era uma mulher bonita,



madura, inteligente e solteira. Era independente, no precisava ser
sustentada. Caso se envolvesse com algum homem, seria por
amor, nenhum interesse outro que no fosse pelo nobre sentimento
de amor.
Nelson estava se interessando cada vez mais por ela. Pena que
ela nunca lhe dava abertura para ele abord-la.
 Eu sou paciente. Quem sabe um dia...  disse para si enquanto
esboava um sorriso maroto.

Captulo 12

Algumas estrelas despontavam no cu. O sol se despedia e a tarde
quente convidava para um passeio ou um refresco gelado. Srgio
atravessou a Avenida Vieira de Carvalho e dirigiu-se a um dos
bares que costumava freqentar no centro da cidade. Avistou uma
mesinha ainda vazia na calada e sentou-se numa cadeira.
Desabotoou a gravata e pediu um chope. Cludio chegou em
seguida,
 Que tarde linda!
  mesmo.
Cludio fez sinal ao garom e pediu um chope.
Essa brisa que vem do Largo do Arouche d uma boa refrescada.
No quero voltar para casa to cedo.
 Isso sem contar com esse bando de homens engravatados
saindo do servio.
Srgio sorriu.
 Tem razo. Tem muito homem bonito de se ver. S de se ver.
 S de se ver?
 Como voc sabe meu compromisso com Vicente  srio.
Cludio fez ar de mofa.
 A bandejeira ainda no voltou?
 No gosto quando fala assim do Vicente.
 S para descontrair.
 Ele  comissrio de bordo. E no se esquea de que trabalha
em rotas internacionais e s atende  primeira classe.
 Bandejeira fina.
 Tirou  tarde para me aporrinhar?
 De maneira alguma. Voc  livre para fazer o que bem entender.
O fato de eu no aprovar esse seu namoro no quer dizer que eu



no goste de voc. Por incrvel que parea, eu ainda o amo, como
a um irmo.
Srgio sorriu.
 Voc nunca se meteu em minha vida afetiva.
 Jamais vou me meter. Somos homens adultos. Eu somente sinto
que voc poderia ter um relacionamento mais saudvel.
 Por que diz isso? Acaso sabe o que sinto?
 No se trata de me meter em sua vida. Longe de mim. Mas tem
algo no Vicente que eu no engulo. Ele no me parece uma
pessoa confivel. Sabe da histria dele com o Carlos.
 Isso faz parte do passado.
 Carlos ficou devastado. Vicente o traiu com metade da cidade.
 Ele mudou. Agora me ama. Sempre que volta de viagem, enche-
me de presentes.
 Remorso. Puro remorso.
 Voc no d o brao a torcer.
 De maneira alguma. Voc sabe como nesses ltimos tempos 
difcil manter uma relao slida e monogmica. As pessoas esto
se sentindo mais livres, mais soltas, mais tudo. Querem transar
com todos. A troca de parceiros se mostra cada vez mais
constante. No meio gay as conversas so sempre sexo, sexo e
sexo. Ser que no existe outro assunto?
 E o que isso tem a ver com Vicente?
 Ele  bonito, novinho, atraente e galinha.
  tudo isso, menos galinha. Ele mudou, j disse.  comissrio
de bordo. Quando faz seus vos internacionais, freqenta os
lugares da moda, como o Studio 54. Vicente se diverte, ora bolas.
Se eu pudesse ir  Nova York, tambm faria de tudo para ir danar
na boate mais famosa e badalada do planeta, freqentar o Jet set
internacional. Ele s est aproveitando a vida.
 Acaso no acredita que ele saia com outros homens?
 Difcil acreditar. Ele jurou que no me trai.
 No quero parecer maldoso, mas veja bem, Srgio: ele est
longe, a tentao da carne  fraca, e Vicente tem um passado que,
infelizmente, pelas suas atitudes, o condena.
Srgio revirou-se na cadeira. Aquele assunto o deixava nervoso.
No fundo ele tinha at certeza de que Vicente saa com outros
homens quando viajava para os Estados Unidos. Havia encontrado
fotos do namorado abraado a vrios outros homens. Srgio fazia



fora para acreditar que fossem velhos conhecidos, mais nada.
 No quero ser estraga-casamentos  ponderou Cludio.  O
fato  que eu gosto muito de voc e no gostaria de v-lo sofrer.
 No estou sofrendo. Depois que o Lus foi embora com aquele
casal para So Francisco, voc sabe que no me envolvi com mais
ningum.
 Maurcio correu atrs de voc. Edgar sempre o desejou.
 E eu com isso?
 Eles so homens de bem. So caras legais. Conheo gente que
faria de tudo para namorar esses rapazes.
 Da.
 Que voc os despreza, joga fora a oportunidade de ter uma boa
histria afetiva.
 Minha vida afetiva anda boa. Vicente me trata bem.
 Ele o est manipulando. Voc at tenta ser o mesmo Srgio de
sempre comigo, mas nossos amigos tm percebido uma grande
mudana em seu comportamento.
 No mudei em nada!
 Como no?
 Vicente tem me ensinado a ser uma pessoa mais refinada, s
isso.
 Nunca mais fomos aos bares, s discotecas. Voc evita ir a
determinados lugares comigo.
 No pega bem. So lugares que no oferecem requinte, no
merecem mais ser visitados.
 Foi Vicente quem disse...
 Foi. At meu guarda-roupa ele mudou. Est me ensinando a
usar as roupas certas, freqentar os lugares certos, conversar com
as pessoas que sejam de fato interessantes. Trouxe-me uma cala
Lee. Importada!
 Seu namorado agora virou um livro de etiquetas ambulante?
 Sabe que sempre fui inseguro em relao a roupas e
comportamento. Venho de uma famlia humilde. No meio gay, a
roupa  tudo.
 Est se tornando uma pessoa ftil e superficial.
 Estou amadurecendo, oras. Natural. Estou batendo na casa dos
trinta anos de idade.
 Voc  muito bom,  bonito, independente, trabalha naquilo que
gosta. Volto a insistir: h tantos homens que gostariam de ser seu



companheiro e voc foi escolher esse rapaz que est sempre
ausente?
 O trabalho dele consiste em viajar. O que posso fazer? Vicente
tem uma profisso diferente do convencional.
 Abra os olhos, Srgio. Ainda a tempo de voc se safar.
 De qu?
Cludio no concluiu. Fez gesto para o garom e pediu outro
chope. Acendeu um cigarro e deu largas baforadas para cima. Ele
no podia exigir que Srgio visse o que seu corao no lhe
permitia enxergar. Ele sentia, pressentia que algo muito ruim iria
acontecer ao amigo. No sabia o que, especificamente, mas sentia
que algo de muito desagradvel estava prestes a desabar na
cabea do seu amigo. Cludio deu mais uma tragada no cigarro e
afastou aqueles pensamentos desagradveis com as mos.
Ao seu lado, Gina aproveitava para transmitir aos dois fluidos de
amor e equilbrio.
 De nada adianta forar Srgio a ver o que ele ainda no
consegue enxergar. Na vida escolhemos dois caminhos: o da dor
ou da inteligncia. Srgio est escolhendo o primeiro e nada
poderemos fazer seno lhe dar suporte espiritual.
Gina passou delicadamente as mos nos cabelos de Cludio, deu-
lhe um beijo na testa e seu esprito desvaneceu no ar.
Cludio sentiu agradvel sensao de bem-estar. Sorriu a deriva e
olhou Srgio com profundo carinho.
 A prxima rodada fica por minha conta  disse ele, aps dar um
tapinha no ombro do amigo.
 Esse seu perfume  inebriante.
 No largo meu Lacoste!
Os dois riram. A conversa tomou novo rumo e mais a noite, quando
ambos se levantaram para ir para suas casas, encontraram o ex-
namorado de Vicente. Srgio e
Cludio o cumprimentou.
 Voc anda sumido  comentou Cludio.
Carlos estava eufrico e a empolgao estampava seu semblante.
Ao seu lado estava uma figura de porte altivo e cara meio
amarrada. Aparentava constrangimento. Ele apresentou o novo
amigo a Srgio e Cludio.



 Meus amigos, este aqui  o motivo do meu sumio  fez um
gesto gracioso apontando para o homem ao lado.  Quero que
conheam Alaor.
Os dois rapazes o cumprimentaram. Carlos cochichou no ouvido de
Cludio:
 Ele  casado.
 Cuidado com homens desse tipo. Eles sempre querem
experimentar o diferente, vem para cima da gente e, depois de
saciados, voltam para suas esposas, ou, em caso extremo, caem
literalmente na gandaia. Se quiser algo srio e para valer, melhor
pular fora antes que sofra.
 Mas esse  diferente.
 Em qu, Carlos?
 Alaor me garantiu que vai se separar.
 Voc acreditou?
 E a vamos viver felizes para sempre.
 Espero que voc no se machuque. H pessoas que at
preferem sair com os casados, porquanto sabem que nunca vo se
envolver. Essas pessoas tm estrutura para agentar uma relao
desse tipo. Mas voc no tem essa estrutura emocional, Carlos. 
romntico e adora se apaixonar. J no chega s traies de
Vicente?
 guas passadas. Quando conheci o Alaor, o Vicente
transformou-se numa pgina virada.
Srgio percebeu o embarao de Alaor. Notara a aliana no anular
da mo esquerda. Procurou ser cordial.
 Vocs se conheceram aonde?
 No banco  respondeu Carlos.  Eu e Alaor trabalhamos no
mesmo andar.
 Esto juntos desde quando?
 Faz alguns meses  tornou Alaor.   a minha primeira vez
com homem.
Cludio e Srgio trocaram um olhar cmplice.
 Vamos tomar um chope. Vocs nos acompanham?  convidou
Carlos.
 Acabamos de tomar alguns. Estamos cansados e vamos para
casa.
Eles se despediram. Enquanto Srgio e Cludio sumiam na curva
da esquina, Alaor foi categrico:



 No quero que me apresente a esses seus amigos, tenho
reputao a zelar.
 Sossegue meu amor  disse Carlos.  Srgio e Cludio so
pessoas de extrema confiana. Eles no vo falar de ns. So
discretos e no so fofoqueiros.
 Assim espero. Sabe que tudo  novo para mim e ainda no sei
como vou resolver essa questo.
 Que questo?
Alaor suspirou.
 Eu sou casado, n?
 Existem milhares como voc nesta cidade. Logo voc vai
entender melhor nosso estilo de vida, nossos cdigos e vai ter
estrutura emocional suficiente para se separar da sua esposa.
Vamos viver juntos e eu vou lhe mostrar um novo mundo.
Alaor fez um gesto de contrariedade. No queria se envolver
emocionalmente com ningum. Percebera que gostava de homens
desde a adolescncia. Mas tambm gostava de mulheres. A
bissexualidade era algo terrvel em sua cabea. Preferiria ter
nascido htero ou gay. Ficava mais fcil  ou menos difcil  lidar
com suas preferncias. Ele conheceu Carlos no banco havia
alguns anos. Percebeu, pelos gestos delicados, que o rapaz era
gay. Aproximou-se e da nasceu esse envolvimento. Entretanto,
Alaor no queria saber de comprometimento. E em breve deixaria
isso muito claro a Carlos, para o desespero do pobre e iludido
rapaz.

***

Leila passou uma procurao para que Nelson cuidasse da venda
da casa e da transferncia das aplicaes financeiras. Ele relutou a
princpio. Era muita responsabilidade. Contudo a confiana que
Leila lhe depositara fora suficiente para ter maior certeza e muito
mais esperana de que ela gostava dele de uma maneira que ia
alm do convencional, alm da amizade.
 Jamais faria qualquer coisa para prejudic-la. No entanto, o fato
de ter confiado tanto assim em mim, demonstra que ela se sente
segura ao meu lado. Ser que ainda tenho chance?  perguntou
para si enquanto terminava de assinar a escritura de venda da
casa, no cartrio.



Nelson sorriu satisfeito. Encontrou um timo comprador, vendera a
casa de Leila pelo valor de mercado e  vista.
 Leila, eu prometi ao comprador que voc sair da casa em um
ms.
 Prazo mais que suficiente para eu me mudar.
 No cr que um ms seja muito pouco para arrumar uma casa
em So Paulo? Voc j sabe o bairro em que deseja se fixar, pelo
menos?
 Eu tenho trocado cartas com o Roberto e quero me mudar para
perto da casa de sua irm.
 Voc gostaria de ir a So Paulo neste fim de semana?
Poderamos procurar por alguma casa  venda nas imediaes. E
voc mata a saudade que tem de Roberto.
 Adoraria Nelson. Posso me hospedar num hotel e fazer uma
surpresa para a minha criana. Tenho certeza de que Roberto vai
adorar esse encontro. Mas...
 O que foi?
 O meu cachorrinho.
 Voc pode ficar na minha casa. Eu moro num sobradinho, fica
meio afastado do centro da cidade, contudo,  bem confortvel.
Rex vai adorar passar o fim de semana em minha casa.
 No quero atrapalhar. No gosto de dar trabalho para os outros.
 Prometa que vai ficar na minha casa. Voc e o Rex. Eu insisto.
 Vou pensar no caso. Talvez eu o tenha que dividir com Roberto.
Ele vai querer que eu passe bastante tempo ao seu lado. Conheo
bem aquele garoto.
 No tem problema. Eu sei dividir, compartilhar...
 E, de mais a mais, no quero lhe dar trabalho algum.
 Voc nunca me d trabalho. Ao contrrio, tudo o que fao para
voc me enche de prazer e contentamento.
Nelson falou de maneira espontnea. A docilidade de sua voz
ruborizou as faces de Leila. Ela assentiu com a cabea. Fazia
algum tempo que notava os ares galanteadores de Nelson sobre
ela. A princpio acreditou que fosse uma falsa impresso.
Ultimamente os olhares que ele lhe dirigia eram mais vivos, mais
brilhantes, mais demorados... Leila passou a sentir um friozinho no
estmago todas as vezes que Nelson lhe encarava sem desviar os
olhos.
 No pode ser! Ser mesmo que ele est interessado em mim?



Leila fez a pergunta para si prpria e em seguida pretextou uma ida
 cozinha. Nelson sorriu e disse baixinho:
 Ela gosta de mim. Definitivamente, ela gosta de mim.
No fim de semana foram para So Paulo. A viagem durou pouco
mais de meia hora. Jundia fica muito prxima da capital, sendo
que o percurso nem chega a ser considerado uma viagem de fato.
O dia estava quente, o sol dava um colorido especial  cidade.
Leila estava maravilhada com tudo o que via. Estivera na capital
alguns anos atrs, na poca em que teve de receber a herana que
o ex-noivo lhe deixara. Nem dava para contar  vez que veio do Sul
para a capital, pois desceu de um trem e embarcou em outro.
Ela foi at um cartrio no centro da cidade e, depois de tudo
acertado e os papis assinados, resolveu dar uma volta e
encantou-se com as pessoas, o movimento, o barulho. Tudo na
cidade a encantava. Por recomendao de uma conhecida, rumou
at o parque do Ibirapuera. Foi uma das tardes mais gostosas que
teve. Tomaram sorvete, caminharam por entre as alamedas floridas
e arborizadas do parque. Depois, sentaram-se  beira da lagoa e
contemplaram o horizonte. Ambos estavam felizes.
Estava de volta  cidade que escolhera para ser, aparentemente,
seu lar definitivo. Depois de contemplar o pr-do-sol, ele disse:
 Deixamos as bagagens em casa e vamos  casa da irm de
Roberto.
Nelson dirigiu at sua casa. Ele morava num bairro afastado do
centro. Era mais humilde, entretanto, a energia do lugar era
agradvel. Passava pelas ruas e sempre acenava para algum.
 Voc  bem conhecido.
 Aqui neste bairro todo mundo se conhece. Procuramos ajudar
uns aos outros. Nem parece que vivemos numa cidade to grande.
Leila esboou leve sorriso. Gostou do lugar, mas estava ansiosa
para rever Roberto. Em instantes, Nelson parou diante de um
pequeno sobrado trreo, com um jardinzinho na frente.
 Chegamos.
Saltaram do carro e logo estavam dentro da casa. Leila encantou-
se com a decorao simples, porm despojada e alegre dos
cmodos. Nelson parecia mesmo ser bem organizado. Tudo estava
em ordem. Ela desconfiou.
 No tem mulher morando aqui mesmo? Nem parece casa de
homem solteiro!  exclamou.



 Eu sempre fui muito disciplinado, metdico. No   toa que me
tornei detetive.
 Voc nasceu para essa profisso.
 Gostou da casa?
 Sim.  bastante acolhedora.
Rex pulou do carro e correu pela casa.
 Viu como Rex gostou da casa?
 Sim.
 Pode ficar aqui o tempo que quiser. Na esquina tem uma
padaria. Duas quadras mais  frente tm farmcia e mercadinho.
 Espero ficar aqui pouco tempo. Vou espremer o advogado e
pression-lo para me arrumar logo uma casa. Gosto de ter meu
prprio espao.
Nelson ajeitou as malas. Apresentou o quarto de hspedes para
Leila.
 Quer trocar de roupa ou descansar um pouco?
 Eu preferiria ir direto at l. A viagem foi curta e aprazvel.
Conversamos animadamente e nem senti o tempo passar no
parque.
  verdade. Eu tambm nem percebi.
De fato a tarde flura de maneira bem agradvel. Leila e Nelson
descobriram muitas coisas em comum, como gostos por comida,
cinema, msica e viagens. Embora ambos nunca tivessem tido a
oportunidade de viajar, acalentavam o sonho de rodar o mundo,
assim que tivessem chance, oportunidade e, quem sabe, uma
tima companhia.
Meia hora mais tarde, Nelson parou na frente da residncia de
Eliana e Alaor. A casa era bem bonitinha. Um sobrado espaoso,
de dois andares, rodeado de belo jardim. As casas da vizinhana
eram do mesmo jeito, muito parecidas. Quase todas eram de
tijolinhos e as janelas, portas e portes eram pintados de branco.
Um charme  parte eram as ruas sinuosas e repletas de rvores
nas caladas, principalmente o ip-roxo, uma rvore cujas flores
rseas-purpurinas so bem comuns na capital paulistana.
 Que lugar adorvel  contemplou Leila.  Vou adorar morar
aqui na redondeza.
 O bairro  totalmente residencial. E quase no h prdios.
 Estou ansiosa em surpreender o Beto. Imagine a sua cara
quando nos vir aqui na porta.



Nelson sorriu. Tocaram a campainha e Dalva atendeu. Ela pediu
licena, fechou a porta e, num piscar de olhos, Roberto saiu feito
um furaco. Correu e atirou-se nos braos de Leila.
 No acreditei quando Dalva me disse que era voc. Que
surpresa agradvel!
Leila o abraou e o beijou vrias vezes no rosto.
 Estava morrendo de saudades, criana. Faz tantos meses.
 Onde est o Rex?
 Ficou na casa de Nelson. Depois vou lev-lo at l para rev-lo.
 Voc aqui...
 No agentava mais corresponder-me com voc por cartas.
Precisava v-lo, toc-lo, ver se est sendo bem tratado.
Uma voz amvel logo atrs de Roberto completou:
 Ele  amado e muito bem tratado.  o prncipe da casa.
Eliana carregava Rafaela no colo e cumprimentou Leila e Nelson.
 Estou muito feliz em conhec-la. Beto sempre me falou
maravilhas a seu respeito. Alm de simpatizar com voc logo de
cara, sempre tive um carinho especial pela sua pessoa, pois eu
gosto de quem gosta do meu irmo, por quem o aceita do jeito que
  tornou Eliana.
 Seu irmo  uma preciosidade. Um ser humano sem igual. Eu
aprecio muito a sua coragem, a sua determinao, o fato de ele ser
o que  e no esconder-se do mundo porque  gay. Roberto sabe
fazer a diferena. Por tudo isso ser um homem muito feliz e de
muito sucesso.
Eliana os convidou para entrar. Nelson interveio.
 Faamos o seguinte. Eu tenho um amigo corretor que conhece
bem a rea e, enquanto voc mata as saudades  eles riram ,
eu vou ver se encontramos uma casa na redondeza.
Roberto exultou de felicidade.
 Vai mesmo se mudar para c?
 Vou. Acabei de vender a casa em Jundia.
Leila pousou delicadamente sua mo sobre o brao de Nelson.
 No tenho palavras para lhe agradecer. Adoraria mesmo passar
o comecinho da noite ao lado da minha criana. Temos muito que
conversar.
 Sei disso e a respeito  ele fez sinal com as mos e acenou 
senhoras, senhor, vou me retirar e voltarei mais tarde.



Nelson despediu-se, entrou no carro e partiu. Leila pegou Rafaela
no colo. Por um instante pensou em sua filha. Uma lgrima correu
pelo canto de seu olho. Ela abraou a menina com profundo
carinho e a beijou na testa.
 Voc vai morar aqui perto. Vou adorar  animou-se Roberto.
 Pretendo. Adorei o bairro. Adorei o estilo das casas.
 So grandes e confortveis  interveio Eliana.  A vizinhana
 calma e tranqila. Vai gostar muito daqui.
 Terei uma amiga com quem conversar.
 Por certo  assentiu Eliana.  Algo me diz que vamos nos dar
muito bem.
 Vamos entrar  ordenou Dalva.  Est esfriando. A menina
pode pegar um resfriado. Vou preparar um refresco e servirei bolo
com sorvete.
 Acho melhor entrarmos. Quando Dalva manda, ningum a
desobedece  disse Roberto.
Todos riram e assim que entraram Leila quase foi derrubada por
Alaor. Ele passou por todos feito um tufo. Mal a cumprimentou.
Sem olhar para trs, declarou:
 Eliana, eu tenho assuntos urgentes para tratar no banco.
 Agora? No comeo da noite?
 Sim. Devo deixar tudo pronto para uma negociao com um
grupo de americanos na segunda-feira. No tenho hora para voltar.
Antes que Eliana pudesse dizer algo, Alaor nem olhou para Leila
ou Roberto, estugou o passo at a garagem, entrou no carro, deu
partida e desapareceu na curva.
 Desculpe-me pela grosseria de meu marido.
 No se preocupe Eliana. Vamos tomar nosso refresco?
Leila desconversou porque nem queria tocar no assunto. Assim
que Alaor esbarrou e quase a derrubou, ela sentiu uma energia
muito esquisita, conturbada. No gostou do que sentiu.
 No gostei dele  disse para si enquanto sentava-se num sof.
Em seguida, entabularam conversao e as horas seguintes foram
muito aprazveis. Eliana e Leila se deram muito bem. Leila sentiu-
se to bem em sua casa que at lhe contou a histria de sua filha,

da

busca

pelo

seu

paradeiro,

o

que

comoveu

Eliana

profundamente.
 Voc vai encontrar seu filho. Tenho certeza  a voz de Eliana
era de uma firmeza sem igual.



 Voc quis dizer filha, no  mesmo?  perguntou Leila.
 Como?  Eliana parecia no ter prestado ateno ao que
dissera.
 Nada. Acho que entendi errado.
O esprito de Gina estava presente naquela reunio. Beijou Eliana
e Leila na testa.
 Fico to feliz que vocs tenham se reencontrado! Em breve Leila
vai se dedicar quilo que veio fazer no mundo.

Captulo 13

No incio daquela noite Ricardo apareceu na cada da irm. Foi
recebido com enorme carinho. Ele chegou acompanhado de sua
namorada. Ricardo era um homem muito atraente. Alto, forte, tez
branca e cabelos negros. Era muito parecido com Otvio, porm
tinha um sorriso encantador demonstrando seus dentes alvos e
perfeitamente enfileirados. Talvez o que mais chamasse a ateno
em Ricardo, alm da beleza fsica, fosse o seu sorriso contagiante
e a fala pausada.
Muitos anos mais velho que Roberto, Ricardo estava com quase
trinta anos de idade. Tinha uma carreira promissora no Rio de

Janeiro,

era

engenheiro

de

uma

companhia

de

petrleo.

Assediado por mulheres de todas as idades, sempre fora
mulherengo e saa com quase todas elas. At que conheceu Anne,
uma francesa de vinte e poucos anos de idade, cuja aparncia era
de uma deusa sada do Olimpo.
Anne possua a pele bem branquinha e as sardas e os cabelos
bem vermelhos lhe conferiam uma beleza angelical. Ela estava
trajando um vestido branco de alas e a imagem que se tinha dela,
 primeira vista, era de que havia mesmo descido do Olimpo.
Todos se cumprimentaram efusivamente. Ricardo no via Roberto
h muito tempo e admirou-se com a beleza e o porte do irmo.
Notou que o caula falava naturalmente mais grosso e seus gestos
eram mais firmes. Mal havia traos da delicadeza e aparente
fragilidade da adolescncia, que se esvara.
 Voc est um rapago! Bonito! Quase do meu tamanho!
Roberto o abraou com enorme carinho.
 Eu estou mudando aos poucos. Tenho adquirido cada vez mais
confiana em mim mesmo.



Ricardo cumprimentou a irm e apresentou Anne. Elas se
abraaram e Anne, alm de uma beleza estonteante, tinha um
sotaque adorvel. Carregava bastante na letra erre, o que lhe
conferia charme especial. Ela abraou Roberto com profundo
carinho e admirao.
 Voc  muito mais bonito que Ricardo. Se fosse mais velho, eu
trocaria de namorado.
Todos riram. Enquanto Anne era apresentada a Leila, Eliana puxou
o irmo para o canto da sala.
 Que surpresa agradvel! Por que no me ligou avisando que
vinha hoje?
 Eu ia ligar, mas o irmo de Anne est de passagem por So
Paulo e no poderia ir ao Rio. Antecipamos nossa viagem e
quisemos lhe fazer uma surpresa.
Abraaram-se emocionados. Ricardo e Eliana tinham muito carinho
um pelo outro.
 Falei com mame e ela est bem triste. Papai continua
bebendo.
 Infelizmente, mas fazer o qu? Eles so adultos  ponderou
Ricardo.  Eu me ofereci para pagar tratamento para o papai,
ofereci terapeuta para mame. Eles no querem nem mesmo que
ns nos aproximemos deles. Querem distncia. Dizem que erraram
na educao de nosso irmo.
Ricardo falou e seus olhos voltaram-se para Roberto, que estava
sentado entre Anne e Leila. O sorriso do seu irmo caula o
emocionava.
 Beto est to bem...
 E parece que cativou sua namorada. Olhe como eles se
divertem.
 Eu contei a Anne sobre a orientao sexual de nosso irmo. Ela
tem amigos gays e ficou muito feliz em poder se aproximar de Beto.
 Fico feliz que nosso irmozinho esteja rodeado de pessoas que
o aceitam e o respeitam, acima de tudo.
 Beto merece ser feliz. Tenho muito orgulho em lhe pagar o
cursinho.
 Ele estuda a exausto. Chega a dar pena. Mas afirma que nada
vai demov-lo da idia de ingressar no curso de medicina.
 Beto  decidido, sabe o que quer. Vai ser muito feliz.
Eliana deu um sorriso malicioso.



Por falar em felicidade, eu nunca o vi com uma garota a tiracolo.
Anne  linda!
 Linda e especial. Quero me casar com ela.
 Jura? Voc quer se casar? O Ricardo mulherengo vai se
aposentar?
 Aposentou-se. Assim que os meus olhos encontraram os dela
eu me apaixonei perdidamente. Tive a certeza de que Anne  a
mulher da minha vida. Assim como voc descobriu que Alaor era o
homem de sua vida.
Eliana fechou o cenho. Engoliu a seco as palavras de Ricardo.
 O que foi?
 Nada.
 Eu a conheo bem, minha irm. O que foi?
Eliana aproveitou que Roberto, Anne e Leila haviam entabulado
animada conversao. Rafaela brincava com suas bonecas entre
eles e ela puxou Ricardo delicadamente pelo brao, conduzindo-o
at a copa. Encostou  porta.
 Meu casamento no vai bem.
 Pensei que vocs estivessem ainda vivendo em lua-de-mel.
 No. Chorei muito. Foram muitas noites mal-dormidas.
Alaor nem para mais em casa. Vive pretextando trabalho, sero,
hora extra...
 Acredita que ele esteja se encontrando com outra?
 No me importo. Eu no o amo. E creio que ele no me ama. Eu
me interessei por Alaor na faculdade, encantei-me com ele, mas o
tempo mostrou que eu nunca o amei. De uns tempos para c,
nossas discusses tm ficado cada vez mais acaloradas.
 Fico triste. Voc  to meiga, to sensvel, to bonita. E tem
uma filha adorvel. Por que no se separa de Alaor? Pode contar
comigo para o que der e vier.
 Porque eu no quero atrapalhar os estudos de Roberto. Eu
tenho agentado todos esses meses de animosidades, no sero
mais alguns meses que vo me matar, me tirar do srio. Beto logo
vai entrar na universidade e da eu poderei dar um novo rumo na
minha vida.
 Voc  to especial, Eliana.  um desperdcio da natureza uma
mulher como voc no ter um amor.
 Eu tenho a mim.



 Mas amar  to bom! Se eu pudesse lhe transmitir o que sinto
por Anne  ele suspirou   um amor to profundo, to
verdadeiro e to calmo...
 Talvez eu no tenha direito ao amor nesta vida.
 Todos tm direito ao amor.
 Vamos voltar  sala? Depois conversaremos mais sobre o
assunto.
 Eu e Anne vamos jantar com o irmo dela. Gostaria de vir
conosco?
 No quero atrapalhar. Anne vai encontrar o irmo e talvez vocs
queiram privacidade.
 Se ela quiser privacidade, ento eu e voc sentaremos numa
mesa  parte. Eu quero que voc saia um pouco, espairea, veja
outras pessoas. Fica s enfurnada nesta casa cuidando de sua
filha.
 Tornei-me me.
 A me precisa dar espao  mulher. Sua pele est sem vio.
Diga-me, h quanto tempo voc no sai para jantar fora?
Eliana pousou o dedo no queixo.
 Faz sculos. Alaor vive dizendo que no tem dinheiro para me
levar a um bom restaurante e que temos a Dalva para cozinhar.
Ricardo sorriu.
 Parece mesmo que esse casamento afundou. Est na hora de
voc pegar o seu colete salva-vidas. Eu e Anne vamos levar
Rafaela para um passeio no parque aqui perto.
 Esfriou.
 Qual nada. A noite est linda e estrelada, perfeita para um
passeio e para um jantar. Voc descansa um pouco, e daqui uma
hora trazemos minha sobrinha de volta e apanhamos voc.
 Vou pedir para que Dalva durma aqui esta noite. No sei a que
horas o Alaor vai voltar.
 Esquea o Alaor. Voc precisa cair na vida!
Os dois deram risada.
Nelson chegou algum tempo depois com novidades. Um amigo
corretor tinha uma casa a duas quadras de distncia, mas s podia
mostrar o imvel na segunda-feira. Leila ficou radiante. Roberto
pediu que ela ficasse e dormisse l na casa. Poderiam colocar a
conversa em dia e na manh seguinte iriam andar pela redondeza,
para Leila conhecer melhor o lugar para onde logo iria se mudar.



Dalva tambm se prontificou a dormir em casa e tomar conta da
pequena Rafaela. Eliana agradeceu e, assim que Ricardo e Anne
carregando a pequena Rafaela no colo saram para um passeio,
ela deitou-se e adormeceu.
Meia hora depois, Eliana acordou e espreguiou-se deliciosamente
na cama. Acendeu o abajur da mesa de cabeceira. Sentia-se uma
nova pessoa. Como precisava daquele descanso! Ela levantou-se
e dirigiu-se ao banheiro. Tomou uma ducha reconfortante. Depois,
foi ao armrio e escolheu um vestido de organza verde-noite, que
ela comprara numa liquidao e nunca tivera oportunidade de
vestir.
Eliana arrumou os cabelos, fez um rabo-de-cavalo. Colocou dois
brincos de argolas e maquiou levemente o rosto. Aps passar o
batom na boca e aspergir suave perfume sobre o colo e os punhos,
parecia outra mulher. Estava linda. Piscou para sua imagem
refletida no espelho e, em seguida sentou-se na banqueta da
penteadeira para calar o sapato de salto alto. Apanhou sobre a
cmoda a bolsa da mesma cor que o sapato e desceu.
Dalva sorriu contente quando viu a patroa toda arrumada.
 Fico feliz que v sair. Faz tempo que no faz outra coisa a no
ser cuidar da casa e da filha. Voc precisa de diverso.
 Concordo. H muito tempo eu pedia ao Alaor, mas ele nunca
pode. O trabalho, ou seja, l o que for, sempre est e primeiro
lugar. Agora eu vou me colocar em primeiro lugar. No vou mais
esperar por ele.
 E nem deve. Seu Alaor ligou faz meia hora dizendo que no tem
hora para chegar.
 Voc disse que eu ia sair?
 De jeito algum. Ele foi curto e grosso ao telefone, como de
costume.
 Melhor assim.

Ricardo

e

Anne

chegaram

em

seguida.

Rafaela

dormia

placidamente no colo da futura cunhada.
 Sua filha  um encanto. Educada, boazinha, carinhosa.
Caminhou no parque, tomou sorvete e depois adormeceu em meus
braos.
 At eu adormeo em seus braos  tornou Ricardo.
 Voc no vale  ela falou com seu sotaque peculiar.
Ricardo sorriu contente.



 Vejo que voc descansou. Sua aparncia est bem melhor.
 Voc est linda  considerou Anne.
 Obrigada.
Dalva adiantou-se.
 Deixem a pequena Rafaela comigo. Vo se divertir.
 E Beto?
 Ele saiu com a Leila e o Nelson. Foram dar um passeio e tomar
um refresco.
 Vamos. Fiz reserva no restaurante e o irmo de Anne  pontual.
Eliana despediu-se de Dalva e deu um beijo na testa da filha.
Entrou no carro de Ricardo e sentiu uma sensao agradvel,
como havia muito tempo no sentia.
Enquanto Ricardo levava  namorada e a irm para o jantar,
Nelson e Leila divertiram-se com Roberto. Ele estava mais
engraado, mais solto, mais dono de si. Eles foram at o Jack In
The Box, uma badalada lanchonete na Av. Brigadeiro Luis Antnio.
Assim que sentaram, fizeram o pedido.
 Voc um rapaz muito inteligente, alm de sensvel e bem-
humorado.
 Obrigado.
 Eu ri muito quando Leila me contou que voc me achou
parecido com o detetive Columbo.
 Parecia mesmo. Aquele sobretudo, a cara de mistrio...
 Voc daria um timo detetive. Nunca pensou nisso?
 No. Desde pequeno eu sempre sonhei com a medicina. 
como se eu viesse ao mundo pronto para esta profisso.  algo
que no sei explicar.
  vocao  respondeu Leila.  Pena que nem todas as
pessoas fazem o que gostam.
 Por que as pessoas no fazem o que gostam?  perguntou
Roberto, com interesse.
 Porque s vezes nem todos tm condies de seguir o que
desejam. Muitos tm de trabalhar cedo para sustentar a famlia,
outros no tm pai ou me e precisam se virar desde cedo, ajudar
nas despesas da casa, quer dizer, existem tantas possibilidades
que nos desvirtuam daquilo que desejamos...
 Mas nunca  tarde para fazer o que se gosta.
 Voc tem razo.
 Voc faz o que gosta Nelson?



 Sim. Adoro a investigao.
 E voc Leila, tem algo que gostaria de fazer?
 No no momento. Perguntei a mim mesma vrias vezes, o que
fazer, afinal de contas tenho um bom dinheiro aplicado no banco.
 Algo me diz que voc ainda vai fazer muita coisa boa com esse
dinheiro.
 Acha mesmo, criana?
 Sim.
 Eu o tenho como a um filho  disse Leila.
 Por falar nisso, como andam as investigaes?
Nelson e Leila trocaram um olhar significativo.
 Beto sabe de tudo da minha vida. Eu no tenho segredos e
reservas com ele.
Nelson pigarreou e falou.
 Recebi uma ligao de um amigo delegado. Parece que a freira
est voltando para o Brasil. Vai ficar mais fcil descobrir onde est
a filha de Leila.
 Deus vai me ajudar a encontr-la  ela suspirou.
 Claro que vai  concordou Roberto.  Algo me diz que ela est
mais prxima do que voc imagina.
 Tomara.
Continuaram a conversar at que o garom chegou com os
lanches. Roberto pediu licena e levantou-se para ir a banheiro e
lavar as mos.
Ele dirigiu-se ao toalete e empurrou a porta. Estava sozinho.
Aproximou-se da pia e abriu a torneira. Olhou ao redor e sorriu. O
banheiro era todinho espelhado. Podia-se ver e ser visto de todos
os ngulos possveis e imaginveis. Em seguida, um rapaz que
aparentava a mesma idade entrou no banheiro. Dirigiu-se ao
mictrio e, pelo espelho, comeou a flertar com ele.
Era a primeira vez em sua vida que Roberto percebia ser
paquerado. Desde que chegara  capital, sua vida se resumia a
cursinho, casa e estudo. Ele nem ia com a mesma regularidade ao
cinema. Uma ou outra vez Eliana o convidava e eles assistiam a
uma fita no cinema.
Roberto nunca havia se dado conta de que estava com idade para
comear a encarar uma paquera ou mesmo um namoro. Ele
mordiscou os lbios e continuou a lavar as mos. O rapaz deu
descarga, arrumou-se e veio ao seu encontro.



 Vem sempre aqui?
 No. Primeira vez.
 Quantos anos voc tem?
 Dezoito.
 Eu tenho vinte e um.
Roberto sorriu. Terminou de lavar as mos e deu vez para o rapaz.
O rapaz, praticamente da mesma altura, porm um pouco mais
forte, prensou Roberto com o quadril na beirada da pia. Enquanto
uma de suas mos acariciava seu peito, a outra puxava seu
pescoo e logo os lbios dos dois se encontraram.
Foi o primeiro beijo que Roberto deu na vida. Seu corpo
estremeceu, esquentou, o rosto avermelhou, as pernas falsearam
por instantes. Em seguida, o rapaz se afastou. Sacou a carteira do
bolso e dela retirou um carto.
 Ligue para mim quando quiser.
 Posso?
 No tenha pressa. Meu nome  Davi.
 Roberto.
 Acho que temos algo em comum.
Roberto, ainda tonto pelo beijo, pegou o carto e o enfiou no bolso
de trs da cala. Seu corao batia descompassado e ele acenou
para o rapaz e saiu. Cruzou as mesas e, ao sentar-se, Leila
percebeu o rubor nas faces.
 Aconteceu alguma coisa?
 Nada. Estou com sede.
Ele desconversou e virou o copo de refrigerante quase num gole
s. Momentos depois, o rapaz passou por ele e deu uma piscada.
Leila percebeu a troca de olhares, mas preferiu ser discreta.
Roberto procurou manter conversa agradvel com ela e Nelson,
entretanto, a todo instante, a cena do beijo vinha com fora na sua
mente. Aquilo o desconcertava e o excitava ao mesmo tempo.

Captulo 14

O local que Ricardo escolhera estava apinhado de carros e
pessoas. Afinal, tratava-se do Night Club mais badalado daquele
momento, freqentado pela alta sociedade, alm de artistas e

polticos

de

destaque.

Depois

de

algumas tentativas,

ele

estacionou bem na entrada e logo dois funcionrios correram at o



carro. Cada um de um lado. Enquanto um cumprimentava Ricardo,
outro abria a porta e ajudava Anne e Eliana a sarem.
Os trs entraram e Ricardo ouviu seu nome. Olhou para os lados e
sorriu para Anne.
 Seu irmo j chegou  apontou.
Anne puxou Eliana pelo brao.
 Nicolas  pontual. Eu sabia que ele is chegar no horrio. Venha
vou apresent-lo a ele.
Foram pedindo licena, pois o Night Club estava abarrotado de
gente. Nicolas estava sentado numa mesa redonda, de quatro
lugares, numa rea mais reservada e mais afastada do burburinho.
Ele levantou-se e abraou a irm com carinho. Trocaram palavras
em Francs e em seguida Anne o apresentou a futura cunhada.
 Est  Eliana, irm de Ricardo.
Nicolas beijou a mo de Eliana com delicadeza.
 Enchant.
 Prazer  respondeu ela enquanto sentia um calor percorrer seu
corpo. O beijo macio de Nicolas em sua mo despertou-lhe algo
que nunca sentira antes. Eliana tentou ocultar o sentimento.
Ricardo chegou em seguida e ela sentou-se ao lado de Anne
enquanto o irmo abraava e conversava amenidades com
Nicolas.
Numa famlia de quatro irmos, Nicolas era o mais velho e Anne a
caula. Ele era um homem bem bonito. Cabelos pretos jogados
para trs, o rosto quadrado que lhe conferia ar viril e os lbios bem
vermelhos contrastavam com os olhos de um profundo azul. Ele e
Anne eram bem diferentes na aparncia. Ao passo que a irm era
ruiva e tinha a pele alva, Nicolas era mais moreno e tinha os
cabelos negros.
 Somos meio-irmos. Mame morreu cedo e papai se casou de
novo. Desse novo casamento nasceram Cristine e Anne  disse o
rapaz, numa mistura de francs e portugus que o tornava ainda
mais irresistvel.
Eliana procurou dissimular o sentimento. Sentira-se atrada por
Nicolas to logo seus olhos se encontraram.
 Calma menina  disse para si.   natural. Faz tempo que
voc no  admirada e cortejada.
O jantar foi aprazvel. Nicolas escolheu um prato sofisticado e Anne
escolheu o vinho.



 Voc est de passagem no Brasil?  perguntou Eliana.
 Sim. Eu moro em Lyon, na Frana. Tenho negcios aqui e
geralmente fico uns trs meses. Depois, retorno a Paris, onde fica
o escritrio central. Conhece a cidade luz?
 Infelizmente nunca sa do pas.
 Adoraria ser seu guia. O dia que quiser  s me avisar, eu a
levarei aos lugares mais belos da Frana.
Eliana sorriu e baixou os olhos, envergonhada. Era difcil encarar
aquele homem nos olhos. Estava ficando desconcertada. Anne,
astuta como era, percebeu o interessa do irmo e levou a conversa
para outro campo. Passou a falar da Frana, da Europa, de
viagens que fizera ao redor do mundo e assim Eliana sentiu-se
mais  vontade.
Nicolas era homem experiente. Estava com trinta e cinco anos.
Havia se casado muito cedo e alguns anos depois se divorciara.
Ele queria ter filhos, mas sua ex-esposa no queria estragar o
corpo. E, tempos depois, confessou que no gostava de crianas.
Depois da desiluso do casamento desfeito, ele tentou reconstruir
sua vida. Atualmente estava saindo com uma aspirante  modelo
que na verdade estava mais interessada no seu dinheiro. Nicolas
procurava se afastar da garota, mas ela sempre arrumava um jeito
de encontr-lo e seduzi-lo.
Homem com faro para bons negcios, associou-se a uma pequena
rede de hotis de seu pas. Logo a rede cresceu e passou a ganhar
o mundo. Havia chegado  vez de trazer sua marca ao Brasil.
Nicolas nunca mais se interessara por mulher alguma, e a
aspirante a modelo era um passatempo que, depois de ele ter
conhecido Eliana, deveria ser terminantemente descartado. Ele
ficara hipnotizado pela beleza e fora cativado pela meiguice de
Eliana.
 Anne me contou que voc tem uma filha.
 Rafaela.
 Voc deve ser uma boa me.
 Fao aquilo que est ao meu alcance. Eu a amo com toda
minha fora, e procurarei educ-la de maneira a ser responsvel
por si desde pequenina.
 Desculpe a invaso  a voz de Nicolas era vigorosa, porm
doce , mas por que no teve mais filhos? Por acaso no gosta
muito de crianas?



 Muito pelo contrrio! Eu adoro crianas. Eu esperava ficar
grvida, ano passado, mas meu marido no quis saber de filhos.
Alaor acha que um filho j d bastante trabalho.
 Voc  feliz no seu casamento?
Uma ponta de tristeza formou-se no semblante de Eliana.
 No sou feliz. A cada dia que passa eu tenho a certeza de que
meu casamento est condenado.
Nicolas procurou manter outros assuntos e a conversa fluiu
agradvel entre os quatro. Todavia, intimamente ele estava feliz e
esperanoso. Eliana no era feliz e ele tinha certeza de que, se ela
assim o permitisse, ele a faria a mulher mais feliz do mundo.
Por mais que tentasse, toda vez que Nicolas lhe dirigia a palavra
ou quando seus olhos se encontravam, Eliana sentia o corao
bater descompassado. E foi assim at fim do jantar.

***

Srgio estava radiante. O ano chegava ao fim e logo ele teria
frias. Desta vez ele faria uma viagem com Vicente. Como
empregado da companhia area, quando no estivesse a trabalho,
Vicente tinha direito a algumas passagens tanto para ele quanto
para seu acompanhante. No Natal ele fez a surpresa a Srgio.
Colocou a passagem dentro de um envelope e o meteu numa
caixinha.
 Estamos juntos h quase um ano. Este ser meu presente de
Natal e de aniversrio de namoro.
Srgio agradeceu feliz.
 Eu nunca sa do pas. Ser a minha primeira viagem para fora.
 Voc vai adorar Nova York. Vou lev-lo a todos os lugares da
moda. Voc vai danar comigo no Studio 54, jantaremos no
Elaine's, faremos passeios maravilhosos.
 Voc  muito generoso, Vicente.
 Quero que voc conhea uma parte do mundo em que transito.
Eu fico mais l do que aqui, pois o trabalho me obriga a isso.
 Talvez seja por esse motivo que o namoro d certo. Ns
namoramos uma semana por ms. As outras trs voc est sempre
 trabalho.
 Ossos do ofcio. O que posso fazer? Sou bom profissional e por
essa razo sempre sou escalado.



 No se cansa?
 Quando voc chegar  Nova York ver por que eu no me
canso.
Os dias correram cleres e Srgio estava morrendo de vontade de
contar a novidade para Cludio. Ele havia decidido passar as
festas de fim de ano com os pais no apartamento do litoral e havia
convidado Srgio para passar uns dias l, evidentemente, sozinho.
Srgio arrumou pequena bagagem e despediu-se de Vicente.
 No tendo por que seu amigo me detesta tanto.
Srgio tentou contemporizar.
 Cludio  sincero. No simpatiza com voc. E, convenhamos
voc tambm no simpatiza com ele.
 Ele pega no meu p, est sempre com a cara amarrada.
 Cludio acha que voc no  fiel.
Vicente riu.
 O que  ser fiel?
 Bom, se voc est namorando comigo, por que motivo iria se
envolver com outras pessoas?
 Isso  muito relativo. Um encontro fortuito, somente por
diverso, no significa infidelidade ou traio.
 Claro que ! Se eu estou com voc  porque gosto. No consigo
imaginar porque sairia com outros.
 Tolinho. Voc  muito preso s convenes. Acredita que a
monogamia seja a nica forma de manter um casal unido.
 E no ?
 No. Vou lev-lo a St. Mark's Place.
 O que  isso?
 Depois voc me fala sobre fidelidade.
Srgio passou a mo pela nuca. Desconfiava de que Vicente no
lhe fosse fiel, mas nunca tivera coragem de perguntar. Talvez
porque a verdade fosse machuc-lo, talvez porque tivesse de dar o
brao a torcer para Cludio, que sempre o alertara sobre essa
realidade.
 Voc se deita com outros homens?
 Por que est me perguntando isso agora? Depois de quase um
ano?
 No sei ao certo. Mas voc poderia me responder?



Vicente virou de costas para que Srgio no percebesse o suor
escorrer-lhe pela fronte. Estava nervoso e, quando ficava neste
estado, ele tornava-se irascvel, uma pessoa intratvel.
 No gosto de ser pressionado. Ou voc acredita em mim ou
no. De que adianta eu falar? Quer que eu me ajoelhe e jure de
ps juntos que lhe sou fiel?  isso o que quer?
 No...  que...
 Quer uma prova do meu amor? A viagem no  um sinal de
meus sentimentos por voc?
Vicente falava e ficava cada vez mais nervoso. Srgio tomou-se de
culpa e tentou amenizar o clima tenso.
 Desculpe. No tive a inteno.
 Eu lhe dou uma prova do meu amor, um presente desses e voc
me retribui com dvidas acerca do meu sentimento?
 Prometo que no vou mais perguntar-lhe nada sob esse
assunto.
Vicente sentiu-se aliviado. No queria, de forma alguma, admitir
que fosse uma pessoa que tinha dificuldade e muitas coisas, dentre
elas a de se manter fiel e expressar seus sentimentos.
Ao ser expulso de casa, o rapaz sentiu na pele a dor separao.
Era muito apegado s irms e  me. No entanto, teve grande
decepo quando o pai o ps para fora de casa a nenhuma delas
 nem as irms nem a me  desafiou as ordens do patriarca.
Desiludido e com sentimentos confusos acerca de sua sexualidade,
Vicente veio para So Paulo e, em vez de entender melhor seus

sentimentos

e

procurar

ajuda

teraputica,

jogou-se

nos

envolvimentos sem compromisso. Percebia que sua beleza e
jovialidade eram capazes de seduzir quem quisesse, a hora que
quisesse.
Dessa forma, Vicente saa com todo mundo, fosse  capital ou em
suas viagens a Nova York. Flertava com comandantes, outros
comissrios, passageiros... No havia barreiras. Ao andar nas ruas
de Manhattan, principalmente nas ruazinhas de Greenwich Village,
o bairro preferido dos gays, Vicente era assediado, paquerado e,
comprometido ou no, entregava-se ao prazer, mesmo que durante
alguns minutos.
Em vez de visitar museus e parques, freqentar lojas sofisticadas
ou at mesmo assistir aos grandes musicais da Broadway, o rapaz
preferia freqentar outros ambientes, como bares, discotecas,



saunas e, claro, os encontros clandestinos com quem lhe
despertava o interesse. Nessa viagem com Srgio, ele procuraria
ser discreto e comportar-se-ia como um turista tradicional. No
obstante, levaria o namorado para conhecer St. Mark's Place,
tambm conhecida como St. Mark's Baths, uma sauna imensa na
cidade, um verdadeiro Shopping Center de sexo.
Vicente estava gostando de Srgio. No incio, desejava-o tanto pela
beleza como para afast-lo de Cludio. Com o tempo, recebendo
doses de carinho e afeto, afeioou-se ao namorado. Entretanto,
jamais deixaria de manter uma vida dupla. A monogamia para
Vicente era algo impraticvel.
 Quando saio com homens que nem sei o nome, somente por
prazer, no me sinto rejeitado  dizia para si, a fim de justificar seu
comportamento e esquecer, ou pelo menos tentar esquecer, a
rejeio de sua famlia.
Srgio desceu a serra e pouco mais de uma hora de viagem ele
estava na praia e, minutos depois, no apartamento do amigo.
 Est com a cara tima  tornou Cludio.
 Tenho novidades.
 J sei, terminou seu namoro!
 No brinque com os meus sentimentos. Sabe que meu namoro
com Vicente  para valer.
Cludio fez ar de mofa.
 Humpf! Que maada.
 Vim passar uns dias ao seu lado e contar-lhe uma grande
novidade.
Cludio serviu-se de um refresco e ofereceu um copo a Srgio.
Brindaram.
 Vicente me deu de presente uma passagem para Nova York.
 Olha s! O namorado est investindo mesmo em voc.
 Claro que est. Ele gosta de mim.
 No duvido que ele goste de voc. Mas no acredito que ele o
ame. Sinto que Vicente est com voc mais por comodidade do
que por amor.
 Disse que vai me levar a todos os lugares da moda.
 Voc est mesmo feliz?
Srgio hesitou por instantes. Lembrou-se da conversa horas antes
com Vicente, sobre fidelidade.
 Eu no gosto de ficar s. No sou como voc, Cludio.



 O que quer dizer?
 Voc  muito seguro de si. Nunca o vi envolver-se para valer
com quem quer que fosse. Ser que voc no tem medo de se
apaixonar?
 No. Eu at gostaria. No entanto, sinto que estou aqui neste
mundo somente para amadurecer minhas crenas e posturas
acerca da vida. Eu no vim para me relacionar. No sei explicar.
 No sente falta de algum?
Cludio fitou um ponto indefinido. Cerrou os olhos por alguns
instantes. Depois, suspirou.
 Sinto falta, como todo ser humano, mas algo aqui dentro  ele
apontou para o prprio peito  diz que meu amor no se encontra
neste mundo.
 Mesmo?
  uma certeza que no tenho como explicar. Eu sinto, mas
nada. Eu at que tentei me envolver, no obstante meus
envolvimentos sempre foram muito superficiais. Eu nunca amei.
Pelo menos neste mundo.
 Voc e seus mundos. S existe este aqui. O homem pisou na
lua, se existissem outros mundos, com certeza, j teramos
conhecimento.
 Eu no creio que s exista o nosso mundo na imensido do
universo.  muito pobre pensar que somos os nicos. Nossos
olhos simplesmente no conseguem enxergar ou mesmo penetrar
as outras dimenses existentes.
 Eu acho que tudo acaba aqui neste mundo. A vida  curta e
devemos viv-la intensamente. No perco tempo e sei que meu
amor, pelo menos, est neste mundo.
 Voc bem disse, pode ser que seu amor seja mesmo deste
mundo. Mas convenhamos: Vicente no  o tal.
Srgio nada disse. Afastou-se e debruou-se sobre a mureta. Fitou
a imensido do mar  sua frente.
 Vicente no  m pessoa.  temperamental, mas no  ruim.
 Eu tenho um p atrs com ele. Nunca escondi isso de voc.
Sinto que voc vai sofrer uma grande decepo afetiva.
 Hoje eu perguntei se ele  fiel a mim.
 E o que ele respondeu?
 No respondeu. Disse que eu estava invadindo sua privacidade.
No disse nem que sim, nem que no.



 Vicente pode ser dissimulado, mas deve ter sido sincero em no
lhe dar uma resposta precisa. A vida lhe deu todos os sinais. Se
voc quiser continuar no barco, assuma o comando e depois no
venha chorar as pitangas.
 Deixemos esse assunto de lado. Vamos, anime-me, conte-me
sobre Nova York. Voc esteve l tantas vezes.
Cludio serviu-os de mais refresco. Sentaram-se em confortveis
cadeiras e ele foi descrevendo a Srgio todas as belezas e
encantos daquela cidade.

Captulo 15

Leila encontrou uma casa bem pareci com a de Eliana. As duas
casas ficavam muito prximas uma da outra. Leila fez pequena
reforma, decorou a casa com esmero. Ela estava terminando de
regar o jardim recm-plantado quando ouviu a voz de Roberto.
 Surpresa!
Ela desligou a torneira largando a mangueira no cho. Correu a
abra-lo.
 Quanta saudade, criana. Mal tem vindo me visitar.
 Estou me dedicando aos preparativos do vestibular. Agora ou
vai, ou racha.
 Voc vai conseguir. No tenho dvidas.
 Sinto-me um pouco inseguro. So tantos candidatos, chega at
a me dar um friozinho na barriga.
 Tenho bolo de chocolate. Maria acabou de fazer.
 Como est se sentindo morando em outra casa, outra cidade?
Tem at empregada fixa.
 Eu prefiro ter algum aqui morando comigo. A casa  grande,
bem diferente da que eu tinha em Jundia. Precisa de cuidados
dirios e eu no tenho mais pacincia para as lidas domsticas.
Passaram o brao um pela cintura do outro e entraram na casa.
Roberto havia ido l poucas vezes, quando Leila comprara a casa
e outras raras visitas. O ano era de muita dedicao e ele se
entregava de corpo e alma aos estudos.
 Como est linda!
 Gostou da decorao?
 Amei.
 Nelson me ajudou bastante. Ele tem bom gosto.



Roberto riu malicioso.
 Nelson tem prestado bastante ajuda, no?
 O que voc est querendo me dizer?
 O bvio, Leila. Ele est caidinho por voc.
Ela sorriu e sentou-se numa confortvel poltrona.
Chamou pela empregada e Maria veio logo  sala. Era uma figura
simptica, de meia-idade, morena, cabelos curtinhos e olhos
pequenos e escuros. No era bonita nem feia, mal seu sorriso era
cativante. Ela cumprimentou Roberto e Leila pediu pelo bolo e
guaran.
  para j, senhora.
Maria retirou-se e Leila fitou Roberto nos olhos.
 Nelson  um amigo.
 Amigo, sei...
 Ele nunca se manifestou. Samos bastante, freqentamos
restaurantes, cinemas. Todo fim de semana caminhamos juntos no
parque aqui perto de casa. Ele tem se mostrado atencioso, gentil,
cordato.
 Ele gosta de voc.
 Mas como amigo, seno teria se declarado.
 Voc gosta dele.
 No vou mentir. Ele me atrai. Seu tipo muito me atrai.
 Voc  linda, Leila. Tem a pele macia, bem cuidada. Sua
aparncia  bem jovial. Eu se gostasse de mulher no hesitaria em
dar em cima de voc!
 Voc  muito gentil, minha criana. Sabe que nosso vnculo 
maternal. Eu adoraria t-lo como filho. Sinto muito orgulho de voc.
 Eu tambm, se pudesse escolher numa prxima vida queria que
voc fosse minha me.
 Quem sabe j no fomos me e filho? O carinho que sinto por
voc  muito forte.
 Voc est fugindo do assunto. Por que no se declara ao
Nelson?
 Nunca! Por que vou estragar uma amizade to bonita? No
quero arriscar.
 Arrisque. Voc tem a mim e a Eliana. Garanto que no vai ficar
sozinha.
Ela riu e piscou-lhe um olho. Maria trouxe a bandeja com as fatias
de bolo e refrigerante e retirou-se para seus afazeres. Roberto



avanou sobre seu prato e deliciou-se com a generosa fatia de bolo
de chocolate.
 Igualzinho ao que voc fazia em Jundia. Uma delcia.
 Ensinei a Maria a faz-lo do jeito que aprendi muitos anos atrs.
Leila falou e seus olhos fitaram um ponto indefinido na sala. Sua
mente voltou muitos anos no tempo, pouco antes de engravidar.
 Est distante. O que foi?
Uma lgrima sentida escorregou pelo canto do olho.
 Lembrar do passado di. Queria tanto ter uma pista para
encontrar minha filha...
 Voc vai encontr-la. Tenho certeza. Nelson no conseguiu
novas pistas?
 Parece que a tal freira que poderia ter alguma informao voltou
ao Brasil, mas no foi para Santo ngelo. Nelson est tentando
localiz-la.
 Voc vai ver. Logo, logo, voc vai poder abraar a sua filha.
Leila desviou do assunto.
 Tem sado?
 No. Depois que fomos  lanchonete, fui umas duas vezes ao
cinema com Eliana. O estudo me consome.
 Fomos  lanchonete faz bastante tempo.
 Eu sei.
Roberto falou e enrubesceu.
 Diga-me uma coisa.
 Sim.
 Aconteceu alguma coisa naquela noite, no?
 Como assim?
 No desconverse  ela sorriu.  At hoje me pergunto o
porqu de voc ter mudado o comportamento. Chegou todo alegre
 lanchonete e depois que retornou do banheiro estava
incomodado. Um sorriso malicioso, mas incomodado.
Roberto mordeu o canto dos lbios.
 Voc  mais que uma amiga, sabe que se fosse possvel, seria
minha me.
 Claro que sei criana. Agora me conte. Prometo guardar
segredo.  Leila cruzou os dois dedos indicadores e beijou. 
Juro!
O jovem remexeu-se na cadeira. Tomou um gole de refrigerante.



 Naquela noite, eu fui lavar as mos no banheiro. Em seguida,
entrou um rapaz no banheiro e ficou me encarando. Foi tudo muito
rpido. Ele se aproximou e, numa frao de segundos, ele me
tascou um beijo na boca.
Leila levou a mo aos lbios. Estava surpresa.
 Voc foi beijado!
 Pela primeira vez na vida. Eu nunca havia sido beijado antes.
 E como foi?
 Ah, eu me senti nas nuvens. Meu corpo esquentou, fiquei
excitado, as pernas falsearam. Nunca havia ficado num estado
daquele.
 Voc  um homenzinho e logo vai comear a beijar e namorar.
Fico feliz que o seu primeiro beijo tenha sido assim to bom.
 Passei muitas noites em claro revivendo a cena do beijo.
Confesso que adoraria v-lo de novo.
 No trocaram telefone?
 Ele me deu um carto. Mas no tive coragem de ligar.
 Todos esses meses e voc no ligou?
 No.
 Terei de lhe dar aulas de aconselhamento afetivo.
Os dois riram.
 Fiquei com muita vontade de ligar, mas no sei explicar, senti
medo. Afinal, nunca sa com algum antes.
 Voc gostaria de rev-lo?
 Sim. Davi  um pouco mais velho, tem vinte e um anos.
 Voc completou a maioridade. Pode sair  vontade.
 Vou esperar passar o vestibular. Depois eu ligo.
 Voc  quem sabe.
 Prefiro assim.
Roberto tomou mais um pouco de refrigerante. O beijo roubado
meses atrs havia lhe tirado muitas noites de sono. Ele adoraria
rever o rapaz, mas precisava se dedicar aos estudos. Assim que
passasse pelas provas e fosse classificado, talvez tomasse
coragem e ligasse para Davi.

***

Eliana mudou bastante seu comportamento desde a noite em que
conhecera Nicolas. Infelizmente, eles nunca mais se viram. Nicolas



tivera de partir para a Frana no dia imediato ao jantar. Trocaram
endereos porque Nicolas insistiu em lhe mandar um postal de
Paris.
Os meses foram passando e nada de postal ou carta.
 Provavelmente foi mais um fogo de palha. Por que ele iria se
interessar por mim? Um homem feito ele, rico, bonito e charmoso
deve ter a mulher que quiser, em qualquer parte do mundo.
Ela havia deixado a filha na escolinha infantil. Rafaela mostrara-se
uma menina bastante ativa e a convivncia com outras crianas de
sua idade lhe fazia tremendo bem. Roberto decidiu visitar Leila e,
sem nada para fazer, Eliana foi dar uma volta no parque prximo 
sua casa. A tarde estava linda e convidava a um passeio.
To logo ela entrou no parque, avistou um rosto familiar. Alaor
conversava com um rapaz, mais  frente. Eliana consultou o
relgio. Era muito cedo para ele ter deixado o trabalho.
No entanto, como a relao estava cada vez mais desgastada, ela
fez de conta que no o viu. Preferiu tomar a direo contrria e
fazer sua caminhada. Desde a noite que conhecera Nicolas, ela
fazia caminhada diria, corria um pouquinho, tratava do corpo.
Sentia-se mais viva, mais feminina, mais mulher.
Alaor percebera a mudana no comportamento da esposa. De uma
hora para outra Eliana parou de cobr-lo para sair, o que para ele
foi enorme alvio. Dessa forma ele pde continuar suas andanas
na companhia de Carlos.
Uma prima de Dalva trabalhava numa confeco no Brs e ela
sempre lhe mandava retalhos, tecidos que no mais seriam
utilizados por conta da mudana de estao e da prpria moda.
Dalva trazia os retalhos e Eliana costurava lindos vestidos. Chegou
inclusive a fazer roupinhas para Rafaela. Assim, ela no pedia um
tosto ao marido. Alaor reclamava que a famlia era um peso e
quase teve uma crise de nervos quando Eliana decidiu que a
menina deveria freqentar uma escola maternal particular.
A fim de no arrumar briga, Eliana preferiu economizar na compra
de roupas e era com satisfao que ela e Dalva passavam tardes
alegres cortando panos e costurando suas prprias roupas.
Eliana dobrou uma alameda do parque e, quando ia comear a
correr, sentiu um dedo tocar-lhe as costas. Ela rodou nos
calcanhares.
 O que faz no parque?



 Na verdade essa pergunta deveria ter sido feita por mim 
rebateu Eliana, com o cenho fechado.  O chefe o deixou sair
mais cedo?
 Engraadinha.
 Voc sempre chega tarde da noite, o que est fazendo no
parque  uma hora dessas?
 Os funcionrios foram dispensados. O Rubens morreu.
Eliana levou a mo  boca, tamanho o estupor.
 Seu chefe morreu? Como?
 Teve um infarto fulminante. Caiu duro e estatelado no escritrio.
 Voc no vai ao velrio? Afinal, trata-se de seu chefe.
 O Instituto Mdico Legal ainda no liberou o corpo. A diretoria
decretou luto e fomos todos liberados.
 Voc no est nem um pouco triste.
 Na verdade, Rubens era uma pedra no meu sapato. Roubou
minha promoo. Sem ele, naturalmente serei promovido. No
precisarei mais puxar o saco nem dele, nem de ningum.
 Voc  muito frio.
 Sou realista. Ele morreu e pronto. A gente nasce tendo certeza
de uma nica coisa: todos vamos morrer, mais cedo ou mais tarde.
 Mais voc no est nem um pouco consternado.
 Antes ele do que eu.
Eliana meneou a cabea para os lados. Como pde se casar com
um homem to frio e to mesquinho?
 Se voc quiser eu poderei acompanh-lo no velrio.
 Ia lhe pedir essa gentileza. Quero muito que os diretores a
vejam ao meu lado. Vero que sou um marido pacato, casado, feliz
e com uma esposa linda.
Ela se ofendeu.
 No vou ao velrio para que voc me exiba como um trofu aos
diretores. Estou me propondo a ir e confortar a famlia de Rubens.
 s favas a famlia de Rubens.
 No vou. Represente a seu bel-prazer. No conte com minha
colaborao. Odeio gente falsa.
 O mundo  dos espertos. Naturalmente vou ter a to sonhada
promoo e vou ganhar mais.
 timo, assim voc no reclama de pagar escola para sua filha.
Os olhos de Alaor brilharam rancorosos.



 Temos muitas escolas pblicas na cidade. Acho um desperdcio
pagar escola para Rafaela.
 Foi-se o tempo que escola pblica era sinnimo de qualidade de
ensino. A realidade  bem diferente. Voc tem condies de pagar
uma boa escola para nossa filha.  sua responsabilidade de pai
cuidar da educao de Rafaela.
 Por que tudo eu? Por que voc no vai trabalhar?
 Tenho pensado nisso. Esses anos me mostraram que no nasci
para depender de homem algum, muito menos de voc. Agora que
Rafaela est na escolinha, vou esperar meu irmo ingressar na
faculdade e da vou procurar emprego.
 Voc  me, tambm tem suas obrigaes. Vai ter de dividir
tudo comigo. Eu no vou bancar nossa filha sozinho.
 Voc no existe, Alaor. Nunca conheci pessoa to mesquinha
em toda minha vida.
Ele a pegou pelos ombros e a chacoalhou.
 No me dirija  palavra neste tom.
Eliana se desprendeu do marido.
 Tire suas mos nojentas de cima de mim! Eu vou esperar
Roberto ingressar na faculdade e vou me separar de voc.
Ele riu com desdm.
 Deus ouviu as minhas preces!
 E as minhas splicas. Nosso casamento foi um erro. Eu no
quero continuar nesse erro.
 Metade da casa  minha.
 Faremos uma divisria. Eu no saio de l. Minha filha precisa de
um teto.
Alaor fez um esgar de incredulidade.
 No vejo a hora de assinarmos os papis. Estou farto de voc.
Ele falou e saiu em disparada. Eliana respirou fundo. Fechou os
olhos, inspirou o ar puro do parque. Em seguida, sentou-se num
banco. Estava na hora de mudar. Ela no queria mais continuar ao
lado do marido.
 Por favor, Deus, ajude-me. Eu preciso me separar e ser
independente. No quero dividir nada com Alaor. Eu sei que posso
criar minha filha sozinha.
Ela ficou mais alguns minutos em contemplao. Meia hora depois,
cabisbaixa, ela retornou para casa.



Alaor continuou sua caminhada no parque. O rapaz que Eliana vira
ao seu lado era Carlos.
 Como foi  conversa com sua esposa?
 A melhor possvel. Falamos sobre separao. Eu no a agento
e vice-versa.
 Quer dizer que voc agora vai ser s meu?
Alaor nada disse. Abraou Carlos e seus olhos se fixaram num
rapaz de shorts e camiseta que passava por eles. Alaor deu uma
piscadinha e foi retribuda por outra dada maliciosamente pelo
rapaz. Carlos nada percebeu.
 Vamos continuar levando a vida que sempre levamos.
 Por qu? Se voc se separar, poder viver comigo.
 No quero viver com ningum. Depois dessa priso que vivi com
Eliana, quero viver sozinho.
 E ns?
Alaor no respondeu. No estava interessado numa relao
monogmica. Carlos era interessante, bonito, mas havia muita
gente no mundo para desfrutar. Agora que ele comeava a assumir
suas tendncias, no iria ficar preso a uma s pessoa. Jamais.

Captulo 16

Eliana chegou em casa decidida a fazer uma grande transformao
em sua vida. Ela iria enfrentar qualquer tipo de servio. No queria
mais depender de Alaor ou homem algum. Ela era forte e tinha
uma filha para criar, pois, pelo que conversara h pouco com o
marido, percebeu que ele criaria muitos entraves  educao da
filha.
 Se ele no cuidar da nossa filha, cuido eu.
Dalva entrou na sala, preocupada.
 Estava falando com algum?
 Comigo mesma!  bradou Eliana.  Estou nervosa. Alaor me
tira do srio. Quer saber? Este casamento est acabado. Tenho
certeza de que ms que vem o Beto vai entrar na faculdade e no
terei empecilhos para tomar essa deciso que deveria ter tomado
h muito tempo.
 Creio que voc tenha razo, querida, mas eu no trago boas
notcias.
Eliana levantou-se de um salto do sof.



 Aconteceu alguma coisa a Rafaela?
Diva torceu as mos no avental. Seus olhos estavam rasos d'gua.

 Sua me acabou de ligar. Seu Otvio morreu.
Eliana fechou os olhos e deixou-se cair pesadamente no sof.
 Ah, Dalva, eu sabia que isso estava por acontecer. Papai estava
bebendo muito.
 Eu sei. Sua me me disse que ele estava internado h uma
semana. Ela no quis avis-los porque sabia que de nada
adiantaria preocup-los. A bebida estragou o fgado do seu Otvio.
 Como est mame?
 Pareceu-me tranqila. Ela no estava desesperada e pediu que
voc avisasse o Ricardo e o Roberto. Ela providenciou os papis,
tratou do funeral. Mandou avisar que o velrio  no cemitrio da
famlia.
 Preciso ligar para Ricardo. Voc poderia chamar o Beto na casa
de Leila?
 Sim, pode deixar.
 E pegar Rafaela na escolinha?
 Sim. Eu vou dormir aqui estes dias. Assim voc poder ir para
Jundia e no se preocupe com sua filhinha. Vou cuidar dela como
se fosse minha.
 No sei o que faria sem voc. Obrigada.
Eliana levantou-se e abraou Dalva. Em seguida, ligou para
Ricardo e o avisou do ocorrido. Em sua memria comearam a
rodar os flashes de infncia, quando brincava com o pai, seu
carinho... Eliana emocionou-se. Embora nos ltimos anos Otvio
mostrara-se um pai distante e abraara-se  bebida, muitos anos
antes ele havia sido um pai amoroso. E era essa a lembrana que
ela queria guardar dele.
Alaor chegou do parque e arrumou uma desculpa esfarrapada para
no acompanh-los.
 Eu sabia que voc no iria me acompanhar. No entanto, seu
carro est na garagem. Voc tem preferido pegar o metr. Importa-
se se eu peg-lo? Amanh estarei de volta.
 Contanto que no cometa nenhuma barbeiragem e que me
entregue com o tanque cheio, tudo bem.
 Sua mesquinharia  algo que deveria ser objeto de estudo.
Estou precisando do seu carro, que na verdade pode ser



considerado nosso, e no vou a passeio. Estou indo ao velrio e
enterro de meu pai!  a voz dela estava acima do tom.
 Faa o que quiser desde que devolva o carro intacto. Meus
psames  sua me.
Eliana meneou a cabea para os lados, de maneira negativa. Subiu
a escada, dirigiu-se ao seu quarto. Escolheu um conjunto preto e
pegou algumas peas de roupas para o dia seguinte. Quando foi
ao banheiro para uma ducha, viu o porta-retratos sobre a cmoda:
uma foto muito antiga, com o pai, a me, Ricardo e ela, segurando
o pequeno Roberto. Emocionou-se e chorou. Chorou bastante.
Roberto recebeu a notcia e no teve reao imediata. Quando
Dalva lhe falou sobre a morte do pai, ele abaixou a cabea com
pesar. Lembrou-se de quando era pequenino e de como o pai lhe
enchia de agrados e carinhos. Imediatamente depois comearam
as cenas de gritos, xingamentos, surras, surras e mais surras.
Ele deu de ombros.
 Procurei ser um bom filho. Sempre fui honesto e ntegro. Nunca
fiz nada que pudesse desapont-lo. Infelizmente voc no me
entendeu, no me aceitou e, pior, nunca me respeitou.  vida nos
deu a chance de podermos nos entender e viver com um pouco de
harmonia, mas voc preferiu afastar-se de mim.  uma pena.
 Cada um d o melhor de si, criana  disse Leila enquanto
acariciava os cabelos do rapaz.
  difcil. Eu gostaria de esquecer o passado, todavia as cenas
de maus-tratos vm fortes  mente. Parece que esto vivas. Papai
sempre foi muito rspido e austero comigo. Via-me como anormal.
 A malcia faz ver o mal onde ele no existe.  um vcio danado,
terrvel, alimentado pela educao, religio, meios de comunicao
em geral. Seu pai preferiu v-lo como algo errado, fora do padro
aceito. Creio que o melhor  voc no lhe guardar mgoa de forma
alguma.
 No sei o que fazer.
 Liberte-se do passado.
 Como?
 Deixe que as cenas venham  mente. Conforme forem
passando, v dizendo para si mesmo: O passado j passou, ele
no est mais vivo. O passado no me domina.
 O passado no me domina, gostei. S h um detalhe.
 O que ?



 Existem algumas coisas que eu gostaria de dizer ao meu pai,
que esto entaladas na minha garganta. E agora, como diz-las?
Vou morrer sem poder...
Leila o interrompeu com amabilidade.
 Certa vez conversamos sobre a continuidade da vida aps a
morte do corpo fsico.
 O que para mim faz um grande sentido. No duvido disso.
 O que morreu foi o corpo de carne de seu pai. Otvio continua
vivo em esprito. No velrio, converse com ele.
 Vo me chamar de louco.
 Converse mentalmente com o esprito de seu pai. Despea-se
dele em pensamento. Perdoe-o e perdoe a si mesmo. Desfaa os
ns do passado.
 Cr que papai vai me escutar?
 O esprito de Otvio vai registrar suas palavras. Vamos. Voc
precisa se arrumar e dar suporte  sua me. Por mais que tivessem
um casamento sem brilho, estavam juntos havia muitos anos.
 Voc vem comigo?
 V se arrumar. Vou ligar para Nelson e comunic-lo do ocorrido.
Voc pode ir com Eliana e eu irei mais tarde.
Roberto assentiu com a cabea. Queria muito que Leila
conhecesse sua me. Helena j ouvira falar dela, mas nunca
haviam se visto. Era tambm a primeira vez que ele retornava a
Jundia, aps um perodo de quase um ano.
A viagem correu tranqila. Roberto e Eliana conversaram bastante
sobre suas vidas e sobre as relaes de cada um deles com
Otvio. Riram, choraram, emocionaram-se. Prximo ao local do
velrio, fizeram sentida prece dirigida a memria do pai.
Eliana estacionou o carro. Desceram e caminharam at a sala
onde o corpo de Otvio era velado. Helena estava sentada numa
cadeira prxima ao caixo. Havia duas vizinhas sentadas mais 
frente.
Roberto aproximou-se de Helena e simplesmente moveu a cabea
lentamente para cima. Estava com a cara um pouco marcada pelo
cansao e estresse da situao, mais havia algo em seu semblante
que a tornava particularmente diferente.
 Oi, me.



Ela levantou-se e o abraou. Um abrao forte. Afastou-se do filho
e, enquanto limpava uma lgrima que teimava em escorrer pelo
canto do olho, falou:
 Seu pai estava entregue ao vcio. Desde que voc partiu, ele
passou a beber mais e mais. Mal nos falvamos.
Eliana aproximou-se e a abraou. Emocionaram-se. Helena
continuou a falar.
 Otvio no era mais o mesmo. Distante, monosslabo, dormia a
maior parte do dia. Quantas vezes tive de ir busc-lo no bar da
esquina de casa...
 Deve ter passado muita vergonha  ajuntou Eliana.
 No incio sim. Depois, como as idas ao bar para peg-lo eram
constantes, eu me acostumei. Passei a no dar mais crdito s
risadinhas maledicentes dos vizinhos e comentrios em tom de
cochicho quando eu passava carregando seu pai com dificuldade.
A Selma e a Iolanda  apontou para as duas senhoras sentada ali
perto  foram s nicas que me ajudaram. Elas nunca fizeram
qualquer comentrio sobre a bebedeira de Otvio ou mesmo sobre
meu jeito passivo de ser. Elas nunca me condenaram.
Helena disse e encarou Roberto nos olhos. Conseguiu, nesse
espao de tempo, perceber o quanto seu filho sofrera ou ainda iria
sofrer por conta do preconceito e da ignorncia de determinadas
pessoas, cuja mente obtusa cegava-lhes a lucidez.
Roberto entendeu a mensagem, ou o que a me queria lhe
transmitir. Abraou-a com carinho.
 Nunca  tarde para mudarmos, me. Voc ainda pode ter a vida
que sonhou.
 Estou muito velha.
Eliana levantou o sobrolho.
 Voc mal completou cinqenta anos de idade! Casou-se cedo,
teve filhos. Agora que os filhos esto bem-criados e seguindo seus
caminhos, e seu marido partiu, voc tem condies de pensar em
si e fazer o que melhor lhe aprouver.
 Ser?
 Claro! Voc tem a mim, ao Beto e ao Ricardo.
 Obrigada, meus filhos  respondeu num tom emocionado. 
Sabia que no fundo podia contar com o amparo de vocs.



Helena estava cansada de viver essa vida. No tinha propriamente
vontade de morrer, mas no queria mais viver como esposa reclusa
e passiva.
Ela fora criada de maneira muito rgida fora educada para o
casamento. Crescera acreditando que muito em breve iria
encontrar seu prncipe encantado. Otvio no era propriamente um
prncipe, mas era um homem muito bonito. Jovem, atraente,
educado e trabalhador, logo ganhou a permisso da famlia para
namor-la.
Ela apaixonara-se por ele, e sonhou com um casamento feliz,
rodeada de filhos. No entanto, a rotina foi vencendo os dias cor-de-
rosa. No sonho de amor de Helena, as casas estavam sempre
limpas, as fraldas no existiam, as crianas no ficavam doentes e
no lhe tiravam o sono... A realidade mostrou-se-lhe muito
diferente. Em poucos anos de casada, seu castelo ruiu.
Como ela fora criada para ser sempre servil, no sabia fazer outra
coisa a no ser obedecer ao marido, sempre, estando ele certo ou
errado. Percebera que havia cometido um grande erro, porque se
tornara uma mulher sem atrativos, sem opinio, sem vontade
prpria.
Os comentrios maldosos dos vizinhos, a bebedeira do marido, o
fim de um casamento que no condizia com seus sonhos de
menina, tudo isso estava rodopiando na sua mente. Helena queria
se livrar de tudo. Acreditava que podia dar novo rumo em sua vida.
Apegou-se a essa idia e passou a noite velando o corpo do
marido e pensando, pela primeira vez, em fazer algo que pudesse
tir-la dessa vida to sem graa.
Num canto da saleta estava o esprito de Gina. Ela permaneceu ali
at que os enfermeiros do plano espiritual desatassem os ltimos
ns que prendiam o perisprito de Otvio ao seu corpo fsico. To
logo fizeram o servio, um enfermeiro grandalho colocou em seus
braos o esprito de Otvio, que dormia inconsciente e logo a
caravana de espritos partiu para um pronto-socorro nos arredores
da Terra.
Gina sorriu satisfeita. Aplicou energias revigorantes sobre o corpo
de Helena. Beijou-lhe uma das faces e, antes de desvanecer no ar,
sussurrou-lhe ao ouvido:
 Voc  forte. Confie em Deus e esquea o passado.



Helena sentiu uma leve brisa acariciar-lhe o rosto. Esboou um
sorriso e continuou nas suas divagaes.
Leila chegou ao finalzinho da noite. Veio acompanhada de Nelson.
Foi apresentada a Helena e assim que a cumprimentou simpatizou-
se com ela.
Ricardo conseguiu pegar um dos ltimos vos da ponte-area.
Chegou tarde e trouxe Anne consigo. Estavam noivos e iriam se
casar numa questo de meses.
O corpo de Otvio foi enterrado na manh seguinte. Veio alguns
parentes distantes e outro punhado de vizinhos. Depois do
sepultamento, todos foram para a casa de Helena.
 Voc foi criado aqui nesta casa?  perguntou Anne.
 Sim  respondeu Ricardo.  Os trs irmos foram criados aqui
nesta casa. Tenho muitas lembranas agradveis de minha
infncia.
 Eu tambm  ajuntou Eliana.  Brinquei muito de casinha no
quintal, vivia atormentando mame com as minhas comidinhas
imaginrias.
Roberto levantou-se da poltrona e observou ao redor.
 Eu tambm tenho lembranas agradveis, muito embora as
tristes sejam maioria. Contudo, quero me esquecer das lembranas
desagradveis. Tenho percebido que somos responsvel por tudo
o que nos acontece. No posso culpar papai por no ter me
compreendido e no ter me aceitado como filho.
 Ele o amava  disse Helena.  Muito. Talvez mais do que a
Ricardo e Eliana. Otvio nunca conseguiu lidar com seu jeito
diferente de ser. Creio que se afundou na bebida por no conseguir
extravasar seu amor por voc.
Roberto no conseguiu controlar o pranto. Leila levantou-se e o
abraou.
 Chore minha criana! Coloque para fora toda a mgoa, todas as
dores, tudo o que voc no quer mais guardar para si. Liberte-se
do passado. Diga adeus ao seu pai e s lembranas ruins que
resistem em sua mente.
O rapaz soluava e o corpo estremecia de vez em quando.
Eliana e Ricardo aproximaram-se e abraaram-se ao irmo. Eles se
amavam profundamente. Uma aura de luz brilhante formou-se em
volta dos trs.
Helena olhou para os filhos e sorriu.



 Acho que estou ficando muito ranzinza. Meu passado at que
no foi to mau assim. Olhe que filhos lindos! So os meus filhos
 disse para si enquanto limpava as lgrimas com as costas das
mos.
A conversa fluiu agradvel e Leila foi com Nelson buscar almoo
para todos. Eliana insistia que Helena deveria ir passar uns dias
com ela.
 Agora no. Estou tomada por uma fora que nunca senti na
vida. Sinto-me mais dona de mim. Quero tratar dos papis da
penso, desfazer-me dos pertences de Otvio. Vou vender a casa
e gostaria de me mudar, se vocs no se opuserem, afinal,
cinqenta por cento pertence aos filhos.
 De maneira alguma!  protestou Ricardo.
Eliana e Roberto fizeram o mesmo. Ricardo considerou:
 Faremos tudo para que voc no tenha de dividir nada conosco.
 O dinheiro da venda da casa  todo seu, me  tornou Eliana.
 S seu  finalizou Roberto.
 Fico agradecida. Sabia que poderia contar com o apoio de
vocs. Estou cansada de viver aqui. Penso em ir para So Paulo.
Eliana animou-se.
 Por que no vai morar perto de mim? Assim poder ver Rafaela
com mais freqncia.
 Com a venda desta casa eu no poderei comprar metade de
uma casa onde voc mora.
 Completarei o resto  retrucou Ricardo.  Estou numa fase
muito boa e creio que Anne no iria objetar...
Anne o cortou.
 Ajudaremos D. Helena a comprar uma casa perto de Eliana.

Sinto

que

ela

vai

viver

muito

e

quero

que

ela

esteja

confortavelmente instalada numa casa s sua, sem depender de
ningum.
Helena no tinha como agradecer as palavras gentis da futura nora
e a fora que os filhos lhe davam. Ela levantou-se da poltrona e
beijou cada um dos filhos na testa. Em seguida abraou e beijou
Anne.
 Gostei muito de voc. Gostaria de poder v-la mais vezes.
Anne continuava com seu sotaque gracioso.
 Faremos o possvel. Eu e Ricardo no temos planos de mudar
por enquanto. Mas prometo que vamos visit-la bastante e que a



senhora tambm vai passar uns dias conosco no Rio. Quando
casarmos, farei questo de mobiliar um quarto para a senhora.
 Obrigada.
Leila e Nelson chegaram com a comida. Estavam todos famintos,
mal haviam pregado o olho na noite anterior e tambm mal haviam
tomado um caf da manh decente. Helena tratou de arrumar a
mesa da cozinha para o almoo.
Nelson se esqueceu dos refrigerantes e saiu em seguida, na
companhia de Ricardo e Roberto. Anne aproximou-se de Eliana.
 Como est se sentindo?
 Estava mais triste. Depois de toda essa demonstrao de
carinho entre ns, sinto-me melhor. Acho que a morte de papai vai
trazer muitas mudanas positivas na vida de minha me.
 Tambm sinto o mesmo que voc. Creio que agora D. Helena
vai viver de fato.
 Assim espero.
Anne deu um sorriso malicioso.
 Sabe com quem falei ao telefone ontem?
Eliana estava alheia e no percebeu o tom da pergunta.
 No.
 Nicolas!
Aquele nome mgico fez os olhos de Eliana brilhar. Seu corao
bateu levemente descompassado.
 Seu irmo est bem?
 Oui. Muito bem.
 Ele ficou de me enviar um carto e no mandou. Faz meses.
 Nicolas  homem determinado. Quando quer uma coisa, vai
atrs. Por esse motivo  prspero e est cada vez mais rico, alm
de ter valores nobres.
 Nicolas deve ser assediado por muitas mulheres.
 Por certo. Muitas, inmeras. Mas se sentiu atrado por uma s.
Eliana baixou os olhos envergonhada. Uma nvoa escura passou
pela sua mente.
 Ele mostrou-se bastante interessado no jantar. Foi galante e
cavalheiro. E sumiu.
 Meu irmo no sumiu. Ele tinha de retornar a Paris no dia
seguinte. Nicolas trabalha muito.
 E o carto? Ele ficou de me mandar um carto.



 Ele no lhe enviou nenhum postal porque no quis atrapalhar
sua vida, no quis mexer com seus sentimentos e bagunar seu
casamento.
 Como assim?
 Nicolas entendeu que voc e Alaor no estavam bem. Maia o
que ele podia fazer? Na noite em que vocs se viram pela primeira
vez ele no podia pedir para voc se divorciar e ir embora com ele.
Isso seria muita loucura. E h a pequena Rafaela. Voc bem sabe
que as crianas precisam ser bem preparadas para uma
separao, a fim de no ficarem traumas.
 Eu vou me separar. Mas estava esperando um postal de
Nicolas, uma ligao...
 Meu irmo  homem de sentimentos nobres. Voc  casada. Ele
no . Nicolas prefere que voc resolva a sua histria. Tenho
certeza de que, se voc se separar, ele vai se manifestar.
 Isso pode levar tempo, Anne. Digamos que eu me separe, o que
 praticamente uma realidade, pois meu casamento est falido,
acabado. E se nesse meio tempo seu irmo encontrar outra
mulher?
 Est se mostrando insegura diante da vida. Ningum pode tirar
o que lhe pertence por direito divino. O que  seu ningum tasca.
Abra os olhos, veja o que voc quer de sua vida e batalhe por isso.
 E a tal da modelo, continua no p dele?
 No sei. Mas ela nunca ser preo para voc. Conheo meu
irmo e sei que ele est apaixonado por voc.
Eliana mordeu os lbios. Estava mexida com toda essa conversa,
porm seu corao batia descompassado. Ela estava decidida. Iria
voltar para casa e tomaria coragem para ter uma conversa
definitiva com Alaor. Daquele dia em diante, um nome no mais
sairia de seu pensamento? Nicolas.

Captulo 17

Srgio voltou da viagem aos Estados Unidos sozinho. Vicente fora
chamado de ltima hora para fazer um vo com escala em So
Francisco, substituindo um colega doente.
Cludio foi busc-lo no aeroporto. Assim que foi liberado pela
Alfndega, Srgio empurrou seu carrinho com as malas at a



sada. Avistou Cludio no meio daquela multido, sorriu e correu
em sua direo.
 Quanta saudade!  exclamou Srgio.
 Divertiu-se bastante? Gostou da Amrica?
 Sim. Vicente me mostrou muitos lugares, levou-me para assistir
peas na Broadway. Ele conseguiu ingressos para assistirmos ao
Homem Elefante e A Chorus Line.
 Ele tem poder!
 Amei as peas e... e...
 O que aconteceu? O gato comeu sua lngua.
 No,  que... Ele me levou para conhecer as saunas. Nunca vou
me esquecer de St. Mark's Place. Creio que seja a maior que vi na
vida. Cludio, eu nunca vi tanta gente junto fazendo sexo. Uma
loucura! As pessoas perderam completamente o pudor!
 Diria que as pessoas perderam o equilbrio.
 Vivemos uma poca de muita liberdade. Podemos manifestar
nossos desejos e fazer amor com quem quisermos tambm.
 Mas liberdade no tem nada a ver com promiscuidade.
Srgio pegou as malas e as colocou no porta-malas do carro de
Cludio. Ele deu partida e continuaram conversando.
 Sexo  bom, mas fazer sexo por sexo? Em troca de nada? Tem
certeza de que isso lhe faz bem? Por que voc e Vicente foram a
uma sauna?
 Eu tinha curiosidade e...
 Nova York oferece tantas outras possibilidades de diverso, e,
de mais a mais, vocs esto namorando, o que pressupe no
freqentarem esses lugares.
 Voc est sendo careta. Eu e Vicente resolvemos adotar o
relacionamento aberto. Cada um de ns pode sair com quem
quiser, com a condio de no comentarmos com quem samos e o
que fizemos.
 Vicente j vinha fazendo isso h mais tempo, disso no tenho
dvidas.
 Ele foi sincero e disse-me que no consegue manter-se fiel.
Mostrou-me as vantagens de uma relao aberta Eu gostei.
 Bom, se  isso que o faz feliz, timo.
 Voc no aprova essa minha maneira de me relacionar. 
romntico.



 Sim. Acredito no amor, na relao entre duas pessoas, sejam de
sexo diferente ou do mesmo sexo. Vou morrer acreditando no amor
entre dois seres.
 E por que no namora? De que adianta fazer esse discurso e
no coloc-lo em prtica?
 Ainda no encontrei algum com quem tivesse afinidade
suficiente. Talvez eu seja exigente, pode ser. Mais ainda acredito
que meu amor no seja deste mundo.
Srgio balanou a cabea para cima e para baixo.
 Vai comear tudo de novo. A velha histria do amor do Alm.
Os dois riram. Cludio tornou srio:
 Tenho um comunicado a fazer.
 Ar misterioso. O que foi?
 Fui promovido no banco.
 Isso  bom demais! At que enfim reconheceram seu esforo e
sua dedicao. Voc  muito bom no que faz.
 Estou muito feliz. Sempre sonhei com um cargo na diretoria
financeira.
 E quando o novo diretor toma posse?
 Daqui a um ms.
 Muito tempo.
 Considerando que eu tenha de fazer a mudana, colocar minha
casa  venda e me preparar para viver numa outra cidade...
O rosto de Srgio surpreendeu-se.
 Como assim? Voc vai mudar de cidade?
 Vou. A vaga para a diretoria  no Rio de Janeiro.
 Voc  o meu melhor amigo. O que vou fazer aqui nesta cidade
sem sua companhia?  Voc tem seu namoradinho.
  diferente.
 Poder me visitar quando quiser. Pelo menos j sabe onde
passar as frias e o carnaval. Ter um quarto s para voc.
 Obrigado.
 Eu disse s para voc  enfatizou.
 Entendi o recado. Acostumei-me com o fato de que vocs nunca
vo se entender.
 Eu ainda no me acostumei com o fato de vocs ainda estarem
juntos. Ser que Vicente fez algum feitio? No consigo imaginar
por que continuam juntos. Voc e ele so como vinagre e leo.



 Sabe que no gosto de ficar sozinho. Preciso de algum ao meu
lado.
 Voc  nico, uma obra de Deus.
 Uma obra meio torta, diga-se de passagem.
 Preocupa-se demais com a sociedade, com o fato de ser
diferente. No consegue se enxergar como uma obra divina,
perfeita e bela? Difcil enxergar-se sem olhos reprovadores?
 Cresci acreditando que a homossexualidade no  natural.
 Est precisando dessa experincia como gay para lutar por si,
para aprender que  diferente dos outros e para viver de maneira
diferente porque no quis aprender de outra forma.
 Talvez eu no quisesse viver de maneira diferente.
 Engana-se. Seu esprito deseja essa experincia.
 Sinto que as coisas ficam menos pesadas com Vicente ao meu
lado.
 Poxa, esse algum poderia ser uma pessoa melhor. Ter um
namorado que sai com todos? Prefiro ficar s.
 Pensamos de forma diferente.
Cludio no queria impressionar Srgio de maneira negativa.
Adorava o amigo e o tinha como a um verdadeiro irmo. Contudo,
nos ltimos tempos, sentia um aperto sem igual no peito quando se
aproximava do amigo querido. Cludio no sabia o que poderia ser,
mas tinha certeza de que algo bem desagradvel estava prestes a
acontecer a Srgio.
Ele espantou os pensamentos com as mos e continuou a dirigir
passando a perguntar sobre os passeios e lugares interessantes
que Srgio conhecera na breve viagem ao exterior.

***

Roberto ficou mais uns dias com Leila ajudando a me a se
desfazer dos pertences de Otvio. Nelson e um amigo advogado
deram entrada com os papis para que Helena continuasse a
receber a aposentadoria do marido e fizesse o inventrio para
poderem vender a casa.
Entre roupas e objetos pessoais, Roberto encontrou uma caixa de
sapatos cheia de fotos e papis amarelados pelo tempo. Comeou
a vasculhar a caixa. Havia um montinho de fotos agrupadas, em
preto e branco e bem antigas. Em quase todas elas, dois homens



abraados e parecidos, sendo que um deles era de uma beleza
mpar, estonteante. Roberto deslumbrou-se com o semblante do
rapaz. Embora os rapazes nas fotos fossem bem jovens, percebeu
de cara que um deles era seu pai.
Ele pegou as fotos e as levou at a cozinha. Helena estava
arrumando as prateleiras dos armrios.
 Me, quem aparece nessas fotos com o papai?
Helena pegou o montinho de fotos e passou a olhar uma por uma.
Seus olhos voltaram num passado bem distante e em seguida
marejaram. Ela olhou para Roberto e fazia tempo que no via seu
filho com uma aparncia to boa. Roberto estava mudado. Os
traos finos estavam ainda presentes, mas ele parecia mais

maduro.

Seu

semblante

ficara

menos

carregado

e

era

impressionante como ele estava sempre carregando um sorriso.
Helena olhou a foto e de repente se deu conta de que Roberto era
muito parecido com Otaclio. O mesmo sorriso, o mesmo contorno
dos lbios... Ela levou a mo  boca. Nunca havia feito essa
associao entre o cunhado e o filho. Dava at a impresso de que
Roberto fosse filho de Otaclio.
Ela deixou-se levar pela saudade. Seus olhos se encheram dgua.
Roberto percebeu e perguntou enquanto apontava:
 Por acaso esse da foto  o meu tio Otaclio?
Helena assentiu com a cabea.
 Seu pai era bonito, mas Otaclio era muito mais. Era um Deus
grego. No tinha mulher e homem neste mundo que no admirasse
sua beleza.
 Nunca tinha visto uma foto dele antes. Cheguei a pensar que at
fosse imaginao minha.
Helena fechou o cenho. Continuou olhando as fotos  deriva. Ela
tivera verdadeira adorao pelo cunhado. Eles sempre se deram
muito bem.
 Otaclio era o irmo mais velho de seu pai. Eles andavam
sempre juntos, iam para cima e para baixo. Aqui na cidade todos
conheciam a dupla inseparvel.
 S ouvi esse nome uma nica vez na vida.
 Otaclio era um bom moo. Trabalhador, educado, bom corao,
porm se envolveu numa situao triste e...
Roberto a cortou.
 Foi por isso que meu tio se matou?



Helena meneou a cabea para cima e para baixo.
 Me, o que foi que aconteceu?
  uma histria muito triste, e creio que o passado tem de ficar
enterrado, l atrs.
 Voc vai me contar essa histria tintim por tintim.
 Por que deveria? Esse assunto no lhe interessa.
 Muito! Papai, numa das surras que me deu, disse que no
queria que eu tivesse o mesmo fim que Otaclio. Nem cheguei a
perguntar detalhes com medo de que ele me descesse  cinta com
mais fria. Alguns anos atrs, ouvi uma discusso entre voc e
papai em que falavam o nome de Otaclio.
 O que voc escutou?  perguntou ela, assustada.
 Nada demais. Por que eu, Ricardo e Eliana nunca soubemos da
existncia desse tio?
Helena puxou uma cadeira e sentou-se. Meteu os cotovelos sobre
a mesa.
 Creio que no h mais o que esconder. Voc precisa saber.
 Saber o qu?
 Voc  homem feito, e pelo que sinto no vai ter o mesmo final
que Otaclio.
 Conte-me tudo, por favor.
Helena deixou-se embalar pelas doces sensaes do passado. Foi
uma das melhores pocas de sua vida e ela sentia que precisava
contar ao filho sobre esse passado. Ela exalou profundo suspiro.
 Otaclio era dois anos mais velho que seu pai. Otvio sempre se
espelhara no irmo mais velho. Otaclio era seu dolo.
 Custo a crer que papai tivesse apreo por algo que no fosse a
garrafa de pinga.
Helena o censurou.
 No fale assim de seu pai.
 Nos ltimos anos ele estava intratvel.
 Otvio no est aqui para se defender. De que vai adiantar
julgarmos seu comportamento e suas atitudes?
 A senhora tem razo.
 Vou lhe contar a histria. Depois voc poder tirar suas prprias
concluses.
 Desculpe-me.
 Seu pai e seu tio eram inseparveis. Estavam sempre juntos em
tudo quanto era lugar. Tinham uma afinidade sem igual. Eram to



grudados que, quando casamos, Otaclio veio viver conosco.
Dormia no quarto que depois foi seu e de seus irmos.
 Ele vivia aqui em casa?
 Sim. Otaclio me ajudava nos afazeres domsticos, dizia que
dessa forma encontrara a maneira de pagar pela estadia. Eu
afirmava que ele sempre fora bem-vindo em casa e que nunca iria
lhe cobrar um tosto por viver aqui. Otaclio insistia e s vezes me
tirava da cozinha, fazia pratos maravilhosos. Ns ramos e nos
divertamos bastante, trocvamos confidncias, adorvamos ouvir
e cantar as msicas do rdio.
 Deve ter sido uma poca feliz de sua vida.
 Foi a mais feliz. Quando fiquei grvida pela primeira vez, Otaclio
no deixava eu pegar no pesado. Lavava e passava as roupas,
cozinhava, tirava p dos mveis. E seu pai o ajudava. Faziam tudo
com alegria e felicidade.
 E depois?
 Otaclio e seu pai iam todos os domingos num campinho de
terra aqui perto de casa. Outros vizinhos se reuniam e eles
jogavam bola. Depois, suados e cansados, atiravam-se sem roupa
num lago ali prximo, que hoje no existe mais.
O semblante de Helena comeou a se transformar. Ela passou a
mordiscar os lbios e esfregar as mos.
 O que aconteceu, me?
 Num desses banhos no lago, Venceslau, um vizinho recm-
casado, engraou-se com seu tio. Otvio percebeu, pois j sabia
das tendncias do irmo.
 Papai sabia que Otaclio era homossexual?
 Sim. Seu pai desconfiava, porquanto seu tio nunca aparecera
com uma garota a tiracolo.
 Otaclio nunca namorou uma mulher?
 Que eu saiba, nunca.
 Papai no se incomodava com o fato de o irmo ser diferente?
 Otvio gostava tanto do irmo que no ligava para suas
tendncias.
Roberto queria entender. Sua mente estava confusa.
 Mas por que ele me maltratou tanto pelo fato de eu ser como
meu tio?
 Por conta da tragdia que se abateu sobre nossas vidas.
 Tragdia?



Uma lgrima escorreu pelo canto do olho de Helena. Ela olhou
para a foto. Sorriu para o cunhado.
 Otaclio e Venceslau passaram a sair s escondidas. Os banhos
no lago eram dirios, no se restringiam mais aos dias de partida
de futebol. Eles eram discretos, iam nadar  noite. Da surgiu uma
paixo avassaladora. Seu tio perdeu-se nos meandros da paixo e
o mesmo ocorreu com Venceslau.
Roberto estava boquiaberto. Nunca poderia imaginar seus pais
como coadjuvantes numa histria como essa.
 Mas voc disse antes que Venceslau era casado.
 Morava na quadra aqui ao lado. Era casado com Matilde, uma
mulher de temperamento muito forte. Creio que ele casou-se com
ela mais por presso da famlia. Porque, mesmo que Venceslau
continuasse com suas escapadelas, para a sociedade ele era um
homem casado, acima de qualquer suspeita.
 Quanta hipocrisia. As pessoas acreditam que por conta de uma
condio, um papel assinado, elas no sero julgados...
 Hoje ainda  difcil para assumir a homossexualidade. Imagine
isso no fim dos anos 40. Era impraticvel, impensvel.
 Compreendo me.
 Matilde comeou a desconfiar, pois Venceslau vinha sempre
aqui em casa. Estava sempre com seu tio Otaclio. Lembro-me at
que Otvio sentiu um pouco de cimes. Contudo, ele viu que seu
irmo estava feliz e para seu pai isso bastava. Certo dia, Matilde
ficou escondida atrs de uma rvore e os seguiu. Ela sabia que o
marido e Otaclio iam se banhar no lago. Desconfiada, Matilde foi
at ao lago acompanhada por dois guardas.
 Imagino o que tenha acontecido em seguida...



Pois

.

Os

guardas

os

flagraram

numa

situao

comprometedora e foi um deus nos acuda. Seu tio foi levado para a
delegacia, foi humilhado, apanhou dos policiais. Soube at que ele
chegou a ser molestado.
 Que horror!
 Matilde deu um dinheiro ao delegado e levou o marido para
casa. Seu pai conseguiu a custo tirar Otaclio da priso. Seu tio
saiu da cadeia bastante transtornado. Voltou para casa amuado,
triste. No era mais o Otaclio de outrora. Num determinado dia, ele
acordou e decidiu que iria enfrentar o preconceito. Resolveu



assumir sua homossexualidade e viver ao lado de Venceslau, que
emagrecia a olhos vistos, tamanha saudade que sentia de seu tio.
 E conseguiram?
 Eu e seu pai incentivamos Otaclio a seguir seus planos. Ele e
Venceslau partiriam numa noite e iriam pegar o trem com destino a
uma cidadezinha longe daqui. Depois tomariam o rumo de alguma
capital, onde houvesse bastante gente e eles pudessem viver
aquele amor sem despertar suspeitas. Ns compramos as
passagens de trem. Venceslau convenceu Matilde a viajar e ver os
pais...
Helena parou de falar. Era a parte mais difcil do relato, Roberto
delicadamente apalpou a mo dela, incentivando-a a concluir.
 O que aconteceu naquela noite?
 At hoje no sabemos ao certo. Seu tio saiu, foi chamar
Venceslau e minutos depois eu e seu pai ouvimos tiros. Corremos
at a casa de Venceslau. A cena era aterradora. Os dois corpos,
de Otaclio e Venceslau estavam sobre a cama do casal, cada um
com um tiro no peito. E a arma estava na mo de seu tio.
 Se eles estavam prestes a viverem juntos, por que dariam cabo
da prpria vida?
 Isso nos intrigou, mas veja bem, Matilde no estava na cidade.
A polcia logo tratou de encerrar o caso. Chegaram  concluso de
que seu tio, por algum motivo, matou Venceslau e depois se
matou.
 No sinto que essa tenha sido a verdade.
 Eu tambm nunca quis acreditar nessa verso. Mas o que

importava

acreditar?

Seu

tio

estava

morto.

Nunca

mais

escutaramos sua voz, nunca mais veramos aquele sorriso
encantador...
Helena no mais conseguiu falar. Abraou-se ao filho e deixou que
as lgrimas banhassem sua face. Quanta saudade ela sentia de
Otaclio!
Otaclio e Venceslau foram vistos como dois pervertidos, tanto pela
sociedade como pela polcia, que no fez o menor esforo para
apurar com rigor as mortes. Um perito iniciante afirmaria com
certeza que a arma fora colocada na mo de Otaclio depois de ele
ser morto. No havia nenhum sinal de plvora nos dedos de sua
mo. Mas o que importava? Eram homossexuais, na poca
chamados de invertidos ou pederastas. No arquivamento do caso,



houve o pronunciamento de um delegado, cuja declarao
mostrava o total desrespeito s diferenas e aos semelhantes:
 Dois veados a menos no mundo. Graas a Deus!
Os acontecimentos desagradveis ainda perdurariam por tempos.
O padre da parquia que Otvio e Helena freqentavam no quis
rezar missa de stimo dia. Quase no deixaram Otaclio ser
enterrado no cemitrio.
Depois do triste episdio, Otvio preferiu acreditar mesmo que o
irmo houvesse tirado a prpria vida. Ficava mais cmodo pensar
dessa forma. Helena tentava pensar o mesmo, mas no fundo tinha
certeza de que o cunhado nunca seria capaz de um ato como
aquele.
Otvio fechou-se em seu mundo, perdeu a f e tornou-se homem
frio e estpido. A vida lhe arrancara seu irmo amado. A vida era
ingrata. De que adiantava ser amoroso e expressar seus
sentimentos se de uma hora para outra a pessoa amada no
estava mais ao seu lado? Alm dessas indagaes e da total
amargura que se apossara de sua vida, Otvio acreditava que toda
a tragdia ocorrera porque Otaclio era gay. E, quando percebeu
que seu filho caula sara como o irmo, acreditou que talvez fosse
uma maldio que o perseguiria at o fim de seus dias. Por essa
razo, mesmo amando o filho tanto quanto amara seu irmo,
Otvio agia de forma violenta e agressiva.
Helena, como percebemos, perdeu o brilho e o encanto de viver.
Levava a vida de maneira arrastada, sempre calada, triste e com
medo de Otvio. A morte de Otaclio mudou completamente a vida
do casal. Roberto acariciou os cabelos da me.
 De certa forma, tudo agora fica mais claro. Consigo perceber por
que papai me tratava daquele jeito.
 Otvio nunca quis admitir, mas amava voc acima de tudo, at
mais que seus irmos.
 E ficou com medo de que eu tivesse o mesmo fim que Otaclio.
 Eu tambm fiquei. E ainda fico. O mundo l fora  muito hostil.
 Sei disso, me. Mas o que quer que eu faa? Que mude minha
natureza? Eu nasci assim, cresci sentindo desejos por homens. Se
eu pudesse escolher, juro que nasceria heterossexual. Tudo seria
mais fcil. Eu no teria de fingir, no teria de reprimir meus
sentimentos. Por que eu iria querer levar pontaps da sociedade,
ser maltratado? Por masoquismo?



 Nunca pensei por esse ngulo.
 Pois deveria pensar. As pessoas acreditam que gays so assim
porque querem transgredir, sacudir os valores morais. No sei ao
certo por que viemos ao mundo desta forma. Talvez seja para
manter o equilbrio populacional, talvez para experimentar na pele
o preconceito de fato. Ou mesmo at para viver feliz, no
importando a orientao sexual. Todavia, me, acima de tudo, eu
sinto que vivo no mundo como gay para me aceitar e viver em paz
comigo, no dando ouvido s pessoas e escutando aquela voz
interior que serena e aquieta meu corao e traz paz ao meu
esprito.
Helena chorou copiosamente. Nunca parou para entender os
desejos e sentimentos do filho. Nunca se questionou o porqu de
ele ser assim. Roberto era um ser humano como ela. Tambm era
feito de carne e osso e tinha sentimentos. E ela nunca parou para
perceber o que ia corao ou mesmo na cabecinha do filho.
 Perdo, meu filho.
 No tenho de perdoar nada.
 Eu poderia ter sido uma me mais amorosa, mais amiga.
 Voc fez o que achou melhor. No pode exigir ter um
comportamento diferente de sua natureza.
 Quero mudar. Quero participar de sua vida. Quero aprender a
respeit-lo de fato. Embora ainda seja difcil para minha cabea
aceitar a homossexualidade, eu o compreendo e o respeito.
 Obrigado
 Abraaram-se novamente. Estavam emocionados e era como se
um peso sasse dos coraes de Roberto e de Helena. Estavam
prontos para viver uma nova fase onde colheriam os bons frutos.
Raios de luz coloridos foram despejados sobre suas mentes. O
esprito de Otaclio caminhou alguns passos e beijou a testa de
Helena e de Roberto.
 Fiquem em paz, de agora em diante. Que o preconceito no
habite mais seus coraes.
 Voc certo  ajuntou Venceslau.  O preconceito s afasta as
pessoas. No as permite perceber a grandeza da vida, no as
permite apreciar as diferenas.
 E no lhes permite o mais importante: amar incondicionalmente
e olhar como lies produtivas e nunca como desgraa o que est
lhe fazendo de bom. Parece que na vida fsica nossa cabea



cultiva a desgraa. Talvez Helena comece a enxergar seu filho com
os olhos do esprito.
  chegado o momento de grande espiritualidade na vida de
Helena.
 Sou feliz porque vencemos tudo isso. Passamos por cima do
orgulho. A custo conseguimos caminhar na direo do bem.
Segundo os homens do mundo, eu o matei e me matei. Fomos
julgados pervertidos e fracos.
 O que importa  que nosso esprito sabe da verdade. Pagamos
um preo muito alto pelo medo de sermos diferentes. Com o fim de
mais um ciclo na Terra, o medo se foi e sentimo-nos mais fortes e
confiantes. Podemos dormir com a conscincia tranqila.
 Precisamos ir. Um amigo espiritual me avisou que Matilde foi
levada a um pronto-socorro prximo do orbe. Est pronto para
encar-la, Venceslau?
 Sim. De que vai adiantar nossos dedos acusadores sobre ela?
 De fato, fomos ns que atramos essa situao.
 O esprito de Matilde tem se consumido pela culpa. Arrependeu-
se de tirar nossas vidas. Aos olhos da justia do mundo ela ficou
livre, mas sua mente atormentada no a deixou sossegar. Quer
coisa pior do que ser atormenta pela sua prpria mente acusadora?
 Tem razo.
 A auto-obsesso  um dos piores...
 Vamos ajud-la.
Os espritos de Otaclio e Venceslau assentiram com a cabea.
Sorriram para Helena e Roberto. Em seguida, deram-se as mos e
desvaneceram no ar.




Captulo 18

A morte de Otvio alterou o comportamento de Eliana em vrios
aspectos. Pela primeira vez ela questionou a vida, a prpria
existncia. Em seu corao acreditava que viera ao mundo para
ser feliz. Mesmo que a vida lhe pregasse certas peas, situaes
desagradveis, ainda assim ela tinha um sentimento que a fazia
acreditar ter nascido para o bem e para a felicidade.



Na viagem de volta para casa, Eliana viu como num filme a sua
vida e a de seus pais. Quando pequena fora a princesinha do lar,
porm, em seguida, veio adolescncia, a faculdade e o casamento.
O contato com os pais fora se perdendo ao longo dos anos. Puxou
na memria a vida afetiva dos pais. Percebeu que Otvio e Helena
tiveram uma vida em comum sem sal, sem atrativos e sem a
chama da paixo. Viviam uma rotina sem igual e ela, de forma
alguma, queria ter uma vida assim, muito embora notara que o seu
casamento estava muito parecido com o dos pais.
Imediatamente ela se lembrou do prprio casamento. Casara
porque acreditou que toda mulher deveria ter um marido. Nunca
parou para perceber o que seu corao desejava. Eliana gostava
de Alaor e deixou-se levar pela conversa de que o amor vem com
o tempo.
Bem, o tempo passou, passou e o amor no veio. Pelo contrrio, o
afastamento entre ela e o marido foi aumentando. O nascimento de
Rafaela, em vez de unir o casal, afastou-os totalmente. Eles
moravam na mesma casa, mas no viviam como marido e mulher.
Havia tempos.
Eliana chegou em casa. Embicou o carro na garagem. Pegou a
sacola e a bolsa. Entrou em casa e sentiu um vazio, como havia
muito no sentia.
 Estou vivendo como minha me e meu pai. No quero viver
como eles. Tenho o direito de ser feliz.
Ela caminhou pela sala, um profundo silncio pairava no ar. Eliana
jogou-se numa poltrona. Tirou os sapatos e comeou a massagear
os ps. Continuou falando para si!
 Eu no amo Alaor. No temos absolutamente nada em comum.
Por que diabos devo ficar presa a um casamento sem amor? Pelo
medo de recomear minha vida sozinha
 Falando com as paredes?
 Dalva, eu nem percebi que voc estava por perto casa. A casa
est to silenciosa.
 Faz pouco mais de meia hora que deixei Rafaela na escolinha.
 Estou com saudades da minha pequena.
 Ela tem perguntado muito pela senhora. Mas tem se comportado
como uma mocinha. Alimentou-se bem, dormiu bem.
 Hoje vou lev-la para dormir comigo. E Alaor?
Dalva deu de ombros.



 No dormiu em casa esses dias que voc esteve fora.
Eliana pendeu a cabea para os lados de maneira negativa.
 Pelo menos passou algumas horas com a filha?
 Ontem ele jantou em casa e brincou um pouquinho com
Rafaela. Colocou-a para dormir e saiu em seguida, com uma
sacola e a pasta de trabalho. Disse que no suporta ficar sozinho
aqui nesta casa.
 Pura balela. Tudo desculpa para passar a noite nos braos de
outra.
Dalva arregalou os olhos.
 Desconfia de algo?
 Faz tempo. Nunca notei marca de batom em suas camisas, mas
as camisas de Alaor esto sempre com um cheirinho de perfume
diferente do que ele usa. Alm do cheiro de cigarro.
 Alaor no fuma.
 Mas, sua companhia deve fumar.  Eliana levantou-se e foi
caminhando para a cozinha. Dalva foi atrs.
 O que pretende fazer?
 Vou esper-lo e, quando aparecer em casa, teremos uma
conversa. Quero me separar.
 Vocs no se amam.
 No. De forma alguma. Creio que Alaor at esteja esperando
essa conversa.
 Vou torcer para que tudo d certo.  Dalva abriu a geladeira. 
Est com fome?
 No.
 Fiz um docinho de abbora bem gostoso.
 Sabe que no resisto a um docinho. Pode servir.
O semblante de Eliana distendeu-se num largo sorriso. Dalva
procurou mudar o assunto.
 Como est sua me?
 Aparentemente bem. Ela tem se mostrado uma mulher forte.
Creio que v se recuperar de maneira rpida.
 Foram tantos anos de casamento. s vezes  difcil viver
sozinha novamente.
 C entre ns, ela nunca viveu um casamento como dos contos
de fada. Se quer saber, percebi que mame est aliviada.
 Seu Otvio estava dando muito trabalho, no?



 A bebida estava destruindo os dois; o fgado de meu pai e a
pacincia de minha me. E no fim das contas a cirrose foi fatal.
Seu fgado estava em frangalhos.
 Fiz uma orao pela alma dele.
 Fez bem, Dalva. Papai era descrente, homem de nenhuma f.
Mas  sempre bom orarmos pelos entes queridos.
 Dona Helena vai continuar naquela casa?
 Isso me surpreendeu. Mame nunca foi uma mulher de atitude
ou de tomar decises rpidas. Ela cuidou do funeral, colocou a
casa  venda e quer vir morar aqui perto.
 Ela pode vir morar aqui. Seria timo para Rafaela.
 Mame quer ter seu prprio canto. Eu acho isso muito bom.
Mesmo que sejamos vizinhas de parede. Morar sob o mesmo teto
nunca faz bem aos familiares.
 Se voc se separar, acredita que vai continuar morando aqui?
 Sem dvida. Alaor pode at querer no me dar penso, pode
brigar na justia, fazer o que quiser, mas ele no me tira desta
casa. Sinto que ele no vai se opor a deixar que eu e Rafaela
continuemos aqui. Mas preciso ser sincera com voc.
 O que foi?  interrogou Dalva, de maneira surpresa,
 Eu vou voltar a trabalhar. Pretendo voltar a estudar e em breve
advogar. Alaor vai ter de arcar com a escola de Rafaela, entretanto,
no sei se poderei pagar seu salrio, principalmente nos primeiros
meses...
 Nem pense numa coisa dessas.
 Mas voc tem sua casinha, tem contas para pagar.
 Faamos o seguinte. O que acha de eu vir morar em definitivo
aqui?
 Seria maravilhoso, mas no tenho dinheiro e...
Dalva a cortou com amabilidade.
 Eu entrego minha casa e fico sem despesas. Posso dar uma
ajeitadinha na lavanderia e dormir por l. Ela  espaosa e tem um
banheiro bom. Eu no tenho muitas coisas.
 No acho justo.
 Querida, voc e Rafaela so tudo o que tenho. Eu trabalho sem
receber, pelo menos tenho casa e comida. Continuarei fazendo
meu servio e quando voc se restabelecer poder acertar os
atrasados. Estou aqui para ajudar, sempre.
Eliana comoveu-se.



 No sei o que seria de minha vida sem seu apoio. Voc nem de
longe  uma empregada, Dalva.  uma amiga, uma grande amiga.
Obrigada.
Abraaram-se com carinho. Sabendo que Dalva estaria ao seu
lado, Eliana sentiu-se mais forte para conversar com o marido.
No fim da tarde Rafaela voltou da escolinha e ela e Eliana
brincaram at a exausto. Dormiram juntas e, na tardezinha do dia
seguinte, Alaor apareceu.
 Acabaram as frias?  inquiriu Eliana, de maneira irnica.
 Pena! Ainda no  respondeu ele, tambm com ar irnico. Na
verdade, estava querendo tirar frias permanentes. Pelo menos de
voc.
 No seja por isso. Gostaria de conversar a respeito.
Alaor consultou o relgio.
 Temos meia hora. Acha que  suficiente?
Meia hora para discutir o trmino de um relacionamento que
durara, entre namoro e casamento, prximo de dez anos. Eliana
meneou a cabea para os lados. Estava na cara que Alaor estava
pressionando para que ela tomasse  dianteira e ambos pusessem
um fim nessa histria que estava se arrastando por tempo demais.
 Talvez menos de meia hora. Vamos  sala.
Os dois caminharam at a sala e cada um sentou numa poltrona.
 Quero me separar de voc, Alaor.
Ele levou as mos para o alto.
 At que enfim. Eu tambm quero me separar de voc.
 Vou contratar um advogado.
 Com que dinheiro?
 No precisa atirar na minha cara. Ricardo vai me ajudar.
Trataremos da penso e da casa.
 A casa pode ficar com voc. Afinal, temos uma filha. Mas no
vou lhe dar meu dinheiro.
 No  justo. Eu me formei e voc no me deixou trabalhar.
Fiquei em casa e em seguida nasceu Rafaela.
 Problema seu. Dinheiro meu voc no vai ter.
 Temos uma filha em comum. A justia ao menos vai obrig-lo a
custear os estudos de nossa filha.
 A escola de Rafaela eu pago. Uniforme e material tambm. Mais
nada. Se quiser manter esta casa, que no  barato vai ter de
trabalhar.



 Nunca me neguei ao trabalho. No quero abusar de maneira
alguma. Mas temos contas, a Dalva... Pelo menos voc precisa me
ajudar at eu conseguir algum trabalho.
 Parada esses anos todos? Vai ser o qu? Ascensorista?
Recepcionista?
 Qual o problema? So trabalhos dignos. Vou  luta.
 Vai ter de mudar seu padro de vida. Vai descobrir que eu
posso no ter sido l um bom marido, mas botava bastante
dinheiro para manter essa estrutura toda.
 O advogado vai procur-lo e creio no termos mais nada para
conversar.
Ele engoliu a raiva e disparou:
 Est certo. Ah, s um detalhe. O carro  meu. Voc no precisa
de carro.
 Mas e se Rafaela precisar ir ao mdico? E as compras do ms?
 Vire-se. O carro voc no pega.
Alaor levantou-se da poltrona. Consultou novamente o relgio.
 Menos de meia hora. timo. At o fim de semana que vem eu
tiro todos os meus pertences.
 Pode visitar Rafaela quando quiser.
Alaor deu de ombros.
 Agora vou estar ocupado. Terei de procurar casa, contratar
advogado, so muitas obrigaes. Quando der eu virei visitar sua
filha.
 Nossa filha! Ela tem um pai.
 Ela tambm tem uma me. E uma empregada. E um tio,
bichinha, mas um tio.
Eliana prendeu a respirao por instantes.
 Saia da minha frente antes que eu perca as estribeiras. No
admito que fale de meu irmo nesse tom.
 Foi s uma brincadeirinha.
 Muito sem graa. Agora, por favor, suba, pegue uma muda de
roupas e desaparea.
 Est certo. Coloque minhas roupas nas malas e eu mando o
motorista buscar.
Alaor falou e subiu para o quarto. Abriu o armrio, pegou algumas
peas do seu vesturio e meteu numa sacola. Pegou alguns
pertences no banheiro e em seguida desceu. Nem olhou para



Eliana ou Dalva. Saiu sem nada dizer. Logo se ouviu o ronco do
motor de seu carro.
 Ele no voltar mais aqui?
 Espero que nunca mais, Dalva. Por favor, eu gostaria de ficar
um pouco a ss. Quando Rafaela chegar da escolinha, leve-a at
meu quarto.
 Sim.
Eliana subiu as escadas e entrou no quarto. Cerrou as cortinas da
janela, deixando o quarto numa penumbra agradvel que
convidava ao relaxamento. Acendeu o abajur de cabeceira e
deitou-se na cama.
Ela chorou muito. Chorou por ter terminado o casamento, chorou
pela morte do pai, pela vida que teria de enfrentar dali para frente.
Tudo era muito novo. De repente, de uma hora para a outra, Eliana
viu sua vida se transformar de maneira radical.
No fundo at que sentia um peso que lhe era arrancado das costas
e, principalmente do peito. Mesmo triste e insegura Eliana sentia no
corao que sua vida iria melhorar. E tomar um rumo que ela
jamais sonhara.

***

Alguns dias depois, saiu  lista dos aprovados no vestibular.
Roberto foi convocado na primeira chamada, como era de se
esperar. O rapaz no cabia em si de tanta alegria. Ele leu vrias
vezes o seu nome na lista a fim de certificar-se.
 Meu Deus, eu passei!  exclamou para si enquanto as lgrimas
corriam livremente pelo rosto.
O resultado era mais que esperado e bem-vindo. Roberto havia
tirado o ano inteiro para estudar. Comprometera-se com o cursinho
e com horas de estudo. Impusera a si forte disciplina a fim de
aproveitar o cursinho pago pelo irmo e o cantinho que sua irm
lhe arrumara com esmero e carinho.
Ele saiu do prdio da universidade, dobrou a esquina e parecia
flutuar no espao. Havia conseguido ingressar numa universidade
pblica e iria estudar para ser mdico, um timo mdico.
 Agora comearei uma nova fase. Eu vou me empenhar e vou
me formar com mrito. Eu nasci para a medicina.



Roberto estava muito feliz. As lgrimas ainda continuavam a
banhar-lhe a face. O esprito de Gina estava ao seu lado.
Emocionada, ela o beijou na fronte.
 Tnhamos certeza de que voc iria passar. Estudou com afinco,
o resultado no poderia ser diferente. Conte comigo e com outros
amigos espirituais. Mais algum tempo e voc vai se tornar um
excelente profissional da sade.
Das mos de Gina saam fagulhas coloridas que penetravam na
cabea do rapaz e iluminavam sua aura. Roberto, naquele instante,
sorriu. Olhou para o cu azul e agradeceu:
 Obrigado, Deus!
Em seguida, pegou a conduo e foi direto para a casa de Leila.
Queria que ela fosse a primeira a receber a notcia. Aproximou-se
do porto e tocou a campainha. Em instantes ela atendeu:
 Como vai, criana?
 Um pouco nervoso.
Ela o abraou e o convidou para entrar. Maria logo atrs lhe deu
uma piscada.
 Hoje me deu uma vontade de fazer bife com batatas fritas.
Aceitaria almoar conosco?
 Adoraria. Mas nem sei se vou conseguir comer. Estou muito
feliz.
 Voc chorou  notou Leila.  O que aconteceu? No me
diga...
Roberto assentiu com a cabea e as lgrimas recomearam.
 Hum, hum. Eu passei no vestibular, Leila. Ingressei na
universidade.
Leila o abraou, comovida.
 Eu sabia que voc iria conseguir. Estou to feliz!
 Eu preciso contar para a Eliana e ligar para o Ricardo.
 No passou em casa para dar a boa notcia a sua irm?
 Desde que Alaor saiu de casa Eliana adotou uma rotina rgida
nos horrios. Acorda cedo, compra o jornal, d uma olhada nos
classificados. A toma o caf, veste-se com apuro e sai para tentar
uma entrevista. S retorna para casa no fim do dia.
 Eliana  bastante determinada. Fiquei feliz que tenha resolvido
se separar.
 Alaor era um cunhado detestvel. Estava sempre me
aporrinhando, fazendo gracinhas com minha sexualidade.



 Quem muito brinca com a sexualidade alheia... No sei, no.
 O que quer dizer?
 Sempre achei Alaor meio esquisito. No quero fazer
comentrios maledicentes.
 Notou algo estranho no comportamento dele?
Leila desconversou, foi sincera:
 No quero falar da vida dos outros. Alaor que cuide da sua vida.
Vamos traar os seus planos para o futuro.
 Primeiro preciso ligar para Ricardo. Anne pediu que to logo o
resultado sasse, eu ligasse para avis-los.
 V at o corredor e faa a ligao. Aproveite e avise sua me.
 Farei isso.
Roberto levantou-se e ligou para a casa do irmo. Anne ficou
felicssima e assim que Ricardo chegasse em casa ela lhe contaria
a grande e esperada novidade. Em seguida, ele ligou para sua
me. Helena comoveu-se e parabenizou o filho. Ela muito gostaria
de lhe dar um abrao pessoalmente, mas acabara de vender a
casa e, antes de vir para So Paulo decidiu fazer uma excurso
com um pequeno grupo de vivas pelas cidades histricas de
Minas Gerais.
 Vai ser uma viagem divertida.
 Voc precisa mesmo se divertir, me.
 A primeira da minha vida. Comecei a receber o dinheiro da
penso. No  l muita coisa, mas d para eu me virar. Assim que
voltar da viagem e me estabelecer em So Paulo, gostaria que
voc fosse morar comigo.
Roberto sorriu feliz.
 Obrigado, me.
 Eu prometo que vou procurar entender melhor esse seu jeito de
ser. Quero abrir minha cabea e arrancar o preconceito do meu
corao. Importa-se de me ajudar a entend-lo?
 Claro que no.
 Voc  um filho maravilhoso. No me importa se voc  gay,
htero, amarelo ou verde. Eu o amo incondicionalmente. Tenho
orgulho de ser sua me.
Do outro lado da linha Roberto estava emudecido. As palavras da
me eram sinceras e ele no conseguia segurar o pranto.



  muito importante que voc me diga essas coisas, me. Isso
me fortalece e me torna mais forte para enfrentar o mundo aqui
fora.
 Eu estarei sempre ao seu lado. Pode acreditar.
 Faa uma boa viagem. Eu a amo.
 Obrigado, Beto. Eu tambm o amo. Deus o abenoe, meu filho.
Roberto desligou o telefone e chorou copiosamente. Esse era o dia
mais feliz de sua vida, sem sombra de dvidas. Ele foi ao banheiro,
jogou gua no rosto, esfregou o nariz e recomps-se dos
momentos de grande emoo. Ao chegar  sala, Leila lhe entregou
uma taa de champanhe.
 Um brinde ao futuro mdico.
Roberto correu e chamou Maria.
 Voc tambm tem que comemorar conosco.
Maria sorriu emocionada. Sentia enorme carinho por ele. Em
seguida, os trs encostaram suas taas e gritaram um viva.
No decorrer da tarde, Roberto e Leila entabularam conversao.
Fizeram planos, conversaram sobre os prximos anos da
faculdade. Foram interrompidos pela chegada de Nelson.
Ele os cumprimentou e, ao saber da vitria de Roberto,
cumprimentou e abraou o rapaz com carinho.
 No tinha dvidas de que iria conseguir.  Nelson tinha tanta
certeza de que Roberto iria passar no vestibular que lhe comprara
uma bonita caneta tinteiro. Entregou o embrulho ao rapaz.
 Um presente?
 Para voc guardar e prescrever suas receitas, doutor!
 Obrigado.
Roberto despediu-se deles de maneira emocionada e voltou para
casa. Eliana iria chegar logo e ele estava ansioso para dizer  irm
que ele tinha conseguido entrar na faculdade.
Leila fechou a porta e ao rodar nos calcanhares, Nelson lhe deu um
beijinho nos lbios. Foi espontneo e natural.
 Voc est ficando abusado!  exclamou sorrindo enquanto
dirigia-se  cristaleira e pegava dois clices e uma garrafa de vinho
do porto.
 Estava com saudades. Foi a primeira vez que me afastei de
voc desde que chegou  capital. Eu estou ficando mal-
acostumado.
Leila encheu os clices e entregou um a Nelson.



 Hoje  dia de alegria. Roberto passou no vestibular. Estou to
feliz!
 Ele merece.  um rapaz esforado e tenho certeza de que vai se
tornar excelente profissional.
 Vai ser um grande mdico.
Eles brindaram ao sucesso de Roberto. Em seguida, Nelson
sentou-se numa poltrona.
 Eu creio que hoje seja um dia de grandes novidades.
  mesmo?
 Sim.
 Por qu?
 Tenho uma boa notcia para lhe dar. Irm Agnes voltou da
frica.
Leila sentiu as pernas falsearem por instantes. Agarrou-se a uma
poltrona e por pouco seu clice de vinho do porto no foi ao cho.
 Irm Agnes voltou... Quando?
 H alguns dias. Fui avisado pelo meu amigo delegado.
 E ento?
 Eu fiz o mximo de esforo para no lhe contar nada. Ao saber
do regresso da freira em solo brasileiro, fui ao seu encontro. Irm
Agnes estava bastante doente. Pegou uma dessas doenas
tropicais.
 Mas voc falou com ela?
 Sim.
 Pelo amor de Deus, Nelson. O que ela lhe disse?
Nelson nem sabia como comear. Seu encontro com irm Agnes
foi breve. Ela estava internada num hospital numa cidadezinha do
Sul do pas. Estava bastante debilitada e mal podia falar.
Concordou em receber Nelson porque percebia que seu fim estava
prximo e ela tinha de lhe contar o que sabia sobre a filha de Leila.
Agnes conversou com ele pouco mais de dez minutos. Depois
pediu que ele se retirasse porque ela estava muito cansada.
Nelson saiu do hospital cruzando as pernas. O que Agnes lhe
dissera se fosse verdade e ela no estivesse delirando mudava
completamente o rumo das investigaes.
Ele respirou fundo, inspirou e soltou o ar e procurou tom natural na
voz.
 Pode me responder algo, Leila?
 Claro.



 Voc chegou a pegar a criana no colo?
 No. As freiras no deixaram. Disseram que se eu abraasse
minha filha eu sofreria muito mais. To logo minha filha saiu de
dentro de mim e escutei seu choro, as freiras a pegaram e a tiraram
da sala de parto  uma lgrima correu pelo canto do olho. 
Ainda me lembro de seu choro ecoando pelos corredores e se
distanciando at sumir. Nem cheguei a ver a cor dos cabelos da
minha filhinha. Desmaiei.
 O que Agnes me contou muda completamente o rumo de
nossas investigaes.
Leila sentiu o corao bater descompassado.
 Pela sua expresso, aconteceu algo de muito grave. Por favor,
diga-me. Estou preparada.
 Voc no deu  luz uma menina. Voc pariu um menino!
Leila levou a mo  boca para evitar um grito. Em seguida, tomada
por forte emoo, caiu num pranto compulsivo. Depois que se
acalmou, balbuciou:
 Todos esses anos e... Eu procurando uma mulher que nunca
existiu?
 Agnes me disse que foram obrigadas a dizer que a criana era
de outro sexo porque a famlia desconfiava que no futuro voc
pudesse ir atrs.
 Eles foram muito cruis. Eu preciso falar com irm Agnes. Ela
vai ter de me contar essa histria olhando bem no fundo dos meus
olhos.
 Impossvel Leila.
 Como impossvel? Ns vamos viajar amanh mesmo. Pode
comprar as passagens.
 Negativo.
 Por qu?
 Irm Agnes faleceu h trs dias.

Captulo 19

Eliana chorou de emoo ao saber o resultado do vestibular. Bom,
digamos que ela emocionou-se mais com o relato que Roberto lhe
fez da conversa que teve com Helena.  Eu sabia que mame iria
um dia, ao menos, tentar entend-lo.



 Eu fiquei muito feliz. Ela foi to sincera em suas palavras, foi
muito amvel.
 Ela est se esforando para recuperar o tempo perdido. Foram
muitos anos aprisionada naquela casa, vivendo um casamento
sufocado pela rotina.
 Eu percebi que ela comeou a mudar logo aps o enterro de
papai.
 Percebi como ela resolveu tudo sozinha, tomou as providncias,
manteve comportamento impecvel.
 Tem algo que no lhe contei.
 O que foi?
 Depois que voc voltou para casa, eu fiquei ainda uns dias
ajudando mame a se desfazer dos pertences de papai. Durante a
limpeza do guarda-roupa, encontrei uma caixa cheia de fotos.
Sabia que ns tivemos um tio?
 Por alto. Talvez tenha ouvido alguma coisa quando garota. Mas
nunca dei a devida ateno.
 Papai teve um irmo. Otaclio era seu nome.
 Nunca ouvi falar.
 Ele era gay.
Eliana surpreendeu-se.
 Mesmo?
 Mame me contou tudo. Tio Otaclio vivia com ela e com o papai
e os trs eram muito felizes.
 Pode me contar tudo. No deixe escapar um detalhe. Roberto
ento relatou  irm toda a conversa que tivera com a me. Contou
toda a histria de Otaclio e a suspeita de que ele no se matara.
Depois de concludo o relato, Eliana disse:
 Compreendo nosso pai. No estou aqui afirmando que as
atitudes dele com voc foram s melhores, muito pelo contrrio. Eu
condeno todo e qualquer tipo de violncia.
 Eu entendo voc. Tambm refleti bastante depois que mame
me contou essa histria. Creio que papai tivesse medo que eu
acabasse como seu irmo.
Eliana o abraou com carinho.
 Eu o amo muito, Beto.
 Eu tambm a amo.
 Voc vai ter de se dividir. Acostumei-me com voc por perto.
Meia semana voc dorme aqui e meia semana na casa de mame.



Ele riu.
 Vou ter de ter dois quartos. Vou ficar confuso...
 De maneira alguma. Voc pode freqentar a edcula, estudar,
descansar, namorar...
 Namorar?
 Mame est fazendo muito esforo para entend-lo e aceit-lo.
Mas creio ser muito difcil ela aceitar que um namorado seu durma
em casa. Acho que a cabea dela ainda no est preparada para
isso.
 Tambm acho.
 Quando conhecer algum interessante poder trazer aqui. A
edcula lhe d total privacidade. Eu confio em voc. Sei que jamais
traria qualquer um na nossa casa.
 Obrigado, Eliana. Entretanto, no penso nisso. Quero me
dedicar  faculdade. Sero muitos anos de muito estudo. E gostaria
que Dalva morasse na edcula.
 Voc tem um corao generoso.
 No gosto de v-la na lavanderia, entre caixas de sabo e
roupas para lavar e passar.
 Mas e quanto aos seus momentos de diverso? Poder se
apaixonar, ou mesmo se divertir.
 No sei.
 Desde que veio para c voc nunca se envolveu com ningum.
No sente vontade de se relacionar?
 Sim.
 E por que no sai e vai se divertir?
 Eu nunca sa Eliana. Nem sei se tem um lugar freqentado
unicamente por gays.
Ela deu uma gargalhada gostosa.
 Voc mora na maior cidade da Amrica Latina e acredita que
no existam outros como voc?
 Pelo menos aqui na vizinhana eu tenho certeza de que no tem
gay.
Eliana levantou-se e apanhou a bolsa. Tirou um folheto.
 Hoje fui ao centro da cidade para duas entrevistas. Na sada de
uma delas um rapaz muito simptico me deu esse folheto.
 O que ?
  uma boate, uma discoteca freqentada por pessoas como
voc.



 Toca essas msicas que eu escuto na rdio e na vitrola?
 Creio que sim. Eu perguntei ao rapaz se o ambiente era bem
freqentado, se a msica era boa e ele me fez propaganda muito
positiva. At eu senti vontade de ir danar.
 No sei ao certo...
 Faamos o seguinte. No panfleto diz que a discoteca abre s
onze da noite. Voc vai dar uma descansada, depois eu o acordo,
voc se arruma e eu lhe dou o dinheiro do txi.
 De jeito algum. Voc est batalhando um emprego, tem essa
casa para sustentar, alm de uma filha, uma empregada e um
irmo que ainda vai demorar a comear a ganhar dinheiro. Sabe
que a faculdade de medicina vai tomar todo meu tempo.
 No importa. Hoje  seu dia. Passou no vestibular, precisa
comemorar. Vai sair e danar, vai se divertir, quem sabe fazer
novas amizades.
 Tem razo. Hoje  uma data muito especial. Um pouquinho de
diverso no vai fazer mal.

***

Srgio olhou pela ensima vez para o aparelho de telefone. Vicente
ficara de ligar naquele dia, na parte da tarde. Passava das dez da
noite e nem sinal do namorado. Ele ligou para o apartamento de
Vicente e o telefone tocava at a linha cair. Depois, ligou para
outros amigos em comum e nada de Vicente.
Ele passou as mos nos cabelos e no queria pensar. Sabia onde
o namorado estava. Fora avisado por um telefonema annimo,
semanas antes, de que Vicente no estava trabalhando, mas
estava numa sauna praticando sexo com vrios homens.
Srgio deixou-se envolver pelo telefonema e imediatamente foi at
a tal sauna gay. Parou atrs de uma rvore no outro lado da
calada. Duas horas depois Vicente saiu, ar cansado, porm todo
sorrisos.
Ele avanou a rua e o pegou pelo colarinho.
 Voc me disse que no mais me traa.
Vicente, pego desprevenido, tentou se justificar.
 Isso no  traio.
 Ah?! Como no?



 Isso  diverso. Traio  quando a gente sai com a mesma
pessoa vezes seguida. Mas eu s fao sexo com diferentes
parceiros e nem pergunto o nome. As minhas transas no tm
nome nem telefone. Se voc perguntar para mim com quem transei
h pouco, nem vou me lembrar.
 Por que faz isso comigo, Vicente?
 No fao nada. Voc  meu namorado. Eu o amo.
 Voc me ama e sai com vrios outros nas minhas costas. Isso 
amor?
 No, isso  sexo.  fisiolgico. Uma necessidade fsica. No tem
nada a ver com sentimento. Eu uso esses caras s para ter prazer.
 Eu no lhe dou prazer?
 Sim. Mas  diferente.
 Como diferente?
 Eu gosto de variar. Comer arroz com feijo todo dia enjoa. Uma
macarronada, um bife, uma maionese, eu preciso variar meu
cardpio de vez em quando.
 Voc me enoja, Vicente. Cludio tinha razo. Voc no presta.
Vicente enervou-se.
 Claudio! No basta seu amigo morar em outra cidade. Ele
continua e continuar sempre presente na nossa relao. Que
inferno!
 Ele tem razo. Voc me trai a torto e a direito. Nunca vai deixar
de meter os chifres em mim.
 Sua definio de traio  muito arcaica. Eu no amo outro
homem. S nutro sentimentos unicamente por voc. Consegue
entender?
 No!  bradou.
Srgio saiu em disparada. Ficou muito nervoso naquela noite.
Pegou o carro e rodou a esmo, por horas a fio. Quando a cabea
esfriou, ele voltou para casa e dormiu.
Vicente o procurou no dia seguinte, fez escndalo. Gritou que o
amava e que no conseguiria viver sem ele. Fez um escarcu
emocional e Srgio mais uma vez acreditou. Ou seu medo de ficar
sozinho o fizera acreditar nas mentiras de Vicente.
Os dias passaram, eles se reconciliaram e Vicente havia prometido
ligar para marcarem de sair e jantar. Ficara de ligar s cinco da
tarde. O relgio estava quase marcando onze da noite e nenhum
toque no telefone.



 Vicente me paga. Ele est me fazendo de besta. Deve estar se
esbaldando numa sauna. Eu tambm vou me esbaldar. Vou sair e
me divertir. Dane-se.
Srgio levantou-se decidido. Iria tomar um bom banho, vestir-se
com apuro e sair para um programinha. A temperatura estava
agradvel e ele no iria passar mais uma noite trancafiado em
casa, sem notcias do namorado.
 Hoje vou me divertir.

***



Roberto desceu as escadas e Eliana nem podia acreditar.
 Como voc est lindo!
 Obrigado.
 Desse jeito vai arrumar algum.
 Quero me divertir. No quero arrumar nada.
 Pegou seu documento de identidade?
 Peguei.
 Com essa cara de menino vo lhe pedir o documento.
Roberto fez ar de mofa.
 Que peam. Mas juro que hoje vou danar at meus ps
pedirem clemncia.
Eliana entregou-lhe uma cpia da chave do porto.
 Nem pense na hora de voltar. S tome cuidado e no aceite
bebida de ningum.
 Pode deixar.
Eles saram e foram caminhando algumas quadras em direo 
avenida onde era fcil arrumar um txi. No trajeto Eliana fez a lista
de cuidados bsicos. Embora fosse um homenzinho, Roberto no
tinha experincia com a noite e seus mistrios. O txi apareceu, ele
se despediu da irm e deu o endereo ao motorista. O txi parou
no sinal vermelho e Roberto viu na quadra a sua frente uma
multido de rapazes aglomerados.  Deve ser ali  disse para si
enquanto sentia um friozinho percorrer-lhe a boca do estmago.
Ele aproveitou o sinal vermelho e acertou a corrida com o
motorista. Saltou do carro e caminhou at a fila. Foi a primeira vez
que Roberto sentiu os olhos de cobia sobre si. A maioria dos
rapazes que freqentava aquela casa noturna se conhecia de vista.



Roberto era novo no pedao. E, alm do mais, era de uma beleza
mpar. Os rapazes cochichavam entre si. Estavam impressionados
com a beleza daquele menino.
Ele comprou seu ingresso e foi barrado na porta.
 Documento.
 Roberto sacou a identidade do bolso. O rapaz moreno e
troncudo olhou para a identidade e para o rosto de Roberto. Sorriu
e lhe meteu um carimbo no pulso.
 Primeira vez, n?
 Sim. Por que o carimbo?
 Voc pagou ingresso e vai entrar. Com esse carimbo no pulso
pode entrar e sair da boate quantas vezes quiser.
 Ah, entendi.
 Qualquer problema pode me chamar. Sou Bagd.
 Obrigado, Bagd.
Dentro da boate, Roberto deparou com outro mundo.
Luzes, cores, cho da pista iluminado. Ele sentiu-se como no
cenrio do filme Os embalos de sbado  noite.
 S falta encontrar o meu John Travolta.
Ele sorriu e seu corpo foi envolvido pela msica. Roberto
naturalmente comeou a chacoalhar o corpo. Logo estava no meio
da pista, entre tantos outros homens, divertindo-se a valer.
Um rapaz aproximou-se e lhe deu uma piscada. Outro, mais 
frente, lhe abriu largo sorriso. Eram tantas piscadas e sorrisos, que
Roberto preferiu fechar os olhos e curtir a msica. Entregou-se de
corpo e alma ao ritmo daquelas msicas cantadas por Diana Ross,
Gloria Gaynor, Donna Summer e Grace Jones, dentre tantas outras
divas da discoteca.
Fazia um bom tempo que Roberto estava danando. Era uma
msica atrs da outra, e ele conhecia todas elas, fossa dos seus
discos, fosse da rdio. Cantarolava uma, emocionava-se com outra
e chacoalhava-se com mais ritmo numa outra. At que algum o
cutucou nas costas. Roberto abriu os olhos.
 Oi.
 Ol.
 Lembra-se de mim?
Roberto franziu o cenho e apertou os olhos. A pista de dana tinha
luz negra e no dava para se ver com nitidez o rosto das pessoas.
 Desculpe, mas no me lembro.



 Talvez isso o ajude.  O rapaz aproximou-me mais e tascou-lhe
um beijo na boca. Um beijo demorado. Depois do beijo o rapaz
perguntou:  E agora, lembra-se de mim?
Roberto estava meio zonzo. Fora pego de surpresa.
 Claro! Davi, o rapaz da lanchonete!
 Eu mesmo.
 Como vai?
 Bem. Sabe que voc foi o primeiro rapaz que me deu o fora?
 Eu no lhe dei o fora.
 Dei-lhe meu carto e voc no ligou.
 Tem razo. Foi indelicado de minha parte.
 Esperei por muitas noites. Queria muito reencontr-lo.
 Eu tinha de me preparar para o vestibular. No podia deixar que
nada desviasse meu caminho.
Davi sorriu.
 Prestou vestibular para qu?
 Medicina.
 E valeu o esforo?
 Como! Consegui. Entrei na faculdade e vim comemorar.
 Parabns.
Davi cumprimentou Roberto com novo beijo. O rapaz no sabia
mais se danava ou se ficava ali beijando Davi. Roberto no
saberia explicar a excitao que tomara conta de seu corpo. No
sabia se era a msica, o ambiente, se era estar na companhia de
pessoas que sentiam o mesmo que ele, se era o beijo de Davi, ou
se era tudo junto.
 Quer uma bebida?
 Eu no bebo  respondeu Roberto.
 Um refrigerante?
 Eu vou ao bar e pego. Quer o qu?
 Um gim-tnica.
Davi deu duas fichinhas para Roberto retirar as bebidas no bar.
 Volto logo.
Roberto afastou-se e caminhou at o bar. Pediu seu refrigerante e
o drinque de Davi. Enquanto aguardava com os braos apoiados
no balco, sentiu ser observado e virou o rosto para o lado.
Foi uma sensao totalmente nova. Os olhos de Roberto e de
Srgio se encontraram e ambos no conseguiam desviar os olhos



um do outro. Uma mistura de sentimentos sacudiu-lhes o corao.
Os mais romnticos diriam se tratar de amor  primeira vista.
Roberto sentiu enorme vontade de se aproximar. Mas logo algum
puxou Srgio pelo brao e ele sumiu na multido. Roberto ainda
precisou de um tempo para voltar  realidade. Passada a
sensao, ele deu de ombros. Pegou as bebidas e foi at Davi.
 Aconteceu alguma coisa?
 Nada. Vi algum que pensei conhecer. Mas ao mesmo tempo
acho que nunca o tinha visto.
 Desculpe, no entendi.
 Esquece.  a primeira vez que saio  noite. Estou tomado por
fortes emoes.
 Voc nunca saiu  noite?
 Nunca.
 E nunca se relacionou com outro rapaz?
 Tambm no.
Os olhos de Davi brilharam maliciosos.
 Voc  virgem?
 Sou.
 Quer ir para um lugar mais calmo?
 Para onde?
 Minha casa. No moro longe daqui.
Roberto sentiu o ar lhe faltar. Estava apreensivo, mais ao mesmo
tempo morrendo de vontade de fazer sexo. Era maior de idade,
dono do seu nariz, e nunca havia experimentado nada, a no ser
as vezes que fora molestado pela turma de Dnis. Mas isso fazia
parte do passado e no tinha nada a ver com uma plena e
satisfatria troca sexual.
Davi parecia ser bom moo. Havia algo nele que cativava a
confiana de Roberto. Embalado pela emoo e pelos hormnios 
flor da pele, Roberto aceitou o convite.
Na outra ponta da boate, Vicente puxou Srgio pelo brao com
tamanha fora que o machucou.
 O que voc quer?
 Vim atrs de voc. Sabia que estaria aqui no HS.
 Por que no continuou na sauna? No estava boa?
 Eu lhe peo desculpas. Fiquei de ligar. Foi um lapso.
Srgio desvencilhou-se dos braos de Vicente.



 Dane-se, voc e seu lapso. Estou farto de ser corneado, de ser
maltratado, de ser posto de lado. Eu quero um namorado por
inteiro. Quero um companheiro. No um botador de chifres.
 Voc sonha com o impossvel. Assistiu a muitas fitas romnticas
de cinema.
 Problema meu. Eu acredito no amor.
 Eu o amo.
 Mentira! Voc quer que todos o bajulem. S porque tem
dinheiro, viaja para o exterior e tem um rostinho bonito?
 No me ofenda. Quer uma cena aqui na boate?
Srgio foi tomado de uma fria sem igual. Sua voz era to grave e
to alta que as pessoas ao redor se afastaram, acreditando que
eles fossem brigar para valer.
 Quero uma cena, sim! Vamos, grite comigo, vamos sair no tapa.
 Calma Srgio. Voc est descontrolado.
 Descontrolado? Estou louco! Nunca mais quero ver voc na
minha frente. Nunca mais!
 Vamos conversar.
 No quero mais conversar com voc. Suma da minha vida.
Chega!
Srgio bradou e saiu. Foi ao caixa, pagou sua conta e resolveu ir
para casa. Estava farto de Vicente, de suas armaes, de suas
desculpas esfarrapadas. Estava cansado de viver de migalhas de
amor. Queria o po inteiro.
Ele dobrou o quarteiro e mais algumas quadras estava em casa.
Ao chegar ao quarto, despiu-se, ligou o rdio e estirou-se na cama.
Abraou-se a um travesseiro e comeou a repensar sua maneira
de se relacionar.
Enquanto decidia terminar em definitivo seu namoro com Vicente, o
rosto iluminado de Roberto aparecia-lhe de vez em quando.
 De onde conheo esse rapaz? De onde?
Roberto e Davi pagaram suas comandas. Roberto mostrou o punho
para Bagd. Ele lhe sorriu.
 Pode sair com Davi. Est em boas mos.
Roberto agradeceu. Saram da boate e foram caminhando pela rua.
Era madrugada e muitos rapazes estavam andando tambm em
grupos, muito  vontade. Era algo inacreditvel porque alguns at
andavam de mos dadas.
Parecia outro mundo.



Davi passou o brao pelo seu ombro e Roberto sentiu agradvel
sensao de segurana. Minutos depois, estavam no apartamento
de Davi.
 O porteiro da boate disse que voc est em boas mos.
 Bagd pareceu-me simptico. De confiana.
 Quer beber algo para descontrair e relaxar?
 No, estou bem.
Davi o pegou pela mo e foram em direo ao quarto. Ele conduziu
Roberto at a cama. Apagou a luz e abriu a janela. Uma gostosa
brisa invadiu o ambiente. O brilho da lua refletida sobre seus
corpos era a iluminao ideal par a ocasio.
O rapaz despiu-se e Roberto fez o mesmo. Deitaram-se lado a
lado. Em seguida, ele virou o corpo e sussurrou em seus ouvidos:
 Roberto, prometo que serei o mais gentil dos homens.
Em seguida, deitou seu corpo sobre o de Roberto. Foi uma noite
inesquecvel. Para ambos.

Alguns anos depois

Captulo 20

Em meados de 1981, o jornal americano The New York Times
apresentou uma matria sobre uma doena misteriosa que estava
causando a morte de jovens homossexuais masculinos em cidades
como Nova York, So Francisco e Los Angeles.
Os pacientes foram detectados com um tipo raro de cncer  o
sarcoma de kaposi  uma doena presente em populaes de
idade avanada, que nunca havia aparecido em jovens. Aliado a

isso,

apareceram

casos

de

infeco

pulmonar.

O

que

impressionava os mdicos era que esses jovens apresentavam
determinados sintomas e morriam em seguida.
A estranha doena recebeu vrios nomes, antes de se tornar
mundialmente conhecida como AIDS. Os primeiros, ainda naquele
ano, foram imunodeficincia relatada em gays, doena da
imunodeficincia adquirida, 5-H, passando por nomes carregados
de preconceito e desprezo, como doena rosa e cncer gay.
Os mdicos descobriram que o fator de possvel transmisso
acontecia via contato sexual, uso de drogas ou exposio a sangue
e derivados. No ano seguinte a matria no jornal, o Centro de



Controle de Doenas Dos Estados Unidos finalmente adotou a
sigla AIDS para designar a sndrome da imunodeficincia
adquirida. O Brasil viria a adotar a mesma sigla para designar a
estranha e mortal doena.
A comunidade gay americana entrou em pnico. Logo a doena
tambm atingia os homossexuais em vrias capitais europias. Os
casos aumentavam dia aps dia, bem como o nmero de bitos.
Srgio estava no Rio de Janeiro. Aproveitou um feriado, daqueles
que vo de quinta a domingo para passar uns dias na companhia
de Cludio. Desde que tivera aquela calorosa discusso com
Vicente, alguns anos antes, no queria mais saber de namoro ou
qualquer outro tipo de envolvimento.
 Agora fazemos parte do mesmo time.
 Engana-se  protestou Cludio.  Eu no quero saber de
compromisso porque j lhe disse que tenho a certeza de que meu
amor no  deste mundo. Tanto que desde que me mudei para o
Rio no tenho me relacionado com ningum.
 Voc deve estar subindo pelas paredes.
 No. Estou em paz. Toda a energia sexual  energia de criao.
Em vez de jog-la para o sexo, eu a jogo para o meu trabalho. Por
essa razo estou cada vez melhor no trabalho. Ganhei mais uma
promoo.
 Acho estranho voc no querer ter algum.
 O que fazer?  algo mais forte que eu. Nunca conseguirei
explicar. Eu sinto. Vou lhe confidenciar algo.
 Conte-me, por favor.
 Quando vou me deitar, de uns tempos para c, eu tenho
sonhado com algum.
  um rapaz interessante?
 No.  uma mulher.
Srgio fez um esgar de incredulidade.
 Mulher?! Argh!
Cludio riu.
 S posso contar isso a voc. Estou sonhando com uma mulher,
linda por sinal. E fico to feliz de v-la, to contente em abra-la...
Creio que eu a ame.
 No pode ser!
 Por que no?
 Voc  gay!



 Srgio, eu acredito na reencarnao. Acredito que viemos a este
mundo vrias vezes. Nascemos e morremos, enquanto nosso
esprito embarca nessa viagem fantstica e vai madurecendo,
ficando mais forte, mais lcido, rumo  evoluo.
 At consigo entender seu ponto de vista. Mas se voc nasceu
gay,  porque sempre foi gay.



No.

Posso

ter

reencarnado

como

mulher,

lsbica,

heterossexual, gay...
 Impossvel. No acredito que tenha sido mulher, por exemplo.
 No nesta vida. Mas e em outras? Acha que dentro de toda
essa diversidade a gente vai nascer sempre do mesmo jeito, com o
mesmo sexo?
 Se temos tantas vidas assim, eu no gostaria de voltar como
homossexual.  muito triste, a gente sofre muito.
Cludio acendeu um cigarro e o entregou a Srgio. Acendeu outro
para si. Soltou suas baforadas e, fitando o infinito, tornou, com a
voz pausada.
 Na vida no desperdiamos nenhum tipo de experincia.
 No?
 Tudo, mas absolutamente tudo  modo de aprender a
desenvolver o esprito. E como tudo  maravilha na essncia das
coisas, ns vamos aprendendo a desfrutar aquilo que  prazeroso
daquilo que no o .
 Poderia me dar um exemplo?
 Sim. Veja o vinagre ou mesmo a cerveja. Quando somos
crianas, o gosto dessas substncias no  agradvel ao nosso
paladar. Contudo, com o tempo, passamos a apreciar o que
aparentemente no  prazeroso.
 Ser gay no me causa prazer.
 Tudo  o nosso olho. Se voc s enxerga erro e problema, 
isso que voc vai sempre ver. Para manipular a vida, voc no
pode ver que tem problema. A pior coisa que lhe acontecer vai
abrir-lhe a lucidez, para pensar numa melhor maneira de se livrar
porque seno fecha as portas para a soluo.
 O preconceito me corri.
 O preconceito vive na mente.  nela que voc encontra o medo,
a morte, a doena. A vida, reprimida, ataca essas formas at que a
iluso seja banida. O prprio mal  a prpria cura. No se esquea



de que a conscincia que viaja neste nosso corpo de carne  muito
infantil.
 Preciso debelar esta mente inquietante.
 Por certo.
 Mudando de assunto, voc leu sobre essa doena que anda
matando os gays l nos Estados Unidos?
 Sim. Fiquei muito triste. Sinto que logo tambm beberemos do
clice amargo dessa doena terrvel.
Srgio bateu trs vezes na madeira da mesinha  sua frente.
 Vire essa boca para l.  uma doena local, de gay americano.
 Acredita que ela no vai descer a linha do Equador! Acha que
ela s vai matar os homossexuais americanos e europeus?
 Acho. Se  uma doena que apareceu por l, por que motivos
deveria descer at o Brasil?
 No tenho dvidas de que ela chegar no s aqui, mas no
mundo todo. Uma epidemia.
 Nunca o vi to pessimista.
 No sou pessimista. No se esquea de que, infelizmente, a
cabea acredita no pior. Qualquer desgraa que voc produza,
fruto da iluso do seu pessimismo,  remdio aos olhos de Deus.
 Muita maldade  rebateu Srgio.
 No existe maldade no Universo, somente iluso verdadeira.
 Mas em relao a esses doentes, quanta desgraa...
 No  desgraa. Um doente desses est num belssimo
aprendizado de desapego. Precisa aprender a viver na eternidade,
aprender a conscientizar a verdade da vida porque dessa
desgraceira toda ele vai enxergar somente a verdade, nada mais
do que a verdade.
 Isso posto, voc quer dizer ento que qualquer experincia, seja
boa ou ruim,  iluminao,  beleza?
 Sim.
 Isso contradiz toda a lgica.
 Por mais que voc entre na iluso, ela ainda  uma beno. 
duro de voc entender que tudo  bom, caso voc acredite que
haja o mal.
 No  questo de acreditar no mal.  dele que vem o
sofrimento. E todos ns sofremos, num grau maior ou menor.
 Srgio, o que  que voc chama de sofrimento?
 Dor, tristeza...



 Voc transformou algumas coisas e criou algumas experincias
muito rudes, mas que no fundo, no deixam de ser grandes
experincias e grandes lies estimulantes. E a outra maneira de
criar so situaes que causem prazer e nem por isso deixam de
ser lies. Como lhe disse, tudo  o olho, a maneira de
enxergarmos a vida.
Srgio apagou seu cigarro, levantou-se e caminhou at a janela.
Fitou o mar. Sentiu uma estranha sensao, um aperto no peito.
Havia criado muitas experincias rudes na vida. No queria criar
mais nenhuma.

Captulo 21

Roberto ganhou um carro de Leila to logo passou no vestibular.
Ela lhe deu o presente como resultado de seu esforo e dedicao
durante meses a fio. Sei veculo, quando conduzido por ele, fazia o
mesmo trajeto: ir e voltar da faculdade. Raras eram as vezes que
fazia outro trajeto. s vezes tinha vontade de sair, mas se
debruava sobre os livros e esquecia-se das noitadas.
Como tinha um corao generoso, ele dividia o carro com a irm.
Eliana trabalhava numa loja de moda feminina durante o dia. Ia e
voltava para casa de conduo. Todavia, ela voltara a estudar e
Roberto fazia questo que ela usasse o carro para ir e voltar dos
cursos. No gostava que a irm pegasse conduo tarde da noite.
Roberto nunca mais saiu para danar. E, de vez em quando, em
sua mente misturavam-se cenas da sua noite inesquecvel ao lado
de Davi e daqueles olhos enigmticos do rapaz do outro lado do
balco. Roberto nunca se esqueceu daqueles olhos.
 Ser que um dia vou voltar a v-los?  perguntou para si
enquanto dirigia para a faculdade.
O convvio com Leila e Eliana continuava da mesma forma
agradvel. Nas frias escolares ele pegava uma sacola de roupas
e passava dias na casa de Leila. Assistiam a filmes antigos, ouviam
msicas, jogavam cartas. E ele se esbaldava com Rex.
Roberto estava rodeado de amigos que o queriam bem. Sentia-se
um felizardo. Nesses ltimos anos viu como fora e ainda era difcil
assumir a prpria condio homossexual. Muitos cresciam sem ter
o carinho e apoio dentro de casa. Ouvia histrias, as mais
cabeludas e tristes, algumas parecidas com as suas, outras muito



mais tristes e srdidas, que chegavam a transformar seu pai num
homem inofensivo.
Ao ingressar na faculdade, ouviu vrios relatos de colegas que
sofriam o preconceito dentro dos prprios lares. Eram surrados,
tinham suas mesadas cortadas, eram expulsos de casa. Outros
chegavam a ser queimados com pontas de cigarro por irmos mais
perversos. Outros eram humilhados e sofriam perseguies.
Era tudo muito chocante, visto que a maioria dos alunos vinha de
famlia rica, cujos pais tinham nvel escolar superior. Era difcil
constatar que o preconceito no tem classe social definida, mas
que se trata de uma praga, fruto da insensatez e da intolerncia do
ser humano.
Conforme se tornava mais lcido e inteligente, percebia que nunca
se deixaria levar pelo grilho do preconceito e da intolerncia.
Roberto no se fazia de rogado. Quando lhe perguntavam se ele
tinha namorada, respondia:
 No tenho namorada.
 Mas  to bonito.
 Se tivesse, seria um namorado.
 Voc  gay?
 Sou. E voc,  heterossexual?
Algumas pessoas nem mais lhe dirigiam a palavra, porm a maioria
achava graa na resposta e na maneira com que Roberto passava
por cima dos ditames impostos pela sociedade de maneira
tranqila e sem se sentir ofendido. Na faculdade, os colegas
sabiam de sua orientao e o respeitavam porque ele se dava o
devido respeito. Havia inclusive alguns que o procuravam
secretamente para lhe confidenciar que tambm sentiam atrao
por pessoas do mesmo sexo e Roberto conversava e tirava certas
dvidas, baseado nas prprias experincias. Quando percebia que
as conversas no estavam ajudando, indicava um profissional, um
terapeuta para que a pessoa pudesse viver feliz e em paz com sua
sexualidade.
No trajeto  escola, lembrou-se dos colegas que lidavam melhor
com a questo e sorriu.
 Quem me dera vivssemos todos em paz, respeitando a
diversidade em todos os sentidos.
Ele falou em alto tom e estacionou o veculo no meio-fio.
Cumprimentou alguns colegas e caminhou sorridente at sua sala



de aula. Sob os braos carregava seu trabalho. Eram pginas e
mais pginas, resultado de horas de pesquisas. O jovem dobrou o
corredor e entrou na classe.
Cumprimentou outros colegas e dirigiu-se  mesa do professor.
Vidigal era um senhor com pouco mais de cinqenta anos, cabelos
prateados e culos de armao escura que lhe conferiam um ar
sisudo. Mas era s na aparncia. Era um homem calmo, divertido
at. Os alunos adoravam suas aulas, sempre muito bem expostas.
Roberto o adorava e Vidigal gostava muito dele, pois notara a
dedicao com que o rapaz assistia s aulas  nunca havia
faltado  e o esforo para realizao de trabalhos. Quando se
tratava de uma exposio, um circuito de palestras ou alguma outra
atividade extracurricular, Roberto era o primeiro a participar.
 Bom dia.
 Como vai professor?
 Bem.  Vidigal levantou os culos.  Eu pedi um trabalho de
poucas pginas. Pelo que vejo, sua pesquisa poder virar um livro.
Roberto sorriu.
 Professor Vidigal, o assunto era to interessante e eu me
empolguei de tal forma que quando passei para a mquina de
escrever notei a quantidade de folhas. Confesso que o senhor vai
se interessar.
 No tenho dvidas. Todos os seus trabalhos sempre so
interessantes.
 Obrigado.
Roberto entregou a pasta com o calhamao de papis. Sentou-se
em sua cadeira. A aula fluiu tranqila e Vidigal fez belo
encerramento do ano escolar. Em seguida, despediu-se dos
alunos. Alguns bateram palmas e rapidamente a sala se esvaziou.
Roberto despedia-se de dois amigos no corredor quando Vidigal o
chamou.
 Poderia vir para c?
 Sim.
Roberto entrou na sala e Vidigal convidou-o para se sentar.
Ofereceu-lhe uma cadeira. Ficaram frente a frente.
 Dei uma olhada rpida no seu trabalho. Parece-me que est
impecvel, como de costume.



 Obrigado, professor. Fiz com gosto. Foram madrugadas sem
pregar o olho, porquanto tinha outras matrias e outros trabalhos
para realizar, mas o resultado me fez ficar bastante satisfeito.
 O que pretende fazer nas frias? Vai viajar?
 No senhor. Quero integrar mais uma vez a sua equipe de
estagirios e trabalhar no hospital. Eu preciso botar em prtica o
que tenho aprendido em sala de aula.
 Creio que voc no vai fazer parte de meu grupo.
 No?!
 No neste ano.
O semblante de Roberto entristeceu-se.
 Pensei que minha participao estava certa e...
Vidigal o cortou com amabilidade.
 Sabe, eu tenho um aluno que foi aceito para concluir o curso em
Paris. Eu vou sentir muito a falta dele.  o meu melhor aluno.
Os olhos de Roberto brilharam emocionados. Logo o sorriso
estampou-se em seu rosto.
 O resultado da comisso j saiu?
 Sim. Voc foi um dos escolhidos. Parabns.
Roberto levantou-se e Vidigal fez o mesmo. Ele abraou o
professor e uma lgrima escapou do canto de seu olho.
 Estou muito feliz!
 Eu sempre soube que uma das vagas era sua. Nunca tive
dvidas. Sabe que vai levar um pouco mais de tempo formar,
certo?
 Sim, professor. Sei que ser necessrio uma adaptao do
currculo e o conseqente alongamento do curso.
 Entretanto, ao retornar para c voc dever validar o diploma,
mas no precisar fazer residncia aqui. Afinal, voc vai trabalhar
ao lado de um dos maiores especialistas da nossa rea.
 Vou dar o melhor de mim, professor.
 No tenho dvidas.
 Como proceder?
Vidigal pegou um papel sobre a mesa.
 V at a secretaria e entregue esse papel para uma das
atendentes. Preencha os formulrios. Depois, ter de preencher
mais formulrios, tirar passaporte, o visto, mais outra apelada e
poder partir.
 Vou tratar disso agora mesmo.



Roberto abraou o professor mais uma vez. Estava emocionado.
Vidigal quebrou a emoo.
 No se esquea de que quando voltar vai trabalhar comigo.
Estou empenhado na estruturao do primeiro programa de
controle da AIDS no Brasil. Conto com sua preciosa colaborao
assim que retornar.
 Pode contar.
 No pense que vai se ver livre de mim to cedo.
 Ser uma honra trabalhar com o senhor.
O jovem deixou a sala de aula e correu com o papel embaixo dos
braos. No via a hora de contar a sua famlia que em breve iria
para a Frana.
Naquela noite Leila convidou Roberto, Helena e Eliana para

comemorarem

a

sua

admisso

na

universidade

francesa.

Comeram, beberam, brindaram e retornaram para casa tarde da
noite.
Os sonhos com Gina continuaram amide, e foi num desses
encontros, com o esprito amigo, que Roberto comeou a receber
informaes sobre a doena do ponto de vista espiritual. Nesta
noite de comemorao, aps se deitar, esboando leve sorriso nos
lbios, seu perisprito desprendeu-se do corpo e ele pde
encontrar-se com Gina.
 Estou adorando a faculdade!
 Era seu sonho. Fico feliz que esteja fazendo o que realmente
quer.
 No consigo me ver fazendo outra coisa.
 timo. Logo voc vai se formar e tratar pessoas que precisaro
muito de seu apoio, carinho e compreenso.
 O preconceito em cima da AIDS  enorme.
 E vai continuar por muito tempo. Por essa razo aconselho-o a
fazer diferente.
 Assim espero. Mas o pnico na populao est difcil de
contornar.
Gina pegou na mo de Roberto e o conduziu at uma praa
rodeada de lindas flores. Sentaram-se e ela disse:
 Existem idias bastante perturbadoras em relao a este
assunto. A fatalidade existe, mas a maneira como as pessoas
esto encarando a AIDS no  assim dramtica e exagerada.








Percebo




que




algumas




pessoas




esto




ficando




muito

acomodadas, deixando-se afogar pelas guas turvas do vitimismo.
Enquanto continuarem com esse conceito de acreditar que so
vtimas da situao, que tm de agentar, que pecaram muito ou
fizeram muito mal e tm de sofrer para aprender, no fundo estaro
dando fora para uma interpretao errada da lei do poder da
responsabilidade. Seria o carma dessas pessoas?
 Eu preferiria que voc evitasse a palavra carma, uma vez que
ela carrega consigo o conceito de crime, de castigo, de represso.
 O que na verdade no passa de uma viso primitiva do assunto.
 Sim. Vamos tentar uma viso mais moderna, mais ampla, mais
justa de acordo com a sabedoria de Deus. Vamos raciocinar: se
Deus nos deu a inteligncia para agirmos fazendo o melhor e
agimos errado, e Ele nos faz sofrer para entendermos que estamos
errados, ento Deus  profundamente ignorante, no concorda?
 Tem razo, Gina.
 Por que ento Ele no nos fez perfeitos e inteligentes? Por que
motivo a punio? Isso no  coerente com a idia de perfeio
divina, de perfeio da vida.
 Creio que seja difcil aceitar isso. Existem determinantes na vida,
pois a natureza se expressa dentro de certas determinaes
universais.
 Exatamente. Voc no pode nascer adulto. Nasce beb, depois
criana, adolescente, adulto, idoso e da vem o desencarne.
Ningum pode fugir disso, a no ser que morra antes, mas este  o
processo. Isto  fatal.
 Isso posto, tudo tem um programa natural. A evoluo tambm
tem as suas fases e ns vamos passar por cada uma delas.
 Sim, meu querido, porm cada um vai passar de um jeito. Voc
teve sua infncia e ela foi nica. Tudo na vida segue s
determinaes da natureza de maneira individual. Se voc quiser
chamar tais determinaes naturais, essas fases, esses processos
que todo mundo passa de carma, estar usando a palavra
adequada. Mas prefiro usar leis da natureza, determinantes da
vida, que faz parte evoluo, sendo que cada um passa por isso de
maneira individual. Cada um tem a capacidade de fazer o prprio
destino. Voc tem uma capacidade de escolha. A escolha que voc
faz determina o seu destino e a sua originalidade dentro deste
caminho.



Roberto sorriu.
 Entendi. O caminho  igual, a rua  a mesma, mas cada um
anda com uma roupa, do seu jeito, no seu ritmo. Um trabalha, outro
estuda, outro no faz nada. Quer dizer, cada um faz uma coisa.
  fatal que todos estejam nessa rua, mas cada um fica l de um
jeito. i
 Quer dizer que a gente escolhe o destino, Gina?
 Teoricamente sim. Mas voc no vai escolher tudo, vai escolher
algumas coisas. Voc escolhe o que a sua alma quer. No tem
erro. Todo caminho  caminho. O livre-arbtrio  arbtrio da
natureza em voc. Vem aquela vontade... vem de onde? Da alma,
do esprito que  esprito divino. Ou seja, Deus escolhendo em
voc.
 Quer dizer que Deus escolhe em mim?
 Por certo. Da vem s escolhas e delas criam-se experincias e
vivncias. Deus  um. Todo mundo escolhe de um jeito. Se Deus 
nico e Ele escolhe por voc, voc s pode escolher de maneira
nica.
  o mistrio da individualidade!  exclamou Roberto.
 Certo!  ela riu.  Na medida em que escolhe pelas suas
crenas, vai criando, acreditando, grava no subconsciente, da
voc vai transformando, tornando real. Tudo o que voc faz na sua
cabea por dentro se mostra e, por conseguinte se transforma ao
seu redor. Se acreditar em desgraas, elas aparecem. Acredita no
bem, ele aparece. Entende?
 Agora ficou tudo mais claro.
 Muitos chamam de carma o conjunto de seitas e idias que a
prpria pessoa se impe ao longo das existncias e que est
sempre gerando situaes semelhantes de acordo com suas
crenas. Exemplo bsico: Voc sempre acreditou na pobreza,
ento vai reencarnar pobre. Se mudar suas crenas pelas prprias
experincias, voc no vai mais reencarnar pobre. Nesse sentido,
o destino est muito mais em suas mos. E no existe fatalismo
seno a liberdade de criar o destino que voc quer.
Roberto meteu o dedo no queixo pensativo.
 Ento, esse lance de agentar no existe, porque a natureza se
renova constantemente, assim que voc deseja a renovao. E,
quando voc desejar a renovao,  a prpria natureza desejando
renovao em voc.  isso?



 Hum, hum. Tudo acontece na hora certa. E, no se esquea da
frase mgica.
Roberto estufou o peito e disse em alto e bom som.
 Eu sou amado e protegido por Deus!
No dia seguinte ele despertou com Helena ao seu ouvido.
 Est atrasado, meu querido.
Ele espreguiou-se de maneira demorada.
 A noite foi to agradvel. Eu sairia todas as noites para
comemorar.
 Hoje  o dia de entrega dos formulrios na faculdade.
 Vou terminar meu curso em outro pas. Estou quase formado.
Como o tempo passou rpido, no?
 Muito depressa. Ter um ms de frias.
 Nada de frias.
 Precisa se preparar para a viagem. Passaporte, visto,
formulrios, autorizaes, malas, roupas...
 Calma me! No  o fim do mundo.  com prazer que farei tudo
isso. Mas terei tempo de trabalhar um pouquinho com o professor
Vidigal l no hospital.
 Vai conseguir ter tempo?
 Tempo eu arrumo. Quero comear a colocar em prtica o que
aprendi. Sinto-me seguro para tratar dos doentes de AIDS.
 Acho perigoso. Essa doena surgiu do nada e est matando
tanta gente ao redor do mundo! No tem medo de se contaminar?
Ele sorriu.
 No. O vrus HIV no se transmite assim facilmente.
 Os meios de comunicao no explicam nada direito.
 Cientistas esto pesquisando drogas para o combate ou a cura.
As pessoas esto se deixando levar pelo pnico. Recentemente
tivemos uma palestra na faculdade sobre HIV e AIDS. O risco alto
de transmisso do vrus  por via sexual, transfuso de sangue
contaminado ou uso coletivo de agulhas e seringas para drogas
injetveis.
 Pensei que ao tocar uma pessoa doente poderia me infectar.
 Nem de longe, me. Utilizar o mesmo copo, compartilhar o
mesmo banheiro, abraar e beijar, por exemplo, no oferecem risco
de contaminao.
 Voc tem estudado muito sobre o assunto, no?








Bastante.




Parece que




nasci para tratar de




pacientes

soropositivos.
 Esse seu trabalho para o professor Vidigal foi sobre isso?
 Sim. Outro trabalho que fiz sobre o vrus foi enviado para a
Frana. Fui elogiado. E, como h um convnio entre nossa
universidade e a de Paris, tinha certeza de que uma vaga ia ser
minha.
 Como vo as aulas de francs?
 Trs bien  brincou ele.
 Cuidado para no se frustrar.
 De maneira alguma. Tenho sonhado com Paris.
 Est com tanta vontade de viajar que seu subconsciente o leva
para l.
 No sei, no... Tenho a ntida sensao de que j estive l.
Sabe me, sempre sonhei em estagiar no Instituto Pasteur e, com
sorte e dedicao, estagiar com a equipe do Dr. Luc Montagnier. A
equipe dele isolou e caracterizou um retrovrus, ou seja, um vrus
mutante que se transforma conforme o meio em que vive, como
causador da AIDS. Eles descobriram finalmente o vrus HIV, o vrus
da AIDS.
 Temos passado momentos to bons. Vai ser difcil ficar sem sua
companhia por um ano.
 Um ano no mnimo. Se tudo der certo quero fazer residncia l
no exterior.
 Habituei-me com sua presena.
 Voc mal pra em casa. Est sempre viajando com suas
amigas. Excursionou pelo pas todo.
 Agora s falta o exterior.
Roberto a beijou na testa.
 Eu a adoro, me.
 Eu tambm o adoro, filho.
Ele abraou e beijou Helena vrias vezes no rosto. Em seguida,
comeou a lhe fazer ccegas e logo os dois estavam brincando no
cho do quarto.
A relao de ambos melhorou bastante. Desde que viera para a
capital e comprara o sobrado na quadra de trs de Eliana, Helena
transformou-se numa outra mulher. Passou a fazer caminhada
diria no parque prximo de sua casa e voltou em pouco tempo a
ter o corpo esguio dos tempos de mocidade. Ela passou a tratar da



pele e tingiu os cabelos de castanho claro, realando a cor dos
olhos e os lbios.
No demorou muito para ela se adaptar  vida agitada da capital
paulistana. Helena mal parava em casa. Tomava conduo,
pegava metr e cada dia dirigia-se a um canto da metrpole. E,
todo fim de ms, religiosamente, fazia uma excurso com um grupo
de amigas da mesma idade e que moravam na vizinhana.
O convvio com Roberto no poderia ser melhor. Helena leu livros e
conversou muito com Eliana sobre a sexualidade do filho. Aos
poucos, a homossexualidade foi deixando ser um bicho-papo em
sua cabea. Lembrou-se do quanto havia sido omissa na educao
do filho e de quantas vezes o seu silncio funcionara como
indiferena, em que Otvio aproveitava sua passividade e descia o
coro no menino.
Helena precisou ver algum agir como seu marido para que ela se
despisse de vez de algum resqucio de preconceito. Aconteceu
com o filho de uma amiga sua. Haviam combinado de dividir um
txi at a Praa da Repblica. Geralmente eram de l que saam
os nibus de excurso. Chegando  casa da amiga, no pde
deixar de escutar o marido, que fora de si e aos berros, insultava o
filho no escritrio ao lado da sala de estar.
 Voc morreu para mim. Nunca mais ponha os ps nesta casa.
 Por favor, pai...
 Voc escolheu. Fique com os veados! Morra como os veados!
Helena viu o rapaz sair aos prantos e em disparada para a rua.
Sentiu um aperto no peito sem igual. A empregada avisou que o
txi tinha acabado de chegar.
 Voc no vai fazer nada em relao a isso?  perguntou
aturdida para sua amiga.
 De que adianta? Quem manda aqui  meu marido. Eu no
posso contrari-lo.
Helena sentiu um gosto amargo na boca. Tinha vontade de invadir
o escritrio e encher aquele homem de sopapos.
 Vamos perder o nibus.
 Voc est tranqila demais. Viu como seu filho saiu de casa?
  sempre assim. Depois de uns dias ele volta e fingimos que
est tudo normal.
Helena meneou a cabea para os lados. Mal podia acreditar no que
ouviu. Ela mordiscou os lbios e em seguida lembrou-se de Otvio,



e de como ela tambm fora uma me relapsa por tantos anos. Se
Roberto no tivesse tido o carinho e apoio de Eliana e Ricardo,
talvez estivesse passando pelo que o filho de sua amiga, que
deveria ter a mesma idade de Roberto.
 Como pude deixar me envolver pelo preconceito e homofobia?
Como podemos julgar a pessoa pela sua orientao sexual, ou at
mesmo pela raa ou condio social? Em que mundo vivemos?
Deus ajude-me a ser cada vez mais lcida e, portanto menos
preconceituosa.
Alm de entender seu filho, Helena o admirava e, acima de tudo,
amava-o incondicionalmente.
Roberto se transformou num homem muito bonito. Logo que
ingressou na universidade foi convidado para participar da equipe
de natao de sua turma. Em poucos anos seu trax e braos
cresceram e ele tornou-se mais forte, mais encorpado, mais viril.
Totalmente  vontade com sua orientao sexual, tornou-se um
homem seguro com gestos mais masculinos. Sua voz engrossou e
ele era paquerado tanto por homens, quanto por mulheres.
O jovem at que tentou conciliar namoro e faculdade, mas em vo.
O seu relacionamento com Davi durara pouco mais de seis meses.
s vezes, eles se telefonavam e matavam as saudades. Depois de
algum tempo Davi desapareceu. No mais ligou e seu nmero de
telefone pertencia a outro assinante. Mesmo assim Roberto
continuou tendo um carinho especial por Davi. Jamais se
esqueceria de sua primeira noite de amor, e, logicamente, das
noites seguintes, to boas quanto  primeira.
Envolvido nos estudos, a meta de Roberto tornou-se uma s:
formar-se mdico. Quando no estava em aula ou praticando a
natao, ele absorvia todas as matrias publicadas sobre AIDS.
Sabia que iria se tornar infectologista, com especializao em
AIDS.


Captulo 22

Ao saber que seu irmo iria para a Frana, Eliana sentiu uma
emoo sem igual. E, naturalmente, lembrou-se de Nicolas. Afinal
de contas, por onde ele andaria?



Nicolas voltou para a Frana no dia seguinte que conhecera Eliana.
Embora ambos estivessem atrados um pelo outro, ele tinha
compromissos inadiveis em sua terra natal. Na outra mo, ela
precisava resolver sua situao matrimonial.
Depois de assinar os papis da separao, Eliana ficou com a
casa. Entretanto, Alaor driblou a justia e falsificou comprovantes
de renda e assim pagava uma pequena penso que mal dava para
custear as mensalidades do colgio de Rafaela.
Eliana deixou de sonhar com seu prncipe encantado e foi  luta.
Arrumou primeiro emprego num consultrio dentrio. O salrio era
pequeno, mas dava para as despesas da casa. At que uma das
clientes simpatizou com ela e a convidou para trabalhar como
vendedora em sua loja de roupas femininas, num shopping
badalado da cidade.
Era oportunidade que Eliana tanto sonhara. Com dedicao e
esforo ela se atirou no trabalho. Dalva cuidava de Rafaela e
Eliana compensava a falta de contato dirio com fins de semana
regados a muitos passeios, conversas e intimidade. Eliana no
realizava nenhum programa no fim de semana que no fosse estar
ao lado de Rafaela. Dessa forma, a menina cresceu num ambiente
saudvel e amoroso. Rafaela agora era uma mocinha e, influencia
pelo comportamento da me, mostrou-se menina dedicada e sem
preconceitos. Afinal, fora criada para apreciar as diferenas e nutria
grande carinho por Roberto. Era seu tio querido, que conhecera e
convivera desde a mais tenra infncia. Para ela no importava a
orientao sexual do tio. O amor que os unia estava acima de
qualquer coisa. Moa educadssima e prendada, fazia os deveres
de casa e ajudava Dalva a manter a casa em ordem.
Eliana destacou-se no emprego e em menos de dois anos tornou-
se gerente da loja. Ganhava um salrio fixo e comisso sobre as
vendas. Seus rendimentos cresceram e ela pde concretizar seu
sonho de voltar a estudar. Impulsionada e motivada pela nova
profisso, deixou para trs o Direito e passou a fazer cursos nas
reas de marketing, vendas e administrao.
Ela tinha uma vida modesta, sem luxos. Pagava suas contas, o
salrio de Dalva, mas no sobrava dinheiro para uma poupana.
Alaor dava trabalho para pagar a penso e ela tinha de arcar com
as mensalidades do colgio de Rafaela.



Envolvida num novo estilo de vida atravs dos anos, o sonho de
reencontrar Nicolas foi-se esvaindo. E havia mais outro ponto que a
fazia querer, ou melhor, tentar esquecer o francs.
Anne e Ricardo casaram-se numa cerimnia discreta, para amigos
e familiares. Embora Helena sonhasse em ver o filho entrando todo
garboso numa igreja, ficou feliz em v-lo ao lado de seu grande
amor. E, se Ricardo fora fisgado pelo bichinho do amor e resolvera
viver ao lado de Anne, de que adiantava seguir o protocolo social?
Mais valia o sorriso do filho e seus olhos constantemente
iluminados de amor e ternura pela companheira.
Logo depois dos papis assinados na frente do juiz, Anne teve de
vir a So Paulo para tratar de alguns assuntos profissionais. Ela
trabalhava numa multinacional e no eram raras s vezes em que
estendia sua estada na cidade para matar as saudades da sogra,
da cunhada e do cunhadinho.
Anne adorava Roberto.
Numa dessas vindas  capital, Anne, muito discreta, percebeu a
falta de brilho nos olhos da cunhada. Chamou Eliana de lado para
uma conversa. Precisava explicar-lhe sobre o sumio do irmo.
 Aquele jantar no significou tanta coisa, Anne. Confesso que
cheguei a sonhar com uma possvel aproximao entre mim e
Nicolas. Mas depois o tempo foi passando, tive de enfrentar e levar
minha separao adiante. Alaor no se mostrou um ex-marido
amigo e solidrio. Fugiu das suas responsabilidades de pai. Tive de
trabalhar, reformular toda minha vida.
 Todavia voc esperou por um novo contato.
 A princpio sim. No vou negar que seu irmo mexeu com meus
sentimentos. Mas Nicolas nunca me enviou o carto postal e a
essa altura j deve saber que eu estou divorciada.
 Meu irmo nunca teve relacionamentos longos. Seu primeiro
casamento foi um verdadeiro fracasso. Depois disso, Nicolas nunca
mais acreditou na possibilidade de um relacionamento estvel. Ao
conhec-la eu senti que ele se apaixonou de verdade. Foi amor 
primeira vista.
 Amor a dar de vista, voc quer dizer.
 Conheo muito bem meu irmo e tenho de lhe contar algo muito
desagradvel.
 O que foi?
Anne baixou o tom de voz e confidenciou-lhe:



 Meu irmo estava saindo com uma garota l na Frana.
 A aspirante a modelo. Sei...
 Nada de especial. Mas ele no tomou os cuidados necessrios
e a engravidou.
Eliana mordiscou os lbios.
 E se casou.
 Eles se casaram porque a famlia da moa  de sociedade.
Mesmo que no fossem, Nicolas  homem ntegro e assumiu a
responsabilidade de enfrentar novo casamento sem amor de uma
hora para outra e de encarar a paternidade. Giselle estava mais
interessada no dinheiro dele. Ter um filho foi uma maneira de
garantir rendimentos pelo resto da vida.
 Se ela era de sociedade, no vejo porque tenha aplicado o
golpe da barriga.
 Giselle sempre foi muito insegura. Sua carreira modelo no
decolou. Tem dois irmos que controlam todos os negcios da
famlia. E sabe como so esses negcios famlia. Eles sempre
querem que a mulher fique longe tudo. Giselle comeou a receber
uma quantia mensal e quis mais. Foi exigir dos irmos que
aumentassem seus rendimentos, visto que ela era herdeira dos
negcios. Criaram muita confuso, impedindo que ela pudesse
receber mais do que eles consideravam justo. Desesperada e
vislumbrando um futuro nada atrativo, ela investiu em Nicolas.
 Ela no ama seu irmo?
 No.
 Certeza? No h sentimentos que os una?
 De forma alguma. Nicolas sempre lhe disse a verdade. Que se
casou porque ela engravidara. Que ele no sentiu nada por ela.
 E Giselle?
 Rebateu na mesma moeda. Disse para Deus e todo mundo que
Nicolas significava para ela um futuro garantido e colorido.
 Se eles no se amam, por que se uniram?
 Nicolas adora crianas. Sempre quis ser pai. E sacrificou muitas
de suas vontades em prol do filho. No quer ser um pai ausente.
 Por isso nada de postal e nada de Brasil.
 No creio que ele retorne to logo ao pas.
 Minhas esperanas foram por gua abaixo.



 No pense assim. Voc  livre. Logo Nicolas vai absorver
melhor a idia de ser pai, vai perceber o quanto  sacrificioso e
intil manter um casamento sem amor e vai lhe procurar.
 No acredito.
 Confie.
Essa conversa ocorrera h alguns anos e a cada dia que passava
mais distante ficava o sonho de reencontrar Nicolas. At que
Roberto veio com a notcia de mudar-se para a Frana. Eliana
sentiu um friozinho na boca do estmago. Quando o assunto era a
Frana, impossvel no se lembrar de Nicolas.
Seus pensamentos foram esparramados com a chegada de
Rafaela.
 Mame! Eu arrumei nosso jardim. Venha ver que lindo!
Eliana sorriu. Rafaela tornara-se uma linda mocinha. Os cabelos
caam pelas costas e eram levemente encaracolados. Ela tinha os
olhos vivos e bastante expressivos. Lembrava muito Eliana quando
pequena.
 Vamos, filha. Quero ver esse jardim.

***

Levou muito tempo para Leila absorver o impacto daquela
informao bombstica. Ela passou anos  procura de uma filha e
Nelson lhe trazia uma novidade surpreendente.
Ela havia dado  luz um menino.
 Tem certeza de que irm Agnes no estava variando das
idias?
 Sim.
 Ela estava doente, o corpo debilitado...
 Eu fui checar os dados. Descobri, depois da confisso dela, que
voc teve de fato um menino.
 E agora? Como iremos atrs dele?
 Teremos de recomear do zero.
 Nunca vou encontr-lo.
 Tantos anos debruados em cima do seu caso e acabei
tornando-me amigo do delegado Medeiros. Ele parece ser um bom
homem e est me ajudando. O pai dele foi poltico influente na
regio e se lembra do seu ex-noivo.



 De que vai adiantar? Herculano morreu, seus pais devem estar
mortos.
Nelson coou o queixo e encarou-a nos olhos.
 No vai ser difcil Medeiros pressionar algum parente em busca
de informaes mais precisas. Logo descobriremos o paradeiro de
seu filho.
No foi to fcil assim. Nelson contava com a ajuda do delegado
Medeiros para chegar  famlia que adotara o filho de Leila. Como
o destino tem suas prprias leis, Medeiros morreu algum tempo
depois e toda a busca teve de ser interrompida.
Leila, no incio, passou a angustiar-se, mas depois de um tempo
comeou a ter sonhos. Um desses foi muito real, ntido e ela jamais
se esqueceria da conversa, como tambm daquele esprito em
forma de mulher cuja luz era de uma luminosidade sem igual.
Certa noite, angustiada e deprimida por saber que Medeiros havia
morrido e que, portanto reencontrar seu filho tornava-se algo mais
para o impossvel, Leila deitou-se e custou para pegar no sono.
Ela no se lembra como tudo aconteceu, porm acordou com forte
sensao de que aquele sonho quisera lhe dizer alguma coisa ou
at lhe mostrar o porqu de ter sido separada do filho.
Assim que pegou no sono, Leila sonhou com uma pessoa
desencarnada que conhecia de outras vidas.
 Gina!
 Como vai, Leila?
 Quanto tempo...  nesse momento ela teve um lampejo de
lucidez.  Estava angustiada. No acredito que eu v reencontrar
meu amado filho Victor.
 Voc est a um passo de reencontr-lo, minha querida. Confie
na vida.
 Como confiar? Ele foi arrancado de meus braos to logo veio
ao mundo. Isso no  justo.
Gina sorriu.
 No acha justo? E o que voc fez com Eliana?
 No fiz nada com Eliana. Eu a adoro. Somos amigas.
 Nesta vida so amigas. E quanto  vida passada?
Leila susteve a respirao. Num instante a cena se formou na sua
mente. Ela bem quis esquecer-se do passado, mas ele fazia parte
dela, parte das memrias que seu prprio esprito carregava desde
os mais remotos tempos.



Gina apertou levemente sua mo, encorajando a amiga a
relembrar-se de seu passado. Leila fechou os olhos e deixou-se
conduzir pelas lembranas.
H muitos e muitos anos Leila era uma linda moa, filha de
camponeses pobres, numa aldeia encravada no meio da Europa.
Inconformada com a falta de luxo e riqueza na vida tratou logo de
usar a beleza como fonte de seduo. Quem sabe no conseguiria
um bom partido e teria a vida de rainha que sempre sonhara?
Determinada em seus intentos, Leila conheceu Eliezer, um jovem
muito rico e que no via problema em relacionar-se com algum de
classe social inferior. Apaixonou-se perdidamente por Leila e ela
finalmente teve concretizado seu sonho de riqueza. Eliezer a
transformou numa verdadeira dama, fazendo todos os seus gostos.
Leila engravidou e deu  luz um lindo menino. Seu nome era Victor.
Logo nos primeiros meses de vida perceberam que o beb no
tinha boa sade, resultado do abuso do corpo  muita droga e
muito sexo  em outras vidas. O menino passou pelas mos dos
mais renomados mdicos da poca e o diagnstico era sempre o
mesmo: Victor cresceria muito debilitado, necessitaria sempre de
cuidados e no viveria por muito tempo.
Por que ele tinha de nascer com defeito? Por que justamente seu
filho? Inconformada, Leila passou a nutrir verdadeiro sentimento de
raiva pelo filho. Eliezer tentava contemporizar e quis ter outros
filhos. Insistia numa outra gravidez, porquanto, naqueles tempos,
as famlias abastadas multiplicavam suas fortunas casando os
filhos entre si. Victor jamais se casaria e, se eles no tivessem
outro filho, corriam o risco de chegar  velhice sem nenhum vintm.
Leila no queria contrariar o marido. Engravidava e, em seguida,
provocava o aborto. Ela tinha verdadeiro pavor de ter outro filho
imperfeito. Acreditava que tivesse algum problema gentico e que
qualquer criana que sasse do seu ventre seria fraca e doente.
Um dia Eliezer foi categrico. Ou ela engravidava ou ele pediria o
divrcio. Isso no poderia acontecer de maneira alguma. Ela
experimentara o sabor do luxo e da riqueza e no estava disposta
a ficar sem nada.
Leila no teve dvidas. Conhecia uma freira que fazia partos de
meninas solteiras e depois, por uma boa quantia em dinheiro,
entregava essas crianas para adoo. A conversa com irm



Agnes foi curta e grossa. Ela precisava de uma criana para no
mximo seis meses.
Eliezer ficou muito feliz com a notcia da gravidez de Leila. Claro
que ela mentiu ao marido, mas precisava fazer tudo de maneira
que ele acreditasse que ela seria me de novo. Imbuda em
concretizar seu plano, Leila pretextou nuseas e dores decorrentes
da falsa gravidez. Viajou para a casa de uma prima e nem quis
saber do filho. Victor ficou largado em seu quarto, literalmente
abandonado, aos cuidados dos empregados da casa.
Eliana era uma mocinha de tez clara, bem bonitinha e que se
parecia bastante com Leila quando nova. Assim que a viu no
convento, Leila no teve dvidas. Queria que o filho de Eliana
fosse seu. Mas havia um problema: Eliana no queria entregar o
filho para adoo. Como os pais a expulsaram de casa, ela
acreditou que o convento pudesse ser um local seguro para ela
enfrentar a gravidez sozinha, ter seu filho e, depois do nascimento,
mudar-se de cidade e recomear sua vida. Eliana sempre fora
mocinha determinada e independente. Forada a ter relaes com
um primo casado, engravidou. E mesmo ficando grvida a
contragosto, sem amor, ela nunca pensou em aborto. Teria seu
filho e o criaria com amor e carinho.
As freiras tentaram convencer Eliana, mas em vo. Ela no abria
mo de ter e viver ao lado do filho. Leila foi to arrogante e
infernizou tanto a vida das freiras que seu desejo foi realizado. To
logo nascera a criana fora levada para os braos de Leila. Eliana
nunca chegou a ver o filho. Protestou, xingou, quase enlouqueceu.
Nada a fez rever seu bebezinho. Ela sofreu muito e depois de
muitos anos casou-se com excelente rapaz. Ela e Nicolas tiveram
dois filhos e com os anos Eliana foi-se esquecendo do primeiro
filho. Leila ficou radiante. A criana era linda. Ela lhe deu o de
Robert. Voltou da casa da prima com a criana no colo e Eliezer
no cabia em si de tanta felicidade. Agora ele tinha um filho de boa
sade que cresceria sadio e no futuro multiplicaria sua fortuna.
Com a chegada de Robert na casa, Victor ficou no esquecimento.
Leila mal visitava o filho no quarto e sua vida se resumia em
Robert. Ela amou aquela criana como tivesse dado  luz seu
prprio filho.
Alguns anos depois, Victor faleceu em decorrncia da sade
debilitada. Na vida anterior a esta Victor havia desencarnado em



virtude dos excessos a que submetera seu corpo fsico, fosse por
bebidas, fosse por uso abusivo do sexo.
Leila intimamente agradeceu a Deus. Tirara um grande peso das
costas. E dali em diante passou a dedicar-se a Robert. Somente a
ele.
Robert cresceu um menino lindo. Tornou-se homem de rara beleza,
mas com um pequeno detalhe: ele era homossexual. Descobriu
isso de maneira nada inusitada. Robert passou a sentir-se atrado
pelo filho da governanta. Dnis era um menino muito atraente,
porm gostava de mulheres.
Robert infernizava o menino e sempre que podia abusava de
Dnis. Com medo de ser constantemente molestado, Dnis foi-se
embora. Sentiu vontade de matar Robert, mas no fundo sabia que
Robert tinha seu jeito ser. Mais tarde, Dnis conheceu uma moa,
casaram e tiveram muitos filhos.
Robert tornou-se homem feito e, de certa forma, lidava bem com
sua sexualidade e apaixonara-se por Gerard primo de sua me.
Embora tivesse problemas de aceitao com sua sexualidade,
Gerard apaixonou-se perdidamente por Robert.
Eles decidiram viver juntos, causando um rebulio na cidade, pois,
em fins do sculo dezoito, a homossexualidade  ou pederastia,
ou sodomia, como se dizia  poca  era algo inaceitvel em
qualquer parte do mundo.
Robert tinha uma fraqueza por dinheiro. Eliezer obrigou o filho a
acabar com aquele relacionamento acintoso e casar-se com uma
mulher, pois a fortuna da famlia corria srio risco de esvair-se.
Robert relutou. Amava Gerard, mas amava ainda mais o dinheiro, o
luxo e condoeu-se com a tristeza estampada nos olhos dos pais.
Principalmente da me. Robert era alucinado por Leila e jamais
faria algo que a magoasse, mesmo que tivesse de renunciar seu
amor.
Numa conversa tensa, Robert rompeu com Gerard. Casou-se com
uma moa de famlia tradicional, Helene. Ele a maltratava e
descontava sobre ela a ira de ter se separado de Gerard. Teve um
filho, Octavio. O garoto era alucinado por Robert, porm no
recebia carinho do pai. Levava constantes surras em decorrncia
do desequilbrio emocional do pai, desde que tivera de deixar seu
grande amor e viver uma vida de aparncias.



Robert nunca mais foi o mesmo. S conversava com os
empregados da casa, Gilbert e Regine, que lhe eram fiis e o
entendiam. Robert no deixou nada para a esposa ou o filho. Em
seu testamento deixou tudo para o casal de empregados. Morreu
rico, mas com o corao em frangalhos, vazio de sentimentos.
Arrependera-se amargamente de ter rompido com Gerard e no ter
vivido ao lado de seu grande amor. Aps o desencarne, Robert
arrependeu-se do que fizera e prometeu que numa prxima chance
de reencarnao iria lutar contra o preconceito e iria reconquistar o
amor de Gerard.
Gerard no teve estrutura emocional para superar a separao.
Era um homem bonito, cuja atrao por rapazes ningum
desconfiava. Era homem viril, bem masculino, mas no sentia
atrao por mulheres. Quando se apaixonou perdidamente por
Robert, Gerard rompeu seu silncio e enfrentou o preconceito e o
escrnio da sociedade. Ao lado de Robert, sentia-se forte para
enfrentar as convenes sociais. Depois do rompimento, passou a
ser motivo de chacota. As pessoas apontavam para ele e riam,
debochavam, faziam piadinhas, e, sem o amante ao seu lado,
fechou-se numa concha.
Seu irmo Claude e sua cunhada Gina tentaram de tudo para que
ele se animasse, sasse da depresso e retomasse sua vida.
Claude e Gina tinham carinho enorme por Gerard. Decidiram lev-
lo para uma viagem. Ele precisava sair um pouco de cena, esperar
a poeira baixar e em pouco tempo outro escndalo surgiria e as
pessoas iriam esquec-lo. Foram para a casa de campo nos Alpes.
Gina tentava consolar o cunhado e Claude fazia de tudo para que
ele voltasse a ser o homem alegre de outrora. Desprovidos de
preconceito, aceitavam Gerard do jeito que era e chegaram a
apresentar-lhe alguns rapazes que pudessem lhe despertar o
interesse. Mas tudo em vo. Gerard no conseguia esquecer seu
grande amor. Pensava em Robert o tempo todo. Chorava dia aps
dia.
Doente e abatido, Gerard comeou a alucinar e s vezes tinha
flashes de uma vida anterior. Nela, via-se ao lado de Victor e,
embora vivessem juntos como um casal tinham uma forte queda
pelos prazeres sexuais. Colocaram o sentimento de lado e
deixaram seus corpos serem consumidos pelo excesso de lcool e
de sexo, com inmeros parceiros. Haviam desencarnado num



pssimo estado e passaram muitos anos no umbral, viciados no
sexo desordenado.
Gerard, acreditando que nesta existncia poderia mudar seus
conceitos e comear a dar vazo ao amor puro e verdadeiro,
escreveu cartas de amor para Robert. As cartas retornavam e,
inconformado em ser passado para trs por descobrir que Robert
se casara, resolveu acabar de uma vez por todas com aquela
tristeza que consumia seu esprito.
Numa noite muito fria de inverno rigoroso, Gerard fingiu estar
melhor e esperou que o irmo e a cunhada o deixassem s e
fossem para a cama. No meio da madrugada, ele despiu-se e
atirou o corpo nu sobre um tapete de neve que se formara em
frente ao jardim da casa. Na manha seguinte, Claude e Gina
encontraram-no congelado e morto. Leila abriu os olhos e piscou
vrias vezes.
 Gina!  exclamou.  Isso no foi sonho.
 No foi.
 Aconteceu de fato!
 Sim.
Leila encostou a cabea no ombro de Gina e chorou copiosamente.
As lgrimas corriam insopitveis.
 Como pude ser to m?
 Voc no foi m.
 Arrancar um filho dos braos de uma me?
 Voc fez o melhor que pde.
 Isso no  consolo  disse entre soluos.  Fui um monstro.
 Estamos sempre caminhando rumo  evoluo. Voc e Victor
tinham srios problemas de relacionamento. A sade debilitada
dele serviria para uni-los e jamais afast-los naquela vida.
 Perdemos uma encarnao  toa.
 Pelo contrrio. Na vida nada se perde.
 Foi um desperdcio.
 Tudo  aproveitado, toda experincia  vlida.
 Eu tirei o filho de Eliana.  justo que tenham agora tirado o meu
filho.
 Voc acreditou assim. Sua alma quis passar pelo mesmo que
ela. Embora Eliana a tenha perdoado quando desencarnadas, voc
nunca se perdoou. A culpa a consumia pelo fato de ter separado
uma me do prprio filho. Embora voc amasse Robert como se o



tivesse parido, jamais se perdoou pelo sofrimento que causou a
Eliana.
 Ela  uma boa amiga.
 Vocs duas se conhecem de muito tempo. Foi-lhe permitido ter
acesso  ltima existncia, porque ela tem a ver com o que est
vivenciando no momento.
 Ela nunca demonstrou por mim nenhum rancor. Muito pelo
contrrio.
 Eliana  esprito bom, de muita lucidez. Robert retornou ao
mundo como seu irmo querido e seus filhos esto de novo ao seu
lado. Ela tem a conscincia tranqila e nutre verdadeiro sentimento
de amizade por voc.
 Eu desprezei Victor por toda uma existncia.  justo que Deus o
tenha tirado de mim.
 Deus no fez isso  salientou Gina.  Voc quis assim. Foi
escolha sua, para que por meio da experincia dolorosa voc
perdoasse a si mesma.
 Quero muito encontrar meu filho e recuperar o tempo perdido.
 Vocs tero a oportunidade de se reencontrarem.
 Quando?
 Tudo acontece na hora certa. Aguarde e confie.
Leila acordou naquela manh com o corao menos apertado. Sua
intuio dizia que ela iria em breve encontrar o filho. Assim que
despertou, disse para si mesma:
 Vou aguardar e confiar. Em seguida, pegou a correntinha que
Roberto havia lhe dado e disse em alto tom: Eu sou amada e
protegida por Deus.
Ela levantou-se, espreguiou-se e escutou o latido de Rex. Ele
estava na beira da cama, saltitante.
 Ol, meu querido  ela fez sinal com as mos.  Bom dia.
Nelson apareceu na soleira da porta.
 Bom dia, preguiosa.
 Dormi to bem. Estou com uma sensao to gostosa.
 Sonhou comigo?
 Por que sonhar com voc se o tenho vinte e quatro horas por
dia?
Nelson aproximou-se e a beijou nos lbios.
 Estou muito feliz de poder passar alguns dias na sua casa.
Nunca me senti to  vontade ao lado de mulher alguma.



Leila esboou um lindo sorriso mostrando aqueles dentes brancos
e perfeitos.
 Gostaria de passar mais dias?
 Como assim?
 Ah, de ficar aqui comigo no s alguns dias, mas todos os dias...
 O que quer dizer?
 Bobinho, eu gostaria que voc se mudasse para c em
definitivo. Rex tambm adoraria, no  Rex?  indagou ela
encarando o cachorrinho ao lado da cama.
Nelson sentiu enorme sensao de bem-estar. Era como se seu
corao se distendesse num largo sorriso. Ele amava Leila, amara-
a desde o primeiro dia em que a vira. Depois veio a amizade, o
namoro, mas a situao estava muito solta para o gosto dele.
Como ela era mulher independente e decidida, Nelson tinha medo
de que uma proposta mais sria pudesse afast-la de seu convvio.
 Voc est falando srio?
 Estou. Eu o amo. Quero viver ao seu lado.
 Eu tambm a amo. Muito.
Nelson aproximou-se e beijou-a demoradamente nos lbios. Deitou
seu corpo sobre o dela, porm Rex os impediu de continuarem as
carcias. Leila riu:
 Nosso filhinho quer fazer seu passeio matinal.
 Creio que depois do passeio continuaremos de onde paramos.
 Combinado.
Nelson beijou-a nos lbios, pegou a coleirinha sobre a cmoda.
Instantes depois ele caminhava feliz com o cachorro pela
redondeza. Leila levantou-se e tomou uma ducha reconfortante.
Sentia-se mais forte e mais confiante. Se fosse para encontrar seu
filho, timo. Contudo, se a vida no permitisse tal encontro, ela
entenderia. Quer dizer, sua alma sabia da verdade. Sentia-se forte
porque tinha Nelson ao seu lado. Ou Eliezer, em outra vida. Leila
estava em paz.

Captulo 23

Fazia algum tempo que Vicente tinha sido afastado do trabalho.
Estava de licena-mdica. Uma noite, durante escala em Nova
York, teve febre e dores pelo corpo. Era algo parecido a forte gripe.
Durante alguns dias, sentiu calafrios pelo corpo todo, febres



altssimas. Engoliu comprimidos para a gripe e continuou levando
sua vida de sempre.
Mesmo debilitado, ele saiu e foi a um bar. Vicente vira a formao
que a comunidade gay havia passado nos ltimos anos. A noite
no tinha mais seu brilho. Muitas saunas haviam sido fechadas,
inclusive a St. Marks Place. At mesmo a msica danante e as
discotecas tinham ficado para trs. As divas da discoteca davam
lugar para novos movimentos musicais e bandas como Devo, The
Smiths ou U2.
No pouco tempo que a doena se espalhou, o sexo desenfreado
deu lugar ao pnico, ao medo, ao terror,  influncia de doentes
aos hospitais e s mortes, que deixaram desamparados amigos e
amantes das vtimas da praa gay. Fazer sexo com vrios
parceiros numa mesma noite tinha se tornado algo completamente
fora de moda, inadequado. E mortal.
Vicente entrou num bar e pediu uma cerveja. Naquele tempo os
bares de Nova York tinham balco e banquetas logo na entrada e,
mais ao fundo, geralmente uma porta de ferro preta ou uma cortina
que levava o freqentador a uma sala escura, parcamente
iluminada, onde ele podia trocar carcias ou fazer sexo com um
desconhecido. Durante os anos em que a nica doena que os
gays temiam era a gonorria, esse tipo de sala  conhecida como
dark room  estava sempre cheia, e cada pedacinho de espao
era disputado  tapa.
O rapaz olhou ao redor do balco e os rostos no eram confiveis.
As pessoas tinham receio de se relacionar, de trocar um beijo, de
avanar o sinal. O medo era expresso presente no rosto de todos
os homossexuais.
Vicente resolveu ir ao dark room. Talvez l pudesse encontrar
algum menos encanado com a tal doena. Tudo bem, a AIDS
existia, estava matando um monte de gente. Mas ele estava vivo e
acreditava que a doena at poderia ter sido um vrus de
laboratrio criado durante o governo do presidente Ronald Reagan
para acabar com a raa gay.
A bem da verdade, Vicente no estava nem a para a AIDS ou para
quem estivesse doente. Afastara-se dos amigos contaminados. Ele
tinha horror a qualquer doena e ver algum ser destrudo pelo
vrus maldito lhe causava profunda repugnncia.



 Eles no tomaram os devidos cuidados. De que adianta eu estar
ao lado deles? Vo morrer de qualquer jeito...
Se o mundo heterossexual sentia-se combalido a acreditar que os
gays eram os propagadores da doena maldita, estigmatizando e
fuzilando cada homossexual com olhos reprovadores, dentro da
prpria comunidade gay tambm havia muito preconceito.
Embora associaes fossem criadas para defender os direitos dos
homossexuais doentes, embora grupos de pessoas dedicadas e
empenhadas na busca de melhores condies de tratamento aos
pacientes pipocassem em vrias partes do globo, muitos

homossexuais

agiam

tal

como

determinada

parcela

de

heterossexuais intolerantes. Vicente era um deles. Certa vez, um
rapaz aidtico  termo usado em larga escala para designar quem
estivesse contaminado, naqueles tempos difceis  entrou no
avio e Vicente mais outros colegas fizeram o maior alarde e o
pobre rapaz no pde embarcar. Foi rejeitado no avio, assim
como as agncias funerrias se recusavam a preparar os corpos
dos mortos pela AIDS.
Vicente dirigiu-se ao dark room e a porta estava trancada. Um
rapaz lhe disse em ingls.
 Pode esquecer. Est fechado por tempo indeterminado. Esto
acabando com nossa fonte de prazer.
 Onde posso ir? Eu preciso de sexo. No quero ir para casa sem
nada.
O rapaz sorriu e aproximou-se. At que ele era bonitinho.
Troncudo, fortinho, barbinha ruiva. Estava usando uma camisa
xadrez e parecia um lenhador americano. Vicente devolveu o
sorriso e eles se abraaram ali mesmo. Durante as trocas de
carcias, Vicente foi mordiscar o pescoo do rapaz e notou os
gnglios inchados. Ele teve um nojo sem igual e empurrou o rapaz
com violncia.
 Sua bicha doente!
 Um beijo no mata  revidou o rapaz.
 Espero que morra!
Vicente falou, cuspiu no cho e estugou o passo. Ganhou a rua e
aspirou e soltou o ar vrias vezes.
 Est todo mundo morrendo. Eu s volto ao Brasil daqui a quatro
dias. No vou poder esperar tanto tempo para me deitar com
Srgio. Preciso transar.



Ele rodou nos calcanhares e caminhou em direo ao Central Park.
Havia uma rea do parque escolhida pelos homens para fazer sexo
durante a madrugada. Vicente no pensou duas vezes.  para l
que eu vou.
Na volta ao Brasil, alm das febres, Vicente comeou a transpirar
noite aps noite. No era um suor qualquer. Era um suor de molhar
o pijama, o travesseiro e os lenis da cama, a ponto de terem de
ser trocados no dia seguinte.
 Isso no pode ficar assim, Vicente. Por que no consulta um
mdico?
  s uma gripe.
 Uma gripe que no passa. H quanto tempo est assim? Um
ms?
 Mais ou menos.  a mudana brusca de temperatura. Acontece
sempre nesta poca do ano. L est muito frio e aqui no Brasil
muito calor. Choque trmico.
Srgio havia se separado de Vicente. Por um bom tempo ficou sem
v-lo e no quis saber de relacionamento srio. Recentemente,
ambos encontraram-se numa boate e ficaram juntos. Voltaram a
namorar. Cludio j no ligava mais para esse namoro. Srgio era
dono do prprio nariz e das prprias emoes. Ele jogava a toalha.
Rezava para que seu amigo no sofresse no futuro.
Numa noite, Srgio acendeu o abajur da mesinha de cabeceira,
ajeitou seu travesseiro e virou-se de frente para Vicente. O rapaz
suava as bicas. Srgio ajudou-o a tirar o pijama todo empapado de
suor.
 Melhor ficar sem roupa.
 Tem razo.
Vicente fez fora e sentou-se na cama. Srgio puxou parte de cima
do pijama e ficou aterrado. Fechou a boca para no soltar um grito.
As costas de Vicente estavam toda tomada por feridas vermelhas.
Tratava-se de leses cor arroxeada, elevadas e com uma forma
irregular. Srgio imediatamente lembrou-se do dia em que visitou
dois amigos no hospital, cujos corpos estavam tomados por leses
bem parecidas. Era o temvel sarcoma de Kaposi, um tipo cncer
que se desenvolve em muitos dos doentes de AIDS.
Srgio abriu e fechou os olhos. Seu parceiro estava contaminado.
E agora, o que fazer? Mostrar as leses a Vicente? Lev-lo ao



mdico  marra? No havia dvida alguma. Vicente estava com
AIDS.
 Est mudo, Srgio. O que foi?
 Nada.
 Faz uma eternidade que est tentando tirar a camisa do pijama
e no fala. O que foi? Viu assombrao?
 No foi nada. Escute, voc no tem dores nas costas? No est
sentindo nada?
 Uma coceira de vez em quando. Mas no tenho olho para ver as
costas. E no fico olhando meu corpo no espelho. Agora virou
moda, quer dizer, virou uma obsesso. Todo mundo fica horas na
frente do espelho procurando por um pontinho vermelho, por um
gnglio inchado. Isso  neurose.
 Amanh vamos ao mdico.
 Eu no vou ao mdico. Estou muito bem. Cansado to somente
por causa desta gripe intermitente.
 Everaldo est internado no hospital. Orlando, Fbio e Maurcio
morreram.
 E o que eu tenho a ver com isso?
 Voc namorou o Everaldo e fez sexo com Maurcio.
 E da?
 Como e da? No tem medo de estar infectado?
Vicente deu uma gargalhada.
 Eu?! Infectado? Est louco?
 No, mas...
 Nada de, mas. Para que vou procurar plo em ovo? Os mdicos
tm necessidade de dizer que temos algo. Precisam justificar o
valor da consulta.
 Eu posso acompanh-lo.
 No. Se ao menos tivssemos um teste para detectar essa
praga nojenta, tudo bem. Mas ningum sabe se est ou no
infectado. Esse  o terror.
 Mas essa tosse, esse cansao, as febres noturnas...
Vicente mordiscou os lbios. No queria pensar em nada. Ele
podia ou no estar com o vrus. Ainda no existia teste anti-Hiv, ou
seja, o teste imunoenzimtico que permite a deteco de
anticorpos especficos no soro. O teste s seria disponibilizado
algum tempo depois. Nessa parte da histria, a pessoa descobria
ser portadora do vrus quando o sistema imunolgico dava sinais



claros de baixssima defesa do organismo, por meio de doenas
oportunistas.
Srgio pensou e pensou. Levar o companheiro at o banheiro e
mostrar-lhe as costas cheias de erupes no seria de bom tom.
Ele ajudou Vicente a se cobrir e ficou pensando numa maneira de
arrast-lo at um mdico.
No precisou de muito tempo porque tudo aconteceu de maneira
muito desagradvel, muito triste. Vicente continuava debilitado,
sade fraca, tosse constante e febre intermitente. Devido ao estado
"gripal", que se estendia ao longo de semanas, a companhia area
o afastou do servio. Vicente acreditou que alguns dias de
descanso ajudariam no seu pronto restabelecimento.
Ele insistiu com Srgio para irem  inaugurao de uma nova casa
noturna na cidade. Os convites eram disputadssimos e mesmo

assim

conseguiram

dois

ingressos.

Vicente

vestiu-se

com

dificuldade. Ao terminar de se arrumar, as grossas gotas de suor
escorriam-lhe pela fronte. Ele estava arfante, mas no queria
perder aquela inaugurao. De maneira alguma.
 Comprei esse terno Armani para a ocasio.
 Voc est fraco.
 Mas estou vivo. No perco essa inaugurao por nada deste
mundo.
Uma brisa leve soprava na noite. Srgio estacionou e foi com
dificuldade que Vicente saiu do carro. J dentro da casa noturna,
ele pediu para que Srgio arrumasse um lugar para se sentar. Mal
conseguia se manter em p.
Vicente estava doente, as erupes cobriam boa parte de seu
corpo, mas seu rosto mantinha bom aspecto e as roupas cobriam
perfeitamente as feridas. Ele cumprimentou e foi cumprimentado.
Srgio foi ao balco e pegou uma bebida e refrigerante. Ao traz-
las, Vicente exasperou-se:
 No quero refrigerante. Quero usque.
 No creio que voc esteja em condies de tomar bebida
alcolica.
 Quem  voc para decidir o que devo ou no beber?
 No  isso...
 Virou minha bab? Eu mesmo pego minha bebida.
Em seguida, Vicente levantou-se e foi caminhando lentamente at
o bar. Sorriu para alguns conhecidos. Passou por um rapaz,



outrora muito bonito, que claramente estava sendo consumido pela
AIDS. Vicente fez um esgar de incredulidade. Disse algo como
"argh!" e foi com tristeza que o rapaz afundou-se na banqueta do
bar.
 Como vai, Vicente?
 Bem, Lucas. O contrrio de voc.
 Estou doente.
 D para perceber.
Vicente foi se afastando. Olhar para Lucas o deixava transtornado.
De repente, veio o inesperado. Vicente sentiu uma tremenda dor de
barriga. Fechou os olhos, respirou fundo e deixou o bar. Tentou
caminhar at o banheiro. No conseguiu. To logo ele comeou a
andar a clica intestinal intensificou-se e ele no teve como
segurar. A disenteria veio forte e Vicente borrou-se todo, na frente
de todo mundo. O mau cheiro imediatamente inundou o ambiente e
pessoas, aterradas e com cara de nojo, afastaram-se, fazendo um
crculo ao redor do rapaz. Lucas comeou a passar mal e saiu em
disparada. Ao passar por Vicente, soltou:
 Voc tem AIDS.
O olhar de splica que Vicente dirigiu a Srgio foi de cortar o
corao. Srgio imediatamente correu at seu encontro, passou o
brao pela cintura do companheiro.
As lgrimas escorriam abundantes. Vicente disse em voz melflua:
 Leve-me embora daqui, pelo amor de Deus.
Srgio o conduziu at a sada, a passos lentos. As pessoas faziam
comentrios maledicentes e apontavam para o casal. Alguns riam
daquela situao, outros demonstravam verdadeiro asco. Logo eles
saram, o cheiro dissipou-se no ar e a festa de inaugurao
continuou, sem maiores problemas.
Ao chegar prximo do carro, Vicente tirou a cala e a cueca.
Limpou-se. Srgio tirou o palet e jogou sobre o banco do
passageiro.
 Vamos para um hospital.
 No, por favor  suplicou Vicente.  No posso chegar ao
hospital todo sujo e malcheiroso. Leve-me para casa, ajude-me a
tomar um banho. Depois vamos para o hospital.
 Promete?
 Sim.



Srgio o acomodou no banco, deu a volta e entrou no carro. Deu
partida e em pouco mais de vinte minutos estavam em frente ao
Copan. Srgio estacionou o automvel, olhou ao redor, no havia
ningum. Delicadamente, pegou no brao de Vicente e o conduziu
at o elevador do bloco D. Chegaram ao andar e Vicente lhe
entregou a chave. Srgio abriu a porta e foram direto para o
banheiro.
Foi um banho demorado. Sem um pio. Um silncio absoluto. Srgio
banhou demoradamente o companheiro. Depois, pegou roupas
limpas e Vicente se vestiu.
 Foi humilhante. Eu me borrei na frente de todo mundo.
 No pense assim. Aconteceu.
 Viu a expresso no rosto das pessoas? Viu o Lucas?
 O que tem ele?
 Ele saa comigo, era meu companheiro de boate. A expresso
de horror na cara dele foi como uma punhalada nas costas.
 Eu notei que ele tentou conversar com voc, mas...
 Tenho medo, Srgio. Eu vou morrer.
 Que morrer, que nada.
 Leve-me ao hospital. Estou me sentindo muito fraco.
Meia hora depois, Vicente deu entrada no hospital. Precisou levar
ainda a madrugada inteira para que fosse atendido. Havia muitos
outros doentes na frente, em situao semelhante a sua. Parecia
que o mundo estava padecendo do mesmo mal, tamanha a
quantidade de pacientes que no paravam de chegar.

O

dia

estava

clareando

quando

Vicente

foi

atendido.

Imediatamente, levaram-no para a enfermaria.
 Quero ir junto  solicitou Srgio.
A enfermeira, muito simptica, rebateu, de maneira amvel.
 Sinto muito, mas o hospital est em sua capacidade mxima.
Temos at pacientes espalhados pelos corredores. Quase no
estamos dando conta.
 Srgio, no me deixe sozinho.
 Eu no posso ficar. So ordens do hospital.
 No quero morrer s.
 Voc no vai morrer.
A enfermeira interveio.
 No podemos permitir acompanhantes nesta ala. Seu amigo
precisa ir.



Mesmo sob os protestos de Vicente, Srgio teve de ir. Sentiu uma
dor no corao sem igual. Despediu-se do companheiro e saiu. Ao
passar pelos corredores, viu o terror estampado no rosto dos
pacientes. Srgio tinha certeza de que estavam com AIDS. E que a
maioria ali iria morrer.

Captulo 24

A viagem correu agradvel e Roberto chegou  Frana em puro
estado de xtase. Nunca havia viajado para fora do estado, jamais
havia sado do pas. O vo correu tranqilo e quando a aeronave
aterrissou no aeroporto Charles de Gaulle, ele foi recebido por um
professor da universidade. Gilbert carregava uma cartolina branca
com o nome de Roberto escrito. Cumprimentaram-se em Francs.
 Como foi de viagem?
 Nunca viajei antes de avio. No tenho referncias. Para mim foi
um vo tranqilo. Roberto demonstrou plena capacidade de
comunicar-se em outro idioma.
 Voc vai adorar a cidade.
 No tenho dvidas.
 Seja bem-vindo.
 Obrigado.
Os dois caminharam at o carro. Roberto colocou a bagagem no
porta-malas e a conversa fluiu agradvel. Quando o veculo
aproximou-se do centro velho de Paris e seus olhos depararam
com a torre Eiffel, reconhecida em todo o mundo como um smbolo
da Frana, Roberto no conseguiu evitar que algumas lgrimas
escorressem pelo canto de seus olhos. Emocionou-se. Gilbert o viu
de esguelha. Comentou:
 No conheo quem no se sente emocionado com esse
monumento.
  muito lindo. Eu cresci vendo essa imagem pela televiso, ou
mesmo em livros e revistas.  bem diferente quando se v ao vivo
e em cores.
 Sabia que ns, franceses, apelidamos a torre de Dama de
Ferro?
 Pensei que esse fosse o apelido da primeira-ministra britnica
Margaret Thatcher.
Gilbert sorriu.



 Voc  um rapaz culto e sensvel. Minha esposa vai adorar
conhec-lo.
 Eu gostaria de ir para o hotel e me banhar. Estou h mais de um
dia com esta roupa.
 Eu o deixaria no hotel, mas vamos para casa. Regine preparou
um almoo de boas-vindas.
 Estou suado e com cheiro de ontem  riu.
 Regine est nos esperando. Est ansiosa em conhec-lo. Aps
o almoo voc vai para o hotel e descansa. Eu lhe prometo.
Roberto estava contente. Conseguira a vaga para estudar e
concluir seus estudos. Estava a um passo de tornar-mdico. O

sonho

de

uma

vida

profissional

promissora

estava

se

concretizando. Ele era bem resolvido, tinha uma famlia que o
amava e o apoiava. O professor Vidigal tecia-lhe sempre elogios. E
iria estagiar num renomado instituto.
O que mais queria da vida? Roberto olhava os monumentos ao
redor, o vaivm das pessoas. Ficou deveras encantado. De
repente, sentiu uma vontade grande de compartilhar esse museu
de grandes novidades com algum. Seria to bom ter um
namorado, um companheiro, um amigo especial que pudesse estar
ao seu lado naquele momento.
Foi ento que Roberto se deu conta de que sua vida afetiva estava
colocada bem de lado, ou bem abaixo, na lista de prioridades. De
certo modo ele sacrificara as horas de lazer e as possibilidades de
relacionamento em prol dos estudos. Conseguira realizar o grande
sonho de chegar a Paris e estudar com uma das melhores equipes
mdicas do mundo, porm o vazio no peito era sinal de que estava
na hora de conhecer algum ou ao menos se deixar envolver por
uma pessoa que valesse a pena.
Roberto lembrou-se da rpida experincia ao lado de Davi. Para
ele a experincia tinha sido muito boa, embora no tivesse
referncias, nem anteriores, tampouco posteriores. Davi mostrara-
se um amante perfeito. Fora cavalheiro, carinhoso e, alm do fato
de Roberto priorizar os estudos, Davi sonhava com a possibilidade
de ser pai. Os dois podiam funcionar muito bem na cama, mas os
objetivos de vida de cada um eram bem diferentes.
Os encontros com Davi foram se espaando e h alguns anos
Roberto via-se sem um flerte, um namoro ou mesmo uma transa.



No diria que ele estivesse subindo pelas paredes, visto que toda
sua energia vital era canalizada nos estudos e pesquisas.
O rapaz estava em equilbrio, mas ao notar os lugares famosos que
Gilbert lhe apontava, sentiu que poderia compartilhar essa surpresa
com algum, digamos, especial.
 Est muito distante.
 Estou impressionado com tanta beleza, com tanta coisa bonita.
 E por que ento esse ar melanclico?
 Sinto que esta cidade foi feita para os enamorados. Bateu aqui
no peito uma vontade de ter algum...
 Um rapaz bonito como voc no deixou namorada no Brasil?
 Eu no tenho namorada. Sempre coloquei os estudos em
primeiro lugar.
 Eu conheo alguns lugares aqui e creio que no vai ser difcil
encontrar uma namorada.
Roberto sorriu.
 Muito obrigado, Sr. Gilbert, mas vai perder seu tempo me
levando em bares cheios de garotas. Eu sou gay.
 Bien Sr! Iremos para bares onde voc possa encontrar rapazes
 rebateu num tom natural.
 Mal cheguei a Paris e o senhor quer que eu arrume algum?
Gilbert deu uma risada bem alta.
 Gostei de voc, garoto.  autntico, seguro de si. Em vez de
esconder sua orientao sexual voc foi bem claro, mais direto
impossvel. Eu tenho alguns amigos gays, posso apresent-los.
 Depois que eu retomar os estudos e iniciar meu estgio no
instituto, pensarei nisso.
Gilbert dobrou algumas quadras e pararam defronte de um
elegante edifcio de quatro andares, cercado por um jardim muito
florido e bem cuidado, prximo ao Boulevard Saint-Michel.
 Chegamos.
 O senhor mora aqui?
 Moro.
  muito bonito.
 Obrigado. Os pais de Regine lhe deixaram de herana. No
poderamos morar num endereo melhor. Pode-se ir a p daqui at
a universidade.
Roberto saltou do carro e olhou ao redor. A rua era arborizada,
tranqila. Alguns passarinhos brincavam saltitantes nas rvores.



Ele deu a volta e pegou a bagagem porta-malas. Atravessaram o
porto de ferro, contornar o jardim e pararam diante do hall de
entrada. Gilbert cumprimentou o porteiro. E virou-se para Roberto:
 No temos elevador aqui. Importa-se de subir dois lances de
escada?
 De maneira alguma.
O porteiro pegou a mala de Roberto.
 Eu carrego para o senhor.
 No tem necessidade.
 Ele vai almoar e depois vai para o hotel. Podemos deixar a
mala aqui embaixo, Jean?  Sem problemas, Sr. Gilbert. Eu
tomarei conta.
Roberto agradeceu com um sorriso e recebeu outro de volta. Jean
era um homem muito bonito. Pele bem clara, alto, forte, cabelos
castanhos penteados para trs, olhos verdes e um cavanhaque,
cuja colorao ia do castanho ao ruivo. Alm de uma boca bonita e
sorridente.
Enquanto subiam as escadas, Gilbert deu uma piscadela de olho.
 Jean gostou de voc.
 Como assim?
 Eu o conheo h anos e ele sempre foi muito discreto.
 Jean  muito bonito.
 Vocs formam um belo casal.
 Mal cheguei a Paris e quer me jogar nos braos do primeiro
homem que simpatiza comigo?
Os dois riram.
 Tem razo, garoto, voc mal chegou de viagem. Pensaremos
nessa questo depois.

Em instantes,

estavam dentro

do

apartamento.

Espaoso,

decorado com muito bom gosto. Roberto sentiu-se muito bem.
Regine apareceu da cozinha. Era uma mulher de quase meia-
idade, loira, olhos azuis e algumas sardas no rosto que lhe
conferiam um ar juvenil. Ela cumprimentou Roberto e, ao saber que
ele se virava muito bem na lngua francesa, surpreendeu-se.
 Voc fala muito bem nosso idioma.
 Obrigado, senhora.
 Senhora? Eu tenho cara de senhora? Por favor, chame-me pelo
nome.
 Est certo, Regine.



 Voc  muito bonito, bastante simptico.
Antes que ela dissesse algo sobre garotas ou namoradas das,
Gilbert interveio:
 Jean simpatizou com ele.
 Srio?! Eu jamais imaginaria que voc fosse gay.  to
masculino.
 Eu j fui mais afetado, principalmente na adolescncia, quando
era inseguro no tocante a minha preferncia sexual. Agora adulto,
seguro e bem resolvido, sinto-me at mais viril.
 Isso acontece. Quanto mais voc se aceita como , mais natural
fica.
Conversaram bastante e Regine os convidou para almoar. O resto
da tarde foi bem agradvel. Falaram de msica, de filmes, sobre os
hbitos de vida dos franceses e dos brasileiros. Regine ficou
encantada com a sensibilidade e o jeito meigo de Roberto.
 No tivemos filhos por opo, mas se tivssemos, gostaria de
ter um filho como voc.
Roberto emocionou-se.
 Vocs so adorveis. Sinto que minha estada em Paris vai ser
tima.
Ele despediu-se de Regine e desceu com Gilbert. Jean estava
separando algumas correspondncias. Ao ver Roberto, deixou-as
sobre a mesinha e pegou a mala.
 Onde eu a levo?
 Pode deixar que eu mesmo a levo. Continue fazendo seu
trabalho.
 Ser um prazer carregar a sua bagagem at o carro.
Roberto sorriu e Jean colocou a mala no porta-malas. Apertaram
as mos e Jean devolveu um sorriso malicioso para Roberto.
 Se quiser sair  noite e conhecer alguns bares, eu poderei
acompanh-lo.
 Pensarei no assunto.
Antes de entrar no carro, Jean debruou-se na porta do veculo.
 Sabe onde me encontrar.
Despediram-se e Gilbert soltou uma risadinha.
 Eu bem lhe disse que Jean estava interessado.
 Primeiro a faculdade e o instituto. Depois vou procur-lo. Escute
Gilbert, ele  um bom rapaz?



 Excelente pessoa. Dedicado e esforado. Estuda de manh na
Escola de Negcios e  tarde trabalha no prdio.
 Onde mora?
 Aqui no prdio. No subsolo h um poro. Transformamos em
moradia.  um espao pequeno, mas bem arejado e suficiente para
Jean dormir e fazer pequenas refeies. Tem um banheiro s para
ele. Em troca dos servios no prdio ele no paga aluguel que aqui
na redondeza custa uma fortuna.
 Achei-o simptico.
  um bom e belo rapaz. E no namora.
 Ah...
Gilbert parou o carro no meio-fio. Estavam diante do hotel. Roberto
saltou do carro, pegou sua mala e despediram-se. Como Gilbert
seria um de seus professores, em breve iriam se ver. Todos os
dias.
Algumas semanas depois e Roberto estava totalmente  vontade
nessa fase parisiense. Acordava cedo, ia para a universidade. 
tarde, corria para o instituto e  noite, debruava-se nos livros.
Precisou comprar muitos livros para estudo e o dinheiro da bolsa
no estava dando para cobrir as suas despesas. Ele at pensou
numa outra atividade, a fim de ganhar uns trocados, mas o tempo
era escasso, a no ser que ele deixasse de dormir.
O convvio com Gilbert e Regine foi se tornando cada vez intenso.
Era obrigatrio os trs se reunirem todos os domingos. Tomavam
um caf da manh bastante reforado e passavam o dia entre
conversas, leituras, msicas e filmes antigos.
Regine tinha uma bela voz e Roberto adorava quando ela cantava
as msicas de Edith Piaf, uma das maiores cantoras de todos os
tempos. Roberto se encantava com a docilidade de sua voz e
sempre pedia para que ela cantasse a sua msica preferida: Non,
je ne regrette rien (No, eu no lamento nada).
As tardes eram animadas e depois de Roberto falar sobre as
dificuldades, Gilbert perguntou:
 Voc havia me dito dias desses que o irmo de sua cunhada
mora aqui.
 No. Ele mora aqui na Frana. Mas em Lyon.
 Vai gostar de Lyon  disse Regine.  Fica alguma horas daqui,
mais ao Sul.
 Foi l que os irmos Lumire inventaram o cinema no foi?



Regine abriu e fechou a boca.
 Esse menino sabe de tudo!  uma enciclopdia viva.
Os trs riram.
 Eu gosto de ler. Sempre gostei muito de cinema. No podia
deixar de saber sobre esse detalhe.
 Muitos acham que o cinema nasceu em Hollywood.
 Eu bem que gostaria de conhecer Lyon.
 Podemos aproveitar algum feriado, o que acha?  indagou
Gilbert.
 No momento no tenciono viajar. No quero me desconcentrar.
Primeiro os estudos e o trabalho. Se sobrar um tempinho, eu viajo.
J no chega os passeios que fazemos aqui mesmo em Paris?
 Mas a Frana  mais que Paris.
 Por outro lado, Regine, por que eu iria atrapalhar a vida de
Nicolas? Ele  homem ocupado, trabalha muito.
 Bom, voc no conhece ningum por aqui que pudesse ajud-
lo?
 No. S tinha a referncia de Nicolas. Embora Anne fosse muito
legal comigo, afirmando que eu poderia contar com seu irmo no
que precisasse, eu no quero atrapalhar.
 Aceitaria ficar aqui conosco?
 Como assim?
 Nosso apartamento  grande, espaoso. Temos um quarto onde
guardamos tralhas. Estou cansada de tanta baguna. Podemos
ajeit-lo e voc viria morar conosco.
 Morar com vocs? Vou atrapalhar, vocs tm uma rotina e...
Gilbert interveio.
 Regine e eu gostamos muito de voc e gostaramos de ajud-lo
de alguma forma. Ficando aqui em casa voc vai poder usar o
dinheiro do hotel com livros e sentir-se mais  vontade.
 Eu adoraria!
 Vamos at o hotel. Pegaremos seus pertences e voc vem para
casa hoje.
 Mas precisam arrumar o quarto e...
 Nem mais nem menos  salientou Regine.  Vai dormir aqui
na sala por enquanto. Em trs dias eu deixo o quarto pronto.
Quanto menos voc gastar no hotel, melhor. Roberto os abraou
feliz e emocionado. Gilbert e Regine eram como pais para ele.
Tratavam-no com carinho sincero e genuno. Ele adorava estar na



companhia




dos




dois.




Havia




feito




algumas




amizades




na

universidade e at no trabalho, pois Roberto era muito simptico e
atencioso com as pessoas. Contudo, preferia a companhia deste
casal de meia-idade. Eles eram muito simpticos e amveis.
Acertada a conta no hotel e com a mala no banco de trs do
veculo, mais uma caixa repleta de livros, Gilbert deu as chaves do
carro para Roberto conduzir.
 Conhece a cidade melhor do que eu. Pode dirigir.
O rapaz sorriu, pegou o molho de chaves e deu partida.
Antes de chegarem  residncia de Gilbert eles deram umas voltas
pela cidade. Divertiram-se e riram bastante.
Passava das seis da tarde quando Roberto parou o carro no meio-
fio. Gilbert pegou a caixa de livros. Roberto pegou a mala e
encostou a porta do carro. Subiram e Regine o abraou pousando
carinhoso beijo em sua testa.
 Seja bem-vindo, meu filho.
 Muito obrigado.  Ele falou e ps a mo  cabea:  Ih,
esqueci de trancar o carro. Volto num minuto.
Ele desceu rapidamente as escadas. Atravessou o hall, o jardim,
passou pelo porto e trancou as portas do veculo. Ao virar-se para
entrar no prdio, sentiu uma mo puxar- lhe delicadamente o
brao.
 Como vai?
 Jean!  exclamou surpreso.  Eu no o vejo h tanto tempo.
Bem, e voc?
 Melhor agora.
Roberto enrubesceu. Jean deu mais uma tragada no cigarro e o
atirou  distncia.
 O que faz aqui? No est na hora de ir para casa?
 Acabei de me mudar. Vou morar aqui  disse animado.
Os olhos de Jean brilharam de maneira diferente.
 Vai mesmo morar aqui?
 Vou. Preciso economizar e Gilbert e Regine me ofereceram um
quarto.
 Eles so boas pessoas. Ajudaram-me bastante.
 Sei disso. Gilbert preocupa-se como um pai e Regine tm um
corao de me.
 Est cansado?



 Ainda  cedo. Teria de ler um captulo para a aula de amanh,
mas estou a par do assunto e sossegado.
 Quer conhecer minha humilde casa?
 Quero. Mas no est trabalhando?
 Domingo eu largo o servio mais cedo. Venha comigo.
Roberto acompanhou o rapaz at seu pequeno aposento. Estava
com o corao na boca. Fazia tanto tempo que ele no trocava
carcias com outro rapaz que parecia ser sua primeira vez. Jean o
levou at o poro e depois que entrou ele acendeu um abajur na
cabeceira e apagou a luz.
 Agora estamos ss.
Jean o abraou e foram para a cama. Minutos antes, Gilbert os vira
pela janela da sala. Quando percebeu que os dois se dirigiam ao
poro, esboou um sorriso.
 Roberto est demorando.
 Vai demorar mais, Regine.
 Aconteceu alguma coisa?
 Espero que acontea. E toro para que Roberto no durma em
casa esta noite.

Captulo 25

Vicente recebeu outra alta do hospital. Era um entra e sai de
enfermaria que ele nem mesmo sabia se estava em casa ou num
leito de hospital. Nos ltimos tempos sua vida era essa. Muitos
morriam em pouco tempo, mas Vicente dava sinais de que o fim se
aproximava e de repente melhorava e dava novos sinais de que
duraria mais tempo.
O mdico lhe receitou uma quantidade enorme de medicamentos.
Embora naquela poca no existisse remdio para combater o
vrus da aids, havia alguma possibilidade de, com a associao de
alguns remdios, tentar restabelecer o fortalecimento de seu
sistema imunolgico.
Srgio pacientemente ouvia as explanaes do mdico.

 A sndrome da imunodeficincia adquirida ou AIDS 

uma

manifestao

clnica

avanada

da infeco pelo

vrus da

imunodeficincia humana (HIV-1 e HIV-2). Geralmente, a infeco
pelo HIV leva a uma desregulao imunitria.
 Da surgiram as infeces oportunistas no corpo de Vicente?



 Isso mesmo. A AIDS, como doena totalmente manifesta,
caracteriza-se por contagens muito baixas de linfcitos T-CD4.
 Esses linfcitos funcionam como o exrcito do nosso corpo,
combatendo os vrus e bactrias?
 Exatamente. Uma infeco comum, que numa pessoa sem AIDS
seria tratada e curada facilmente, pode se tornar fatal para uma
pessoa contaminada com o HIV.
 O advento da terapia anti-retroviral e das profilaxias pode mudar
sobremaneira a histria natural da aids, certo, doutor?
 Em termos. A terapia de medicamentos ainda  um sonho. No
momento no temos nada a oferecer, somente apoio e cuidados
para ajudar no aumento de sobrevida.  importante saber conviver
com pacientes aidticos e observar algumas regras simples, mas
importantes.
Srgio odiava a palavra "aidtico". Preferia portador do vrus ou
algo menos carregado de rano e preconceito. O termo
soropositivo era uma palavra que seria adotada anos depois para
designar os pacientes infectados pelo vrus HIV. Ele percebeu o
tom de repulsa na voz do mdico. Mas precisava saber como
cuidar de seu companheiro.
 Por favor, doutor, quais so os cuidados?
 No caso dele, trabalhar e voltar  vida social ser praticamente
impossvel. Vicente no pode doar sangue, tampouco manter
relaes sexuais sem camisinha.
Srgio j sabia disso. E muito provavelmente Vicente no faria
mais sexo. Sua sade e seu corpo alquebrado e fraquinho no
permitiriam o mnimo de esforo. A sua libido estava a zero.
 Em relao aos curativos, o que devo fazer?
 Os seus ferimentos devem ser mantidos cobertos com curativos
impermeveis. Para evitar a transmisso de muitas doenas, 
importante que cada um dos dois tenha os seus objetos de uso
pessoal: toalhas, alicates de unha, escovas de dente. No h

problemas

no

uso

de

aparelhos

comuns,

como

telefone,

ferramentas, equipamentos de trabalho, mquinas de escrever ou o
recm-lanado computador.
 Mais alguma outra recomendao, doutor?
 Nenhuma.
 Se ele piorar, o que fao?



 Faa o mesmo que tem feito nos ltimos tempos, ou seja, traga-
o para c. Iremos cuidar de outras possveis doenas oportunistas.
 Sei que pode parecer absurdo, mas gostaria de lhe fazer uma
ltima pergunta. Pode fazer.
 Vicente vai morrer, doutor?
O mdico esboou um sorriso amarelo.
 Todos ns vamos morrer um dia, meu filho. Agora v, seu amigo
precisa de voc.
Srgio despediu-se do mdico e saiu do consultrio. Meses depois,
ele foi novamente obrigado a atravessar a ala de internados e os
rostos e gemidos eram de impressionar. Havia entrado tantas
vezes naquele hospital, mas nunca se acostumaria com aqueles
pacientes  beira da morte. Dessa vez ele procurou por um
banheiro e, ao entrar, trancou a porta, sentou-se sobre o vaso e
ps-se a chorar.
 Eu no sei lidar com doena. Eu no quero abandonar o
Vicente. Vou cuidar dele como amigo, porque ele no tem ningum
no mundo. Mas eu sou fraco. Por favor, Deus, d-me foras para
agentar essa tempestade que se abateu sobre ns.
O esprito de Gina aproximou-se e lhe deu um passe reconfortante.
 Meu querido, tenha calma. Mantenha-se sereno. Daqui algum
tempo iremos conversar sobre AIDS. Voc ainda est muito
nervoso e impressionado. O mundo tem uma forte crena de que
um portador do vrus est condenado a morte. Mas, de certa
maneira, no estamos todos condenados a morrer? Um dia no
teremos de deixar o mundo fsico e partir para o nosso verdadeiro
lar, que  a ptria espiritual?
Srgio sentiu as vibraes amorosas de Gina. Parou de chorar,
enxugou as lgrimas e lavou o rosto. Ela beijou-o testa.
 Agora v e ajude Vicente. Ele no vai viver por muito tempo.
Fique ao lado dele e o ajude a partir para o mundo espiritual.
Ele meio que registrou as palavras de Gina. Sentiu um fora
tamanha, estugou o passo e foi at o leito de Vicente.
 Acima de tudo sou seu amigo. Vou ajud-lo.
Srgio pegou Vicente pelos braos e o apoiou sobre seu corpo. Ele
estava bem magro, a pele sem vio. Sua aparncia, no geral, no
era das melhores. A diarria havia parado, mas Vicente perdera o
controle dos msculos que retm a sada das fezes. Fazia bom
tempo que usava fralda. Era ultrajante. Ele estava possesso,



sentindo-se o pior dos seres. Despediu-se dos enfermeiros pela
ensima vez e com dificuldade atravessou o corredor, ganhou a
rua e chegou at o carro. Srgio o ajudou a se sentar. Deu a volta,
sentou-se no banco do motorista e deu partida.
 Como se sente?
 Quero ir para casa.
 Depois desta oitava internao...
 Quero ir.
 Voc no est bem. Faz tanto tempo que est doente que...
Vicente o cortou com violncia.
 Como faz tempo? Estou doente h um ms.
Srgio pendeu a cabea para cima empara baixo. Desde trs
internaes atrs Vicente apresentava perda significativa de
memria. Ele perdera a noo de tempo e espao.
Srgio procurou manter um tom natural na voz.
 Talvez seja melhor passar uns dias comigo  props Srgio. 
A sua sade ainda inspira cuidados e voc no pode mais ficar
sozinho.
 Sinto falta da minha casa, do meu quarto, da minha cama.
 Est bem. Iremos para sua casa. S dessa vez. Vou ligar para o
Carlos.
 Carlos?! O que ele quer comigo?
Carlos o visitava amide, porm Vicente estava com a mente
confusa. Srgio acostumara-se com as perdas de memria.
 Sei que vocs tiveram uma relao bastante tumultua. Contudo,
os anos passaram e Carlos est bem resolvido.
 Ele tem raiva de mim. Eu no fui um bom namorado.
 Ele teve raiva, muita raiva. Mas isso pertence ao passado.
Carlos mudou e quer ajud-lo.
 Vai ver quer tripudiar sobre mim. Olhe meu estado. Eu era to
bonito, to desejado. Quem vai olhar para mim agora?
 No diga isso, Vicente. Eu gosto de voc.
 Como amigo. Porque quer me ajudar. Sabe que o sexo entre
ns morreu.
 Quem disse que preciso de sexo?
Vicente deu uma gargalhada.
 Todos ns precisamos de sexo. Eu no tenho mais como faz-
lo, mas voc...



 Est se censurando. Logo vai estar bem, a sade restabelecida.
Voltaremos a ter uma vida... quer dizer...  Srgio engasgou. Por
mais que tentasse, havia se impressionado sobremaneira com o
aspecto fsico de Vicente. Ele iria estar ao seu lado para o que
desse e viesse, mas nunca mais teria intimidade com seu parceiro.
Disso ele tinha certeza.
 Sei que voc no me deseja mais.
 No  isso.
 Claro que . Eu sou um ser abjeto. Algo repugnante.
 No fale assim. Quanto mais se colocar para baixo, pior vai ser.
 De que adianta eu melhorar minha auto-estima? Olhe para mim!
Quem vai encarar esse corpo cheio de feridas? E com cara de
aidtico?
 No gosto desta palavra.  pesada e preconceituosa!
 Aidtico no  aquele que sofre de AIDS? Pois bem, sou um
aidtico. E mereo ser um. S quis saber de sexo nesta vida. Mais
nada.
 No acredito. Voc pode ser um rapaz voluntrioso, de gnio
difcil, mas no fundo tem um bom corao. Afinal, todos somos
bons na essncia.
 Eu no tenho boa essncia. Sou mau. Mereo passar por isso.
 Est irritado e fora de si. Quando estiver mais calmo, mudar de
conceito em relao a si prprio.
Srgio estacionou na porta do Copan.
 Eu no vou descer assim. Nem morto!
 Quer que eu entre na garagem?
 Por favor...
Srgio saiu do carro e conversou com um dos porteiros. Explicou
que Vicente havia feito uma cirurgia  mentiu  e necessitava
entrar com o carro na garagem. O porteiro bastante desconfiado
com o tamanho de internaes, deu de ombros e comunicou-se
com outro  afinal aquele prdio era uma cidade  fez sinal
positivo e acionou o controle remoto. O porto se abriu, e, antes de
Srgio entrar no carro Carlos apareceu e o cumprimentou.
 Foi transmisso de pensamento! Eu ia ligar para voc.
 Estava andando pela cidade e me deu vontade de ficar aqui por
perto. Creio que algum esprito me chamou para vir.
 Fico feliz que tenha vindo  disse Srgio.  Contudo, pode ser
que Vicente no se lembre de nada. A sua memria est pssima.



 Virei a pgina. Mesmo tendo passado por maus bocados nas
mos de Vicente, confesso que tambm facilitei muito e joguei
sobre seus ombros todo o peso da rejeio e a dor da separao.
Eu atra o Vicente para minha vida porque tinha pensamentos
muito inadequados no tocante a relacionamentos afetivos.
 Seu olhar est triste.
 Estou reagindo. No  fcil ver algum com quem vivi padecer
de AIDS. Vicente tem piorado a olhos vistos. E quantas vezes ele
foi e voltou do hospital? De mais a mais, perdemos quase todos
nossos amigos. Eu no agento mais ir a tanto velrio e enterro.
Toda semana recebo a notcia da morte de algum amigo nosso ou
conhecido.
 No tem sido fcil.
 Como ele deixou o hospital?
 Desmemoriado e irritado.
 Se est irritado, est bem. Vaso ruim demora a quebrar.
Ees riram.
 Entre no carro. Vicente precisa do carinho e apoio dos amigos.
Carlos fez sinal afirmativo com a cabea. Entrou no carro e
cumprimentou Vicente. Embora a aparncia estivese assustadora,
Carlos no reagiu. Fazia tempo que deparava com amigos neste
estado, bem parecido ao de Vicente. Geralmente bem magros,
debilitados, a pele levemente escurecida. E as leses pelo corpo.
Carlos no se impressionava mais.
 Quem  voc?  perguntou Vicente.
 Carlos. Lembra-se?
 Da sauna?
Ele riu.
 Sim.
 Fui  sauna ontem. Agora me lembro de voc...
Ajudaram Vicente a sair do carro e foi com dificuldade que o
arrastaram at o elevador e depois ao apartamento. Srgio abriu a
porta e logo Vicente procurou o quarto. Entrou e esparramou-se na
cama. O contato com suas coisas pessoais o trouxeram de volta 
lucidez.
 Espero no sair mais daqui.
 Est sendo muito pessimista  rebateu Srgio.



 Acha que vou melhorar e voltar a ter uma vida como antes?
Nunca. Agora meu corpo vai ficar impregnado com toda a sujeira
do sexo que pratiquei.
 Est se punindo  tornou Carlos.
 E no deveria? Essa praga no  como cncer, que aparece do
nada.  algo que se pega por conta de contato sexual. Creio ser
uma punio divina.
 Por que pensa assim, Vicente?
 Porque ser gay  errado. A homossexualidade  um defeito.
Nascemos tortos e morreremos tortos. E estou pagando alto preo
por ser homossexual. Eu e todos vocs.
 Eu no  replicou Srgio.
 Quem disse?
 No me sinto bem com a minha sexualidade, mas o que fazer?
Nasci assim e estou comeando a ficar cansado de lutar. Talvez eu
morra sem aceitar-me como sou.
 Esse  o grande erro que estamos cometendo  interveio
Carlos.
 Erro?
 Sim. Estamos nos olhando como seres maus, imperfeitos,
moralmente condenados.
 E no somos?  indagou Vicente.
 No. Se Deus  perfeio e se Ele nos criou assim, ento a
homossexualidade  algo divino.
 Isso  um absurdo! Dizer que ser gay  coisa de Deus?
 E por que no? Voc est enxergando a homossexualidade do
ponto de vista da moral humana. O homem criou os tabus sobre
sexualidade. No podemos mais aceitar que somos imperfeitos e
maus. Chegou a hora de mostrar  sociedade que, mesmo que
essa doena tenha aparecido em nosso caminho, somos dignos de
aceitao, de respeito e de amor.
 Eu me sinto errado.
 No deveria, Vicente. Somos seres perfeitos, amados e
protegidos por Deus.
 Se eu fosse mesmo protegido por Deus no estaria assim. Fui
afastado do emprego e, mesmo que queira voltar, quem vai querer
ser atendido por um comissrio de bordo aidtico?
 Voc se coloca muito para baixo. Maltrata a si prprio enchendo
sua cabea de pensamentos ruins a respeito de sua sexualidade,



como pode querer que a vida o proteja? Voc no se d o respeito,
como pode querer que a natureza o respeite?
 Voc no  o mesmo Carlos que namorei no sculo passado! 
brincou Vicente.  Voc era to mole, to romntico, vivia cheio de
sonhos e estava sempre choramingando pelos cantos. Agora vejo
um homem sereno, de fala firme, e com idias nada convencionais.
O que aconteceu? Acaso foi abduzido por marcianos?
Carlos sorriu.
 Eu pensei que era fraco e que valia menos que os outros, pelo
fato de ser gay. Vivia querendo companhia, namorar, casar tal
como os heterossexuais porque esse era o modelo de unio que
conheci na vida. Por essa razo eu era to carente e sempre
queria que meus envolvimentos durassem para sempre.
 E comeou a sair com homens casados por qu?  indagou
Srgio.
 Percebi que os namoros no eram eternos e, desiludido,
acreditei que os relacionamentos com homens casados me feriam
menos o corao.
 No entendo...
 Era a falta de compromisso. Eu queria tanto o compromisso e
no conseguia, que fui atrs de quem no podia se comprometer
comigo. Ao sair com um homem casado, eu sabia que seria muito
difcil a relao se transformar em namoro. O fim j era previsvel.
No havia entrega de nenhuma parte e eu me comprazia em ser o
outro, em ser relegado para segundo plano.
 Mas voc se apaixonou por aquele homem, anos atrs.
 Verdade. Quando conheci Alaor acreditei que as coisas podiam
ser diferentes. Algum tempo depois de estarmos juntos, ele me
falou que ia se separar da esposa e que teramos uma vida a dois.
 Voc acreditou.
 Muito  disse Carlos enquanto meneava a cabea para cima e
para baixo.  Ele sairia do casamento e resolvia ter uma vida em
comum comigo. Esse era o meu sonho transformado em realidade.
Pura iluso.
 Pelo que me consta faz bastante tempo que eu no os vejo
juntos.
 O namoro durou muito pouco. Depois que Alaor se separou da
esposa, ele mudou em tudo, nas atitudes, no comportamento, na
maneira de se relacionar comigo. Assinado os papis da separao



ele veio viver comigo por uns tempos. Mas o universo homossexual
era novidade para ele. Alaor queria sair, queria se divertir,
conhecer outros homens, aproveitar, segundo palavras dele
mesmo, o tempo perdido. Ele gostava de mim, mas por que ficaria
preso a mim se no mundo havia tanto homem disponvel?
 Ele deve ter arrebentado seu corao. Aproveitou de sua
generosidade, tomou coragem de se separar, mudou-se para sua
casa. Vendo que o mundo gay era mais apetitoso que um namoro
srio, decidiu debandar.
 Um dia estvamos numa feirinha de antiguidades procurando
alguns enfeites para a decorao da casa. Fazamos planos e tudo
o mais. Eu fiquei encantado com uma esttua de uma bailarina. Era
de bronze e estilo art dco.
 Eu o conheo e sei que adora peas e mveis nesse estilo.
 Pois . Eu fiquei apreciando a pea e barganhei com o vendedor
um preo menos salgado. Quando dei por mim, Alaor estava a
alguns metros de distncia conversando com um lindo rapaz.
 Eram amigos?
 Qual nada! Tinham acabado de se conhecer. Alaor teve o
desplante de me apresentar como amigo e deu um carto para que
o rapaz ligasse para ele. Depois dessa vez, aconteceu novamente
numa boate. A comearam algumas ligaes de estranhos l em
casa. Percebi que eu havia perdido Alaor.
 Na verdade voc nunca o teve. Criou um castelo de sonhos.
Acreditou que ele fosse mudar e caber na historinha que voc
colocou na cabea  rebateu Vicente, arfante e visivelmente
cansado.
 Depois dessa desiluso eu me fortaleci. Procurei ajuda mdica,
fiz terapia. Durante uma das sesses de terapia eu conheci um
rapaz muito simptico.
 Ele curou suas feridas emocionais!  exclamou Srgio.
 De maneira alguma. Estvamos enfrentando os mesmos
problemas. Ele me falou de suas desiluses amorosas e que atraa
pessoas emocionalmente complicadas porque ele mesmo tinha
problemas de aceitao por si mesmo. Conversamos bastante e
ele havia acabado de ler um livro de auto-ajuda que um colega de
trabalho trouxera dos Estados Unidos.
 Vai ver eu conheo esse amigo  tornou Vicente.  No ser o
mesmo que conhecemos em Nova York semana passada?



Carlos procurou manter o semblante tranqilo. Srgio levantou-se,
puxou a coberta at o pescoo de Vicente. Cerrou as cortinas e
acendeu o abajur de cabeceira.
 Voc est cansado e precisa descansar.
 No quero ficar sozinho.
 Eu e Carlos estaremos na sala. Deixarei a porta entreaberta. Se
precisar,  s me chamar.
Vicente pendeu a cabea para cima e para baixo e em seguida
adormeceu. Srgio fez sinal para Carlos e ambos foram para a
cozinha.
 Quer um caf?
 Adoraria.
 Uma noite, dentre as constantes internaes, Vicente; teve uma
febre muito alta. Delirou e quando voltou no era mais o mesmo.
Tem momentos de muita lucidez. De repente, de uma hora para
outra, ele fala coisas desconexas. Como fez agora.
 Sobre afirmar que estava em Nova York semana passada?
 Sim. Vicente no viaja h meses.
 Compreendo. J havia notado esse comportamento dele no
carro.
 Tenho medo, Carlos. Sinto que ele vai morrer.
 Vai mesmo.
Os olhos de Srgio brilharam aterrorizados.
 Precisa falar com essa calma? Parece que acha natural morrer.
 E no ? A gente nasce sabendo que mais dia, menos dia vai
morrer.  a lei. Faz parte da natureza humana. Alguns vo com
dias de vida, outros vo aos trinta, quarenta anos de idade. Outros
duram uma centena de anos. Depende de quanto tempo
necessitam ficar e experienciar as coisas da Terra.
 Falando desse jeito a morte se torna natural.
 Nossa sociedade tem preconceito em falar da morte.
Deveramos encarar isso de maneira natural. O nosso medo no 
acreditar que vamos morrer, mas como vamos partir deste mundo.
 Isso me incomoda.



Somos

semelhantes,

porm

diferentes

em

atitudes,

comportamentos e crenas. Vivemos uma vida nica e por essa
razo temos uma morte nica. Veja que ningum morre da mesma
forma. Pode-se morrer de maneira semelhante, mas nunca igual.



 Vicente no merece. Tudo bem, ele sempre foi arrogante e
pisou em muitas pessoas, inclusive em voc. Mas no fundo  um
menino acuado. Cresceu sofrendo humilhaes dentro de casa. Foi
renegado pela famlia, teve de batalhar sozinho para sobreviver.
Depois de conhec-lo melhor percebi que ele age assim por pura
defesa.
 Eu tambm percebi isso. Levou anos, mas percebi. Eu gosto
dele. No o culpo por eu ter ficado to ruim emocionalmente depois
que descobri ser trado. Eu deveria cuidar mais de mim, ficar do
meu lado. Preferi jogar toda a responsabilidade do trmino nas
costas de Vicente. Assim ficava mais fcil no ter de olhar para
dentro de mim e fazer as mudanas necessrias para uma vida
afetiva mais prazerosa e feliz.
 Voc mudou muito, Carlos. Sinto-o mais maduro. At postura
me transmite fora. Foi o rapaz do consultrio?
 Tambm  riu.  Dnis teve uma vida difcil e por muitos anos
viveu com um remorso cruel a dominar-lhe o corao. Sentia
atrao por homens, mas se recusava terminantemente a admitir a
possibilidade de uma aproximao.
 Como todos ns.
 Exatamente. Ele cresceu numa famlia muito humilde, mas se
esforou, estudou at o fim do colegial e h dois anos foi
transferido do interior para trabalhar na sede da empresa. Ele
progrediu, conseguiu melhor salrio, ingressou na faculdade de
administrao.
 Parece ser esforado.
 Ele . Assim que teve aumento no contracheque, Dnis decidiu
fazer terapia e lidar com suas emoes conturbadas. Ele diz que,
na adolescncia, chegou a infernizar um amiguinho homossexual.
 Era bvio. Ele se via no garoto gay.
 Exatamente. Embora tenha sido perdoado pelo garoto, Dnis
sentiu necessidade de mudar seus conceitos e aceitar-se como
gay. Fomos nos encontrando nas sesses seguintes e ficamos
amigos.
 Amigos?
 . No tivemos nada mais srio.
 Por qu? Ele no  interessante?
 Sim. Dnis  um tipo bem interessante, o rosto quadrado lhe
confere um ar bem masculino.



 No entendo...
 Eu mudei muito, Srgio. A terapia ajudou-me a enxergar como
sou e aceitar-me do jeitinho que eu sou, sem mais nem menos. Da
eu comecei a ler o livro que o Dnis ganhou do colega de trabalho.
Aprendi a me amar incondicionalmente. Essa  a chave da cura
emocional e de tantas outras feridas emocionais. At de doenas
fsicas. O amor  capaz de tudo.
 Quem escreveu o livro?
 Uma orientadora espiritual. O livro se chama Voc pode curar
sua vida, de Louise L. Hay. Segundo a autora, todas as doenas
que temos so criadas por ns. Afirma ela que somos cem por
cento responsveis por tudo de ruim que acontece no nosso
organismo.
 A gente cria as prprias doenas?
 Sim. Ela afirma que as nossas crenas e a idia que temos a
respeito de ns mesmos  geralmente negativas  so a causa
de nossos problemas emocionais e de nossas doenas. Por meio
do envio de mensagens positivas para nosso subconsciente,

meditao

e

outras

ferramentas,

podemos

mudar

nossos

pensamentos e ter uma vida melhor.
 Eu gostaria de ler o livro. Voc se importaria de me emprestar?
 Claro que no. Voc tem um bom ingls e vai entender tudo. A
leitura  fcil e agradvel. E o melhor de tudo  que o livro vai ser
lanado no Brasil.
 Poder ajudar muitas pessoas.
 Espero.
O caf ficou pronto e Srgio entregou uma xcara com o lquido
fumegante para Carlos.  Espero que esteja bom.
Carlos experimentou, estalou a lngua no cu da boca.
 Est uma delcia. Diga-me, como anda o Cludio?
 Levando sua vidinha no Rio. Fez algumas amizades, conheceu
uns caras bacanas.
 Est namorando?
 Cludio? Nunca. Ele diz que o amor dele no  desse mundo.
 Talvez no seja mesmo.
 s vezes sinto que ele est fugindo de compromisso.
 Conheo Cludio o suficiente para entender que ele jamais
fugiria de compromisso. Seu amor pode no ter reencarnado.
 Acho isso muito fantasioso  rebateu Srgio.



 Eu no acho. Diga-me, ele sabe sobre Vicente?
 Hum, hum. Est a par desde a primeira internao. Ele me
prometeu que no prximo feriado vem nos visitar.
 Gostaria de rev-lo. Cludio  um timo amigo, uma pessoa
bonssima, de corao puro.
 Mas no gosta de Vicente.
 No  porque a pessoa  boa que deve simpatizar com todo
mundo.
 Ele sempre me disse que Vicente no era coisa boa na minha
vida.
Carlos coou o queixo. Bebericou seu caf.
 Voc acha que Vicente lhe passou o vrus?
 No acredito. Minha sade anda a mil. Estou timo.
 Que bom. Sabe que, na verdade, a sade vem daqui  apontou
para a prpria cabea.  Se estiver com a cabea boa, no tem
doena que se aproxime.
 Concordo.  Srgio no queria continuar o assunto. Estava na
verdade temeroso. O teste para detectar o HIV no sangue era algo
recente e ele tinha muito medo de fazer. Morria de medo de estar
contaminado. No queria ficar como Vicente. Ele estava bem, seu
corpo no apresentava nenhum sintoma, nenhuma leso. Era
melhor esquecer e mudar o assunto.  Eu gostaria de conhecer o
Dnis.
 Vai ador-lo, tenho certeza.
 Voc fala esse nome e seus olhos brilham emocionados.
 Sinto que estou apaixonado. Mas vou com calma.
 s vezes acho que sou como o Cludio. Nunca vou me
apaixonar.
 Voc viveu uma bela histria com o Vicente.
 Engano seu. Eu me iludi. Nunca nos amamos. Sempre foi algo
fsico, de desejo. Somos amigos, nunca houve cumplicidade entre
mim e Vicente. Terminamos tempos atrs e jurei ao Cludio que
nunca mais voltaria com Vicente. Depois de um tempo nos
reencontramos na noite e ficamos. Mais por teso. Nada de amor.
Acho que me acomodei e agora estou ao seu lado como amigo.
No vou abandon-lo nessa hora to difcil.
 Nada de julgamentos. Precisamos passar por cima das crticas e
ajudar.
  o que tento fazer. Vicente  sozinho no mundo.



 Quem sabe se mudar seus pensamentos no vai arrumar um
homem que o ame de verdade?
 Acredita nisso?
 Voc tem de acreditar!
Encostaram as xcaras e fizeram um brinde.
 Ao amor!





Captulo 26



Leila fazia estripulias com Rex no quintal quando ouviu a voz de
Nelson. Ela e o cachorro saram em disparada para receb-lo. Rex
chegou primeiro e tentou se atirar sobre ele. Contudo, o cozinho
estava velho e tinha dificuldade em pular. Nelson mal conseguiu
fechar o portozinho de ferro.
 Menini. Quanta saudade.
O cachorro latia feliz. Leila chegou por trs e delicadamente
pousou as mos sobre seus olhos.
 Adivinhe quem ?
 Hum, deixe-me ver... Ah, a loira do banheiro!
Leila deu uma sonora risada. Nelson virou o corpo e a beijou
demoradamente nos lbios.
 Meu amor, quanta saudade.
 Eu tambm, querida.
 Onde est sua mala?
 Maria a levou para cima.
 Tem novidades?
 Sim.
Leila sentiu o corao vir  garganta.
 Encontraram o paradeiro de meu filho?
Nelson meneou a cabea para cima e para baixo.
 Achamos.
 Minha nossa senhora!
 Eu bem lhe disse que demandava tempo, mas que no seria
impossvel localiz-lo. Depois que soubemos que se trata de um
garoto, em vez de uma menina, no foi difcil.



 Levou alguns anos  disse ela com desdm.
 Meu amor  Nelson a abraou carinhosamente  voc
esperou mais de anos para comear a procur-lo.
 No queria arrumar encrenca com Herculano ou sua famlia.
Depois que ele morreu, acreditei que estaria livre para procurar
minha filha.
 Logo depois da morte dele voc me procurou, contratou os
servios do meu escritrio e desde ento tenho me empenhado na
busca da criana. Infelizmente, muitas coisas nos atrapalharam.
Primeiro foi o sexo do beb.
 Tem razo, por anos pensamos se tratar efetivamente de uma
menina.
 Depois, o Medeiros morreu quando estava chegando  famlia
que adotou seu filho.
 Sinto-me aflita, Nelson. Em que lugar ele se encontra?
 Mais perto do que imaginamos.
 Quer dizer...
 Seu filho encontra-se aqui na cidade.
Os olhos dela brilharam e uma lgrima escorreu pelo canto do olho.
 Todos esses anos morando perto! Acreditamos que ele
estivesse no Sul do pas.
 Ele est aqui na capital. Localizamos o apartamento e fica no
centro.
 Podemos ir l agora?
 No sei se devemos. Chegaremos de supeto e falaremos o
qu? Que ele foi adotado e que voc  a me verdadeira?
 No sei... Podemos tentar.
 Se quiser, podemos ir agora.
 Diga uma coisa, Nelson.
 Sim?
 Qual o nome dele?
Nelson tirou um papel do bolso e o entregou a Leila. Ela fixou o
papel e leu com os olhos. Silncio.
 Bonito nome.
 O importante  que voc tem um filho e ele est vivo e morando
na mesma cidade.  Vou apanhar minha bolsa.
 Eu a espero.
Leila subiu as escadas. Entrou no quarto, sentou-se na cmoda e
retocou a maquiagem. Passou um pouco de batom nos lbios.



 Meu filho! Vou encontrar meu filho... Ser que ele vai me
receber bem?
Ela mordiscou os lbios apreensiva e retocou novamente a
maquiagem. Estava nervosa. Passados alguns minutos em frente 
penteadeira. Leila levantou-se, apanhou sua bolsa sobre a cmoda
e desceu. Estava pronta para se encontrar com seu filho, depois de
mais de vinte anos.

***

O relacionamento de Roberto e Jean durou o mesmo tempo que o
curso na universidade e o estgio no Instituto Pasteur. Os dois
sabiam disso. Numa noite, enquanto estavam deitados na cama e
olhando para o teto, tocaram no assunto.
 Voc foi um dos caras que mais tocou meu corao nos ltimos
anos.
 A recproca  verdadeira, Jean. Eu tambm gostei muito de
voc.
 Teve muitos relacionamentos antes?
Roberto sorriu.
 Eu conheci um rapaz certa vez numa boate, alguns anos atrs.

Eu

havia

acabado

de

passar

no

vestibular.

Flertamos,

conversamos, bebemos alguma coisa e terminei a noite na casa
dele. Depois nos vimos mais uns meses e acabei me dedicando
nica e exclusivamente ao curso medicina. O afastamento foi
natural. Eu queria ser mdico e ele queria ser pai.
 E depois dele?
 S voc.
 No posso crer.
  verdade. Depois de Davi no me relacionei com ningum.
 Nem saiu para, digamos, dar uma aliviada nas tenso!
Os dois riram. Roberto tornou, sorridente:
 Eu tenho uma grande amiga no Brasil e a considero minha
segunda me. Leila  uma figura encantadora. Nos tempos de
faculdade ela me emprestava livros de auto-ajuda e espiritualistas
em geral para eu sair um pouco da leitura acadmica. Eu aliviava
minhas tenses lendo.
 Nem uma transadinha?



 No. E, por outro lado eu tinha um pouco de medo. Eu estou me
especializando em infectologia e estagiei num hospital pblico na
minha cidade que se tornou referncia no atendimento aos doentes
de AIDS. Vi tanto sofrimento que refletia bastante e decidia por no
procurar ningum
 Medo de se contaminar?
 Sim. Creio que agora as coisas comecem a melhorar.
 Como assim?
 Antes no tnhamos como saber se ramos ou no portadores
do vrus. Agora, com o teste anti-HIV disponvel no mercado, as
pessoas podem descobrir antes que a doena se manifeste. Isso j
 um grande avano.
 Eu fiz meu teste ms passado.
 E o que deu?
 Negativo.
 Ns que estagiamos no instituto devemos realizar o teste todo
ms em virtude de manipularmos vrios tipos de vrus.
 Tem preconceito em se relacionar com um portador do vrus
HIV?
 De forma alguma. Se ele tiver uma boa estrutura emocional e
cuidar bem da cabea e do fsico, tudo bem. Creio que em breve
teremos medicamentos que ajudaro a controlar o vrus e os
pacientes de AIDS vo viver normalmente, como se fosse uma
doena crnica.
 Como diabetes?
 Sim.
 Eu sa com um rapaz soropositivo e s no continuamos porque
ele desistiu de namorar. Disse que tinha muito pouco tempo para
viver ao lado de um homem s.
 Cada cabea uma sentena. Voc tomou as precaues?
 Usamos camisinha. Mas nos beijamos.
 Beijo no transmite AIDS. Se assim fosse, toda a humanidade
estaria contaminada. Jean sorriu.
 Tem razo. Mas diga-me uma coisa.
 Pode perguntar.
 Voc praticamente est formado e  um mdico. Como pode
gostar de livros de auto-ajuda ou espiritualistas? No vai contra a
mar cientfica e acadmica?



 De forma alguma. A fsica quntica tem feito avanos
impressionantes. Pelo menos agora sabemos que tudo aquilo que
 slido no mundo  feito de pura energia. Eu acredito em energia.
Sou favorvel  medicina holstica, que v o homem como um todo
integrado, onde qualquer comportamento envolve toda a estrutura
humana, realando o importante comando do esprito sobre as
suas outras reas.
 Interessante.
 Como o esprito  algo etreo, ele atua diretamente dentro da
mente. A sua vontade move os intrincados mecanismos de seus
corpos. Da ele escolhe, no mar das idias, quais os pensamentos
que quer acreditar, imprimindo sua convico e dando-lhes fora
de ao. Nossos aparelhos astrais e fsicos so acionados de
acordo com o teor desses pensamentos.
 Quer dizer que dessa forma, tudo o que nos acontece de bom
ou de ruim, como as doenas, so resultado dos pensamentos que
formam nossas experincias?
 Sim. Ou seja, repetir padres de pensamentos inadequados
neste nosso estgio de evoluo gera doena! Sem sombra de
dvidas, a doena  a fora da evoluo e ns reclamando que
faamos o melhor, porquanto j estamos aptos a fazer.
 Eu diria que essa sua maneira de encarar o homem e as
doenas far de voc um grande mdico.
 Espero. Nasci para ser mdico. No saberia fazer outra coisa na
vida. E, h alguns anos, tenho tido sonhos que me mostram
aspectos da medicina que a cincia ainda no tem como alcanar.
 Sonhos premonitrios?
 No. Eu sonho com uma mulher linda, que me explica muita
coisa sobre o corpo humano, sobre as doenas. Eu s vezes
consigo me lembrar do que sonhei. Outras vezes no. Entretanto
parece que fica tudo aqui  apontou para a cabea 
armazenado, esperando a hora certa para que eu use determinada
informao do astral.
 No acha que tudo vem da sua cabea?
Roberto deu de ombros.
 No me interessa se vem de mim, de sonho, de esprito. O
importante  que as idias so boas e sempre me ajudam. Se
fazem bem, por que no aproveitar?
 Eu gosto de espiritismo. Afinal ele nasceu aqui na Frana.



 Contudo voc no pratica.
 No. Acredito que a vida continue aps a morte do corpo fsico.
S. Sem estar ligado a nenhuma corrente religiosa. Sou livre.
Gosto de me sentir assim.
 Por falar em liberdade, estamos juntos h mais de um ano e
logo regresso ao Brasil. Eu nem tenho como cobrar-lhe um posio
sobre a nossa relao.
 Esse foi o nosso momento. Vivemos nosso amor com
intensidade, com carinho, com respeito. Tudo na vida tem comeo,
meio e fim. Estamos perto do fim. Somos adultos, maduros e eu
quero ir para a Itlia. Voc deseja voltar ao Brasil. Melhor
sabermos que nossa bela histria vai se findar em breve. Nossos
objetivos de vida so bem diferentes. Embora ns dois acreditamos
ser possvel uma relao estvel e duradoura entre dois homens,
sabemos que nossas vidas seguiro rumos diferentes.
 Penso como voc, Jean. Eu adoro meu pas e pretendo seguir
carreira por l. No tenciono viver aqui em Paris ou mesmo ir para
a Itlia.
 Eu terminei meu curso de administrao e recebi uma boa
proposta de emprego de uma montadora italiana. No posso
recusar.
 Quando estiver de frias, v me visitar no Brasil.
 Adoraria conhecer a vida nos trpicos.
 A vida nos trpicos  muito boa.
  verdade que no existe pecado do lado de baixo do Equador?
Caram na gargalhada. Abraaram-se e permaneceram assim por
bastante tempo. Dois meses depois dessa noite, Jean, Gilbert e
Regine despediam-se de Roberto no aeroporto.
 No deixe de nos escrever  pediu Regine, emocionada.
 Toda vez que vier a Paris sabe que tem um quarto reservado
para voc  tornou Gilbert, amvel.
 Vamos trocar cartas. No quero perder sua amizade  disse
Jean com lgrimas nos olhos.
Roberto os abraou com carinho e tambm com lgrimas nos
olhos. Estudar em Paris era um sonho antigo, mas viver na cidade
em companhia de Gilbert, Regine e Jea dera-lhe um colorido
especial, jamais sonhado.
O rapaz acenou, rodou nos calcanhares e caminhou rumo  sala
de embarque. Ele terminara o curso, estudara com a equipe de Luc



Montagnier e retornava ao Brasil como um mdico de carreira
promissora e totalmente dedicado ao tratamento de pacientes com
o vrus HIV.

Captulo 27

Alguns meses antes de Roberto regressar ao pas, Leila, com o
papelzinho do endereo entre as mos, chegou  portaria do
edifcio Copan. Naquela multido de gente que por ali passava,
demorou para eles encontrarem a portaria do bloco respectivo.
Deram o nome. O porteiro sorriu simptico.
 So muitas visitas. Podem subir direto. Vigsimo andar, bem em
frente ao elevador. Leila agradeceu e segurou firme a mo de
Nelson.
 Ele  representante comercial? Ser que vende alguma coisa
em casa? Por que ser que recebe muitas visitas?
 Tudo  novidade para ns, meu amor. Vamos subir e
saberemos.
 Estou nervosa. Esperei tantos anos e agora esse beb ter um
rosto, um corpo.
 J tem nome.
 Ser que ele se parece comigo ou com o Herculano?
 Est muito ansiosa. Segure-se no meu brao e mantenha a
calma.
Leila assentiu com a cabea. Entraram no elevador e, ao chegarem
ao andar, Nelson abriu a porta e fez sinal para ela passar.
Aproximaram-se do apartamento e ela tocou a campainha, aflita.
Uma moa simptica a recepcionou.
 Pois no?
  aqui que mo... mo...
Leila engasgou e Nelson tomou a palavra.
 Estamos  procura de Vicente Ferraz Stankvos.
A moa esboou sorriso triste.
 Prazer, meu nome  Marisa.
 Somos Leila e Nelson.
 So parentes?
 Sim, distantes. Mas somos parentes.
 At que enfim!  ela suspirou. Fez sinal para que eles
entrassem e lhes indicou o sof para se sentarem. Continuou: 



Como pode a famlia no querer saber dele? Que descaso! Se no
fossem os poucos amigos e o companheiro dele, creio que Vicente
j teria morrido.
Leila levou a mo  boca, aterrorizada.
 Morrido?
 Bom, pela cara de vocs, acho que nem desconfiam de que ele
esteja doente.
 O que ele tem?  perguntou Nelson.
Marisa abaixou o tom de voz.
 Vicente  doente de AIDS. Est muito mal.
Leila levou a mo ao peito.
 Minha nossa!
 Ele pode receber visitas?  indagou Nelson, visivelmente
perturbado.
 Pode. Ele no est reconhecendo as pessoas. Tem lapsos de
memria. Hoje ele me deu bom-dia e meia hora depois perguntou
quem eu era e o que estava fazendo no quarto.
 Entendo.
 Vocs so parentes do Rio Grande do Sul?
Leila estava chocada, no tinha o que responder. Simplesmente
assentiu com a cabea. Nelson respondeu procurando manter tom
natural na voz.
 Somos. Voc  amiga do Vicente h muito tempo?
 Sou amiga de trabalho. Comissria de bordo. Viajvamos
sempre juntos para Nova York. Infelizmente, a maioria dos amigos
gays sumiu to logo souberam que ele estava doente. Eu, o Srgio,
o Carlos e seu namorado  que estamos dando uma fora. Os pais
se recusam a falar com ele. Uma das irms, na ltima tentativa
nossa de contato com a famlia, disse-me que Vicente fora adotado
e que eles no queriam saber de um irmo pervertido cuja doena
poderia sujar e envergonhar o nome da famlia.
 Isso  ultrajante!  protestou Leila.
 A senhora no tem idia de como o preconceito  forte. Outro
dia um amigo nosso de trabalho tambm morreu em conseqncia
da AIDS. Eu e o namorado dele tivemos de tomar todas as
providncias. Compramos o caixo, pegamos atestado de bito,
fizemos velrio, contatamos as pessoas. O Bruno e o lton
moravam juntos havia mais de dez anos. O lton cuidou do Bruno



at morrer. E a famlia nunca quis saber de aproximao. Sabe o
que aconteceu depois do enterro?
Nelson respondeu, desconfortvel.
 No.
 A famlia teve o desplante de chamar um chaveiro e trocar a
fechadura da porta do apartamento. Pegaram duas sacolas,
colocaram as roupas do lton dentro e ele no pde mais entrar no
apartamento que era "deles".
 No podem fazer uma coisa dessas. Se eles moravam juntos, o
lton no pode ser enxotado pela famlia do companheiro morto.
 Mas foi. A sorte  que o Bruno fez um testamento onde metade
do apartamento ficava para o lton. S que a famlia do Bruno 
muito rica e influente. O pai dele est fazendo da vida de lton um
inferno. Eles no querem que ele fique com o apartamento.
 Que barbaridade!
 Para vocs verem. A famlia despreza, afasta-se, tem vergonha
e evita o contato. Depois que o doente morre, eles vm feito
abutres. Querem saber se tinha dinheiro no banco, bens, veculo,
tomam posse de tudo. Quando vivo  desprezado, espezinhado e
maltratado. Depois de morto, o gay se transforma numa excelente
fonte de renda. Ainda mais homossexuais bem-sucedidos, que no
tm filhos e acabam por ter uma vida mais confortvel e dinheiro no
banco.
 Estou pasma com tanta mesquinharia e tanta falta de
compaixo. Esses familiares botaram um filho no mundo. No  o
fato de ele ser gay que vai mudar alguma coisa, amor no pode
variar segundo a orientao sexual do filho. Amor  amor  disse
Leila, num tom comovente, deixando as lgrimas correrem
livremente pelo rosto.
Marisa apertou a mo de Leila.
 A senhora deve gostar muito do Vicente.
 Gosto sim.
A moa levantou-se e foi at a estante. Pegou um porta retrato com
uma foto de Vicente, tirada alguns anos antes. Ele estava lindo. Os
cabelos jogados para trs, os olhos brilhantes e um sorriso
contagiante e sedutor. Ela o mostrou para Leila.
 Olhe como ele estava lindo nesta foto.
  de quando?
 Faz uns cinco anos.



Leila sentiu uma emoo sem igual. Vicente lembrava muito
Herculano. Os olhos, o queixo quadrado. No tinha como negar. O
nariz e a boca eram bem parecidos com os de Leila. Ela levou o
porta-retrato ao encontro do peito.
 Como meu menino  lindo!
Nelson a abraou, comovido.
 Realmente  um lindo rapaz. Parabns.
Leila suspirou e perguntou:
 Onde ele est?
 No quarto  respondeu Marisa.
 Poderia v-lo?
Nelson a interrompeu.
 Tem certeza? No vai se chocar?
 Ele  meu filho. Como poderia me chocar?
Marisa arregalou os olhos.
 A senhora  me do Vicente?
 Sou. A me biolgica.
 Meu Deus!
 Faz anos que tenho procurado meu filho. Depois eu lhe conto a
minha busca desesperada por Vicente. Agora quero v-lo, por
favor.
Marisa meneou a cabea para cima e para baixo. Sorriu e pegou
levemente em sua mo.
 Venha comigo.
Leila concordou e atravessou o corredor. Chegaram. A porta
estava entreaberta. Marisa bateu de leve.
 Vicente, est acordado?
 Estou.
 Vou entrar. Tenho visitas.
Marisa empurrou a porta e entrou. Leila estava logo atrs e
aproximou-se da cama. Sentou-se na beirada e passou as mos
com delicadeza pelo rosto magro e plido do filho.
 Como est, meu filho?
 Quem  voc?
 Vim de longe para visit-lo.
 A minha memria tem falhado bastante. Eu a conheo?
 No. Mas eu o tenho procurado por muitos anos. Por muitos e
muitos anos.
  mesmo? Por qu?



 Porque... porque... eu o gerei. Eu sou sua me biolgica.
Vicente piscou os olhos algumas vezes.
 Minha me?
 Sim.
 Minha me no quer me ver. Ela me odeia. Sempre me odiou.
Ela e meu pai nunca gostaram de mim. Expulsaram-me de casa.
Eles tm vergonha de mim. Voc tem vergonha de mim?
As lgrimas corriam insopitveis pelo rosto de Leila. Enquanto ela
acariciava o rosto do filho, disse-lhe com ternura,
 Eu jamais teria vergonha de voc.
 Mesmo?
 Eu tenho orgulho de voc. Tornou-se homem bonito, de
responsabilidade. Mesmo expulso de casa, no se perdeu na
marginalidade. Arrumou um bom emprego e tem uma boa vida.
 Esse apartamento  meu. Eu moro no Copan.
 Muito famoso esse prdio.
 Comprei com meu dinheiro, sabia?
  mesmo?
 Voc me conhece?
 Gostaria muito de conhec-lo.
 Eu vou morrer.
 Todos ns vamos morrer. Faz parte da vida. Nascer, viver e
morrer.
 Eu fui muito mau.
 A maldade  fruto da cabea em desequilbrio.
 Eu acho que no sou digno ou merecedor de viver em
sociedade.
 Por qu?
Vicente abaixou o tom de voz.
 Eu sou homossexual.
 E qual o problema?
 Ser gay no  bom.
 Quem lhe falou?  perguntou Leila, com amabilidade na voz.
 As pessoas, o mundo, a sociedade.  errado ser gay. E estou
pagando por ser errado.
 No obstante, as punies ocasionadas por conta da religio e
as discriminaes em nome da cincia e da moralidade mostram-
se cada vez mais sem um pingo de consistncia.
 Sua presena me faz bem.



 Obrigada.
 Voc no me condena por eu ser gay?
 Nunca.
 Se eu fosse seu filho, voc me aceitaria?
 Claro!
 Eu gostei de voc.
 Eu tambm  tornou Leila, visivelmente comovida.
 Vem me visitar de novo?
 Posso?
 Venha me ver. Estou com o tempo livre.
 Est certo. Amanh eu voltarei.  Leila virou-se para Marisa: 
O que ele pode comer?
 Alimentos bem leves. De preferncia cozidos e amassados.
Vitaminas, sucos. Vicente perdeu o controle do intestino e
procuramos lhe dar uma alimentao menos slida.
 Entendo.
Vicente interveio:
 Vocvolta?
 Volto sim. Prometo.
Leila o beijou demoradamente na testa. Passou a mo pelos
cabelos do rapaz. Ele pegou na mo dela e encostou os lbios.
 Voc  boa.
 Obrigada.
Ele cerrou os olhos e em seguida perguntou, arfante:
 Quem  voc?
 Uma amiga querida que muito o ama.
Vicente sorriu, pendeu a cabea para o lado e adormeceu.
 Ele falou demais. Est muito debilitado  tornou Marisa.
 At que ele falou bastante.
 Estou ouvindo vozes vindas da sala. Acho que Srgio chegou.
 Gostaria de conhecer o companheiro do meu filho.
Marisa ps a mo sobre a testa de Vicente.
 Ele no est febril. Ainda bem.Vamos para a sala.
Leila concordou com a cabea. Depositou mais um beijo na testa
de Vicente, levantou-se e saiu. Ao chegarem na sala, Nelson
conversava com Srgio. Assim que elas apareceram, Srgio
levantou-se e correu em apertar sua mo.
 Prazer. Nelson estava me contanto sua saga. Ento a senhora 
a me do Vicente!



 Sou. Mas deixe a senhora no cu, por favor. Chame-me de
Leila.
  muito jovem para ter um filho com a idade de Vicente.
 Engravidei muito novinha. Eu mal havia completado dezessete
anos de idade quando Vicente veio ao mundo.
Marisa sorriu.
 Vou fazer um cafezinho para ns. Gostei muito da senhora, quer
dizer, de voc. Quero saber sobre essa sua busca pelo filho
perdido.
Leila sentou-se entre Nelson e Srgio.
 Sinto muito que tenha encontrado seu filho neste estado.
 Eu no sinto nada. So anos  sua procura. Agora, nem que eu
o tenha por pouco tempo, no vou abandon-lo.
 Vicente nunca foi de muitos amigos. Quem no o conhece
acredita que seja metido, esnobe e arrogante. Confesso que ele
seja um pouco genioso, mas se observarmos sua histria de vida,
notaremos que tudo foi uma defesa. Vicente machucou-se tanto,
teve tantas feridas emocionais que criou uma barreira para no se
deixar machucar mais.
 Imagino que tenha tido uma vida difcil.
 Pois teve, Leila, como a maioria de ns. O fato de ser
homossexual j  de causar muito desconforto. A sociedade
condena, acusa-nos como se resolvssemos virar gay da noite
para o dia.



Atualmente,

o

mundo

vem

compreendendo

que

a

homossexualidade no  boa nem ruim, mas apenas uma condio
natural, notada em todas as civilizaes e em todos os tempos, e
absolutamente comum nos seres da natureza  disse ela, num
tom mais srio.
 Nem todo mundo enxerga assim. Vicente foi expulso de casa,
seus familiares viraram-lhe as costas. Ao saberem que ele estava
doente, pediram, por favor, para que no entrssemos mais em
contato. Uma das irms ligou semana passada querendo saber se
o apartamento era mesmo dele. Afinal, esse apartamento vale uma
boa nota.  Eles no tm esse direito. Esto mais interessados
num apartamento do que na sade de Vicente?
 Infelizmente essa  a verdade.
 As pessoas contaminadas pelo HIV so dignas de carinho e
respeito.



 Essa  a sua viso e de mais uma meia dzia. At entre o meio
homossexual h forte preconceito. A maioria dos amigos de
Vicente afastou-se. Alguns alegaram no saber lidar com doenas,
outros tm verdadeiro pavor de toc-lo e serem contaminados.
 Absurdo! Hoje sabemos como se transmite o vrus. Tocar,
abraar e beijar no contamina, muito pelo contrrio, dignifica um
portador do vrus.
 Eu tenho percebido o quanto Vicente sofreu com a rejeio dos
amigos e familiares. Se pudesse escolher de fato, eu no gostaria
de nascer assim.
 No diga isso.
 Voc  homossexual?
Leila meneou a cabea para os lados.
 No. Eu vivo com Nelson.
 Ento no imagina o que  sentir o peso do preconceito.
 Mas de certa forma todos sofremos preconceitos.
 Discordo  respondeu Srgio.
  a pura verdade. Sofre-se preconceito porque  homem,
porque  gay, porque  mulher, porque  gordo, porque  magro,
porque  baixo, porque  alto, porque  negro, porque  branco...
todos ns, de alguma forma, sofremos com o preconceito, em
maior ou menor grau.
 O preconceito  uma chaga que deve ser banida da sociedade
 ajuntou Nelson.
 Eu nunca havia notado o preconceito por esse ngulo 
replicou Srgio.
 Pois   disse Leila.  Eu sofri preconceito por ser mulher, por
ter engravidado sem casar.
  duro ter de manter as aparncias.
 Voc  assumidamente gay?
Srgio engoliu em seco.
 No. Nem poderia.
 Por qu?
 Porque tenho de impor respeito s pessoas. Um homossexual
no impe respeito a nada nem ningum.
 Voc est sendo preconceituoso!  exclamou Leila.
 Eu sou professor. Se meus alunos descobrirem que sou gay,
eles vo me recriminar. Se a direo da escola desconfiar de
minha opo sexual, serei demitido.



 No se trata de opo, mas de orientao sexual. Por acaso
voc optou por ser gay?
 Claro que no! Por que iria receber os dedos acusadores da
sociedade? Melhor seria gostar de mulher. Mas eu no sinto
atrao.
 Deve respeitar-se acima de tudo.
  fcil falar.
 Eu tenho um filho que  homossexual e mesmo que o tenha
encontrado agora, nunca iria evit-lo ou conden-lo por conta de
sua sexualidade. Eu tenho um grande amigo que est para voltar
ao Brasil que  homossexual. Ele  como um filho para mim. Nunca
tive preconceito, muito contrrio. Sempre ajudei Roberto a assumir
sua homossexualidade e estar sempre do seu lado.
 Por acaso ajudou?
 Muito. Ele tornou-se um homem respeitado.
 As pessoas no trabalho sabem de suas preferncias sexuais?
Ele  gay assumido?
 Roberto no grita pelos quatro cantos do mundo que 
homossexual, mas no esconde de ningum suas preferncia. Ele
convive bem com sua orientao sexual.
 Parece o Cludio.
 Quem  esse?
 Meu amigo. Ele  gay e acha tudo natural.
 Esse seu amigo tem uma boa cabea.
 Para mim  muito difcil. Eu luto todos os dias com a aceitao
de minha homossexualidade.
 Precisa fazer uma terapia, procurar ajudar-se a si prprio. Se
voc continuar em desequilbrio seu corpo logo vai somatizar essas
emoes negativas e voc vai ficar doente.
Srgio levantou o sobrolho e bateu trs vezes na mesinha de
centro.
 Deus me livre e guarde!
 Mas . Eu tenho lido muitos livros sobre o poder do
pensamento. Se voc ficar se colocando para baixo, achando que
no presta, que no merece ter uma boa vida porque  gay, o que
voc espera que a vida lhe d?
Srgio no respondeu. Marisa chegou com uma bandeja. Havia um
bule de caf, xcaras e uns docinhos.
 O caf est uma delcia. De primeira classe. Sirvam-se.



A conversa fluiu aprazvel e no fim da tarde Leila e Nelson se
despediram de Srgio e Marisa.
 Amanh estarei de volta.
 Bom mesmo  respondeu Marisa.  Eu fui escalada para voar
amanh. No sei quando volto. Srgio tem de aulas e no
podemos deixar Vicente sozinho. Ele depende de muitos cuidados
e no pode ficar sozinho.
 Uma enfermeira...
 Seria maravilhoso, mas no temos condies.
 Eu vou arrumar uma.
 Mesmo?
 E a partir de amanh virei todos os dias e ficarei com ele at
Srgio chegar do trabalho.
 Agradeo, Leila.
 No tem de agradecer. Eu  que tenho de agradecer a vocs de
estarem ao lado do meu filho. Dessa vez vou cuidar dele.
 O que foi que disse?  perguntou Nelson.
 O qu?
 Dessa vez vai cuidar dele. Por que dessa vez?
 Algo me diz que meu esprito precisava passar por essa
experincia. Sinto que eu j tive oportunidade antes de cuidar de
Vicente e no o fiz. Agora vou cuidar. Com todo o amor do mundo.
Finalmente chegou a grande oportunidade de Leila amparar e
cuidar do filho. Se em outra vida Victor fora abandonado, nesta
nova oportunidade, reencarnado como Vicente, receberia, mesmo
em pouco tempo, todo o cuidado e carinho do mundo.

Captulo 28

A chegada de Roberto foi festejada com muita alegria. Sua me,
seus irmos, cunhada e sobrinha, alm de Leila e Nelson, estavam
todos no saguo de desembarque do aeroporto.
O rapaz foi calorosamente recebido. Surpreendeu-se com o
tamanho e beleza de Rafaela. Ela estava to bonita e to mocinha!
 Tio, eu vou ser mdica tambm.
 Mesmo?
 . Tenho tanto orgulho de voc, vejo-o to dedicado nos
estudos e no trabalho. Quero seguir seu exemplo e me tornar uma
boa mdica.



 Tem que gostar de lidar com gente. Eu nasci para isso.
 Acho que eu tambm.
Roberto cumprimentou os demais. Helena estava com boa
aparncia. Eliana estava mais madura e mais bonita. Ricardo e
Anne pareciam o casal mais feliz do mundo. Ele notou certa
tristeza nos olhos de Leila.
 Pensei que fosse ficar feliz em me ver.
Ela o abraou e uma lgrima escorreu pelo canto do olho.
 Temos muito que conversar. Voc acabou de chegar de viagem,
deve estar cansado e Rafaela estava louca para v-lo. Eu e Nelson

viemos

para

recepcion-lo.

Amanh,

quando

estiver

mais

descansado, gostaria que fosse em casa para conversarmos.
 Posso ir amanh cedo.
 Eu tenho compromisso. Passo o dia fora. Chegarei em casa por
volta das sete da noite. Gostaria de jantar conosco?
 Adoraria.
 Maria est morrendo de saudades. Quer porque quer lhe fazer
bife com batata frita e mostrar que cozinha melhor que Dalva.
Ele sorriu.
 Eu vou comer a comida das duas, podem avis-las. E nada de
competio. Conheci pratos maravilhosos. A culinria francesa 
soberba. Mas confesso que senti muita saudade do arroz e feijo e
principalmente dos bifes com batatas fritas da Dalva e da Maria.
 Estarei esperando-o. Sete e meia, est bem?
 Est. Mas, espere a. Vocs no vo almoar em casa?
 Hoje no vai dar. Amanh conversaremos.
Leila e Nelson despediram-se de Roberto. O jovem percebeu que
algo muito triste acontecera com sua querida amiga. Ele resolveu
que iria v-la naquela mesma noite. Correu na direo do casal.
 Leila, diga a Maria que vou jantar em sua casa hoje  noite. Eu
almoo, descanso um pouco e vou para sua casa.
O sorriso nos lbios dela j dizia tudo.
 Obrigada, criana. Sabia poder contar com sua ajuda.
Leila despediu-se mais uma vez e, ao entrar no carro, pediu para
Nelson lev-la at o apartamento de Vicente.
 Esse seu amor e a maneira como encara a doena de Vicente...
 algo divino.
 No tem nada de divino nisso.
 Como no?



 Eu o amo incondicionalmente. Quando chegamos nesse estgio
do sentimento, tudo fica fcil. Nada  drama, nada  ruim.
 Ficou longe tanto tempo e quando o encontrou...
 Eu estaria mentindo se dissesse que no queria ver meu filho
bem e saudvel, vendendo sade, rindo e se divertindo. Adoraria
que pudssemos viver muitos anos juntos, lado a lado. Entretanto,
a vida nos impe desafios. Eu quero aproveitar cada minuto ao
lado de Vicente.
 No deixou que o remorso dominasse seu corao.
 Jamais. Meu amor por Vicente est acima de tudo.  bom
lembrar que amor nunca se esquece e nunca se apaga. Pela
eternidade afora, os meus laos com Vicente sero de amor, do
mais puro amor. Isso no tem preo.
Nelson admirou-se pela fora com que Leila imprimia cada palavra.
Ele a abraou e a beijou demoradamente nos lbios.
 Eu a amo.
 Eu tambm o amo.
Nelson assentiu com a cabea e deu partida. Meia hora depois
chegavam ao Copan. Leila aproximou-se da respectiva portaria e o
rapaz sorriu.
 Como vai, D. Leila?
 Bem, Samuel.
 Veio cuidar do filho?
 Vim.
 A senhora no falha um dia. Faz meses. O seu Srgio sai e a
senhora chega. A senhora sai e o seu Srgio chega, sem contar a
enfermeira, que acabou de sair. O Vicente est sempre com
companhia.
 Augusta saiu?  perguntou Leila, estupefata.
 Foi comprar alguma coisa na farmcia. Disse que volta em cinco
minutinhos.
Leila correu e se dirigiu ao hall de entrada. Nelson colocou a mo
sobre seu ombro.
 Calma.
 Como calma? Meu filho no pode ficar um minuto sozinho.
Pegaram o elevador e chegaram ao andar de Vicente. Quando
saram do elevador, sentiram um cheiro cido, algo ptrido.
 Vem do apartamento dele  exasperou-se Nelson.
Abriram a porta do apartamento e a cena no era das mais



agradveis. Srgio havia sado meia hora antes. Leila se atrasara
um pouquinho para recepcionar Roberto no aeroporto e Augusta
havia se ausentado apenas alguns minutos para comprar um
antibitico que acabara. Pois esse pouco tempo foi crucial na vida
de Vicente. Sozinho e alheado, com os lapsos cada vez maiores de
memria, ele levantou-se da cama assim que Augusta desceu para
a farmcia. Quis tomar banho, mas no encontrou o banheiro.
Vicente tirou a fralda e caminhou pelo apartamento procurando o
chuveiro. Como as diarrias voltaram a ser constantes e ele no
mais tinha controle do intestino, o lquido fecal estava por toda
parte. Ele estava sentado numa poltrona, nu, olhar perdido, todo
sujo.
 Quem  voc?  era sempre essa pergunta que ele fazia, fosse
para Leila, para Srgio ou para qualquer outra pessoa que
aparecesse.
 Leila. Sua me.
 Minha me! Deus trocou minha me. Afastou-me daquela bruxa
e me deu voc. Uma fada. Voc  minha fada no ?
As lgrimas escorriam tanto pelos olhos de Leila com de Nelson. A
cena era muito deprimente. Vicente estava nu e a magreza do
corpo era assustadora. Para se ter uma idia de sua aparncia, ele
se assemelhava queles presos de campos de concentrao na
Segunda Guerra Mundial. Os ossos estavam saltados, a pele tinha
uma colorao indefinvel, feridas pelo corpo eram tantas que mal
dava para se notar a exata colorao de sua pele.
Vicente tinha prximo de um metro e oitenta de altura. Antes da
doena, pesava algo em torno de setenta e cinco quilos. Tinha um
corpo esguio, naturalmente torneado. Atualmente, se estivesse
pesando trinta e cinco quilos, era muito. Nelson o colocou nos
braos com bastante facilidade. Leila correu at o banheiro e abriu
as torneiras da banheira. Temperou a gua. Em seguida Nelson o
deitou na banheira e comearam a banh-lo e limp-lo.
 Eu me sujei. Sou ruim.
 Voc no  ruim.  um bom garoto.
 No sou. Sou mau. Nunca fui suficientemente bom.
Leila passava a esponja com suavidade para no machucar ainda
mais as feridas abertas.
 Diga: Estou contente com minha sexualidade e comigo mesmo.
Vicente balbuciava as palavras. Tinha bastante falta de ar.



 Estou co... Contente com a minha sexualidade.
 E comigo mesmo.
 Comigo mesmo.
 Eu sou amado e protegido por Deus.
 No sou.
 Repita comigo. Eu sou amado e protegido por Deus.
 Mas no sou! Deus no pode gostar de mim. Deus no pode
amar uma bicha!
 Eu amo voc.
 Voc me ama?
 Muito.
 Ento Deus tambm pode me amar?
 Pode.
Vicente batia as mos na gua.
 Oba! Deus me ama. Que bom!
 Continue repetindo. Deus me ama.
Terminaram o banho e paciente e cuidadosamente Leila o
enxugou. Fez curativo nas feridas que estavam abertas e
purulentas. Nelson a ajudou a colocar a fralda e vestiram-lhe um
roupo bem macio. Augusta chegou em seguida e estava
constrangida, os olhos rasos d'gua.
 Desculpe D. Leila, mas eu me preocupei quando acabou o
antibitico. Sei que no deveria deix-lo sozinho, mas...
Leila a cortou de maneira cordata.
 Voc no tem culpa de nada. Em vez de se desculpar, ajude-me
na limpeza da sala.
  para j, senhora.
 Obrigada.
Vicente balbuciou:
 Estou com sono. Estou cansado.
 Nelson vai lev-lo para a cama.
 Fica comigo?
 Vou ficar. At Srgio chegar.
 Ah, no.
 Eu gostaria, mas Srgio  seu namorado. Ele tem o direito de
ficar ao seu lado.
 Quem  Srgio?  perguntou aparentando cada vez mais um
total distanciamento da realidade.
Nelson tinha de voltar ao escritrio. Estava com uma boa carteira



de clientes e precisava ir. Despediu-se de Leila e ficou de busc-la
por volta das sete da noite.
 Se precisar de algo no hesite em ligar.
 Ficaremos bem. Pode ir.
Vicente dormiu praticamente o dia todo. Augusta media a presso
e a temperatura. Leila procurava conversar com ele falando sobre o
poder do pensamento positivo, da mudana de crenas e atitudes,
do amor por si prprio. s vezes ele ficava bem lcido, abraava-a
e pedia para nunca abandon-lo.
 No me abandone mais.
 Eu nunca vou abandon-lo, meu filho.
Leila lia trechos de livros de auto-ajuda e ele fazia fora para
entender. Depois desistia.
 De que adianta? Essa doena est me consumindo todo.
 A doena pode acabar com seu corpo fsico, mas nunca atingir
seu esprito. Tenho certeza de que seu esprito est se tornando
forte cada dia que passa.
 Eu no queria mesmo esse corpo. Est estragado. A AIDS est
acabando com ele. Ser que quando eu morrer vou para o inferno?
 Claro que no!
 Eu pequei muito. Sa com muitos homens. Muitos. Minha vida foi
uma busca incessante de prazer no sexo.
 A sua busca pelo prazer no tem nada a ver com a doena. O
problema est aqui  ela tocou de leve na cabea dele.  Os
pensamentos  que molda nossa realidade, nossa vida.
 Eu no vou para o inferno ou para o umbral?
 Quem disse isso?
 Uma vez assisti a um programa de televiso onde um conhecido
esprita afirmava com convico que os aidticos vo para o
umbral.
 No ligue para esses comentrios carregados de preconceito.
Voc no  aidtico.  uma pessoa que vive com AIDS.
 Mas o que ele fala  lei.
 Nem tudo o que se fala  verdade.
 Como se sabe quando falamos a verdade?
 Quando o corao se abre e entende aquele ensinamento como
verdade. Tudo que oprime e aperta o peito no tem a ver com as
verdades da vida.
 Eu no gostei do que ele falou. Disse que a AIDS veio para dar



uma lio nos gays.
 Voc acreditou meu filho?
 Acreditei.
 O que me diz de uma criana que nasce com AIDS? Ela nem
tem ainda a sua sexualidade definida e nasce com o vrus. Por que
essa criana veio ao mundo assim?
 Nunca pensei nisso.
 E as mulheres que foram infectadas pelos maridos que as
traam pelas costas, fosse com travestis, prostitutas ou garotos de
programa? E o que me diz dos drogados, que no tem nada a ver
com sexo? Ou dos hemoflicos, que receberam transfuso de
sangue contaminado?
 Essa doena no  mesmo s de homossexual. Tem razo.
 Pode ter comeado no meio gay, mas no  e nunca ser
exclusivamente uma doena de gay.
 Voc me faz to bem. Parece o Carlos.
 Por qu?
 Ele fala palavras parecidas com as suas. Ele no me condena,
diz que eu atra essa doena porque sempre me senti
marginalizado e menosprezado.
 Faz sentido.
 Eu o namorei muitos anos atrs. Fui muito rude. Ele terminou o
namoro porque eu o traa com outros. Fui mau.
 Precisa arrancar essa crena de que voc  mau. Voc fez o
que tinha de fazer. No foi nem bom, nem mau. Se pudesse fazer
diferente, com certeza faria, porm voc fez o melhor que pde.
 Assim eu me sinto menos culpado. No gosto de magoar as
pessoas.
 Somos responsveis pelos nossos sentimentos. Ningum nos
magoa. Ns  que nos deixamos magoar.  uma questo de
deixar-se invadir ou no pelo pensamento alheio.
 Dessa forma sinto-me melhor.
 Precisa nutrir sua mente com pensamentos positivos acerca de
si mesmo.
 Mas eu vou morrer.
 E da? Pelo menos sua conscincia vai estar mais lcida.
 Se eu melhorar minhas emoes no vou para o umbral?
 De forma alguma. Quem estiver desesperado ao morrer, ou
seja, quem no estiver em paz consigo mesmo acabar indo para o



umbral por questo de desequilbrio emocional e, por conseguinte,
afinidade energtica, visto que se trata do local ideal para receber
espritos perturbados.
  mesmo?
 Se voc morre e no aceita sua condio de morto, fica
desesperado e reclama pela vida que lhe foi tirada, acaba indo
para o umbral, imediatamente. Isso serve para qualquer um,
independentemente de raa, cor, religio, orientao sexual ou
classe social.  uma condio de bem-estar interior. Quem morre
em paz consigo mesmo vai para as vrias colnias espirituais que
se perdem no espao.
Vicente esboou um sorriso.
 Quero ir para uma colnia. No quero ir para o umbral.
 Vamos tratar de mudar os pensamentos.
 Ser que tem uma colnia s para gays?
 Acho que sim.
 Imagine que delcia? Uma colnia cheia de espritos gays!
Leila riu da imaginao criativa e temporria do filho.
 Estou com fome. Quero um suco.
Ela foi se levantar, mas Augusta fez sinal com as mos. Levantou-
se e foi lhe preparar um suco. Depois que Vicente bebeu, o
interfone tocou. O porteiro avisava da chegada de Carlos. Leila
pediu para que o rapaz subisse.
Carlos foi recebido por Leila com caloroso abrao.
 Vamos encher o ambiente de boas vibraes.
 Isso mesmo, Carlos, ajude-me a manter o apartamento numa
boa vibrao, por favor.
 Como est Vicente?
 Alguns momentos de lucidez, outros de alheamento.
 Seu esprito est querendo deixar o mundo fsico, mas sua
mente ainda est presa na culpa.
 Tenho ajudado Vicente a incorporar padres de pensamentos
positivos para que ele parta para o plano espiritual sentindo-se em
paz consigo mesmo.
 Creio que podemos fazer um bom trabalho. Nunca  tarde.
 Obrigada por cuidar do meu filho. Voc sempre arruma um jeito
de dar uma passadinha.
 Fao isso de corao.
 Vicente me disse, num momento de lucidez, mais uma vez, que



o traiu e o feriu emocionalmente. Diz-se arrependido.
 Ele se deixa levar pela culpa, pelo remorso. Eu no atra Vicente
na minha vida por acaso. Sempre fui muito sonhador. Queria ter
um prncipe encantado como namorado, igual dos contos de fada.
Eu me apaixonava e me transformava em outra pessoa. Eu
deixava de ser eu mesmo somente para agradar meu parceiro.
 Voc distanciava-se de sua verdade e inconscientemente seus
namorados captavam isso e acabavam por deix-lo.
 Exatamente. Eu sou cem por cento responsvel por tudo o que
me acontece. Quando conheci Vicente, ele queria que eu viajasse
com ele para Nova York. Eu tinha de trabalhar e me forava a
viajar s para agrad-lo. Se eu queria comer pizza e ele queria
peixe, eu nem discutia. A gente ia comer peixe. Eu deixava meus
gostos, minhas vontades, tudo de lado, acreditando que assim a
relao seria perfeita e meu companheiro jamais me abandonaria.
 E no percebia o quanto estava se apagando e se tornando uma
pessoa sem atrativos.
 Por certo. O sexto sentido de Vicente percebeu que eu fazia de
tudo para deix-lo feliz. Nunca impunha uma vontade minha, um
gosto sequer. Ele se cansou de ter ao lado uma vaca de prespio
em vez de um namorado.
Leila riu.
 Voc  lcido. Cada dia mais gosto de voc.
 Eu tambm a adoro.
Foram para o quarto. Entraram e cumprimentaram Augusta,
sentada numa poltrona prxima da cama. Vicente, ao ver Carlos,
perguntou:
 Quem  voc?
 Carlos. Seu ex-namorado.
 Meu ex-namorado chama-se Srgio.
Leila interveio.
 Srgio  seu atual namorado.
 Voc me ama?
 Amo sim. Diga ao Carlos uma frase bonita a seu respeito.
 Eu me amo e me aceito do jeito que sou.
Carlos bateu palmas.
 Bonito. Parabns.
 Estou com sono. Quero dormir.
Vicente virou a cabea de lado e adormeceu. Leila fechou as



cortinas e acendeu o abajur do criado-mudo.
 Vou deixar a porta entreaberta. Vamos para a sala.
Carlos assentiu com a cabea. Chegaram  sala e sentaram-se
prximos um do outro no sof.
 Como espiritualista, o que sente?
 Acredito na continuidade da vida aps a morte do corpo fsico.
Acho inconcebvel que venhamos ao mundo para viver sem mais
nem menos. Se fosse assim, Deus faria com que todos nascessem
iguais e tivessem as mesmas oportunidades. Vicente est a um
passo de partir.
 Concordo. Por mais que me doa, eu no vejo alternativa e
tambm sinto que ele esteja prximo do desencarne.
 Vamos orar para ele. A orao sempre ajuda.
Leila assentiu com a cabea. Deram-se as mos e fizeram sentida
prece. Depois, Leila tornou mais serena.
 Eu acredito na existncia de outros mundos alm deste que
habitamos.
 Eu tambm.
 Diga-me, como foi que voc mudou? Srgio me disse que voc
sofreu muito, mas eu o vejo to sereno.
 Depois que Vicente me abandonou, quer dizer, depois que me
senti abandonado por seu filho, eu fui ao fundo poo. Fiquei muito
mal acreditando que os homens no valiam nada, que os gays s
queriam saber de sexo e mais nada. Eu era a nica vtima do
Universo, sempre o trado, o largado.
 Da percebeu que as coisas no funcionavam assim.
 Exatamente! Um amigo meu foi aos Estados Unidos e, quando

voltou,

contou-me

maravilhas

sobre uma palestrante,

uma

orientadora espiritual que estava causando furor por conta de suas
novas idias acerca da vida.
 Mesmo?
 Sim. E, algum tempo depois, meu atual namorado trouxe o livro
da Louise L. Hay.
 Eu j ouvi falar nela.
 Ela nos ajuda a ter uma vida plena e feliz, por meio da mudana
de nossos pensamentos. E, de um tempo para c, Louise Hay
remou contra a mar do pnico que aterroriza o mundo por conta
do surgimento da AIDS. Ela mostrou que pela mudana de crenas
e atitudes para melhor, um doente pode evitar que a AIDS se



espalhe pelo corpo.
 Impressionante. Ela conseguiu algum resultado positivo?
 Sem dvida. H alguns anos, Louise iniciou em sua prpria
residncia um grupo de apoio com a participao de seis homens
diagnosticados com AIDS. Pouco tempo depois, o encontro
semanal j contava com mais de oitocentas pessoas e continuou
crescendo. Obviamente que sua residncia no comportava mais
tanta gente e tiveram de fazer os encontros num auditrio, em
West Hollywood, bairro de Los Angeles, na Califrnia.
 Mas que idia brilhante. E ela deu continuidade a esse
magnfico trabalho?
 Por certo. Os encontros continuam e at hoje so ministrados
por Louise Hay. Mais uma vez ela iniciou um movimento de apoio
e, acima de tudo, de amor. Foi nessa poca que ela escreveu o
livro da AIDS, baseado em suas prprias experincias com o grupo
durante as semanas que se encontravam. Ela foi capaz de mostrar
algo de bom atacando o pnico instaurado na populao e fazendo
uma abordagem positiva da doena. O livro  conhecido no mundo
inteiro e tem ajudado milhares de pessoas contaminadas,
independentemente de sua orientao sexual. No Brasil, o livro
recebeu o nome de A vida em perigo.
 O livro  fcil de ser encontrado?
 Em qualquer livraria do pas. Nesse livro, em particular a autora

ajuda-nos

a

enxergar

como

a

AIDS

ou

outras

doenas

consideradas incurveis pela medicina tradicional podem ser
vencidas pelos poderes positivos e curativos de nossa mente.
 Adoraria ter esse livro.
 No seja por isso.  Carlos abriu sua pasta e dela retirou um
exemplar:  Pode ficar com voc. Acabei de comprar.
 Para mim?
 Pode ficar de presente. Gosto de presentear as pessoas com
livros, principalmente os que ajudam a transformar nossa vida para
melhor. Depois eu compro um exemplar para mim.
 Obrigada.
Leila abraou-o e em seguida ouviram os gemidos de Vicente e a
voz de Augusta.
 Voltemos ao quarto. Vamos encher Vicente de idias positivas.
 timo.



Captulo 29

A tarde se despediu com um belo pr-do-sol e, quando algumas
estrelas despontavam no cu, Srgio chegou ao apartamento de
Vicente. Ele praticamente se mudara para l. Ia para seu
apartamento uma vez por semana, para pagar a empregada, pegar
correspondncias e mudas de roupas.
Ele passou numa padaria e comprou alguns frios. Sabia que Carlos
estava l e que em breve Dnis tambm se juntaria a eles. Srgio
no se preocupava com a comida, pois a alimentao de Vicente
era especial e Augusta fazia suas refeies em restaurantes da
redondeza.
Dnis abriu a porta.
 Pensamos nas mesmas coisas. Eu trouxe uma torta. Carlos
comprou alguns refrigerantes. Ah, a empregada do Carlos fez
umas comidinhas especialmente para o Vicente.
 Carlos, passou a ela as restries e recomendaes do mdico?
 Sim. Nada de gordura. Legumes cozidos e amassados, sopas,
nada que o obrigue a mastigar.
 A me dele tem trazido comida todos os dias. Pelo menos
estamos conseguindo manter Vicente bem alimentado.
 Leila partiu h pouco. Ela queria falar com voc, mas parece
que um amigo querido chegou de viagem e ela quer conversar com
ele sobre Vicente.
 Ela comentou comigo sobre esse rapaz.  mdico e 
infectologista.
 Quem sabe ele saiba de algum medicamento, de alguma droga
que ajude no combate da doena?
 No sei  disse Srgio entristecido enquanto colocava os
pacotes sobre a pia da cozinha.  Vicente est por um fio. No
creio que ele tenha chances de se recuperar.
 Tudo  possvel.
 Se ele estivesse melhor, se seu corpo no fosse to atacado por
esse vrus maldito, creio que eu acreditaria numa possvel
recuperao.
Carlos apareceu na soleira da porta e interveio:
 Vicente quer morrer. Nem que esse amigo de Leila nos consiga
uma frmula miraculosa, nosso amigo deseja partir deste mundo.
 E o que ele poderia querer?  perguntou Srgio.  Ela pegou



uma doena incurvel e, pior, uma doena carregada de
preconceito. Eu desejaria morrer tambm.
 A questo no  querer ou no morrer. Todos tm o direito de
decidir quando queremos ir embora deste mundo, mesmo que
inconscientemente. Vicente decidiu que no quer continuar aqui.
Nos seus momentos de lucidez, acredita que seu corpo esteja todo
purulento e cheio de chagas porque ele foi sujo, praticou sexo a
torto e a direito. Ele acredita que esteja purgando no corpo fsico
todas as tentaes pelas quais se deixou seduzir.
 Mas ele no pode acreditar ser sujo somente porque fez sexo.
 Todavia, ele acredita que abusou. E joga todo esse sentimento
de culpa sobre o corpo. Tenha certeza de que quando ele partir
para o plano espiritual, seu perisprito estar praticamente
saudvel.
 Ouvi dizer que quem morre de AIDS purga no umbral  disse
Dnis.
 Papo furado, conversa para boi dormir.
 Mas a pessoa no estaria em pecado?
 E o que  estar em pecado? Acredito muito mais numa culpa
infringida a ns mesmos. Quando no nos aceitamos do jeito que
somos, iremos arcar com as conseqncias funestas oriundas
dessa postura de baixa auto-estima. Vicente no se julga uma boa
pessoa. Deixou-se levar pelo preconceito, pela rejeio e no ficou
ao lado de si mesmo para enfrentar os dedos acusadores de uma
sociedade moralista e que simplesmente condena as pessoas por
conta de sua conduta sexual.  Carlos fitou o nada por instantes e
depois finalizou:  Assim que desencarnar tenho certeza de que
Vicente vai ficar muito bem.
 Como tem certeza disso?  indagou Srgio, de maneira
desconfiada.
 Eu sinto que ele vai ficar bem. E quanto mais lhe mandarmos
vibraes de amor, melhor ser. A energia de amor ajuda na
recuperao daqueles que queremos bem. Carlos ajudou no
preparo dos lanches. Convidaram Augusta, mas ela preferiu ficar
ao lado de Vicente. Logo estavam os trs conversando e comendo,
num clima de aparente tranqilidade. No meio do lanche, aps
outros assuntos, Srgio pousou sua mo sobre a de Carlos.
 Voc mudou muito nos ltimos anos. Eu o achava to inseguro
e pegajoso.



 Pegajoso?
 Sim. Desculpe a franqueza. Entretanto, voc no se parece nem
um pouco com o Carlos de anos atrs. Est mais maduro, tem uma
postura totalmente diferente das pessoas que conheo.
 Eu vivia mergulhado no mundo das iluses. Acreditava que
precisava de algum ao meu lado para poder me dependurar. Eu
nunca vi um namorado como um companheiro, mas como um
cabide, onde eu depositava todas as minhas expectativas e
desejos. Claro, sempre que o namoro comeava a ir por gua
abaixo, eu colocava a culpa no parceiro. Descobri com o tempo
que eu sufocava as pessoas com as minhas carncias.
 O que fez com que mudasse da gua para o vinho? Seu
temperamento hoje  to doce, to sereno.
 Depois que Alaor passou pela minha vida, tudo mudou. Eu fiquei
muito mal emocionalmente. Ele se separou da esposa para ficar
comigo.
 E no ficou...
 Pois . Alaor deslumbrou-se com o mundo gay. Como ele
sempre foi um homem muito atraente, seu ego no resistiu aos
inmeros assdios. Alaor logo notou que eu havia sido a ponte
para a vida que ele tanto desejou.
 Voc o tem visto ultimamente?
 No. Ele desapareceu. Eu mudei muito e no tenho mais
freqentado boates e saunas. Desde que conheci Dnis temos feito
outros programas. Viajamos nos fins de semana, vamos a
concertos, teatros, cinemas, restaurantes. Gostamos de receber e
de ir  casa dos amigos.
 Provavelmente Alaor deve estar pulando de galho em galho 
interveio Dnis.
 Por que diz isso?
 Porque quando vim para a capital e decidi me assumir, percebi o
quanto a carne  fraca e o quanto somos constantemente
bombardeados pelas tentaes do mundo gay. As condutas e
regras no meio so mais flexveis que no meio heterossexual. Ns,
homens, somos seres ultra-sexuais e por conta disso no  fcil
domar o nosso bicho. Nosso instinto animal fala mais alto e temos
de exercer grande controle sobre nossa vontade para no nos
deixar cair em tentao. Alaor ficou fascinado com a possibilidade
de sair com vrios parceiros diferentes ao mesmo tempo. Preferiu



esse tipo de vida. No est certo nem errado,  simplesmente uma
maneira que seu esprito encontrou para realizar todas as fantasias
que talvez ele tenha reprimido ao longo de muitas encarnaes.
 Voc  feliz ao lado de Carlos?
Dnis sorriu.
 Bastante! Eu demorei a me aceitar como homossexual. Acreditei
que viria para a capital e tudo seria fcil. No foi.
 E antes de vir? Como era sua vida no interior?
 Uma confuso sem tamanho. Havia um garoto na minha cidade
que eu infernizei bastante. Ele aparentava ser gay e eu, bvio,
percebia que de alguma forma ramos parecidos. Contudo, eu
tinha raiva de mim por sentir desejo por homens. Acabei por
descontar minha ira sobre o coitado do Roberto.
 O que voc fazia?
 Eu era to diferente anos atrs! No queria saber de estudar,
andava com uma turma barra-pesada. Eu me obrigava a sair com
garotas e, percebendo que no me satisfazia mais raiva eu sentia.
Eu amolava o Roberto. Eu tinha um amigo mais velho, o Plnio. Ele
era mal encarado, um cara at perigoso. Mas eu o achava lindo.
Desejava ter intimidade com ele. Entretanto, nunca poderia me
entregar assim de bandeja. Eu usava o Roberto. Fazia com que ele
tocasse,  fora, o Plnio, e s vezes o fazia me tocar tambm s
para diminuir esse meu desejo louco pelo mesmo sexo.
 Coitado do garoto.
 Arrumei emprego numa metalrgica e sofri um acidente em
seguida. Precisei de uma transfuso e sabe quem me salvou?
Srgio meneou a cabea para os lados.
 No.
 Roberto.
Carlos aquiesceu:
 Veja como a vida acaba criando situaes para que possamos
refletir sobre nossos atos. Ao ser socorrido pelo colega que tanto
azucrinou, Dnis percebeu o quanto estava sendo rude consigo
mesmo.
 Eu pedi perdo ao Roberto e tempos depois vim para So
Paulo. Fico feliz de ter pirado quando cheguei. Fui fazer terapia
algum tempo depois e conheci o Carlos e estamos juntos at hoje.
Se depender de mim, ficaremos juntos para sempre.
Carlos piscou para o namorado.



 Muito bonita essa histria. Pena que eu no saiba o que  amar
 tornou Srgio.
 Nunca amou Vicente?  perguntou Dnis.
 No. Eu sempre fui meio parecido com o Carlos. Tinha um
comportamento parecido com o dele. Sempre acreditei num

companheiro

como

algum

para

suprir

todas

as

minhas

necessidades. Quando conheci o Vicente estava cansado de pular
de galho em galho. Ele me parecia um bom sujeito, embora
Cludio nunca tenha aprovado nosso namoro.
Carlos objetou:
 Hoje entendo a postura de Cludio. Ele  seu melhor amigo e,
embora no saiba, por falta de conhecimento, Cludio  dotado de
extrema sensibilidade. O que noto  que seu amigo percebeu que
Vicente estivesse com o vrus. Algo em sua essncia lhe dizia que
Vicente era uma ameaa para voc.
 Isso  loucura. Quando conheci o Vicente no existia AIDS.
 No existia porque no sabamos de sua existncia. H estudos
hoje que apontam para casos de AIDS nos anos cinqenta. H
pacientes que morreram na dcada de setenta de causas
desconhecidas e a cincia hoje afirma categoricamente que a
morte desses pacientes foi ocasionada pela AIDS.
 Voc diz que Cludio percebia no Vicente...
... Que ele estivesse doente  concluiu Carlos.  No vejo que
seja algo pessoal. Cludio tinha medo de que algo ruim lhe
acontecesse.
 Por falar nisso  retrucou Dnis  Voc j fez o teste?
Srgio fechou os olhos e levantou-se abruptamente da mesa.
Enquanto se dirigia para a sala, disse numa voz apavorada:
 No quero falar sobre isso!
Carlos e Dnis nada disseram. Abaixaram os olhos e continuaram
comendo os lanches.
Augusta cochilou na poltrona. Vicente dormia e, ao seu lado, o
esprito de Gina alisava com delicadeza seus cabelos.
 Ele est por um fio  falou Otaclio.
 Ainda precisa ficar mais um pouco no mundo terreno. Muito em
breve vai se libertar e partir para a ptria espiritual. Vamos
continuar em vibrao. Vicente precisa de nossas oraes para
que os fios que o prendem ao corpo fsico sejam desatados.
 Srgio no anda bem.



 Nada podemos fazer Otaclio. Srgio atraiu a doena para si.
 Quer dizer que ele vai ter um fim igual ao de Vicente?
 Cada caso  um caso. Srgio tem determinados padres de
pensamentos e crenas semelhantes s de Vicente. Lembre-se
que em sua ltima vida Srgio teve problemas em aceitar-se
homossexual. Vicente tem a facilidade, se assim podemos dizer, de
transferir para o fsico todas as suas emoes conturbadas.
 Ele somatiza no corpo.
 Exatamente. Outros conseguem transformar pensamentos e
atitudes e reverte o quadro. Por isso que, de todas as doenas que
se conhecem na Terra, pelo menos existe um caso de cura. Se
existe pelo menos um caso de cura que seja,  sinal de que tudo 
reversvel.
 Noto que a aura de Srgio est sem brilho e com alguns
buracos.
 A falta de brilho  pela descrena na vida. Inconscientemente,
Srgio deseja morrer. Dessa forma, no teria mais que lutar contra
seus desejos e sentir-se-ia livre do preconceito. Ele se engana
acreditando que ao deixar o corpo fsico vai se livrar de seus
tormentos. Vamos lhe dar um passe reconfortante.
Otaclio anuiu com a cabea e foram at a sala. Srgio estava
cabisbaixo, mos entre as tmporas, evitando pensar no que lhe
parecia o bvio: que ele estivesse contaminado pelo vrus.
 Eu no quero adoecer como Vicente. No quero.
Gina aproximou-se e pousou delicadamente a mo sobre a fronte
dele.
 No se deixe impressionar. Voc  nico. O esprito de Vicente

precisa

passar

por

essas

experincias

porque

ele

assim

determinou. Voc pode fazer diferente.
Enquanto Srgio atormentava-se com a possibilidade de estar com
o vrus, Gina e Otaclio lhe ministravam um passe na altura da testa
ajudando-o a ter um mnimo de paz mental.

***

Leila chegou em casa apreensiva. Foi  primeira vez em meses
que teve vontade de sair mais cedo da casa do filho. Aproveitou a
visita de Carlos e Dnis e deixou o apartamento bem antes do
horrio habitual. Ligou para Nelson e ele no podia sair para peg-



la. Estava numa importante reunio com um cliente.
Ela pegou um txi e quando entrou em casa ligou para Roberto.
Pediu que ele viesse imediatamente  sua casa.
O rapaz chegou e a abraou com carinho.
 Eliana me contou sobre seu filho. Sinto muito.
 Eu sinto pelo sofrimento dele. Por outro lado estou feliz e
aliviada porque o encontrei. Esses meses tm sido os mais
importantes de toda a minha vida.
 No  fcil lidar com doena.
 Eu entendo e aceito que Vicente tenha de passar por essa
dolorosa experincia. Sei que seu esprito est crescendo bastante
com tudo isso. Mas ser que no poderamos suavizar sua dor?
Ser que no existe nada que possa ajud-lo h terminar seus dias
com dignidade?  perguntava ela, profundamente emocionada.
 Eu entendo sua angstia. Atendi a muitos casos em Paris. No
sei quem sofre mais, se o paciente ou os amigos e familiares.
 So tantos antibiticos, remdios de todo o tipo, mas nada para
debelar esse vrus. Nada.
Roberto pegou Leila pelo brao e a conduziu at o sof. Sentaram-
se.
 Depois que voc foi embora e Eliana me contou toda a histria
de Vicente, liguei imediatamente para o Dr. Vidigal.
 Eu falei com ele h meses e, embora pronto para me prestar
todo e qualquer esclarecimento, no podia me oferecer nada em
termos de remdio.
 H uma droga que aparentemente ataca o vrus.
Os olhos de Leila brilharam emocionados. Havia uma luz no fim do
tnel.
 Onde eu a encontro?
 No  to fcil assim. Ela  importada e h enorme burocracia
para consegui-la. Como o professor Vidigal faz parte da equipe que
coordena o programa nacional de AIDS, acho que poderei
conseguir esse medicamento.
 Eu pago o que for preciso. Dinheiro no  problema. Que
medicamento  esse?
 Chama-se zidovudina, mais conhecida como AZT. Trata-se da

primeira

droga

anti-retroviral

aprovada

pelo

FDA,

rgo

responsvel pela liberao de drogas nos Estados Unidos, que se
assemelha ao nosso Ministrio da Sade. Um estudo mostrou a



eficcia desse medicamento em prolongar a sobrevida dos
pacientes em etapas avanadas da doena. Houve tambm uma
diminuio na incidncia de infeces oportunistas, ganho de peso,
melhora na capacidade funcional e elevao das clulas CD4
nesses indivduos.
 Quer dizer que essa droga pode curar Vicente?
 A principal funo do AZT  impedir a reproduo do vrus da
AIDS ainda em sua fase inicial.
 H uma chance...
 Serei muito honesto com voc, Leila.  Ele apertou a mo dela
com fora, transmitindo-lhe coragem:  Eu usei esse medicamento
com alguns pacientes em Paris. Embora ele ataque o vrus, seus
efeitos colaterais so terrveis. Muitos pacientes at tm uma
sobrevida maior com a utilizao do AZT. Outros, infelizmente,
esto com seus corpos to debilitados que mal resistem aos
efeitos. Embora aparentemente eficiente no controle do vrus, o
medicamento provoca efeitos colaterais significativos nos rins, no
fgado e tambm no sistema imunolgico dos pacientes. Alm
disso, houve uma diminuio da efetividade da droga, com melhora
imunolgica parcial e transitria, demonstrando aparecimento de
resistncia  droga e falha teraputica.  uma faca de dois gumes.
 Gostaria que fosse ver o Vicente. No estado em que se
encontra, no sei se ele poder tomar um remdio desses. Mas, se
for  nica sada, por que no tentar?
 Voc est certa. Por que no tentar?
Leila sentiu-se aliviada. Seu filho, mesmo muito doente, poderia ter
a chance de melhorar. Afinal, tudo era possvel.
Roberto combinou de conversar com Vidigal no dia seguinte e, se
tudo corresse bem, em dois dias ele teria os comprimidos para dar
a Vicente.
De alguma forma, no dia seguinte, Leila acordou com forte
sensao de que a morte do filho se aproximava. Acordara naquele
dia determinada a ir ao apartamento de Vicente e no arredar o p.
Nelson tentou demov-la da idia de ficar. Srgio disse-lhe que
poderia ir para casa descansar, que Augusta cuidaria bem de seu
filho, contudo, algo dentro dela insistia que ficasse.
  corao de me  disse para Nelson e Srgio.
 Voc est cansada. No precisa conversar com Roberto e
combinarem de ele vir aqui para ministrar essa droga nova para o



Vicente?
 No, Srgio. Eu vou ficar. Falei h pouco com Roberto e ele me
disse que conseguiu algumas cpsulas. Amanh combinaremos o
horrio.
 Ento v para casa. Descanse.
 No sei por que, mas no quero ir. Preciso estar ao lado de
Vicente.
Leila no percebeu, mas os espritos de Gina, Otaclio e Venceslau
estavam no quarto de Vicente. Enquanto Gina sussurrava palavras
positivas e inspirava Leila a ficar, Otaclio e Venceslau comeavam
a desprender os ltimos laos que prendiam Vicente ao corpo
fsico.
 Fique. Converse com seu filho.
Leila pensou ser sua mente a lhe falar.
 O que poderia falar para meu filho?  perguntou para si, em
pensamento.  Vicente me parece estar em coma.
 Ajude-o a partir. Diga-lhe para no ter medo. Sua hora chegou e
ele est bem amparado por amigos espirituais que o querem muito
bem.
Leila registrou as palavras de Gina e ajoelhou-se prximo da cama.
Pousou suas mos sobre as do filho. Aproximou-se de seu ouvido
e comeou a sussurrar as palavras sugeridas por Gina.
 V, meu filho. V embora. Deixe este mundo e principalmente
este corpo to cansado e debilitado. Liberte seu esprito para uma
nova etapa. No tenha medo. Deixe-se partir.
Ela ficou por um bom tempo falando essas frases para o filho.
Encorajava Vicente a deixar aquele corpo doente, coberto de
feridas e libertar seu esprito para outra etapa em seu caminho de
evoluo.
O esprito do filho registrava as palavras doces, carinhosas e
encorajadoras da me. Aos poucos, a vontade de seu esprito foi
se sobrepondo  de sua mente, antes presa e temerosa de partir
para um local que ele acreditava lhe ser totalmente desconhecido.
O medo foi se esvaindo e a vontade de morrer foi aumentando.
Seu organismo, debilitado demais, no resistiu, e s onze horas
daquela noite, uma tera-feira fria e chuvosa, o corao de Vicente
parou de bater.

Captulo 30




O corpo de Vicente havia sofrido tanto com a doena que Leila
decidiu no fazer velrio. Tomada por uma fora descomunal, firme
e decidida, ela preferiu que o corpo do filho fosse direto para o
crematrio.
 Chega de sofrimento. Meu filho terminou sua misso neste
mundo. Fiz tudo o que esteve ao meu alcance.
Srgio abraou-a e as lgrimas custavam a cair. Ele estava em
choque.
 Sinto muito, Leila  balbuciou ele.
 Sinto por todos ns  disse ela, olhos marejados.  Vicente
estava pronto para partir. Agora precisamos vibrar para que ele
fique em paz. A vida continua. Temos de seguir em frente.
 Ele foi um bom amigo. Mesmo aprontando comigo, era boa
pessoa.
 Voc vai se refazer, Srgio, tenho certeza.
 Tudo foi muito triste. No quero mais saber de namorar.
 Diz isso agora porque est cansado, triste e abatido. Daqui um
tempo nossas vidas voltaro ao normal e no sabemos o que nos
est reservado.
Srgio nada disse. Afastou-se de Leila e aproximou-se da cama.
Abaixou-se e beijou a testa de Vicente.
 V com Deus.
Em seguida, Srgio saiu do quarto e trancou-se no banheiro. Jogou
um pouco de gua no rosto e por mais que tentasse, no
conseguia chorar.
Augusta despediu-se de Leila com os olhos cheios d'gua.
 A senhora tem um corao de ouro. Espero poder rev-la.
Leila a abraou com profundo carinho.
 Obrigada por cuidar de meu filho com tanto carinho. Nunca vou
me esquecer de sua dedicao.
Roberto e Vidigal preencheram o atestado de bito, enquanto
Nelson e Srgio tomavam as providncias com funerria e outras
burocracias.
Eles vestiram Vicente com uma roupa que ele gostava muito 
conjunto de blazer e cala preta combinados com uma camisa de
seda com gola de padre. Otaclio e Venceslau colocaram o esprito
adormecido numa maca e rumaram para a colnia especializada
em atender desencarnados de AIDS.



Gina deu um passe reconfortante em Leila e Srgio. Depois,
encheu o ambiente de energia tranqilizante e serena. Carlos e
Denis, ligados s foras espirituais superiores, fizeram uma espcie
de ponte e ajudavam a manter harmonia no local.
Srgio ligou para os parentes de Vicente. As irms deram graas a
Deus que ele morrera e os pais nem quiseram saber de se
deslocarem at So Paulo para o enterro. A irm de Vicente ainda
foi categrica antes de bater o telefone na cara de Srgio:
 Aproveite e queime tudo o que for de Vicente. Espero que o
infeliz apodrea no inferno!
Poucos amigos compareceram ao crematrio. Foi uma cerimnia
simples e, em vez de um padre ou pastor, Leila optou por msica.
Pediu que comeassem com uma msica de Vivaldi e terminassem
com a Ave-Maria, de Charles Gounod, durante aqueles dez
minutos em que o caixo fica exposto para os presentes.
Antes de colocarem o corpo de Vicente no caixo, Leila tirou a
correntinha que ganhara de Roberto. Abriu a mo j fria do filho,
colocou a correntinha e disse, entre lgrimas:
 Leve ela com voc. No se esquea. Quando olhar para ela,
repita: Eu sou amado e protegido por Deus.
As semanas foram se arrastando. Augusta recebeu seu pagamento
e logo foi trabalhar na casa de uma amiga de Leila, pois o marido
havia sofrido um derrame e precisava dos cuidados de uma
enfermeira.
Srgio agradeceu a ajuda prestada pelos amigos, Cludio estava
no exterior a trabalho e no pde ir ao enterro. Assim que chegou
ao Brasil, alterou seu vo e desceu em So Paulo. Precisava dar
um abrao e confortar seu grande amigo.
Ainda em choque, Srgio no derramou uma lgrima nos ombros
de Cludio. Contou-lhe sobre os momentos finais e como sentira
sua falta. Cludio no podia ficar na cidade, pois tinha de retornar
ao trabalho no dia seguinte. Props a Srgio de aproveitar as frias
de julho e passar uns dias com ele no Rio de Janeiro.
 Acho que preciso de novos ares. Preciso juntar os pertences de
Vicente. Eu e Leila vamos lev-los a uma instituio de caridade.
Vamos doar os mveis e eletrodomsticos.
 Os abutres no vieram reclamar o imvel?
 Vicente, nos momentos de lucidez fez a venda para Leila. Ela
prometeu a ele que, quando morresse, ela iria vender e doar o



dinheiro para instituies ligadas a AIDS. A famlia dele
enlouqueceu. As irms ficaram possessas.
 Vicente teve um lindo gesto.
 Ele no era to mal como voc sempre o julgou.
 No gostava dele.  diferente. Tenho o direito de gostar ou no
das pessoas. Acho que no fundo pressentia que voc fosse passar
por esses momentos nada agradveis.
 Mas tive de passar.
Cludio o abraou com ternura e o beijou na testa.
 Faa o que tem de fazer e v para o Rio o mais rpido possvel.
 Mais alguns dias e resolvo tudo. Vou passar a semana que vem
em sua companhia.
 timo. Voc precisa descansar.
Srgio correu para se desfazer dos pertences de Vicente. Queria
enterrar essa fase de sua vida. Havia passado por tanta dor, tanto
sofrimento e no momento queria esquecer-se de tudo. Em poucos
dias ele se desfez do apartamento inteiro. Ficou com um
aviozinho em miniatura que Vicente adorava. Leila s quis o
porta-retrato com aquela foto de Vicente que ela tanto adorava.
Ele entregou a chave do apartamento para Nelson e em seguida foi
para casa. Quis tomar um banho, terminar de fazer sua mala e ir ao
encontro de Cludio.
No banho, enquanto se barbeava, Srgio percebeu uma pequena
mancha vermelha na altura do pescoo. No quis dar trela para
seus pensamentos.
 Deve ser uma espinha  disse para si, na tentativa de no
pensar no pior.
Ele se enxugou, trocou de roupa e pegou a mala. Voltou para o
espelho e ajeitou a roupa no corpo. Novamente notou a marquinha
no pescoo.
 Bobagem!
Srgio estava de jejum h mais de dez horas. Para afastar os
pensamentos conflituosos que se apoderaram de sua mente,
decidiu fazer o tal do teste anti-Hiv.
 Passo no laboratrio, fao a coleta do sangue e vou para o Rio.
Sei que vou voltar mais sereno e estarei preparado para o
resultado. A morte de Vicente mexeu comigo. Se eu estiver com
isso, pelo menos posso sair na frente e brigar com o inimigo mortal.
No quero terminar como Vicente. No quero!  bradou em alto



tom.
Ele falou, pegou a mala e quando ganhou a rua fez sinal a um txi.
Deu o endereo do laboratrio.
 Seja o que Deus quiser!
Como no incio de nossa histria, Srgio voltou de viagem e foi ao
laboratrio pegar o resultado de seu exame. Ele abriu o envelope,
respirou fundo mais uma vez. Seus olhos foram diretos para o fim
da pgina. Ele leu.
Reagente.
O teste anti-Hiv dera positivo. Ele fora infectado pelo vrus da
morte.
Srgio apertou os olhos com fora, leu de novo, acreditando que,
talvez num passe de mgica, ele tivesse lido errado.
Reagente.
Ele fechou os olhos e moveu a cabea para os lados; tentou, mas
no conteve o pranto. Finalmente, conseguiu chorar. Chorou pelo
sofrimento e morte de Vicente, chorou por ser gay, chorou por estar
com o vrus. Num gesto desesperado, levou as mos ao rosto e
chorou, chorou como havia muito tempo no chorava. As lgrimas
quentes inundavam suas faces e, entre soluos, ele pde balbuciar
uma nica pergunta, que parecia corroer-lhe a alma:
 Por que eu, meu Deus? Por qu?

***

Leila recebia a visita de Roberto diariamente. Carlos e Dnis a
visitavam tambm. Os rapazes procuravam inspirar-lhe bons
pensamentos. Leila absorvia todo o teor positivo da conversa. A
companhia do casal lhe fazia tremendo bem.
 Eu estou muito triste porque no tive oportunidade de ficar mais
tempo ao lado de meu filho. Mas agradeo  vida porque o
encontrei e o ajudei a partir para o lado de l.
 Voc  a verdadeira me coragem  disse Carlos.
 Fiz o que meu corao mandou. Certa vez eu sonhei com uma
mulher e nesse sonho eu via cenas do passado. Era eu naquelas
cenas, embora meu rosto e meu corpo fossem bem diferentes.
 Voc deve ter tido acesso a alguma vida passada  concluiu
Dnis.
 Tenho lido muito a respeito e chego  concluso que sonhei de



fato com uma vida passada. De todas as cenas e situaes
aparentemente vividas, o que s consigo me lembrar  de Vicente.
Eu tenho certeza de que o abandonei. Agora sinto que fiz o meu
melhor. Eu o procurei por toda a minha vida e quando o achei
mesmo doente, no deixei de ampar-lo e o amei com toda a
minha fora.
 Creio que os laos que os unem vm de muitas vidas.
 Se eu pudesse, teria mais filhos. Passei da idade  suspirou
triste.  A experincia com Vicente me mostrou que tenho jeito
para ser me.
 Pode tentar  asseverou Dnis.
 J disse, est tarde demais.
 E por que no pensa em adotar?
 Como assim?
Dnis aproximou-se de Leila. Segurou em suas mos.
 Querida, no v que a vida est lhe dando a chance de ser uma
superme?
 No entendo.
 Quem disse que o filho tem de vir do seu ventre?
 Mas adoo? Para a sociedade eu sou solteira. Vivo junto com
Nelson. No assinamos papel.
 E da?  Dnis apertou sua mo com carinho:  Como
dissemos antes, voc  uma verdadeira me coragem. Passou por
cima de todo o preconceito e amou seu filho do jeito que ele era.
Jamais recriminou Vicente pela orientao sexual ou pela AIDS.
 Eu agiria assim, mesmo que ele no fosse meu filho.
 Existem muitas crianas que nascem com o vrus HIV. Muitas
so rfs porque os pais padeceram da doena. Outras so
abandonadas por pura discriminao.
Leila levou a mo  boca, aterrada.
 Isso  um absurdo!
 Mas acontece aos montes, todos os dias. So muitas crianas
abandonadas pela famlia e pela sociedade.
Carlos interveio:
 Voc vai entrar em contato com essa realidade. Vai doar o
dinheiro da venda do apartamento de Vicente para diversas
instituies. Depois que conhec-las, seu corao vai ser tocado.
 No sei...
 Voc tem dinheiro. Pode comprar uma casa e transform-la



numa




espcie




de




instituio




para




abrigar




essas




crianas

soropositivas.
 Leila, voc poder ser me de muitas crianas! De muitos
Vicentes!  falou Dnis, animado.
Ela no conseguiu conter o pranto. Leila sempre teve o desejo de
ser me e acreditava que s poderia exercer seu lado maternal via
gravidez. O que Dnis e Carlos falavam abria-lhe uma nova e
deliciosa oportunidade de exercer esse papel com toda a fora que
seu corao de me pulsava. Leila os abraou com ternura.
 Esse era o motivo que precisava para continuar vivendo e
seguindo adiante. Eu vou fundar uma instituio com o objetivo de
cuidar dessas criancinhas contaminadas pelo vrus HIV. Vou
conversar com Roberto e sei que ele vai nos ajudar com
medicamentos e consultas. Prestaremos um belo trabalho de
assistncia e, o mais importante, daremos muito amor a essas
crianas.
 Tem razo, Leila  ponderou Carlos.  Essas crianas
precisam estar rodeadas de amor. Ns nos juntaremos a voc
nessa tarefa.
Os trs continuaram entabulando conversa e fazendo planos para
o futuro. Gina, a um canto da sala, no conseguiu conter a
emoo.
 Finalmente Leila conseguiu captar qual a verdadeira tarefa que
vai burilar seu esprito.
 Estaremos presentes ajudando e dando suporte no lado
espiritual  anuiu Venceslau.
 Veja como a aura dos trs est iluminada!  exclamou Otaclio.
 Tenho certeza de que vo fazer um lindo trabalho.
 Os moralistas e fanticos religiosos no mais podero afirmar
que a AIDS  uma punio divina aos gays. Dessa forma, o que
dizer dessas crianas que vm ao mundo com o vrus?
 Sim, Gina  concordou Venceslau.  Espritos que apresentam
um nvel de evoluo maior, s vezes reencarnam com dolorosas
molstias, mostrando evidentemente que no esto agindo no
melhor do que conhecem.
 Essas crianas, embora aparentemente indefesas, abrigam um
esprito que viveu muitas vidas, e muitas vezes no mudou os
pensamentos e crenas de forma adequada  sua evoluo. A
doena vai ajud-las a reverem determinados padres e mudar



para melhor. Foram seres que viveram muitas vidas sem amor
prprio. Rodeados de carinho e amor aprendero o valor do amor
incondicional por si e pelo prximo.
Gina concluiu e, aps deixarem energias revigorantes no ambiente,
os trs partiram rumo  colnia espiritual.

Captulo 31

Srgio entrou em desespero. Pensou em ligar para Cludio, mas o
amigo havia viajado a servio e voltaria entro de alguns dias. Ele
teve medo de revelar a verdade para Leila. Ela perdera o filho h
pouco tempo e, de mais a mais, talvez o resultado do exame
estivesse errado. Ele ouvira dizer que, quando algum era
diagnosticado com o vrus da AIDS, precisava repetir o teste,
norma adotada pelo Ministrio da Sade.
 Vou morrer. Eu vou morrer!
As aulas haviam comeado e ele pedira licena de alguns dias,
inventando que um parente morrera. Como Srgio era professor
que raramente faltava, a escola lhe concedeu a licena.
Por intermdio de um amigo ele foi ao consultrio de conceituado
mdico. Marcou o ltimo horrio, a fim de no ser visto por
ningum. A recepcionista o atendeu de forma lacnica.
 Precisa de recibo?
 Sim.
 Sente-se ali naquela cadeira. O Dr. Solano j vai atend-lo.
Quando terminar a consulta eu lhe entrego o recibo.
 Obrigado.
Srgio falou e se sentou. Podia notar a contrariedade nos olhos da
recepcionista. Ela procurou no tocar nele de forma alguma e,
quando Srgio deu um espirro, os olhos dela brilharam indignados.
Era como se todo paciente que freqentasse aquele consultrio
estivesse portando o mal que fosse aniquilar a humanidade.
Ele procurou ocultar esse sentimento de repulsa e pegou uma
revista. Folheou-a e encontrou uma matria falando de um ator
famoso que acabara de morrer, provavelmente de AIDS, embora a
famlia negasse que a causa mortis fosse decorrncia da doena.
Srgio fechou a revista e a jogou a distncia.
 No agento mais esse assunto.  AIDS em tudo.
Ele afastou os pensamentos com as mos e o mdico o chamou.



Ar srio e sisudo mandou que ele se sentasse numa cadeira na
frente da mesa. Solano fechou a porta. Srgio lhe entregou o
envelope com o resultado. O mdico colocou os culos e leu.
 Voc est com AIDS.
 Mesmo?
Solano largou o papel sobre a mesa e o encarou com expresso
lacnica. Parecia que ele repetia aquela ladainha para todo e
qualquer paciente que entrasse naquela sala, dia aps dia.
 A AIDS  o conjunto de infeces em seres humanos
resultantes do estrago do sistema imunolgico, ocasionado pelo
vrus da imunodeficincia humana  HIV, segundo a terminologia
em ingls.
 Mas...
Solano o interrompeu com as mos. Continuou, mecanicamente:
 O alvo principal so os linfcitos T-CD4, fundamentais, de
extrema importncia para a manuteno da defesa do organismo.
Assim que o nmero destes linfcitos diminui abaixo de certo nvel
 o padro mundial define este nvel como 200 por ml, o colapso
do sistema imune  possvel, abrindo caminho para doenas
oportunistas e tumores que podem matar o doente.
 E agora, doutor?
 Bom, primeiro me diga, voc  homossexual?
 Sou.
 Teve muitos parceiros?
 No muitos.
 Quantos?
 Difcil precisar, doutor. Sei l, talvez uns trinta ao longo da vida.
Solano deu uma risadinha.
 No precisa mentir. Um homossexual na sua idade no transou
somente com trinta homens.
 Mas  a pura verdade. Talvez at menos. Eu nunca fui de ter
muitos parceiros.
 Relacionou-se com algum aidtico?
Srgio no gostou nadinha do tom do mdico. Ainda naqueles
tempos no se usava a palavra soropositivo  que viria com o
advento do coquetel, anos depois  e todo paciente que fosse
diagnosticado com o resultado positivo no teste anti-aids era
pejorativamente chamado de aidtico. Srgio remexeu-se na
cadeira.



 Tive um companheiro que morreu em conseqncia da AIDS.
 Hum, hum. Vocs usavam camisinha?
 No. No era comum. Ningum falava em usar preservativo.
Comeamos a us-lo quando a AIDS se alastrou pelo mundo.
 Acredita que se infectou com ele?
 No sei doutor, mas por que pergunta? Estou infectado mesmo?
Esse resultado no pode estar errado?
 No. Se o teste desse inconclusivo, eu diria que estaramos
entre a cruz e a espada. Mas o teste deu positivo. Voc tem o
vrus.
 Ouvi dizer que temos de fazer outro teste. Quando um teste anti-
Hiv d positivo, temos de refaz-lo.
Solano abanou a cabea para cima e para baixo.
 Tem razo, contudo pelo resultado de seu exame e por essa
mancha no seu pescoo  ele apontou  voc est com AIDS.
Srgio levou a mo at a ferida no pescoo.
 Pode ser uma espinha.
 Que nada! Isso  sarcoma de Kaposi. Tpico de aidtico.
 Eu no sou aidtico.
 Rapaz, voc est com AIDS.
 Mas o teste pode dar falso positivo. Eu no deveria fazer o
western blot para confirmar o resultado? E, pelo que sei, quando
um teste HIV d positivo, o Ministrio da Sade obriga a fazer um
segundo para no se ter dvidas e...
Solano o interrompeu com as mos.
 O diagnstico de soropositividade  naturalmente por sorologia,
ou seja, deteco dos anticorpos produzidos contra o vrus com um
teste ELISA. Contudo, esse teste no detecta a presena do vrus
nos indivduos recentemente infectados. O seu teste deu positivo.
Encare a realidade.
 Mas no tenho de repetir?
 O western blot  um mtodo para detectar protenas em clulas
bem trituradas ou um extrato de um tecido biolgico. O exame
custa caro. Se quiser gastar dinheiro, eu lhe dou uma guia.
 Gostaria de repetir o exame.  lei.
Solano meteu os lbios para frente. Era um cacoete horrvel que o
deixava com aspecto mais aterrador.
 Tenha em mente que voc tem AIDS e a possibilidade de cura 
nula. Existem tratamentos para a AIDS e o HIV que diminuem a



progresso viral, mas no h nenhuma cura conhecida.
 Esto usando AZT nos pacientes.
 Seus efeitos colaterais so horrveis. Garanto que voc iria
preferir morrer a tomar essa droga.
 O que fao?
 Deixe seus documentos em ordem. Prepare-se para morrer.
 Quanto tempo?
 O mximo que voc vai viver, deixe-me ver  Solano meteu o
dedo no queixo e fez de novo aquele cacoete  , digamos, mais
uns dois ou trs anos. E olhe l.
Srgio deixou o consultrio indignado. Teve vontade de estrangular
o mdico, teve vontade de denunci-lo para o conselho de classe.
Ele rodou nos calcanhares e saiu a toda brida. Nem pegou o
recibo. Ganhou a rua e ficou aturdido com as duras e chocantes
palavras. Que espcie de mdico era aquele?
Srgio mal conseguiu conciliar o sono. Estava condenado e ia
morrer. Solano fora categrico. Uma voz o inspirava positivamente:
 Procure Leila. Por meio dela voc vai chegar a Roberto e sua
vida poder ter um final bem diferente do que voc est
vislumbrando no momento.
 Leila sofreu muito com a doena e morte de Vicente. No posso
procur-la. Ela no vai querer cuidar de outro aidtico.
As palavras do mdico continuavam rondando sua cabea e com
muita dificuldade, quando amanhecia, Srgio caiu no sono. Algum
tempo depois de adormecido, seu perisprito desprendeu-se do
corpo fsico e seu esprito sentou-se na cama, meio zonzo. Ele
olhou para Gina e fez cara de surpresa.
 De onde a conheo?
 De algum lugar do passado. Ele sorriu.
 Como no filme do mesmo nome?
 Sim, mas de um passado bem distante. Como anda Gerard?
Srgio teve um lampejo de memria passada e lembrou-se da
cunhada que tanto adorava.
 Gina! Quanto tempo! Ela o abraou com carinho.
 Como est?
 No estou me sentindo bem hoje.
 Vim para conversarmos.
 No quero conversar. Fui condenado  morte. Os mdicos da
Terra acreditam que eu no v durar muito.



 Srgio, quer ir comigo para um lugar bem bonito?
 Que lugar?
 Um lugar especial. Voc vai gostar. No gostaria de ver
Vicente?
O perisprito dele estremeceu.
 Ver Vicente? No.
 Por qu?
 No agentaria v-lo naquele estado. A AIDS acabou com ele.
No suportaria ter de ver aquele corpo doente e castigado por esse
vrus maldito.
 D-me sua mo, venha comigo. Garanto que voc vai se
surpreender.
Num gesto rpido, Srgio ergueu as mos para Gina, e num
impulso volitaram at a colnia espiritual prxima do orbe.
 H um segundo eu estava no meu quarto. Como  possvel?
 Mistrios do Alm  disse Gina, entre sorrisos.
 Que lugar lindo!
 Muito belo. Foi construdo com muito amor para receber
pessoas que necessitam justamente das energias curadoras do
amor.
Eles foram caminhando at um edifcio ladeado por lindo jardim.
Srgio aspirou o perfume gostoso das flores e sentiu agradvel
sensao de bem-estar. Gina o conduziu at a recepo, deu os
nomes dela e dele e uma simptica senhora os levou at a
enfermaria.
 Ele est na enfermaria?
 Est. Recupera-se com rapidez.
 No gostaria de v-lo daquele jeito...
Gina assentiu com a cabea e um rapaz abriu as portas da
enfermaria. Ela deu o nome de Vicente.
 Leito 764.
 Obrigada.
Ao entrarem na enfermaria, Srgio surpreendeu-se.
 Quantos leitos tm aqui?
 Mil e quinhentos. So vinte alas como esta. Cada ala tem mil e
quinhentos leitos.
 Trinta mil pacientes?
 Sim.
  muita gente.



 No. Eles se recuperam rapidamente. Siga-me. Srgio abaixou
a cabea e foi seguindo os ps de Gina.
No queria olhar para nenhuma cama e nenhum doente, estava
farto de tanto sofrimento e caras aterradas e cheias de medo e
pnico. Gina parou e ele levantou a cabea.
 Chegamos.
Ele olhou por cima do ombro de Gina. Vicente dormia
placidamente. E, para surpresa de Srgio, seu rosto e seu corpo
estavam em plena forma. O rosto de Vicente era o mesmo de anos
atrs, antes de ele comear a desenvolver a doena. O corpo, forte
e bem torneado parecia jamais ter estado doente.
 No pode ser!  exclamou em alto tom.  Quando Vicente
morreu seu corpo era uma massa magra coberta de feridas
purulentas.
 O corpo fsico de Vicente era uma massa magra coberta de
feridas. No seu perisprito.
 Como pode ser isso possvel?
 O milagre da morte. Muitos encarnados acreditam que a AIDS
seja uma doena do mundo terreno. Por esse motivo quando
desencarna, o esprito tem melhora imediata.
Srgio queria fazer muitas perguntas, mas o tom de sua voz
acordou Vicente. O jovem olhou para ele e sorriu.
 Voc aqui. Que bom.  o primeiro rosto conhecido.
 Como est, Vicente?
 Nunca estive melhor. Estou to aliviado. Meu corpo no tem
mais erupes e eu consigo controlar meu intestino. Sinto-me
revigorado a cada dia que passa.
 Vicente est melhorando seu padro de pensamento  tornou
Gina.  Conforme vai absorvendo padres de pensamentos
positivos acerca de si mesmo, mais seu esprito reage e melhora.
 Impressionante. Vicente est to bonito, to corado!
 Eu estou me sentindo cada dia melhor, Srgio. s vezes vem
um pensamento triste, negativo e da eu reajo. Tenho de reagir e
combater o negativo em mim. S assim vou me curar.
As lgrimas corriam pelos olhos de Srgio.
 Fico feliz que esteja bem.
 Estou. Devo muito dessa melhora a voc, Carlos e Dnis. E,
sobretudo  minha mezinha.
 Fizemos o melhor. Eu gosto de voc.



 Mas nunca me amou.
 Eu sei,  que...
Vicente sorriu e pegou em sua mo.
 Eu tambm no o amava. Gina me explicou que vivemos juntos
por afinidade de energias. A vida juntou a fome com a vontade de
comer e nos deu a oportunidade de juntos aprimorarmos nosso
esprito.
Fora do corpo fsico a lucidez se amplia e foi nesse instante que
Srgio teve um lampejo e imediatamente o rosto de Vicente se
transformou. Ele gritou:
 O que se passa? Por que mudou o rosto?
Gina explicou.
 Vicente tem lampejos do passado e quando a memria vem
forte seu perisprito adquire a forma da vida pretrita. Esse rosto
que voc v  de Victor.
 Victor?
 Sim. Vicente na encarnao anterior.
 Inacreditvel!
 Tambm lhe peo perdo por ter lhe passado o vrus.
 Quem pode afirmar que foi voc? Eu no era nenhum santinho
e, antes de sabermos da existncia da AIDS, no nos
preocupvamos em usar camisinha. Pode ser que eu tenha me
infectado ou tenha at infectado voc. E, de mais a mais, de que
vai adiantar nos acusarmos? Se tivermos de passar por essas
experincias, elas vo nos chegar de uma maneira ou de outra,
mas vo chegar. Eu no tenho mgoa de voc.
 Eu tambm no  ponderou o rapaz, j com as feies de
Vicente.  Quero encher meu corao de amor. S isso.
Gina interrompeu.
 Ele precisa descansar. Numa outra oportunidade vocs podero
se reencontrar.  Ela virou-se para Vicente:  Agora, procure
relaxar e dizer para si mesmo as frases que a enfermeira lhe
passou.
 Eu me amo. Est tudo bem comigo.
 E onde est a correntinha que sua me lhe deu?
 Aqui!  ele exclamou levantando a mo e dizendo ao esmo
tempo: Eu sou amado e protegido por Deus!
 Isso mesmo. Continue repetindo. Eu tenho de dar uma
palavrinha com Srgio.



 Est bem.  Vicente apertou a mo de Srgio.  Obrigado por

tudo.

Estarei

sempre

lhe

enviando

energias

de

amor

e

tranqilidade. Voc no vai morrer disso.
 Como sabe?
 Eu sinto que voc vai viver muito. A AIDS veio at voc para
que parasse de se colocar para baixo. Voc  perfeito como Deus.
 Obrigado pelas palavras gentis.
Gina despediu-se de Vicente e mais alguns minutos, fora do prdio,
ela e Srgio sentaram-se num banco da pracinha ajardinada.
 Creio que precisamos conversar.
 Quer me preparar para a morte?
 Sim. De certa forma, mais dia, menos dia voc ter de deixar a
Terra, concorda?
 . Um dia todos vo morrer.
Gina pousou delicadamente a mo sobre o brao dele. A
modulao de sua voz era firme, porm doce.
 Voc tem um ponto muito terrvel contra voc nessa competio,
porque a crendice popular  muito forte de que cncer ou AIDS
matam.
 Exato.
 A cincia e a crena nos mdicos so muito fortes e a crena na
doena tambm, portanto, neste particular, por ser uma doena de
conotao sexual, h muito preconceito da sexualidade, da pessoa

doente,

muito

pavor...

E

os

mdicos

ainda

no

esto

compreendendo o que est acontecendo porque cada dia fica mais
confuso. O problema est numa fase difcil e as pessoas esto
muito iludidas e envolvidas por uma doena muito mais psicolgica
que fsica.
Srgio prestava ateno. Gina continuou:
 Voc  um simples homem tentando viver. E o soro-positivo 
uma pessoa entregue  sociedade que no tem mais em si o
respeito e amor por si prprio. No tem mais contato com a sua
essncia e est muito  merc do mundo. Fica difcil de tirar as
garras da sociedade e dos preconceitos que ele mesmo absorveu.
E essa doena  uma manifestao de uma vontade de no viver,
assim como a pneumonia e outras doenas similares. Todo doente
na Terra, antes de morrer, fica aidtico, embora eu no simpatize
com o termo.
Ele arregalou os olhos.



 Todo mundo?
 Sim, porque o que morre em voc  o sistema imunolgico,
qualquer que seja a doena, mesmo se tratando de uma simples
operao.
 Mas como?
 Antes de morrer voc passa por uma perda de proteo da vida
fsica, que  a perda do sistema imunolgico. Quando o sistema
no responde, a pessoa morre. Vou exemplificar. Voc  internado,
faz exames e descobre que tem o vrus HIV. Nunca fez sexo,
nunca esteve no grupo que  considerado de risco. Quer dizer,
segundo a cincia oficial, voc no teria condies de se

contaminar.

Ou

imagine

uma

cirurgia

cardaca.

H

uma

complicao sria na operao, mais os mdicos vo se focar s
no corao.
 Para os mdicos, o problema da complicao no  o sistema
imunolgico, mas o corao, certo?
 Por certo. Opera-se o corao, faz-se o transplante. Digamos
que a medicina no consiga sucesso e o paciente caminha para a
morte. O que est acontecendo? Ele est aidtico, est morrendo.
O sistema imunolgico est desligando, enfraquecendo, at
desencarnar. Todo doente, Srgio, passou pela fase aidtica, ou
seja, de desligar o sistema imunolgico. Isso sempre existiu. Ento,
o que acontece hoje com relao  AIDS?
Ele mordiscou os lbios e respondeu.
 As pessoas esto percebendo a morte.
 Exato! E, quando se comeou a estudar profundamente a morte,
comearam a perceber algo inusitado. As pessoas iam para se
curar, fosse de cncer de pele, de pneumonia, da os mdicos
davam remdio, tratavam do cncer de pele, de pulmo. Mas a
pessoa no resistia ao tratamento e morria. Eram jovens.
 Da veio o alerta, a preocupao.
 Hum, hum. Comearam a achar que o corpo no tinha
resistncia. Foram ento procurar as causas da no-resistncia e
comearam a chamar isso de uma sndrome especial. Acontece
que em determinados grupos sociais a depresso faz parte intensa
e como o sistema pra de funcionar pela vontade de morrer, essas
pessoas apresentavam doenas enfraquecidas pela baixa atividade
do corpo emocional.
 Baixa atividade do corpo emocional?



 Que significa a ausncia da vontade de viver, a entrega para os
processos de morte da afetividade, a ausncia de amor, a falta de
respeito por si. Isso cria a doena.
 Por qu?
Gina percebeu o interesse de Srgio e animou-se. Ele absorvia as
palavras com enorme prazer.
 Quando a homossexualidade era altamente perseguida,
combatida e proibida, os gays no desenvolveram o problema.
Depois que se trabalhou pela sua libertao, a sociedade se tornou
mais condescendente, houve mais compaixo, mais compreenso,
e procurou desenvolver uma viso diferente da sexualidade
feminina e masculina homossexual. Houve uma libertao nessa
tolerncia e ningum mais poderia persegui-los. O que  que as
pessoas fizeram com essa liberdade?
 Continuaram se odiando, se matando e dessa vez no mais por
culpa da sociedade, mas por culpa deles prprios.
 Isso mesmo, Srgio. Essas pessoas experimentaram a
aceitao, a liberdade e assim mesmo continuaram conservando
certos hbitos de rejeio. E no tinham mais o direito de fazer
isso. Elas tinham que se amar, aproveitar a liberdade conseguida,
emancipar-se e se tornar pessoas mais espirituais, mais dignas,
com mais respeito por si e pelo prximo, pelo seu semelhante. Os
que tinham essa maturidade e no o fizeram logo aps que se
efetuou a ligao, no tinham mais proteo csmica e comearam
entrar em deficincia. Essa deficincia foi se alastrando, no s
dentro da comunidade gay como tambm de heterossexuais que,
apesar de viverem numa sociedade liberada de costumes, no
exercem essa tal liberdade. Como exemplo, podemos citar a
independncia da mulher, que hoje em dia no  mais oprimida e 
capaz de exercer sua liberdade e sua vida com mais dignidade. E,
apesar de tudo, continua presa a antigos padres.
 Essas e esses tambm esto sem a proteo e vo direto para
a morte e no para a vida?
 Sim. O homem lutou pela liberdade, pela dignidade e agora no
faz jus. A natureza, nesse caso, no vai proteg-lo. Quando os
gays eram reprimidos e lutavam contra essa represso, ainda
tinham a fibra, a fora e a vontade de viver. Depois, parece que
liberou geral e eles no souberam lidar com isso. A AIDS no est
relacionada ao HIV, mas o que est relacionado  toda a forma de



morte que produz HIV e outras formas de vrus, porque o sistema
imunolgico est num processo de retrao. Dentro do seu corpo
existem pelo menos os vrus de milhares de doenas. O que seu
sistema imunolgico vai permitir desenvolver ou no?
 No sei ao certo...
 Em termos de estruturao e captao urica, voc absorveu
muitos modelos, e eles tm a chance  dependendo do seu
comportamento, da sua situao  de se desenvolverem num
processo e apenas ficar como um modelo. Cada pessoa doente
que voc visita, o seu corpo aprende sobre aquilo. Cada doena
que voc teve ao longo das encarnaes, seu perisprito aprende
sobre aquilo. E depende dele a capacidade de reproduzir tudo isso,
mas se houver condies; caso contrrio, no.
Srgio assentiu com a cabea. As informaes claras e
desprovidas de preconceito lhe faziam muito bem. Gina apertou
sua mo e declarou:
 Compreenda o seguinte: quando o homem no age no seu
melhor, ele cria o problema. Quando o problema se apresenta
epidmico, referem-se a condies de grupos, pessoas que esto
vivendo a vida social muito intensa e por isso eclode na sociedade.
O que voc tem a seu favor, na verdade,  o susto que o paciente
com um diagnstico desse apresenta. Ele acha que vai morrer  e
talvez morra , porquanto est num processo de morte, devido 
falta de espiritualismo da verdade dele, dos sentimentos e da
dignidade dele.
 Todo processo de dignificao do ser humano pode recuperar a
vida?
 Sim, mas para voc dignificar-se  necessrio negar qualquer
mal em voc.  repetir para si: No tem erro em mim. No tem mal
em mim. Eu sou uma coisa bonita e bela!
 Adianta Gina?
 Muito! Imediatamente o vigor espiritual entra em jogo e o
processo desliga, seja uma pessoa com o vrus da AIDS, seja
apenas um problema no corao ou uma diabetes crnica. Se ela
quiser viver como se diz por a... Ela acredita na vida? Ela se sente
uma pessoa inteira e bonita? Ento ela vive.
 Acho que entendi o que voc quer dizer. Vamos supor que um
amigo meu operou o corao, mas acha a vida uma porcaria, tudo
 ruim, ento comea o processo de desligamento, de retrao do



sistema imunolgico dele.  isso?
 Exato. S o bem liberta porque a verdade  o bem. Voc no
pode pensar o mal. Pense o bem, procure o bem nas coisas, negue
o mal.
 Vou tentar Gina, vou tentar.
 Claro que uma pessoa que se deixou levar pela AIDS ao
desencarnar sente um grande alvio porque o corpo fica com
muitas impresses. E, logo que desencarna fica bem, porque esse
processo est bem relacionado  vida fsica. s vezes, o
restabelecimento  imediato.
 Como no caso de Vicente.
 Sim, porque a pessoa morre consciente de que vai morrer.
Ento j est trabalhando no desencarne. Vem para o mundo
espiritual e se revigora, muito embora imediatamente comece o
tratamento.
 Em que consiste o tratamento de quem desencarna por causa
da AIDS?
 Primeiro lema nesta colnia: O mal no existe. Nunca pense o
negativo. Depois de um tempo, o esprito vai para um campo, faz
treinamento e fica por l. Tem uma comunidade especfica aqui
perto desta colnia. Os funcionrios de l recebem esses espritos
e lhes amarram um dispositivo prximo da nuca. Esses espritos
abnegados construram esses campos porque j sabamos da
epidemia.
 E o que acontece com esse dispositivo?
 Esses espritos so estimulados a s pensar coisas boas acerca
de si mesmas. Quando vem pensamento negativo, o dispositivo
capta a energia negativa e toca-se uma campainha.
 E ento?
 O esprito faz prece e melhora, porque ele passa a acreditar
que, na verdade, sua doena  fsica. Na maioria dos casos, as
marcas da doena ficam no corpo fsico e no no perisprito.
Mesmo que venha uma idia negativa, um pensamento ruim, o
esprito olha para si e v que seu perisprito est, digamos,
saudvel. Durante esse estgio do tratamento, o perisprito repete
para si at a energia se transformar em positiva: Tudo vai bem!
Agora estou livre e vou para a eternidade.
 Isso posto, o esprito logo fica bem porque acredita!
 Precisamos aprender a deixar a pessoa portadora de AIDS



morrer com alegria. No ficarmos aflitos, no entrar na crena da
sociedade. Cada um  um.
 Esto certos todos os caminhos.
 Isso mesmo, Srgio. Numa situao dessas, nada de negativo.
 necessrio dignificar a pessoa, falar da alegria da vida, da
perfeio, mostrar o positivismo, o otimismo.
 E melhora, certo?
 Bem, a pessoa vai melhorar com ou sem o corpo, Que diferena
faz o corpo? J pegaram tantos, j largaram tantos. Ainda vo
pegar tantos outros, oras! Claro que temos de preservar o corpo
que temos, mas temos a eternidade pela frente.
 O que posso fazer para no ficar doente, Gina?
 Precisa aprender a sair desse condicionamento terreno e ser
espiritualista de fato, de verdade. Ver a vida bonita, com outros
olhos. Cada um  um processo de vida, um pedao de Deus
caminhando sempre rumo  evoluo.  necessrio treinar sua
mente para atacar a doena.
 Visualizao positiva ajuda?
 E muito. Perca seu tempo, reserve uma hora e converse
consigo, mentalize, veja s beleza e positividade dando fora
mental e a posse de recuperao que seu esprito precisa.
Srgio refletiu toda aquela conversa.
 Eu peguei e terei de arcar com as conseqncias. Farei a minha
parte e procurarei me amar a fim de evitar que a doena me vena.
 Assim  que se fala.
 Mas, Gina, e para quem no tem AIDS? O que fazer para no
pegar ou desenvolver a doena?
 S ver beleza na vida. Deixar vir o entusiasmo da vida,
grandeza, a beleza das coisas. Viver com dignidade, com respeito.
Tratar-se com dignidade e respeito. Ter amor por si e orgulhar-se
de si!
Gina falou com tanta doura que Srgio absorveu cada palavra
com extrema alegria. Ele sorriu para o esprito dela, fechou os
olhos e aspirou o ar puro daquele jardim. Depois, abriu os olhos e
notou quando uma estrela brilhou com fora no cu. Srgio olhou
para ela e se emocionou. Foi ento que sentiu ser perfeito e belo
como Deus.

Captulo 32




Leila empolgou-se com a idia e sentiu em seu peito que era essa
tarefa que abraaria com o maior amor do mundo. Iria acolher e
ajudar bebs e crianas soropositivos. Primeiro veio o apoio de
Nelson. Carlos e Dnis queriam participar do projeto e a animao
deles contagiou Eliana e Helena. Roberto props montar um
ambulatrio, enfermaria, e Vidigal, com seu prestgio, iria tentar

desconto

junto

s

indstrias

farmacuticas

nos

diversos

medicamentos indispensveis para o tratamento das crianas.
Foi com imensa alegria que Augusta aceitou trabalhar na
instituio. Estavam todos felizes e contentes com o projeto.
Roberto estava se destacando como brilhante mdico. Fora
convidado para ser scio de Vidigal em sua clnica particular, alm
de tornar-se seu brao direito no hospital. Mdico conceituado e
um dos maiores especialistas em infectologia do pas, Roberto
tratava seus pacientes com respeito e carinho. Era adorado pela
comunidade mdica, pela mdia e, principalmente, pelos pacientes.
Foi num jantar oferecido por Leila que Roberto surpreendeu-se
com a presena de Dnis. Embora freqentassem a casa de Leila
amide, nunca haviam se encontrado. Emocionaram-se e por fim
se abraaram; definitivamente as mgoas e ressentimentos do

passado

ficaram

para

trs.

Roberto

emocionou

a

todos,

principalmente a Dnis, quando finalizou a conversa:
 Sou mdico e f ardoroso da cincia, porm no posso negar
que algo maior esteja governando o Universo. Ainda no conheo
muita coisa sobre as verdades da vida. A Leila  apontou para a
amiga  tem me esclarecido muita coisa, Mas como convivo com
doentes, eu posso afirmar uma verdade, para mim, irrefutvel.
 O que ?  indagou Dnis encarando-o nos olhos.
 A doena  algo muito mais que uma deteriorao do corpo
fsico. Sempre que estamos doentes, necessitamos descobrir a
quem precisamos perdoar. Quando ficamos presos, emperrados
num certo ponto, significa que precisamos perdoar mais e mais. A
dor, a vingana, a raiva e a tristeza so sentimentos que brotaram
de onde no houve perdo. Perdoar torna-nos livres, alm de
dissolver o ressentimento. E, por essa razo, eu perdo a mim e a
voc, Dnis. Deixemos o passado onde ele merece estar: l atrs.
Os olhos de Dnis marejaram e ele abraou Roberto com muito
carinho.



 Meu amigo! Voc salvou minha vida anos atrs e agora me d
essa lio. Como voc  iluminado!
 No sou abajur. Sou o Roberto. Feito de carne e osso, oras.
Todos caram na gargalhada. Continuaram a conversa, animados e
cada um dando opinies sobre atendimento, tratamento etc.
Rafaela, aspirante a mdica, interveio na conversa. Sentou-se no
colo de Roberto e passou o brao delicadamente pelo seu
pescoo.
 Tio, eu quero ser como voc. Uma mdica dedicada e que ama
a profisso.
 Tenho certeza de que vai ser uma grande mdica. Muitos
escolhem o caminho da glorificao interior por meio do servio no

convvio

com

experincias

profundas,

com

pessoas

de

experincias de vida marcantes, como doena e sofrimento. O
convvio com isso  uma grande estimulao para despert-lo de
sua espiritualidade sem que voc passe por aquilo.  medida que
voc assiste  dor e ao sofrimento, voc est passando com eles,
se purificando e trazendo para si o bem. Quando voc olhar para
um paciente e trouxer em seu corao essa viso iluminada, voc
est se iluminando.  voc no servio do bem... O seu servio,
minha sobrinha, ser glorificar a beleza de Deus, a glria espiritual
e com isso, glorificar o prximo. Isso  santidade, ou seja, 
enxergar com os olhos da alma e despertar o esprito no paciente,
facilitando que aquelas experincias, no caso as doenas, sejam
verdadeiramente sublimes para seu esprito.
 Porque toda experincia do ser humano  sublime.
 Exato! Isso  o que nos faz diferentes, especiais como mdicos
e espiritualistas. Dar o clice da sabedoria para a pessoa beber.
Ela o beijou nas bochechas.
 Eu tambm me sinto diferente. Sinto-me espiritualista. E tambm
serei mdica.
 O estgio em Paris eu lhe consigo, pode acreditar.
 Eu o amo, tio.
 Eu tambm, minha sobrinha. Amo voc.
Eliana bateu na porta e entrou ofegante. Todos pararam de
conversar e viraram os rostos em sua direo. Helena perguntou:
 O que foi filha?
 O Ricardo acabou de ligar. Anne acabou de dar  luz!
 Mas era para a semana que vem  protestou Helena. Eu queria



ir para o Rio e...
Roberto levantou-se de um salto.
 O nen nasceu!  disse emocionado.  Vamos Comemorar.
Eles abraaram-se e em seguida ligaram para a maternidade. Anne
iria dar  luz dali alguns dias, mas a bolsa estourou e Ricardo
correu com a esposa at a Clnica So Jos, no bairro de Botafogo.
Ricardo no cabia em si de tanta felicidade. Agora era pai de
Adriano, um menino lindo e saudvel, com os traos de Ricardo e
os cabelos ruivos de Anne.
Roberto decidiu que iriam para o Rio no dia seguinte. Ligou para
uma amiga, dona de agncia de turismo, e solicitou os bilhetes
para ele, a me, a irm e a sobrinha.
Depois de conversarem com Ricardo e mandarem felicitaes para
Anne, voltaram a se sentar e brindaram a chegada do novo
rebento.
No dia seguinte eles pegaram a ponte-area. Aterrissaram no Rio
de Janeiro pouco depois das dez da manh. Pegaram um txi.
Helena, Eliana e Rafaela espremeram-se no banco de trs e
Roberto sentou-se na frente. Em vinte minutos estavam no
hospital.
Adriano era um garoto muito bonito. Robusto e bem grande,
chamava a ateno no berrio pelo tamanho e pelos cabelos
avermelhados.
Ricardo, abraado a Eliana e Roberto, apontava para o filho pelo
vidro do berrio.
 Meu filho! Olhem que lindo.
 Lindo mesmo  assentiu Eliana.
 Nunca vi criana mais linda! Essa famlia tem melhorado a cada
gerao!  finalizou Roberto.
 Eu tenho novidades para vocs.
 O que ?  indagou Eliana.
 Eu e Anne vamos nos mudar para So Paulo. Recebi uma
proposta para trabalhar na cidade. Vamos ficar juntos e criarei meu
filho perto de vocs.
 Fico feliz de podermos estar juntos.
 Eu tambm, Roberto.  Ricardo falou e encarou Eliana nos
olhos:  Voc vai embora hoje?
 Temos de ir. Rafaela precisa voltar  escola e eu tenho a loja
para cuidar. Uma funcionria me cobriu hoje porque  dia de



semana e o movimento  mais fraco. Contudo, fiquei de retornar
amanh ao trabalho.
 Deixe Roberto voltar com mame e Rafaela. Fique mais um dia.
 Por qu?
 Anne vai receber alta amanh cedo.
 Vocs tm bab e empregada. E, se fosse para algum de ns
ficarmos, seria a mame. Ela est radiante com o nascimento de
Adriano.
 Eu sei querida, mas preferia que voc ficasse.
 No estou entendendo.
 H algum que chega logo mais de Paris.
Eliana sentiu um frio no estmago.
 No me diga...
 Sim. Nicolas vem nos visitar.
 Mas ele vem ver o sobrinho. Nossa histria, se  que aquele
encontro foi histria, perdeu-se ao longo dos anos. Ele se casou
e...
Eliana falava com rapidez. Estava ansiosa. Ricardo a silenciou
pousando delicadamente o dedo em seus lbios.
 Chi! Calma. Nicolas perguntou por voc.
 Jura?
 Sim. Perguntou se voc estava casada, se estava vendo
algum. Disse que se voc estiver livre, gostaria de conversar.
A sua boca secou e Eliana sentiu certa fraqueza. Roberto
aproximou-se e a amparou.
 O que  isso? Ela est doente?  indagou Ricardo.
 No, meu irmo. Isso  comicho de amor, mais nada.
Ricardo caiu numa gargalhada gostosa. Eliana tambm riu. De que
adiantava esconder? Nunca deixara de pensar em Nicolas. Tivera
um ou outro encontro nesses anos, mas nada srio. Ela no queria
admitir, mas seu corao era de Nicolas. Somente de Nicolas.
Roberto a abraou e a enlaou pelas costas.
 Eu volto com mame e Rafaela no fim do dia. Voc fica.
 Mas a loja...
 Eu ligo para a proprietria. Explico que voc ter de ajudar sua
cunhada mais um dia. Voc nunca faltou ao emprego, Eliana. 
funcionria exemplar. Tenho certeza de que mais um dia aqui no
vai atrapalhar em nada a rotina na loja.
 Nicolas no vai ficar muitos dias. Creio que v embora no fim de



semana.  melhor ficar. Precisam conversar. Pelo menos que seja
uma conversa definitiva  disse Ricardo.
 Tem razo. Preciso acabar com essa histria. Para o bem ou
para o mal.
Na tardinha do mesmo dia, Roberto pegou um txi na porta do
hospital e com a me e a sobrinha partiram para o aeroporto.
Durante o trajeto, na altura do aterro do Flamengo, o txi teve de
desacelerar. O trnsito no flua. Roberto perguntou ao motorista:
  sempre assim?
 Assim o qu?
 Esse trnsito?
 No. Deixe-me ligar o rdio e procurar por informaes.  O
rapaz ligou o rdio e procurou uma estao de notcias. No
demorou a saberem que um grave acidente ocorrera no meio da
tarde. O locutor informava:
 Um grave acidente na Avenida Perimetral parou o trnsito ao
redor do centro da cidade. Um caminho desgovernado bateu em
vrios carros e tombou na pista. At o momento so seis as vtimas
fatais. Duas j foram reconhecidas pelo Instituto Mdico Legal, o
mdico Arthur Paulo Cavalcante e o executivo Cludio Ramos
Beneducci.
Helena fez o sinal da cruz.
 Que Deus os tenha.
Instintivamente Roberto e Rafaela fizeram o mesmo. Cerca de uma
hora depois conseguiram chegar ao aeroporto.
Perderam o avio, mas, em se tratando de ponte-area, pegaram o
vo seguinte e chegaram a So Paulo sem maiores incidentes.

***

Eliana cumprimentou a cunhada e passaram a tarde, juntas. Anne
a encorajou a ir para sua casa, banhar-se arrumar-se com aprumo.
Ela e Eliana tinham o corpo parecido.   Ligarei para casa e
pedirei para separar um vestido. Quero que fique radiante para
Nicolas.
 Tenho medo.
 Oras, por qu?
 Faz tanto tempo. Seu irmo se casou, depois se separou,
depois se casou... Talvez esteja desacreditado do casamento.



 Bobagem. Nicolas nunca a esqueceu. Foram os imperativos da
vida que os mantiveram separados. Primeiro as viagens de
negcios, depois a gravidez surpresa e o casamento  fora. A sua
ltima esposa, Giselle, conseguiu o que queria, ou seja, uma gorda
penso pelo resto da vida. Nicolas no se envolveu com mulher
nenhuma depois desse golpe da barriga.
 Tem certeza?
 Acredito que ele tenha dado suas sadas, comum para qualquer
homem divorciado. Mas tudo no passa de extravasar os desejos
sexuais. Meu irmo nunca foi de se apaixonar e eu tenho certeza
de que ele a ama.
 No quero me iludir.
 Pois bem. V para casa. Eu j avisei as empregadas e seu
nome consta na portaria. Use minha sute. Nicolas deve chegar
logo mais.
Eliana assentiu com a cabea. Levantou-se, despediu-se da
cunhada. Quando estava para sair, a enfermeira trazia Adriano nos
braos para ser amamentado. Eliana acalentou o sobrinho nos
braos, rodou nos calcanhares e saiu  procura de Ricardo, que
estava no saguo do hospital.
 Voc  boa pessoa. Merece um homem bacana ao seu lado. Eu
estou to feliz com Anne ao meu lado que adoraria ver voc e
Roberto tambm amando.
 Eu tambm tenho o sonho de ver os trs irmos apaixonados e
felizes.
 Talvez sua hora tenha chegado.
Eliana nada disse. Beijou a bochecha do irmo e saiu em
disparada. Tomou um txi e foi para o apartamento de Ricardo. O
porteiro autorizou sua entrada. Ela subiu, entrou no apartamento.
Uma empregada a aguardava.
 Dona Anne me pediu para passar esse vestido  apontou.
 Nossa!  um Saint-Laurent autntico.
 Vai ficar muito bonito na senhora.
 Obrigada.
A empregada a conduziu at a sute. Eliana despiu-se e tomou
uma ducha reconfortante. Colocou o vestido e um colar que Anne
pedira para que ela usasse. Ela se maquiou e quando terminava de
calar o sapato ouviu a campainha tocar. Seu corao veio  boca.
 Nicolas chegou  disse para si.



Ela respirou fundo, olhou-se pela ltima vez na sua imagem
refletida no espelho. Gostou do que viu. Eliana deu uma piscadinha
e foi  sala. Ela jamais poderia descrever a emoo que sentiu ao
ver Nicolas. Ele estava mais maduro, mais grisalho, mais bonito.
Seu semblante aparentava tranqilidade, embora seus olhos
brilhassem mais que o usual ao v-la. No pde deixar de
exclamar:
 Voc est linda!
 Voc tambm.  Eliana aproximou-se e lhe deu um beijo no
rosto.  Quantos anos!
 Confesso que est mais bela que antes. Est mais madura,
porm continua linda.
 Obrigada.
Ela fez sinal para que se sentassem. A empregada perguntou se
queriam beber algo. Eliana respondeu docilmente.
 Eu mesma vou preparar os drinques. Pode nos deixar a ss, por
favor.
A empregada assentiu com a cabea e se retirou.
 O que bebe?
 Um usque, duplo.
 Est feliz?
 Tive a sorte de chegar ao quarto bem na hora da amamentao.
Peguei meu sobrinho, quer dizer, nosso sobrinho no colo. Adriano
 to lindo!
Eliana sorriu.
 O sotaque aumenta seu charme.
 Creio que nunca vou perd-lo.
Eliana preparou os drinques e levou o copo at Nicolas. Ele
levantou-se do sof.
 Um brinde ao nosso reencontro.
 Um brinde!
Eles bebericaram e voltaram a se sentar. Nicolas tomou a palavra.
 Eu aprendi muitas coisas nesses ltimos anos.
  mesmo?
 Aprendi a me expressar  ele se aproximou.  Sabe Eliana,
quando a conheci fiquei fascinado. Foi amor  primeira vista. 
Eliana engoliu em seco. Agradeceu por estar sentada, pois suas
pernas j estavam bambas. Nicolas continuou:  Eu fiquei
alucinado, apaixonado mesmo, no entanto tive de retornar 



Europa. Depois, bem, voc sabe o que aconteceu.
 Voc se casou e teve um filho.
 Michel  um garoto adorvel. Vive grudado a mim. A me no
liga muito para ele.
 Anne me contou que seu casamento com Giselle foi sem amor.
 No! Houve amor.
Eliana fez fora para no demonstrar a contrariedade.
 Eu pensei que vocs no se amassem e...
Nicolas a interrompeu docilmente.
 Giselle se casou por amor ao meu dinheiro.
 Ah, bom...
Ele pegou em suas mos.
 Senti muito a sua falta. Soube que voc se separou, arrumou
emprego, tem criado sua filha sozinha. Tudo isso tem me
despertado mais interesse, admirao e respeito por voc.
 Fiquei sozinha e tive de me virar. No incio Ricardo me ajudou,
porm tive de ir  luta. Alaor fez de tudo para no me dar um
tosto. Aprendi a me movimentar, a no ficar parada.  muito bom
ser dona de seu nariz, ganhar e administrar seu prprio dinheiro.
Sinto-me realizada.
 Totalmente realizada?
Eliana percebeu a face corar.
 Bom, profissionalmente eu consegui muito mais do que sonhei.
 Tem sado com algum?
 No. E voc?
 Tambm no.
Nicolas apalpou os bolsos do palet e de um deles retirou um
carto.
  para voc.
 O que ?  perguntou Eliana.  Um postal?
 Oui. Sim. Faz anos que o escrevi, mas nunca tive coragem de
mand-lo. Como eu havia lhe prometido, aqui est o carto postal.
Eliana pegou o carto. Uma foto da torre Eiffel ilustrava a parte da
frente. Nicolas solicitou:
 Vire.
Ela virou e leu:
"Quer se casar comigo?"
 Quer?  Indagou ele.
Eliana levou a mo  boca pra evitar um gritinho de felicidade.



 Nicolas, eu...
 Por favor, depois de tantos anos, eu s quero uma resposta.
Sim?
 Sim, claro!
Nicolas no se conteve. Tomou Eliana nos braos e a beijou
demoradamente nos lbios. Ela se entregou ao beijo, s carcias e
foi tomada por forte emoo. Parecia que seu peito ia explodir
tamanho contentamento. Nicolas a pegou no colo e a conduziu
para o quarto de hspedes. Deitou-a na cama e, enquanto a
beijava, tambm tomado sob forte emoo, misturava os idiomas.
 Case-se comigo, seja minha esposa. Je t'aime. Eu a amo.

Captulo 33

Srgio abriu a janela da sala e meteu a cabea para fora. A garoa
continuava a cair sob a cidade. Poucas pessoas andavam na rua e
o cu cinza e nublado parecia estar em acordo com seus
sentimentos.
Desde que recebera a notcia do teste e o diagnstico daquele
mdico insensvel e desprovido de total tato para com os pacientes,
Srgio mal saa de casa. Esforava-se para se levantar e dar as
suas aulas. Ele podia estar doente e emocionalmente fragilizado,
mas nunca deixaria seus alunos na mo. Alis, era o carinho dos
alunos e professores da escola que o animavam a continuar dando

suas

aulas,

fazendo

esforo

hercleo

para

que

ningum

suspeitasse que ele estivesse vivendo uma fase infernal de sua
vida.
Olhou de novo para fora, meteu a cabea no vo da janela e
deixou que algumas gotinhas de gua cassem sobre sua cabea.
Lembrou-se dos acontecimentos tristes que vinham permeando
sua vida havia alguns anos. Enquanto se lembrava, as lgrimas se
misturavam aos pingos da chuva fininha.
 Quanta saudade, Cludio...
Imediatamente lembrou-se de quando decidiu contar ao seu melhor
amigo sobre o resultado de seu exame. Precisava conversar com
algum, ainda mais depois de receber o diagnstico de que teria
pouco tempo de vida. Srgio ficou aterrorizado, no com a
possibilidade de morrer, mas com a arrogncia e falta de tato do
mdico em lhe decretar um fim certo e preciso, como se aquele



homem de aparncia sisuda sentado a sua frente no consultrio
fosse  personificao de Deus.
Srgio fechou a janela e sentou-se numa poltrona. Sua mente
voltou no tempo, anos antes...
Cludio pediu licena na empresa e viria passar trs dias na capital
para dar todo suporte e apoio moral ao amigo do peito.
Infelizmente, Cludio falecera num acidente quando um caminho
desgovernado provocara um engavetamento, Quando Srgio
recebeu a notcia pensou que fosse morrer com o amigo.
 Como pode isso?  ele olhava para o alto e fitava algum ponto
do cu, na tentativa de encontrar Deus.  Estou doente e agora
para piorar as coisas Voc arranca de mim meu melhor amigo?
Que Deus  esse que s pune e maltrata? Estou com raiva de
Voc!
Ele passou dias num mutismo total. O corpo de Cludio chegou a
So Paulo na tardezinha de uma sexta-feira. O velrio correu
madrugada adentro e ele foi sepultado no sbado, no jazigo da
famlia. Fora um baque duro para a famlia e para os amigos.
 Tanta gente ruim no mundo e meu filho morre nesse acidente
estpido?  bradava o pai, durante o sepultamento.
Srgio pensou que no fosse resistir e talvez desmaiasse, Carlos e
Dnis o acudiram. Ficaram lado a lado e puseram Srgio no meio
deles.
 Vamos para casa  ordenou Dnis.
 Ele tem razo. Voc est um trapo. No pode ir para casa desse
jeito.
 Eu no quero mesmo.
Os rapazes o conduziram at o carro e seguiram para a casa de
Dnis. Ele morava numa quitinete no muito longe da casa de
Srgio. Percebendo o mutismo que nele se instalara, Carlos puxou
conversa.
 No repare na baguna que est o apartamento do Dnis. E que
ele est se mudando para a minha casa.
 Mesmo?
 Hum, hum. Decidimos que nos amamos. De que adianta
ficarmos vivendo em casas separadas? Economizamos nas contas
e dividiremos as despesas.
 Toro por vocs.
 Obrigado. Se voc quiser acreditar no amor, aposto que uma



pessoa legal vai aparecer para voc.
 Imagine. Mesmo com a AIDS metendo medo em muitos de ns,
os gays s querem saber de sexo e diverso. Ningum quer
relacionamento srio.
 Quem disse?
 Ningum quer saber de nada. Quando se fala em namoro todos
correm, como se namorar fosse algo terrvel.
 No  bem assim. Existem pessoas que querem saber de
envolvimento e outras que no querem. E isso no  exclusividade
do mundo gay. Os hteros tambm sofrem com isso. Conheo
homens e mulheres que reclamam da mesma coisa  declarou
Carlos.
 E para piorar eu j levei alguns foras pelo fato de revelar ser
soropositivo.
 Quem se rejeita, atrai a rejeio. Fique do seu lado. Conte
consigo e esse novo teor de pensamentos vai lhe trazer pessoas
que no ligam para o fato de voc ser soropositivo.
 Ser que  to simples assim?  indagou Srgio.
 Veja eu e Carlos. Estamos vivendo uma linda experincia a dois
 disse Dnis.
 Vocs so exceo. Nenhum dos dois est infectado.
 Emerson e Josias esto juntos. Emerson  soropositivo e Josias
no. Amam-se e vivem felizes.
 No sabia.
 Pois agora sabe.
 Isso me d esperanas.
 Por que deixar de t-las?  indagou Dnis.  Voc est vivo,
oras!
Srgio mordiscou os lbios. No fundo at acreditava num romance.
Entretanto, o sonho de uma vida afetiva rura com o resultado de
seu exame. Os meninos sabiam do resultado, porquanto depois da
morte de Cludio, Srgio resolveu abrir-lhes o corao. Carlos e
Dnis, alm de discretos, mostraram-se muito mais que amigos.
Ofereceram a Srgio todo tipo de ajuda, inclusive financeira, para ir
a um bom mdico  de preferncia o oposto de Solano  alm de
carinho e compreenso. Dnis interveio.
 Tem sado?
 No quero mais saber de sair. Levei muito pontap da vida.
Quero ficar sozinho no meu canto.



 Existe muita gente boa no mundo, Srgio. Gente to boa como
voc, eu, o Carlos.
 Mas eu agora tenho um defeito de fbrica, que vai me
acompanhar pelo resto da vida. J viram o preconceito que existe
dentro do nosso meio? Qualquer um que apresente sinais da
doena e  Srgio estalou os dedos  as pessoas que esto ao
redor some, afastam-se, tratam o doente de AIDS como se fosse
um aliengena.
 Tudo depende da maneira como encaramos a doena. Se voc
mudar seus pensamentos, suas atitudes, ficar em paz consigo
mesmo e, acima de tudo, ficar ao seu lado, no importa o que
acontea, tenho certeza de que algum vai se interessar por voc.
Carlos concordou:
 Sim. Uma pessoa que teve cncer no pode mais ter direito ao
amor? Um diabtico? Algum que tenha problemas renais?
Problemas todo mundo tem, Srgio.
 Mas o meu pode ser contagioso.
 H como se prevenir. Usar camisinha durante as relaes
sexuais e adquirir hbitos de vida saudveis. Pronto. Que risco
poder oferecer ao seu parceiro se usar camisinha? Nenhum.
 Bom isso ...
 Eu e Dnis usamos camisinha. Confiamos um no outro, porm
adotamos o uso contnuo do preservativo por ser mais higinico.
 Camisinha tornou-se item indispensvel.
 Verdade, Srgio. Com ou sem AIDS, camisinha  acessrio
obrigatrio. No s nos previne da AIDS, mas de outras doenas
sexualmente transmissveis.
 Seu mundo afetivo no vai acabar porque se descobriu
soropositivo. A no ser que voc queira usar isso como desculpa
para no ser feliz.
 Eu nunca amei de verdade.
 Nunca  tarde  observou Carlos.  Eu tambm no creditava
no amor. Depois que conheci Dnis, acreditei. E continuo
acreditando.  Ele apertou a mo do companheiro, um gesto de
carinho.
 O amor... O amor. Ser que terei chances de amar e ser
amado?
 Depende de voc. Primeiro precisa melhorar o teor de seus
pensamentos. Cabea ruim atrai gente em desequilbrio. Cabea



boa atrai gente legal.
 Voc no pode ficar nesse estado depressivo. Precisa agir.
Srgio abriu os olhos e levantou-se da poltrona. Abriu a janela e
aspirou o ar frio. Reagir... Reagir. Essas palavras agora
martelavam sua cabea. Ele novamente olhou para fora e por uma
frao de segundos viu um pedacinho de sol atrs das nuvens.
Parecia um sinal de que as coisas podiam melhorar. Ele sorriu para
aquele raio de luz dourado.  campainha tocou e quando ele abriu
a porta, surpreendeu-se com Carlos.
 O que faz aqui?
 Vim busc-lo.
 Para qu? No quero sair.
Carlos entrou e encostou a porta.
 De nada vai adiantar ficar desse jeito. Vicente morreu, voc
passou por maus momentos. Depois veio a morte de Cludio. As
perdas fazem parte da vida. Precisa saber lidar e aceitar isso. Os
anos passaram e voc no muda.
 No aceito.
 Vai ficar emburrado em casa, metido nesse roupo?
 Eu saio para dar minhas aulas.
 Como se fosse um rob. Acha que esse comportamento vai
mudar o resultado de seu exame?
Srgio estremeceu.
 Est sendo duro comigo.
 Estou sendo realista, bicha! Carlos tinha um jeito engraado de
falar com os amigos. Srgio sorriu.
 Faz tempo que no me chama assim.
 Esqueceu-se de nossa conversa muito tempo atrs? Reagir.
Voc precisa reagir.
 Sei disso, mas...
 Essa tristeza no vai trazer Cludio de volta.
 Eu amava o Cludio. Ele era o irmo que nunca tive. Depois de
passar todo aquele sofrimento ao lado do Vicente, Deus arrancou
de mim meu melhor amigo? No foi justo.
 Deus no tirou seu amigo do mundo. Cludio decidiu que era
hora de partir do mundo. J havia aprendido o que seu esprito
precisava para galgar mais um degrau no caminho da evoluo.
 Ele tinha toda uma vida pela frente. No creio que quisesse
morrer. Nem havia chegado aos quarenta anos!



 Deus no tirou Cludio de nosso convvio. Alis, no meta Deus
nisso.
 Como no? Ele foi sacana, Carlos!
 Voc tem uma viso humanista de Deus. Acredita que Ele seja
um homem, talvez um velhinho, sentado cada dia uma nuvem e
controlando nossas vontades, nossos desejos, criticando quando
fazemos algo errado etc.
 E no  assim? Aprendi desde pequeno que Deus nos vigia
ininterruptamente.
 E como ele poderia? Eu e Denis acreditamos que ns,
conscientemente ou no, escolhemos a nossa hora de ir embora
deste mundo.
 Est me obrigando a acreditar que somos responsvel por tudo
o que nos acontece, inclusive pela nossa morte?
 Sim.
 Bobagem.
 Bobagem ou no, est na hora de sair de casa. Vamos respirar
um pouco de ar fresco.
 Est chovendo.
 E da? Meu carro no  conversvel. Tem capota.
Srgio riu.
 Denis est l embaixo, no volante, esperando-nos.  isso?
 Tudo planejado. Acordamos hoje inspirados a tirar-lhe de casa.
No me pergunte por que, contudo tive uma vontade forte de vir at
aqui e tir-lo de casa. Nem que seja por meia hora.
 Est certo, voc venceu. Vou me vestir.
Dez minutos depois estavam no carro. Srgio cumprimentou Denis
e sentou-se no banco de trs. Carlos sentou-se no banco da frente.
 Para onde quer ir?
 Por a. No d para ficarmos dando voltas pela cidade. Est
garoando e o trnsito, para variar, est horrvel.
 Quer ir a um restaurante?
Srgio naquele momento deu ateno ao estmago. No vinha se
alimentando muito bem.
 Estou com fome.
 Faz tempo que no vamos ao Sujinho. Gostaria de ir at l?
Uma nuvem de tristeza esparramou-se sobre a mente de Srgio.
 Era o restaurante predileto do Cludio. Quantas noites e
madrugadas passamos no Sujinho... Tanta conversa, tanta



intimidade. No sei se seria conveniente e...
 Se comear a evitar os lugares que freqentava com Cludio,
melhor ficar mesmo trancafiado em casa.
 Est sendo muito rude comigo.
 Est sendo muito dramtico. Est se tornando um homem chato
e amargo. Eu no quero andar com um amigo assim.
Srgio surpreendeu-se.
 Como pode falar assim comigo, Carlos?
 Porque sou seu amigo e amigos so sinceros e verdadeiros.
Voc est muito chato, muito para baixo. Dessa forma vai atrair
coisas ruins em sua vida. Pensamentos bons atraem coisas boas,
pensamentos ruins... D para imaginar o que se pode atrair com
uma cabea cheia de negatividade, certo?
 Concordo, mas  difcil colocar isso em prtica.
 V tentando, no seu limite, mas v tentando. O segredo  no
desistir.
 Eu gostaria de ler esse livro que vocs tanto falam.
 Como o prprio ttulo diz, no tenho dvidas de que voc pode
curar a sua vida.
 Mesmo, Carlos?
 Sim.
 Cludio me falava sempre da importncia de manter a cabea
com bons pensamentos.
 Cludio  um esprito muito lcido. Foi por esse motivo que ficou
to pouco tempo entre ns.
 Se quer saber, minha intuio me diz que Cludio est muito
bem  interveio Dnis. Srgio no respondeu. Fechou os olhos e
imediatamente o rosto de Cludio apareceu em sua mente. Ele lhe
sorria. Uma lgrima escapou pelo canto do rosto de Srgio. Os
rapazes perceberam seu estado emotivo e nada disseram. Dnis
ligou o rdio e sintonizou numa estao que tocava msicas
antigas e agradveis. Carlos pegou em sua mo e assim
continuaram o trajeto.

Enquanto

isso,

o

esprito

de

Cludio

tentava

mais

uma

aproximao com Srgio. Desde que desencarnara tentava
aproximar-se do amigo, mas as energias perturbadoras da mente
de Srgio o afastavam. Gina tambm tentava ajud-lo a se lembrar
do encontro que tiveram tempos atrs e conversaram muito sobre
AIDS, mas Srgio criara uma barreira e no aceitava aquelas



idias. Preferia sofrer.
No momento estava com o campo urico menos perturbado e
Cludio pde enfim se aproximar. O esprito cuja luminosidade era
indescritvel estava sentado ao lado de Srgio e procurava
levantar-lhe o astral.
 Estou bem, meu amigo. Foi s uma mudana.
Srgio captava e acreditou estar conversando com a prpria
mente.
 Ser que est bem, mesmo? Sua morte foi to horrvel.
 Aos olhos do mundo tive uma morte trgica, porm eu no senti
um pingo de dor. S me lembro de buzinas, freios e mais nada.
Quando dei por mim, estava numa cama de hospital, sendo
amparado por amigos espirituais.
 Eu me sinto to s. Estou doente e quando mais precisei de sua
amizade, de seu apoio, voc partiu.
 Estarei sempre ao seu lado, mesmo que  distncia,
transmitindo-lhe coragem e fora. No serei sua bab espiritual,
porquanto minha vida aqui deste lado continua seguindo em frente.
Mas com certeza eu estarei presente, voc pode acreditar.
 Logo vou morrer...
Srgio continuava de olhos fechados. A msica que saa dos auto-
falantes era uma bela cano, muito em voga nos anos sessenta,
tema do filme Ao Mestre com carinho. Srgio sorriu e disse para si:
 Ah, Cludio, lembra de quando eu lhe cantava esta msica? Era
uma de minhas prediletas.
 Lembro-me bem. Voc sempre foi desafinado, mas como bom
amigo, eu escutava e s vezes tambm o acompanhava.
 Ser que vamos nos encontrar em breve? Eu vou morrer e...
Cludio o interrompeu.
 Voc vai morrer, assim como eu j morri. Denis e Carlos
tambm vo morrer. Todos que o cercam nesta vida vo morrer.
Faz parte da natureza humana. Mais dia, menos dia, vamos deixar
o corpo fsico. Voc teve um encontro maravilhoso com Gina, onde
ela lhe explicou tanta coisa sobre essa doena, dando-lhe a chance
de mudar suas idias...
A mente de Srgio voltou quela noite do sonho, onde ele e Gina
tiveram um agradvel encontro. Envolvido nos problemas do
mundo e preso  idia de que iria morrer, ele se esquecera
completamente do sonho. Cludio encostou a palma da mo sobre



a testa do amigo. De sua mo saram fagulhas coloridas.
 Lembre-se do que conversaram Srgio. Voc no vai morrer
disso.  s se lembrar.
De repente, tudo veio  tona. Cada frase que Gina havia lhe dito,
toda a explicao sobre ele ter atrado a doena. Srgio abriu os
olhos e disse em alto tom:
 Eu no vou morrer disso! Eu me recuso a morrer disso.
Os rapazes continuaram em silncio. Denis olhou de esguelha para
Carlos e deram uma piscadinha cmplice. Carlos fechou os olhos e
orou pelo bem-estar de Srgio.
Ele continuava conversando consigo mesmo. Arregaou as
mangas da camisa e, conforme passava os dedos pelas veias,
dizia:
 Oi, vrus. Voc entrou no meu corpo, mas no vai me derrotar.
Eu sou forte para combat-lo. Voc pode estar correndo em meu
sangue, mas vai ficar quietinho, invisvel. O meu amor por mim
mesmo  mais forte que tudo.
 Voc est bem?  perguntou Carlos.
 Estou timo. Nunca me senti to bem em toda minha vida.
Acabei de me lembrar de um sonho que tive tempos atrs.
 Ser que voc teve um sonho ou um encontro espiritual? 
indagou Denis.
 No sei, mas foi to real, me fez to bem que no me importa se
foi sonho ou no.  Srgio cutucou Carlos nas costas:  Ei, ser
que seria chato eu me encontrar com Leila?
 Claro que no. Ela tem esperado que voc se manifeste. Por
que pergunta?
 Eu tenho algumas dvidas em relao a minha sade e ela tem
um amigo mdico.
 Um excelente amigo. E excelente mdico  ponderou Denis.
 Eu preciso falar com ela. Ser que ela me receberia?
 Claro. Leila tem grande carinho por voc. Mesmo que no fosse
apaixonado por Vicente, voc esteve do lado dele no momento
mais difcil de sua vida. Ficou ao lado de seu companheiro at o
fim.
 No fiz mais que minha obrigao, quer dizer, eu quis ajudar.
Foi de corao.
 E acha que Leila no sabe disso? Ela sempre pergunta de voc.
Creio que ela vai adorar receb-lo.



O esprito iluminado de Cludio sorria ao lado do amigo.
 Isso mesmo. Reaja. Pense positivo. J que est com um
problema, nada melhor do que encar-lo de maneira positiva. No
se esquea de que estarei ao seu lado, sempre.
Srgio sentiu agradvel sensao de bem-estar. No sabia de
onde havia retirado tanta fora positiva, mas se sentia bem como
havia muito tempo no se sentia. Imediatamente o carro foi
invadido por agradvel cheiro de perfume. Srgio fungou vrias
vezes e perguntou aos meninos, sentados no banco da frente:
 Sentiram o cheiro?
 Que cheiro?  indagou Dnis.
 Perfume. No sentem o cheiro de Lacoste?
 No.
Ele no saberia responder, mas naquele instante era como se
Cludio estivesse ali ao seu lado. Srgio sentiu-se to bem que
esboou um largo sorriso.
 Assim  que eu gosto de v-lo, meu amigo. Cabea erguida e
bons pensamentos. O resto  vida d um jeito. Logo muita coisa
boa vai lhe acontecer. E, quanto a esse probleminha que lhe
apareceu, isso voc vai tirar de letra. Acredite.
As narinas de Srgio ficaram inebriadas pelo perfume de Cludio
at ele descer do carro, prximo do restaurante.
 No sentiram o cheiro?
 No.
Dnis estacionou numa rua transversal e andaram alguns metros
at a esquina da Rua da Consolao. Quando entraram no
restaurante, surpreenderam-se com Leila, Nelson e Roberto. Os
trs conversavam animados e teciam planos sobre a reforma e

aumento

da

instituio,

Eles

se

aproximaram

e

se

cumprimentaram.
Aps os cumprimentos Carlos apresentou Srgio a Roberto. Foi
tudo muito rpido. Dessa vez no foi uma sensao totalmente
nova. Os olhos de Roberto e de Srgio se encontraram e ambos
no conseguiam desvi-los. Ao se darem as mos, Srgio
perguntou:
 J no nos vimos antes?
 No estou certo...
Roberto no conseguia concatenar os pensamentos. No sabia se
sua mente projetava o encontro rpido dos dois na boate, muitos



anos atrs, ou se se tratava de memrias de vidas passadas.
Memrias afetivas de Robert e Gerard. Uma mistura de
sentimentos sacudiu mais uma vez o corao de ambos. Os mais
romnticos diriam se tratar de amor  segunda vista.
 Prazer.
 Prazer  respondeu Roberto.
Leila percebeu a emoo que se apossara de ambos. Chamou o
garom e pediu que juntasse mais uma mesa. Sentaram-se todos
juntos e Roberto ficou de frente para Srgio. Trocaram olhares
significativos durante o almoo.
A refeio correu agradvel e na hora que a conta chegou, Srgio
pigarreou e tomou coragem. Perguntou a Roberto:
 Incomodaria se eu lhe pedisse seu carto e agendasse uma
consulta?
 Uma consulta?
Srgio pigarreou.
 Si... Sim. Uma consulta. Meu ex-companheiro morreu de AIDS
h alguns anos. Eu tenho o vrus e o mdico que me atendeu
naquela poca no foi l muito simptico.
 Terei o maior prazer em atend-lo. Quer ir amanh ao
consultrio?
 Sim.
Roberto tirou um carto da carteira. Em seguida, consultou sua
agenda.
 Pode ser no ltimo horrio?
 Pode.
 Assim ficaremos  vontade. No se esquea de levar todos os
seus exames.
 Est certo.
Todos se despediram e quando Srgio chegou em casa, ele
novamente dirigiu-se  janela da sala. Olhou para o sol que tentava
timidamente se livrar das nuvens e sorriu.
 Obrigado!
Os espritos de Cludio e Gina estavam ao seu lado.
 Agora  com vocs. A vida os reuniu mais uma vez. Dessa vez
no h casamentos arranjados, trapaas, joguinhos de seduo.
No h motivos para que se separem. Vocs tm toda a chance de
viver uma linda histria de amor.
 Como ns iremos viver a nossa  tornou Cludio.



 Sim, meu Cludio, meu Claude, meu amor. Como a nossa.
Gina beijou os lbios de Cludio e em instantes seus espritos
desapareceram, deixando no ambiente agradvel sensao de
bem-estar e, mais uma vez, uma leve fragrncia de perfume
Lacoste no ar.

Captulo 34

Vidigal deu ma batidinha na porta e entrou.
 Vai ficar at tarde?
 Vou  respondeu Roberto.
 Quer jantar mais tarde em casa? Mirtes mandou fazer bife com
batatas fritas. Seu prato predileto. Ela ligou a pouco e pediu que se
juntasse a ns.
Roberto passou a lngua nos lbios.
 Hum, convite irresistvel, mas ter de pedir a sua esposa que
guarde um pouco para mim e comerei amanh.
 Por qu? Tem trabalhado muito.
 Tenho paciente novo.
 Ossos do ofcio. Est certo, garoto. Amanh, pode ser?
Roberto consultou a agenda.
 Pode. Diga a Mirtes que amanh eu jantarei com vocs.
 Humpf!  Vidigal resmungou.  Vou ter de jantar o mesmo
prato por duas noites?
 Vai sim. Amanh vou querer bife com batatas fritas.
 Mirtes est mimando-o demais. Estou com cimes.
 Ela me adora. Fazer o que? Eu sou mesmo adorvel.
Vidigal fez um gesto engraado com os dedos.
 Convencido. At amanh.
 At amanh.
Vidigal se despediu e em seguida a recepcionista trouxe Srgio at
a sala. Ele entrou e ela perguntou a Roberto:
 A consulta vai demorar?
 Vai, Glria. Pode ir para casa. Eu apago as luzes do consultrio.
 Obrigada, Dr. Roberto. At amanh.
 V com Deus.
Srgio sentou-se na cadeira em frente  mesa. Meio sem graa,
entregou o envelope com os exames para Roberto. Enquanto ele
abria o envelope, perguntou:



 Como tem passado?
 Bem. Anos atrs tive uma mancha no pescoo. Descobri ser
sarcoma de Kaposi. Tratei e depois ele sumiu.
 Apareceram outras manchas?
 No. Nunca mais tive nada.
 Voc tem uma aparncia saudvel. Ningum diria ser portador
do vrus.
 Obrigado, doutor. Tenho me cuidado.
  bom cuidar do corpo, com ou sem doena.
 Mudei meus hbitos alimentares e agora procuro fazer
exerccios.
 Bom sinal. E a cabea?
 O que tem ela?
 Como andam seus pensamentos?
 Procuro ter bons pensamentos.
 Esse  o diferencial entre meus pacientes. Os que tm uma boa
cabea, que mudam suas posturas, tm um resultado melhor ao
tratamento.
 Mesmo?
 Sim. Eu diria que oitenta por cento do tratamento em pacientes
soropositivos  mais resultado de uma mente sadia.
 Ouo muito que a medicao tem efeitos devastadores.
 Alguns pacientes respondem bem  medicao. Outros, nem
tanto. Cada caso  nico, porm eu acredito que a mente ajuda
bastante para um tratamento eficaz.
 O senhor pensa diferente.
 O senhor no existe. Sou mais novo que voc.
 Mas  mdico.
 Prefiro que me chame de Roberto. Gosto de ter uma relao
mais humana com meus pacientes. Como se fosse um amigo que
estivesse tratando de voc.
 Est bem  disse Srgio, num sorriso largo.
 Voc est com quarenta e cinco anos. Est bem conservado.
Srgio enrubesceu. Roberto continuou a olhar os exames.
 Voc no fez o exame de carga viral?
 No. Eu fiz o teste anti-hiv e depois repeti o exame. Alguns anos
atrs fui atendido por um mdico muito rude, que afirmou com
categoria que eu morreria no mximo em dois ou trs anos.
 Infelizmente, alguns mdicos ainda tm uma viso fatalista da



doena. Eu no tenho.
 Ainda bem.
 Sabe que a rede pblica de sade distribui gratuitamente o
AZT?
 Sim, todavia sei que ele sozinho no consegue controlar a fria
do vrus.
 Recentemente surgiram os primeiros inibidores de protease...
Srgio o interrompeu.
 O que  isso, doutor?
 Medicaes que dificultam a multiplicao do HIV no organismo.
Comeamos h pouco tempo a utilizar em nossos pacientes a
terapia anti-retroviral, quer dizer, a prescrio de medicaes para
combater o vrus com mais eficcia, procurando causar efeitos
colaterais menos danosos ao organismo.
 Ento estamos prximos da cura?
 Eu no diria cura, mas estamos perto de que a AIDS se torne
uma doena controlada e crnica, como a diabetes, por exemplo.
 Esses inibidores so anjos no organismo?  isso?
 Pode se pensar assim  Roberto sorriu.  Os inibidores de
protease so como uma pequena bomba que se lana sobre o
vrus, matando-o. Muitas pessoas que tinham certeza de que
estavam diante de seus ltimos anos de vida, de repente se deram
conta de que no vo morrer.
 Essa notcia no poderia ser melhor, doutor.
 A expectativa de vida de um soropositivo passou de dez para
vinte anos e estudos recentes apontam para trinta anos.
 Daqui a trinta anos estarei no bico do corvo. Estarei quase no
fim da vida.
Roberto riu.
 Para ver como a AIDS hoje no  uma doena mortal. 
perigosa e aconselho a todos os meus pacientes a fazerem sexo
seguro. De qualquer forma,  melhor evit-la. Mas, para aqueles
que se infectaram, vai uma boa notcia: d para se ter uma vida
normal.
Os olhos de Srgio brilharam emocionados.
 Eu vou viver doutor. Eu juro.
 Vai viver muito. De uma coisa tenho certeza.
 Qual?
 Voc no vai morrer de AIDS.



 Eu digo isso para mim todos os dias.
 Confie. E acrescente aos seus dizeres uma frase que uso h
anos.
 Qual ?
 Sou amado e protegido por Deus.
Srgio repetiu as palavras.
 Sou amado e protegido por Deus.

Leve

brisa

entrou

pela

janela

do

consultrio

balanando

graciosamente as persianas. Srgio sentiu agradvel sensao de
bem-estar.
 Se eu soubesse que voc era to bom, teria vindo antes. Passei
esses anos todos temeroso de ouvir outra declarao de morte.
 Chegou na hora certa. Acredito que nesse tempo teve chance
de rever sua vida, mudar crenas e posturas. Minha intuio diz
que hoje  um homem mais confiante, mais amadurecido. Afinal,
depois que enfrentou a AIDS, voc  capaz de enfrentar qualquer
coisa.
 Verdade, doutor. Eu me sinto to forte que sou capaz de
enfrentar qualquer coisa. At o preconceito. Hoje me aceito cem
por cento. Se Deus me fez homossexual,  porque ele quis que eu
aprendesse coisas boas dentro dessa condio.
 Concordo com voc.  Roberto pediu que ele se despisse,
ficasse de cuecas e deitasse numa maca. Srgio obedeceu.
Enquanto ele o auscultava, prosseguia:  O mundo tem de
agradecer por haver os gays. Afinal, se no existissem os
homossexuais, imagine como esse consultrio estaria decorado?
  verdade. Somos sensveis e muito bons em decorao.



Gostamos

de

coisas

bonitas,

objetos

de

arte,

bons

restaurantes... E, como no temos filhos podemos viajar o mundo
inteiro com nosso companheiro. Isso no  fantstico?
Srgio pigarreou.
 Voc se sente bem como gay?
 Sim.
 No tem medo de que os outros faam gracinhas pelas suas
costas?
 De maneira alguma. Eu me aceito do jeito que sou. Estou do
meu lado. Hoje, sinto-me mais forte para enfrentar o preconceito.
 Voc no aparenta ser gay. No tem trejeitos.
 Na intimidade eu sou mais solto. Quando jovenzinho era bem



delicado, porm conforme fui me aceitando e me entendendo como
homossexual, fiquei mais confiante e passei a no mais ligar para
minha postura. Concluso: tornei-me mais homem na aparncia
conforme fui me aceitando incondicionalmente. Quer dizer, quanto
mais bicha por dentro, mais homem por fora!
Srgio no cabia em si de tanta risada. As lgrimas rolavam de
puro contentamento. Fazia tempo que no ria assim e muito mais
tempo que no se sentia to bem na presena de algum.
 Eu mal o conheo, mas sinto que  um velho conhecido meu.
 Tive a mesma impresso no restaurante  rebateu Roberto.
 Voc namora?
 No.
 Por falta de opo, creio.
 Porque no senti atrao por ningum especial.
 Nunca namorou?
 Tive meus casos aqui e acol. Nada srio. E voc?
 Tive alguns relacionamentos. Meu ltimo companheiro morreu
em conseqncia da AIDS.
 Leila me contou. Afinal era o filho dela. Sinto muito.
 No tem de qu.
 Ela me disse que voc cuidou muito bem do Vicente.
 Sim. Mesmo no o amando, tive profundo sentimento de
fraternidade. Independentemente de qualquer coisa, ele era meu
amigo.
 J amou na vida?
 Nesta, ainda no.
Roberto passou as mos pelo ventre de Srgio.
 Sente dor aqui?
 No.
Ele terminou de fazer o check-up bsico.
 Aparentemente est muito bem. Creio que seu exame de carga
viral vai ser baixo.
 Preciso mesmo faz-lo?
 Sim. Esse exame mede a quantidade de HIV no seu sangue.
Por meio dele terei uma imagem de sua sade e saberei quais as
combinaes de medicamentos que voc ter de tomar.
 Isso me assusta.
 Por qu?
 Conheo gente que toma mais de dez comprimidos por dia. Uns



tm de serem tomados em jejum, outros depois de comer, tornando
a vida do paciente um inferno.
 Alguns casos so assim mesmo, no vou mentir. Mas voc
chegou ao meu consultrio em boa hora. Dependendo da
quantidade de vrus no seu sangue, poderemos iniciar o tratamento
somente com dois comprimidos de manh e dois  noite, fazendo
ou no jejum.
 Fala srio?
 Porque mentiria ao meu paciente? E se quiser, poder pegar
seu medicamento na rede pblica. Nosso pas  um dos pioneiros
na distribuio gratuita de medicamentos para o tratamento do HIV.
 Quem diria que o Brasil tornar-se-ia referncia em nvel mundial
para o tratamento da doena? Tenho orgulho do meu pas.
 Eu tambm. Pode se vestir.
Roberto fez a guia para o exame de carga viral e o entregou a
Srgio.
 Meu plano de sade no cobre esse exame.
 Pode fazer atravs do Centro de Referncia e Treinamento
(CRT) DST/AIDS da Secretaria de Estado da Sade do Estado de
So Paulo.
 Deve ser uma burocracia e tanto.
 Engana-se de novo.  tudo muito bem feito. Coisa de primeiro
mundo.  Roberto fez uma cartinha redigida de prprio punho. 
Entregue esta carta na recepo. Segue o endereo. Os mdicos
de l so meus conhecidos.
 Eu posso pagar pela consulta. Gostaria de ser atendido aqui
neste consultrio. Todavia, no tenho como pagar os exames caros
e os possveis remdios que terei de tomar.
 Eu arrumarei uma maneira de voc fazer os exames de sangue
e pegar seu coquetel pela rede pblica de sade.  um direito de
todo soropositivo brasileiro, no importando a cor, sexo, raa,
condio social ou orientao sexual.
 Eu no tenho palavras para lhe agradecer, doutor.
 Este  meu trabalho.
Quando os exames ficaram prontos, Srgio teve uma grata
surpresa. Roberto colocou os exames sobre a mesa.
 Antes de falar do resultado, queria lhe explicar algo muito
importante.
 Pode dizer doutor.



 O vrus HIV destri as clulas T, as quais combatem infeces.
Se tiver uma carga viral alta, indica que tem muito HIV no seu
sangue. Se tiver uma carga viral baixa, indica que tem pouco HIV
no seu sangue. Se tiver uma carga viral indetectvel  que  o
desejo de todo mdico e mais ainda de todo paciente  indica que
tem menos HIV do que o exame pode medir. Quando a sua carga
viral  baixa,  muito mais fcil manter-se saudvel. Mas lembre-se:
Mesmo que tenha uma carga viral indetectvel, ainda  portador do
vrus HIV.  importante proteger as outras pessoas. Use sempre
preservativos quando tiver relaes sexuais.
 Sem dvida, doutor.
 No seu caso tenho boas notcias.
 Antes delas, pode me dar uma informao?
 Por certo.
 Por que a contagem das clulas T  to importante para um
soropositivo?
 Porque as clulas T moram, digamos assim, no seu sangue.
Elas ajudam a combater infeces de todo tipo. Se tiver uma
contagem de clulas T alta, isso indica que possui vrias clulas,
um exrcito forte para combate de infeces presentes no seu
sangue. Se tiver uma contagem de clulas T baixa, isso indica que
tem poucas clulas, e, por conseguinte, seu exrcito no  to forte
para combater o inimigo no seu sangue. Isso dificulta a capacidade
do seu corpo combater infeces.
 Dessa forma, quando apresentamos uma carga viral alta, o HIV
 capaz de destruir as nossas clulas T mais depressa do que o
nosso corpo produz clulas novas, fazendo com que a contagem
de clulas T desa.
 Exatamente, Srgio. Se a contagem de clulas T descerem para
menos de quinhentos, poder adoecer com certa freqncia. 
importante manter a contagem de clulas T o mais alta possvel
para combater infeces. A medicao antiviral pode ajudar a
aumentar a contagem dessas clulas, porque evita que o vrus se
desenvolva. Pelo resultado de seu exame, poderemos adotar o uso
de biovir e nevirapina. Muitos pacientes tm respondido bem a
essa combinao de medicamentos.
 So os dois comprimidos que se toma de manh e de noite?
 Sim. Voc vai comear a tom-los amanh. Em catorze dias
alguns sintomas podem se desenvolver, como vermelhido pelo



corpo ou certo mal-estar, como febre ou enjo. Depois dessas duas
semanas, se estiver tudo certo, esperaremos por mais outras duas
semanas e repetiremos o teste de carga viral. Se ele estiver bem
mais baixo ou indetectvel,  sinal de que o coquetel est surtindo
efeito positivo.
 Deus o oua, doutor. Estou to confiante!
 H outras coisas que pode fazer para aumentar a contagem de
clulas T e manter-se saudvel.
 Alm da medicao?
 Hum, hum. Isso inclui: ingerir alimentos saudveis, descansar
tanto quanto possvel; evitar o tabaco, o lcool e as drogas; reduzir
todo tipo de estresse, e, por ltimo, mas no menos importante:
manter uma atitude positiva diante da vida.
Srgio sorriu triunfante e tirou um livro de sua pasta.
 Veja doutor, esse livro est mudando minha vida. Roberto pegou
o exemplar. Era A vida em perigo, de Louise Hay. Ele sorriu.
 Conheo esse livro. Indiquei para muitos pacientes. Louise Hay
tem feito um timo trabalho no s para pacientes de AIDS, mas
para todos os que enfrentam doenas consideradas "terminais".
 Tornou-se uma bblia para mim. Graas a ele e aos meus
amigos eu tenho adquirido outra viso de vida. Mais positiva e mais
bonita. A AIDS me fez ver um mundo mais colorido.
 s vezes somos pegos de supeto por algo desagradvel.
Acreditamos que a vida est nos punindo, quando na verdade est
nos alertando para que mudemos nossa maneira de ser, para
vivermos em harmonia e bem-estar.
A conversa fluiu agradvel e Srgio inesperadamente convidou
Roberto para jantar.
 Aceito.
Depois desse jantar veio outro, mais outro. A amizade entre eles
extrapolou a relao mdico-paciente. Roberto convidou Srgio
para ser voluntrio na instituio. Afinal de contas Srgio tinha o
vrus e sabia o que era lidar com a AIDS.
 Estou para me aposentar e no sabia o que fazer da minha vida.
 Pensou que fosse se dedicar a bingos e tric?  perguntou
Roberto, em tom de deboche.
 Eu no ficaria bem fazendo tric.
 Por que no? Homem no faz tric?  uma terapia excelente.
 No. Porque no tenho coordenao motora, mesmo. Os dois



caram na gargalhada. Saam bastante. Srgio adorou reaproximar-
se de Leila e Nelson. Empolgou-se com a instituio, emocionou-se
com as crianas que ali chegavam. Em pouco tempo, estava
envolvido de corpo e alma no trabalho com crianas soropositivas.
Quando uma delas conseguiu reverter  presena do vrus no
corpo, a emoo foi geral.
 Tudo  possvel  disse Roberto.
 Tem razo  concordou Srgio.
Os jantares foram aumentando, as idas ao cinema tambm. De
repente, em poucos meses, os dois perceberam-se apaixonados.
Roberto tomou a iniciativa.
 Quer me namorar?
 Adoraria. Mas tenho medo de infect-lo.
 Eu sou mdico. Sei com o que estou lidando. No se pega AIDS
to fcil assim. E, de mais a mais, seus exames tm apresentado
carga viral indetectvel.
 Mesmo assim ainda tenho o vrus.
 As chances de voc me contaminar so mnimas. Eu tenho uma
boa cabea para viver e namorar um portador de HIV.
 Mas eu...
Roberto o silenciou pousando os dedos delicadamente em seus
lbios.
 Eu o amo. Do jeito que voc . S quero saber se quer me
namorar ou no. Pode me dar uma resposta objetiva?
 Sim. Eu quero. Desde o primeiro dia em que eu o vi, sempre o
desejei.
Roberto aproximou-se e o beijou demoradamente nos lbios.
 Vamos tentar. Algo me diz que seremos muito felizes juntos.
 Tambm acho.

Eplogo

A notcia de oficializao do namoro de Roberto e Srgio foi dada
num almoo realizado por Leila. Assim que chegaram para o
evento, Bonnie e Clyde, dois Cocker lindos, filhos de Rex que
morrera anos antes, atiraram-se sobre Srgio. Leila lembrou-se do
dia em que Rex atirou-se sobre Roberto. Falou para Srgio:
 Eles gostaram de voc. Sinal de que  uma boa pessoa...
Roberto e Srgio estavam se dando muito bem e decidiram



comunicar  famlia que iriam juntar seus trapinhos em breve. A
famlia de Srgio no quis participar.
 Problema deles. No sabem o que perdem. Se fosse anos atrs
eu estaria chorando, porque minha famlia no estava me dando
apoio. Hoje eu me dou apoio e percebo que se eles no me
aceitam no podem viver comigo. Eu s quero conviver com
pessoas que me aceitem e me respeitem e, acima de tudo, que me
amem pelo que sou.
 Bravo! Assim  que se fala.
A tarde estava tima, com temperatura bem agradvel. Srgio e
Roberto decidiram dar uma volta no parque ali perto de casa.
Roberto espremeu os olhos. No podia acreditar no que via. Srgio
preocupou-se.
 O que foi?
 Aquele homem ali no parquinho brincando com uma criana...
 O que tem?
Roberto foi caminhando e estugou o passo. Chegou prximo e
falou, emocionado:
 Davi!
O homem voltou s costas e, ao ver Roberto, seus olhos brilharam.
Depois de muitos anos eles se reencontravam. O abrao foi meio
desajeitado, visto que Davi carregava linda criana nos braos,
com pouco mais de dois anos de vida.
 Meu Deus, como voc est bem!  exclamou Davi.
 Digo o mesmo. Quanto tempo. E esse guri?
 Meu filho.
 Jura?
Davi assentiu com a cabea. Roberto pegou a criana nos braos e
apresentou Srgio.
 Este  meu namorado.  E, voltando-se para Srgio, disse: 
Esse  o Davi, um amigo de muitos anos atrs.
Eles se cumprimentaram. A criana simpatizou com Roberto e
comeou a puxar seu cabelo.
 Beto gostou de voc  tornou Davi.
 O que disse?
 Beto. Meu filho se chama Roberto. Homenagem a voc!
Roberto abraou e beijou delicadamente a criana. Uma lgrima
escorreu pelo canto de seu olho.
 Que honra. Obrigado.



 Espero que meu filho cresa e tenha um corao to bom
quanto o seu.  Davi piscou para Srgio e falou:  Esse rapaz 
um tesouro, uma jia rara. No desgrude dele.
Srgio declarou:
 Por nada deste mundo!
Riram os trs. Davi tornou mais srio.
 Eu perdi o interesse por homens. Num vo, conheci Marisa. Ela
era comissria de bordo. Flertamos, trocamos telefone e deu nessa
coisa linda  apontou para o filho.
Srgio interveio:
 Voc  casado com Marisa Argollo?
 Sim. Voc a conhece?
 Pois claro! Ela muito me ajudou anos atrs quando meu ex-
companheiro ficou doente.
 Vicente. Eu sei do caso. Marisa tem muito carinho por ele,
embora tenha sido uma fase triste de sua vida. Ela no gosta muito
de falar no passado.
 Como ela est?
 Est bem. Saiu da companhia area. Montamos um caf no
bairro que moramos. Estamos juntos e felizes. Encontrei o amor de
minha vida.
Os trs entabularam conversao por mais algum tempo. Depois, o
pequeno Beto comeou a resmungar que estava com fome. Davi
deixou seu telefone para marcarem um jantar e despediram-se.
 O mundo  pequeno.
 E como, Roberto. No fim das contas, todo mundo conhece
algum que conhece a gente.
 Davi falava sobre ter um filho. Realizou seu desejo. E, por falar
em desejo  Roberto deu uma piscadinha para Srgio:  voc
gosta tanto daqui deste bairro! Por que no vende ou aluga seu
apartamento e vem morar comigo?
 Ainda  cedo.
 Cedo para qu?
 No sei.  um passo muito importante.
 Gostamos um do outro. Ns nos amamos. Temos afinidades, a
cama  boa  eles riram  o que mais falta?
 Est bastante animado.
 Depois de ver Davi feliz com o filho nos braos... Percebo que a
vida precisa ser vivida em toda sua intensidade no hoje, no agora,



no presente. Somos adultos, maduros, no somos mais crianas.
Por que no viver juntos? Dormir toda noite abraadinhos?
Srgio meneou a cabea para os lados e riu.
 Safadinho!
Roberto tirou uma carta do bolso.
 Parece que vejo sinais da vida por todos os lados mostrando-me
que devemos "casar".
 Por que diz isso?
 Acabamos de encontrar Davi, e ontem recebi esta carta de um
ex-namorado.
Srgio levantou o sobrolho.
 O que ele quer? Que volte? Pode esquecer. Agora voc  meu!
Roberto sorriu.
 Jean foi um namoradinho da poca em que morei em Paris.
Depois cada um seguiu seu rumo e ele me mandou esta carta.
Est apaixonado e vive feliz com seu companheiro italiano, Paolo.
Da veio  pergunta: por que a gente no imita o Jean? E por que
no fazemos como Davi e Marisa? As pessoas que se amam
preferem viver juntas.
 Nem todas. Conheo casais que vivem juntos h anos e moram
em casas separadas.
 Porque no respeitam a individualidade alheia. Prometo que vou
deixar voc ter seu espao. No vou ficar grudado no seu p o dia
todo. Vamos, considere essa maravilhosa possibilidade. Faamos
assim: eu alugo o meu apartamento, voc aluga o seu e vamos
para um terceiro, nosso  Roberto enfatizou.  Se no der certo a
vida sob o mesmo teto, voltamos para nossas prprias casas. Tudo
muito prtico. Mas que no custa tentar, ah, no custa...
 Est bem, voc venceu.
 Srio?!
 Voc foi convincente. Quando comeamos a procurar casa?
Roberto o abraou com carinho e o beijou no rosto.
 Eu o amo Srgio. Muito.
Outro almoo foi realizado na casa de Leila e Nelson. Dessa vez
para anunciarem a vida a dois sob o mesmo teto. Leila fez questo
de oferecer o almoo. Para no haver brigas, Dalva e Maria
juntaram seus dotes culinrios e preparam deliciosa refeio, que
deveria constar bife  milanesa e batatas fritas.
Helena estava muito feliz com esse namoro. Percebia o quanto seu



filho estava verdadeiramente apaixonado por Srgio e, alm do
mais, ambos faziam um belo casal. Ela entregou-se de corpo e
alma ao trabalho na instituio e, de vez em quando, viajava com
amigas em divertidas excurses.

***

Eliana estava numa eterna lua-de-mel com Nicolas. Depois que se
acertaram, ela largou o emprego e foi viver sua histria de amor.
Rafaela fez o possvel para que a me aceitasse que ela era uma
mocinha e podia viver muito bem ao lado da av e do tio. E, por
outro lado, ela tinha Ricardo, Anne e o primo Adriano, que nutria
por Rafaela sincera afeio. Eliana seguiu viagem com seu amado,
tiveram mais duas filhas, Isabela e Chloe, e seguiram suas vidas
felizes para sempre.

***

Depois de se separar de Carlos, Alaor atirou-se a uma vida de
prazeres. Vivia de noitadas, regadas  bebida e sexo, muito sexo.
Depois de alguns anos, seu corpo comeou a dar sinais desses
excessos e ele no se tornou um tipo assim to atraente, o que
para muitos gays, principalmente os que carecem de amor-prprio,
 considerado o fim da linha. Alaor escolheu o caminho do sexo
pago. Contratava garotos por meio de anncios no jornal.
Numa dessas visitas de sexo pago em sua casa, ele sofreu o que
hoje se conhece como boa-noite Cinderela. O garoto de programa
colocou um pozinho na bebida do cliente. Alaor perdeu os sentidos,
foi amarrado e surrado e sua casa ficou de cabea para baixo. O
garoto de programa, na companhia de outros dois, levou todo tipo
de aparelhos, eletrodomsticos, discos, dinheiro, cartes de crdito
e tales de cheque.
A histria rendeu dias de matrias nos jornais, porquanto Alaor era
funcionrio conceituado de um banco estrangeiro. Ele foi demitido
e depois desse susto mudou seu estilo de vida. Decidiu ir para o
interior do Estado e com o dinheiro da resciso abriu uma
papelaria.
Alaor conheceu Janete, uma mulher da mesma idade que ele,
divorciada e sem filhos e que controlava o dinheiro e a vida do



marido. Casaram-se e Alaor nunca mais se relacionou com
homens. Sua fase gay havia definitivamente terminado. Janete
apaixonou-se por um rapaz mais novo. Tirou todo o dinheiro do
marido e fugiu com o moo. Alaor ainda tenta se refazer do
desfalque. Vive de favores e da caridade alheia.

***

Carlos e Dnis, ainda apaixonados e felizes, organizaram a festa
de despedida de solteiro de Roberto e Srgio. Reuniram os
familiares e amigos. Ricardo havia comprado uma bela casa no
Jardim Europa e decidiram fazer a festa ali, ao lado da piscina, com
direito a muita comida, brincadeiras e at uma orquestra para
animar a festa.

***

Otvio, depois de morto, levou muitos anos para se recuperar do
alcoolismo e precisou de muito tempo para lidar com suas
emoes primitivas. Assim que seu rgo perispiritual referente ao
fgado foi reconstitudo, ele escolheu trabalhar com Venceslau e
Otaclio na parte astral da instituio fundada por Leila. Tempos
depois, Vicente juntou-se ao grupo. Ele melhorou muito o teor de
seus pensamentos e a AIDS tornara-se parte de seu passado.
Vicente emocionou-se tremendamente quando Leila inaugurou
uma nova ala da instituio que levava o nome dele.

***

Roberto e Srgio alugaram seus apartamentos e com o dinheiro
dos aluguis mudaram-se para um terceiro, bem maior. A
experincia a dois tornou-se algo agradvel para ambos e tempos
depois decidiram comprar uma casa, num elegante condomnio
prximo da capital. Pelo que consta, vivem juntos, felizes e sob o
mesmo teto at os dias de hoje.
Srgio continua com o mesmo esquema de coquetel anti-retroviral,
tomando a mesma medicao  dois comprimidos de manh e
dois  noite  e tem uma sade de ferro. O seu exame de carga
viral  que detecta a quantidade de vrus HIV no sangue  tem



apresentado resultado "indetectvel" h alguns anos. Ele trabalha
na instituio fundada por Leila durante a semana, dorme a sua
mdia de oito horas dirias de sono, pratica exerccios,  adepto de
uma alimentao saudvel, continua a ter uma vida sexual plena e
prazerosa  obviamente tomando os cuidados necessrios  e, o
melhor de tudo: ama e  amado por seu companheiro.

***

Roberto tentava ajeitar a gravata do companheiro.
 Por que esse smoking? Por que a gravata borboleta? No podia
colocar um terno simples?
 Est maluco? Somos padrinhos de Rafaela. Ela quer que seus
tios estejam lindos no altar  falou Roberto enquanto terminava de
dar o lao.
 Voc no sabe como fico emocionado e feliz de ter sido acolhido
pela sua famlia. Nunca me senti to amado em toda vida.
 Voc merece gostoso!  disse Roberto dando um tapinha no
ombro de Srgio.  Pronto, voc est um charme. Olhe-se no
espelho.
Srgio correu at o espelho e assentiu com a cabea.
 , se perder o emprego, pode se transformar em ajustador de
gravatas  nvel borboleta.
Riram, abraaram-se, beijaram-se e saram para o casamento de
Rafaela.
A sobrinha de Roberto transformara-se numa linda mulher. Muito
parecida com Eliana, seus olhos eram verdes e expressivos, os
lbios rosados e os cabelos caam-lhe pelos ombros. Ela perdera
completamente o contato com o pai e convidou Nicolas para entrar
ao seu lado na igreja. Eles se tratavam como pai e filha. Ela
conhecera Juliano, um lindo rapaz de boa famlia e da mesma
idade que ela, na poca em que faziam residncia mdica.
Apaixonaram-se e decidiram se casar.
A msica comeou, os convidados se levantaram. Isabela e Chloe,
filhas de Eliana e Nicolas, iam  frente esparramando rosas
brancas pelo caminho. Logo atrs, vinha Adriano, com as alianas.
Em seguida, a noiva e o padrasto. Eliana, Anne e Helena no
conseguiam segurar as lgrimas.
Foi uma linda cerimnia. Alguns convidados estranharam um casal



composto por dois homens no lado da noiva, mas a maioria
conhecia Srgio e Roberto, sabiam que eram gays e vivam sob o
mesmo teto, e achavam natural que eles estivessem lado a lado no
altar.
No finalzinho da cerimnia, os espritos de Gina e Cludio
apareceram e de suas mos saram floquinhos coloridos que
jorraram sobre os noivos, iluminando suas auras.
 Veja como Srgio est bonito.
 Tem muitas saudades dele, no meu amor? Cludio deixou uma
lgrima escapar pelo canto do olho.
 Muita saudade.
 V l e lhe d um abrao.
 Tenho medo de que ele se emocione por demais. Eu sempre me
emociono quando me aproximo dele.
 Qual nada! Srgio vai adorar sentir voc por perto. Hoje  dia de
festa.
Cludio beijou Gina nos lbios e aproximou-se de Srgio.
Sussurrou em seus ouvidos:
 Sempre soube que voc nunca morreria em conseqncia da
AIDS. Continue mantendo pensamentos positivos sobre si mesmo
e sobre a vida que o cerca. Eu o amo, meu amigo.
Cludio pousou um beijo na bochecha de Srgio. Em seguida, ele
e Gina deram-se as mos e seus espritos sumiram, deixando no
ambiente energia positiva.
Srgio instintivamente passou a mo na bochecha. Lembrou-se de
Cludio e sorriu feliz. Ele percebeu a presena do esprito amigo,
embora no soubesse distinguir o que sentia. Um cheiro forte de
perfume Lacoste o envolveu.
Roberto fungou prximo de seu pescoo e perguntou:
 Que cheiro  esse?
 De qu?
 Perfume. Dos antigos.
 Nada, no. Acho que so as flores no altar...  respondeu, num
sorriso maroto.
Srgio no teve dvidas de que Cludio estivera ali.
 Meu amigo, onde quer que esteja, saiba que eu o amo e estou
bem. Muito bem!  disse em pensamento.
Naquele instante, Srgio sentiu um amor to grande por si mesmo
que imediatamente tomou conscincia de ser to perfeito como o



Pai que est no cu. Ele teve a ntida certeza de que tudo, mas
absolutamente tudo na vida, tem jeito.
